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Mapa de H. A. Shelley. Cambridge University Press, 1982.

As transformações na arquitectura dos templos, os novos campos de jogo de bola e as plataformas para exibir crânios indicam a existência de um culto religioso e bélico de clara influência centro-mexicana que removeu e substituiu as práticas religiosas anteriores. Os objectos de cerâmica do Pós-Clássico nas terras altas também demonstram essa transformação religiosa. Todas as cerâmicas do período Pós-Clássico das terras altas são, no entanto, de origem local ou regional. No período Pós-Clássico Inicial, com a cerâmica cor de chumbo chegou um novo produto que procedia da região costeira do sudoeste da actual Guatemala, habitada pelos pipil, um enclave de ascendência e língua nahua. As influências estilísticas do México central podem ser observadas em vasilhas isoladas, elaboradas com arzila fina de cor laranja, ou em cerâmicas de estilo mixteca-puebla.

O povo maia do período Pós-Clássico trabalhou o ouro e o cobre, mas também metais como a prata, o zinco e o estanho. Os maias elaboraram jóias com cobre e ouro, como colares, aros, orelheiras, diademas e varetas para adornar os lábios. Com o metal também se criaram figuras, machados, agulhas e arame. Outra novidade no âmbito dos objectos de culto foi umas campânulas feitas de bronze, que serviam de adorno aos dançantes e que provavelmente também se colocavam nos ídolos. O Pós-Clássico foi uma época marcada pelos conflitos bélicos. Numerosas representações de guerreiros e divindades da guerra, tanto na arte como nos crânios de inimigos sacrificados que eram expostos sobre estruturas de madeira, ilustram a grande relevância que tinham as confrontações violentas. Algumas novas armas de procedência centro-mexicana dão conta de eficientes técnicas militares, como o arco e a flecha ou os coletes revestidos de algodão, permitindo uma maior capacidade de protecção em combate.

Os irmãos gémeos do Popol Vuh. Ilustração de Luis Garay. Edição Artes de México, 1999.

No princípio do período Pós-Clássico Tardio o povo k’iche’ destacou-se entre os demais grupos maias das terras altas; mediante uma política expansionista agressiva, submetendo primeiro as populações vizinhas e posteriormente quase toda a totalidade das terras altas. No Popol Vuh, uma fonte escrita da época colonial que narra em língua k’iche’ a criação do mundo, o nascimento dos povos maias e a história dos k’iche’ explicam-se mitologicamente os inícios do domínio desse povo e a aparição na sua cultura de elementos próprios do México central. Como muitas outras elites soberanas da Mesoamérica, a nobreza k’iche’ legitima a sua soberania na origem dos seus antepassados em Tula. No entanto, não é claro se a origem dos antepassados dos k’iche’ tem a sua proveniencia no México central. O Popol Vuh relata novos costumes e crenças religiosas que traziam consigo estes antepassados emigrantes e que foram impostos mediante a guerra e a conquista da população assente nas terras altas. A obra continua, relatando que contraíram matrimónio com as mulheres da zona e assim se converteram nos pais fundadores das etnias k’iche’, kaqchikel, rabinal e tz’utujil

O sistema de organização sociopolítica e religiosa, durante o período Pós-Clássico, ajuda a compreender a evolução das guerras que levaram os k’iche’ à supremacia das terras altas e como a perderam. A unidade política menor era o chinamit, um território com habitantes que estavam subordinados à mesma casa real e que se definiam como comunidade. Mantinham relações fictícias de parentesco com a casa soberana, trazendo o seu nome. No chinamit – ou “lugar balizado” em língua nahua – a sociedade dividia-se em dois estratos: os ajaw ou nobres e príncipes e os al k’ajol ou guerreiros comuns e vassalos. A nobreza formava a dinastia autêntica, que se constituía por linha paterna. Os seus membros exerciam os cargos políticos e religiosos, actuando como chefes militares. Em Q’umarkaj, os membros das casas grandes dos nimak’iche’ possuíam os cargos políticos mais importantes. Os príncipes viviam num lugar fortificado – ou tinamit – recebendo os tributos dos seus vassalos. A principio, o estrato social guerreiro correspondia unicamente aos nobres; porém, com o decorrer dos anos e devido à necessidade também se outorgou esta condição aos vassalos. Além dos estratos sociais mencionados, as fontes documentais informam de outros grupos: escravos ou munib’, servos camponeses ou nima’q achi, comerciantes ou ajb’eyom e artesãos ou ajtoltekat.

O centro de Cahyup, Baixa Verapaz, Guatemala. Desenho de Tatiana Proskouriakoff, 1946.

Enquanto as camadas sociais dentro do chinamit não se podem identificar com segurança, os lugares fortificados explicam as relações entre as distintas casas reais. A sua designação como nimja ou casa grande deve-se aos grandes edifícios administrativos que se podem identificar como parte elementar dos típicos grupos de pátios k’iche’. Supõe-se que um destes complexos, composto por templo, palácio e nave principal, utilizado como edifício administrativo, era a sede de uma casa real. Segundo isto, as povoações como Ixmachi ou Q’umarkaj deviam ser sede de várias casas grandes que estavam vinculadas por alianças matrimoniais e formavam uma unidade política superior ao chinamit.

As casas reais aliadas em ligas chinamit não conformavam apenas uma zona de poder unitário, como se conluiavam num amaq’, termo que por vezes se traduz por “tribo” ou “povo”. Cada um dos grupos confederados formava um amaq’, chamando-se winaq k’iche’ ou gente k’iche’. Parece que no período Pós-Clássico as fronteiras étnicas e linguísticas não coincidiam com as unidades políticas. As pessoas identificavam-se sobretudo no plano do amaq’ e não na língua comum. Por isso, a paisagem política da época apresentava uma imagem bastante parcelada.

Jarra em forma de pássaro, Guatemala 900-1150 d.C. Cântaro de Mixco Viejo, Guatemala 1300-1500 d.C. Könemann, 2006.

O sistema social descrito explica tanto a criação como o desmoronamento da soberania k’iche’. Com o chinamit como unidade política menor, cuja casa real podia formar alianças políticas flexíveis com outras chinamit, no sentido de exercer o controlo militar e territorial. As terras altas do Pós-Clássico mostram uma organização social que facilitou aos nimak’iche’ estender continuamente o seu poder político por essa região. Os matrimónios entre as famílias dos príncipes k’iche’ e as casas amaq’ conquistadas ou aliadas, assim como a delegação de representantes das casas reais k’iche’ em territórios submetidos, criaram um sistema de soberania hegemónica que, apesar das revoltas e divisões nos finais do século XV, manteve-se integra na grande parte das terras altas durante o período colonial.

Entretanto, o avanço do soberano K’iq’ab até à fronteira de Soconusco colocou em contacto os k’iche’ com a área de domínio dos acolhua-mexica. No período Pós-Clássico os mexica governavam a localidade mencionada e utilizavam-na como centro de comércio com as regiões setentrionais da Mesoamérica. Deste modo, os elementos culturais do México central estenderam-se até ao Sul da Mesoamérica. As circunstâncias políticas instáveis e a débil posição dos k’iche’ conduziram a que no ano de 1510 Q’umarkaj também se vira exortada a satisfazer tributos para o México central. A superioridade de Tenochtitlan e a presença de comerciantes mexica, quem sabe também de diplomatas, em Q’umarkaj acabou com as guerras permanentes nas terras altas maias até à invasão espanhola, alguns anos depois.

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Out of the Maya Tombs, by David Lebrun, enters the world of Maya painted vases to explore the royal life and rich mythology of the Maya, as well as the tangled issues involved in the collection and study of looted art. The story is told by villagers, looters, archaeologists, art historians, dealers and curators. For each, these vases have a radically different value and meaning.

We know this release has been a long time coming, but we think you’ll find its been worth the wait. This is a 2-DVD set. The first DVD contains the full 96 minute feature version of the film; this is the version that has been screened at festivals, museums and universities throughout the US and Europe, and which has been the winner of numerous international awards. The second disk contains a 54-minute abridgement of the film, which some may find more practical for classroom use, as well as 9 short films exploring different aspects of the film’s themes in more depth.

This is an educational release. A home use edition, containing only the 96-minute feature, will come at a later date. For more information: http://www.der.org/films/out-of-the-maya-tombs.html

From Aztlan daily digest (FAMSI)

 

 

 

AMÉRICA CENTRAL

Mapa de Carlos Punta. Edições Corregidor, Argentina.

Parece não existir um consenso, por parte dos especialistas, sobre o carácter das primeiras sociedades agrárias nestas zonas continentais. Há quem opine que foram sociedades baseadas no parentesco e na identidade étnica, com propriedade comunal sobre os meios de produção. Outros pensam que foram sociedades desiguais agrupadas em federações ou aldeias. Porém, o que parece claro é que algumas delas evoluíram para formas de poder baseado nos caciques, que utilizaram simultaneamente os ecossistemas da montanha tropical e da costa. Terão estabelecido relações mais ou menos violentas de dominação sobre outros grupos próximos que se encontravam num estado simples de evolução, tendo estado permanentemente em guerra com outros territórios caciques similares. Porem, ao mesmo tempo, mantiveram fluidas relações de intercâmbio. Portanto, toda a zona continental costeira, desde a Nicarágua até ao Este da Venezuela, foi uma complexa franja de interacção material, ainda que não de uma maneira homogénea. Na costa nicaraguense, por exemplo, a agricultura de conucos teve bastante êxito. Na Costa Rica, os güetar, controlavam boa parte da montanha e da costa. No Panamá, Comagre, Veragua e Darién foram áreas de importante desenvolvimento. Zenús e Taironas, na actual costa colombiana, alcançaram ao que parece uma maior identidade cultural e produtividade agrícola – com uma portentosa rede de canais e camalhões de cultivo – que outros grupos da América Central instalados em zonas de menor potencial ecológico; onde boa parte da produção agrária se obtinha com bastões para cavar.

Cerâmica coclé, Panamá. Arte pré-colombiana. Scala Group, Itália.

Será durante o período Clássico mesoamericano, entre 400 e 900 d.C. que se dará a transformação cultural dos diversos grupos da América Central, com a assimilação de povos amazónicos. Exemplo disso, é que não utilizaram materiais permanentes nas construções, o estabelecimento das comunidades foram temporais e, periodicamente, desativavam as suas residências. Tão pouco aplicaram o conceito de centro cerimonial. Em seu lugar, desenvolveram uma religião personalizada e um culto aos seus chefes que incluía a tatuagem e as pinturas corporais com os símbolos do líder. Este costume foi adoptado pelas etnias que emigraram da Mesoamérica, para a América Central, durante o Pós-Clássico. Não existiram, neste período, territórios alargados marcados por influências regionais. Observam-se certas zonas de difusão em Coclé, que se estendeu culturalmente sobre a península de Azuero e Plata del Venado. Como elementos estrangeiros, apareceu na zona Coclé uma cerâmica importante e pilares construídos que sugerem uma penetração nortenha no oriente da América Central.

Os chorotega construíram vivendas e templos de barro e palha. As suas pirâmides foram pequenos montículos de terra, sem templos no seu topo, tendo apenas uma peça lítica, para o ritual de sacrifícios na sua plataforma. O seu governo era presidido por um conselho de anciãos ao qual estava subordinado o Chefe de Guerra. À diferença de outros grupos que apenas praticavam a antropofagia como ritual, os chorotega deram um valor económico à carne humana, para o qual dispunham de “gado” humano obtido em caças organizadas de forma periódica.

Pendente chiriquí, Panamá. Arte pré-colombiana. Scala Group, Itália.

Parece que os nicarao haviam chegado à América do Sul, pois encontraram-se alguns elementos associados a este grupo em território venezuelano. Mais a Sul, nas terras que se estendem desde o Norte da Costa Rica até ao Panamá, existiu um mosaico de pequenos reinados, sem unidade política, com uma multiplicidade de idiomas, sendo conhecidos genericamente como tribos chibchas.

Na região atlântica, o Pós-Clássico Tardio caracterizou-se por ser um período de marcado ritual religioso, onde alguns símbolos sugerem influências meridionais. Na Costa Rica, levantaram em redor das áreas cerimoniais e cemitérios, montículos de paredes e recintos semi-enterrados com muralhas de pedra. Também construíram aquedutos e caminhos empedrados. Estes grupos dispunham de plantações de milho, cacau e tapires domesticados. Levantaram plataformas piramidais que serviam de bases templárias. Por sua vez, estavam presentes outras características especificamente meridionais como alguns objectos de culto, a utilização de redes para descanso e tecidos feitos de casca de árvore que sugerem contactos com grupos arawak. Dedicaram-se a um comércio intensivo e estavam sempre num estado beligerante. O seu governo foi um sistema de chefias com uma classe nobre poderosa e um xamanismo institucionalizado que tendia a transformar-se num principado despótico para a época da invasão ocidental. Nas artes prestaram maior atenção à ourivesaria e à cerâmica.

«Metate» zoomórfica da Costa Rica. Fonte: Internet

As regiões dos povos chiriquí e diquís, assim como a de Veraguas no Panamá, apresentam estreitas afinidades. Os sítios arqueológicos situados no Sul da Costa Rica, ao longo do Pacífico, apresentam montículos revestidos com pedra talhada e agrupadas em redor de praças. As sepulturas eram construídas de forma rectangular e, sobre elas, colocaram grandes lápides. Tiveram o costume Sul-americano do culto às cabeças-troféu. Também fabricaram uma cerâmica sensível e uma joalharia intensa, onde o ouro com que trabalharam os ourives deve ter sido importado.

O intercâmbio comercial deste período foi tão intenso como no anterior e muito do artesanato chegou até à cidade maia de Chichén Itzá por via comercial; além disso mantiveram vínculos comerciais com a península de Nicoya de onde obtinham o jade. Na Costa Rica realizou-se uma das mais originais talhas líticas da América antiga. Juntamente com a escultura modelaram-se excelentes cerâmicas escultóricas e pictóricas, além de uma  ourivesaria proeminente, pelo seu desenho e qualidade de manufactura, assim como uma abundante lapidaria, da qual se destacam as peças denominadas como «metates».

AS HIPER MULHERES

Com receio que a sua esposa já idosa venha a falecer, um velho pede que o seu sobrinho realize o Jamurikumalu, o maior ritual feminino do Alto Xingu (Mato Grosso), para que ela possa voltar a cantar uma última vez. As mulheres do grupo começam os ensaios enquanto a única cantora que de facto sabe todas as músicas se encontra gravemente doente.

Data de lançamento: 2011 
Realização: Takumã Kuikuro, Carlos Fausto, Leonardo Sette
Música composta por Kuikuro Culture
Edição: Leonardo Sette
Roteiro: Takumã Kuikuro, Carlos Fausto, Leonardo Sette
Produção: Carlos Fausto, Vincent Carelli

TEOTIHUACAN EXIHBITION

Inside of the  Quetzalpapálotl complex. Photo Ancient America (Tempo Ameríndio).

 

September 30, 2017 – February 11, 2018
De Young Museum, Golden Gate Park, San Francisco Exhibit

«Teotihuacan: City of Water, City of Fire» will explore how artworks from the ancient city shape our understanding of Teotihuacan as an urban environment. One of the earliest, largest, and most important cities in the ancient Americas, Teotihuacan is now a UNESCO World Heritage Site and the most visited archaeological site in Mexico. The exhibition, organized in collaboration with Mexico’s Instituto Nacional de Antropología e Historia (INAH), will feature recent, never-before-seen archaeological discoveries and other major loans from Mexican and US cultural institutions. Monumental and ritual objects from Teotihuacan’s three pyramids will be shown alongside mural paintings, ceramics, and stone sculptures from the city’s apartment compounds. By bringing these pieces together, and encouraging visitors to understand the context of specific sites within the city, the exhibition will provide a rare opportunity for Bay Area audiences to experience a significant place in Mexico’s cultural landscape—the captivating and mysterious ancient city of Teotihuacan.

https://deyoung.famsf.org/exhibitions/teotihuacan-city-water-city-fire

VALDIVIA

Fonte: Internet.

 

Valdivia foi uma cultura que se desenvolveu entre 3.500 e 1.500 a.C. na costa ocidental do Equador, encontrando-se principalmente na Península de Santa Elena e também no estuário de Guayas, nos rios Manabí e Oro. O desenvolvimento da cultura valdiviana e muitos dos seus elementos culturais, como a cerâmica, difundiram-se rapidamente para as áreas vizinhas. Sendo uma verdadeira cultura do período Formativo, não há duvidas de que os valdivianos seguiram as tradições arcaicas da caça, pesca e a recolecção de moluscos; porém não se encontrou até agora provas claras de que fosse uma cultura intensivamente agrícola.

Como todas as sociedades da época, a cultura valdiviana teria uma organização do tipo tribal. Regulavam a sua vida através da reciprocidade e os laços de parentesco, que asseguravam a sobrevivência do grupo. É possível que tivesse contado com chefes especialistas nas relações com a esfera sobrenatural. Actualmente conhecem-se 22 sítios num período de 1.000 anos. Em Real Alto, que tinha uma população estimada em 2.000 habitantes; as casas estavam distribuídas ao redor de uma praça aberta. Pelas suas dimensões, possivelmente albergavam vários grupos familiares, tendo uma forma oval de 12 m por 8 m e era delimitada por valas. Parece que a população usava pinturas corporais, colares, adornos labiais, orelheiras e alucinogénios. A presença de enterros debaixo do piso argiloso das cabanas residenciais é bastante característica de muitas sociedades agrícolas. De facto, os enterros servem como títulos de propriedade que indicam cuja linhagem é dona da propriedade. Talvez os valdivianos fizessem o mesmo. A presença de uma “matriarca” num enterro especial no montículo do ossário de Real Alto reflecte, possivelmente uma organização matricial para a cultura de Valdivia.

A economia de Valdivia era mista, baseada na agricultura e na obtenção directa de recursos naturais. As culturas principais eram o milho, feijões e abóboras. É possível que também plantassem malaguetas e amendoim, assim como algodão. Recolectavam frutos silvestres como papaias, pinhas, anonas e caçavam veados, pescavam e recolectavam mariscos.

Fonte: Internet.

A cultura valdiviana destaca-se por ser uma das primeiras sociedades ameríndias em que se massificou o uso da cerâmica. Confeccionavam principalmente panelas, tigelas, sempre de boca larga e base côncava. Para a decoração destas vasilhas empregaram várias técnicas, como o modelado, o inciso ou estampado, com o que realizavam motivos geométricos, sobre vasilhas geralmente polidas. Outro elemento destacável da olaria desta cultura, são as figurinhas, cuja maioria representam mulheres nas suas distintas fases da vida feminina; como a puberdade, a gravidez ou o parto. A importância que tinha o adorno pessoal para esta cultura, também se mostra em figurinhas com adornos labiais, colares e orelheiras. Estes elementos eram feitos principalmente de conchas marinhas como o molusco bivalve e o búzio que, posteriormente teriam grande importância para o ritual dos povos andinos.

Os almofarizes em forma de felinos, macacos ou papagaios serviam para pulverizar substâncias medicinais e alucinogéneos, sendo que a folha de coca com cal eram os elementos mais utilizados. Estes objectos figuram entre a parafernália dos antigos ritos de transformação religiosa facilitada pelo uso de plantas de poder. Estes almofarizes, caracterizados por ter um recipiente côncavo, foram utilizados também para moer alimentos, preparar pigmentos ou colorantes, folhas medicinais ou veneno, para as suas actividades de caça ou magia. À sua função, acrescentaram frequentemente elementos artísticos ornamentais.

Fonte: Internet.

As Vénus de Valdivia são figuras de barro ou pedra, famosas por realçar as formas femininas, usualmente despidas, e por usarem penteados de todos os tamanhos. O penteado nesta cultura, quanto mais elevado era, indicava que a mulher tinha uma hierarquia mais importante dentro do seu grupo. O barro para executar estas peças era extraído do solo e rapidamente se converteram numa referência posterior, já que foi uma temática muito repetida. Por este facto, vemos a diferença estética e técnica nas diversas culturas posteriores.

Todas as figuras de barro e pedra da cultura valdiviana têm as mesmas características. Olhos registados simplesmente com uma incisão e em forma de grão de café; linha grossa de sobrancelhas que faz a forma do nariz; braços junto ao corpo e pernas sem pés. Além do mais, têm formas arredondadas e todas elas têm marcado o sexo, sobretudo os peitos. Outra característica importante são os complicados penteados que todas elas envergam. Ainda que se tenha teorizado muito acerca da sua finalidade, questionando-se também o nome dado de Vénus; encontraram-se muitas destas peças em tumbas e enterradas nos campos. Crê-se que seriam uma espécie de talismã para fecundar a terra e para propiciar a fertilidade.

O enterro de defuntos realizava-se nos mesmos montículos das habitações, ainda que não seja claro se estas eram abandonadas depois. Por vezes, as crianças eram sepultadas em vasos de cerâmica. Encontraram-se enterros de todos os tipos, primários e secundários, individuais e colectivos. Os cães domésticos também eram sepultados, seguindo um padrão funerário parecido ao dos seus donos. A grande quantidade de figuras fragmentadas, encontradas nos sítios arqueológicos, faz pensar que estas eram elementos de uso ritual. Estes estavam possivelmente associados à fertilidade, apresentando algumas delas rostos inchados e pequenos recipientes para guardar a substancia que liberta o alcalóide.

OS MIXTECAS

Mapa da região Mixteca. Revista Arqueologia Mexicana, Editorial Raízes.

A área do povo mixteca corresponde à metade Oeste do estado de Oaxaca, com algumas comunidades desta etnia estendendo-se para os estados vizinhos de Puebla e Guerrero. Os centros urbanos principais dos mixtecas incluem a antiga capital de Tilantongo, assim como outras cidades como Achiutla, Huajuapan e Mitla, entre outras. O seu território está dividido por três áreas geográficas e culturais: A Mixteca Alta, nas zonas montanhosas que circundam o Oeste do vale de Oaxaca. A Mixteca Baixa, situando-se a Norte e Oeste da zona montanhosa. E finalmente a Mixteca Costeira, situando-se nas planícies do Sul e na costa do Oceano Pacífico. Na maior parte da história Mixteca a zona Alta foi a força politicamente dominante, com a capital, Tilantongo, localizada na zona central montanhosa. O vale de Oaxaca foi, durante o período Pós-Clássico, uma zona fronteiriça disputada entre os mixtecas e os zapotecas.

O termo Mixteca deriva da palavra Nahuatl Mixtecapan, ou “lugar do povo da nuvem”. Os mixtecas chamavam-se a si próprios ñuu savi ou ñuu djau, dependendo da variante local da sua linguagem. Na sua história dos Mixtecas, Kevin Terraciano usa o termo Ñudzahui, que traduz como “o povo do lugar da chuva”.

Maquete de estrutura arquitectónica Mixteca. Museu Nacional de Antropologia, México. Foto Tempoameríndio.

Já desde tempos Pré-Clássicos os antigos povoadores da região mixteca contavam-se entre os iniciadores da arquitectura lítica, como se pode ver nos primeiros edifícios de Montenegro, tendo sido desenvolvidos até ao final do período Clássico os novos centros que iriam afirmar a etnia mixteca que, apesar de conter elementos da arte zapoteca, desenvolveram características muito próprias, nomeadamente nos trabalhos de ourivesaria e na escrita pictográfica. Esta última irá difundir-se por quase toda a Mesoamérica durante o período Pós-Clássico. Alfonso Caso, ao interpretar os códices mixtecas, faz-nos remontar até à fundação da dinastia de Tilantongo por volta de 824 d.C., sendo esta a mais antiga resenha histórica que se conserva de fontes indígenas no México central e que descreve o seu desenvolvimento até depois da invasão espanhola. Intimamente misturados com os sucessos de carácter histórico, como ocorre sempre nas crónicas indígenas, aparecem figuras lendárias como o deus Quetzalcoatl e o mítico herói cultural mixteca Oito-Veado; este último aparecendo também esculpido numa lápide de Monte Albán.

Processo de fabrico de papel a partir da casca de figueira. Dorling Kindersley Ltd, Londres.

Estes códices eram realizados em folhas feitas de pele de veado ou a partir de papel feito de cascas de figueira, sendo que no final as folhas eram polidas com uma pedra e, finalmente, a superfície era coberta com cal branca onde posteriormente eram realizados os glifos desenhados. Estes códices são desdobrados em forma de biombo ou harmónio e a sua leitura é realizada da direita para a esquerda. De uma forma muito sucinta, poderíamos dizer que a linguagem pictográfica desenvolvida nestes livros utiliza uma sobreposição de símbolos fonéticos, topónimos e várias simbologias e numerações, nomeadamente calendarista. O seu dinamismo de leitura reside substancialmente numa relação de mnemónica visual, aliando de forma estreita e concisa o relato escrito e a tradição oral. Os códices mixtecas descrevem a sua história e as genealogias, sendo que o relato mais conhecido é do senhor Oito-Veado, chamado assim a partir do dia em que nasceu. O seu nome pessoal é Garra de Jaguar, cuja história épica é relatada em vários códices, incluindo o codex Bodley e o códice Zouche-Nuttal. Oito-Veado conseguiu com sucesso conquistar e unir a maior parte da região mixteca, tendo como capital a cidade de Tilantongo.

Pormenor do códice Zouche-Nuttall com a representação de Oito-Veado, a figura ao centro. Fonte: Internet.

Durante o período de Monte Albán IV, que abarca entre 1000 e 1300 anos d.C., os mixtecas alargaram o seu domínio em quase toda a região de Oaxaca, conforme se vai debilitando o impulso cultural zapoteca. Pensa-se que será nesta fase que intervêm na execução dos templos de Mitla, onde ainda se conservam restos de pinturas murais cuja proveniência é indiscutivelmente mixteca.

Os mixtecas acabaram por ocupar Monte Albán, esvaziando ocasionalmente algumas tumbas zapotecas, para colocar nelas os seus próprios defuntos. É assim que na tumba 7 de Monte Albán, descoberta em 1933 por Alfonso Caso, se recuperou um fabuloso tesouro constituído por jóias do mais puro fabrico mixteca: colares, anéis, pulseiras, pendentes e demais objectos finamente fundidos em ouro, pelo processo da cera perdida; copos, orelheiras de cristal de rocha, raspadores de osso lavrado, entre outros. Deste modo, uma cidade como Zaachila, que tinha sido a capital política dos zapotecas, ostenta nos seus sepulcros do último período, relevos mixtecas em estuque e oferendas de cerâmica mixteca-puebla. Apesar de na sua arquitectura, os mixtecas nunca terem conseguido superar a grandiosidade de Monte Albán e o refinamento de Mitla, haviam de converter-se nos mais geniais artificies que a Mesoamérica produziu. Foram eles que começaram a usar o branco resplandecente, a prata, o metal da Lua unido com o ouro, conseguindo desta maneira trabalhar melhor, podendo realizar obras mais detalhadas usando delgados e finos fios de ouro, os quais conseguiam na mesma fundição da peça.

Ourivesaria Mixteca. Office du Livre S. A. Suiça 1982.

Apenas aos governantes, sacerdotes e guerreiros era permitido utilizar objectos de ouro, porque este era considerado uma matéria sagrada. Estes objectos eram também comercializados para as elites estrangeiras.

Os ourives eram supervisionados pelos sacerdotes, sobretudo quando deviam representar os deuses: Toho Ita, o senhor das flores e do Verão. Koo Sal, a serpente emplumada. Iha Mahu, o Esfolado, deus da Primavera e dos ourives. Yaa Dzandaya, divindade do mundo inferior. Ñuhu Savi ou Dazahui, deus da chuva e do raio e Yaa Nikandii, o deus solar, implícito no próprio ouro. A todos eles se representava como homens, incluindo o sol, que também era invocado em forma de círculos lisos ou com raios solares repuxados. As divindades tinham também manifestações zoomorfas, como jaguares, águias, faisões, borboletas, cães, coiotes, tartarugas, rãs, serpentes, mochos e morcegos.

Conjuntamente com os popolocas de Puebla e outros povos, os mixtecas integraram no final do período Pós-Clássico, entre 1300 e 1521 d.C., um pujante complexo cultural conhecido pelo nome de mixteca-puebla. Este complexo, que cobre a zona de Oaxaca e os vales de Puebla e Tlaxcala, com ramificações em Veracruz, Morelos, Guerrero e no vale do México, estende a sua influência artística em todos os âmbitos da Mesoamérica, desde Sinaloa e Huaxteca a Norte, até ao Yucatão e Nicarágua no Sul; como podemos ver nas pinturas murais de Santa Rita no Belize e nas de Tulum, que têm o inconfundível selo do estilo gráfico dos códices mixtecas. Caberia aqui referir, em relação à arte pictórica destes manuscritos, mixtecas ou de outras culturas, como o códice Fejérvary-Mayer ou o Nuttal, que são de um grafismo conciso e extremamente expressivo, juntando um toque de precisão e preciosismo à linguagem simbólico-poetica que vimos nas pinturas murais da cidade Clássica de Teotihuacan. O códice Bórgia, obra de um tlacuilo ou escriba-pintor genial, mostra um sentido surpreendente na composição e na cor.

Prato decorado em estilo mixteca-puebla. Conaculta/Inah e Grupo Azabache, México.

Aparte dos grandes centros oleiros de Oaxaca, aquele com maior fama na época mexica foi sem dúvida Cholula, o grande santuário do vale de Puebla. A cerâmica cholulteca era tão apreciada nesse período, que constituía uma moeda particularmente estável dentro do sistema de comércio indígena – a par com os chalchihuites ou pequenas contas de jade, as penas preciosas ou das medidas de ouro em pó e o cacao – sendo que o próprio soberano Motehcuzoma apenas utilizava para o serviço da sua mesa dois desenhos especiais de “… barro de Cholula, um vermelho e outro negro”, segundo nos conta Bernal Diaz del Castillo, o soldado espanhol que integrou a invasão, adiantando que o imperador mexica não se servia duas vezes da mesma peça. O estilo pictórico desta cerâmica está ligado directamente aos desenhos dos códices. De uma execução perfeita, decorada com o gosto subtil mas vincado que se encontra nos códices, donde provem a denominação de cerâmica tipo códice. Atribuído a certos utensílios, esta cerâmica policroma finamente polida, com cores que ainda conservam a sua intensidade e brilho, caracteriza-se por incensários, com pega e suportes, elegantes cântaros, vasilhas tripoides com suportes zoomorfos, grandes pratos, copos com suporte anular e recipientes bi-cónicos de onde emergem caveiras ou cabeças de jaguares, águias e macacos.

Deste modo podemos apreciar como, se bem que a obra civilizadora tolteca tenha coberto todo o período Pós-Clássico, será mais ainda a arte mixteca-puebla aquela que haveria de exercer, até à chegada dos espanhóis, uma influência artística profunda em quase todas as regiões da vasta Mesoamérica. De facto, com esta arte começava a diluir-se as fronteiras estilísticas que delimitavam até então muitas zonas e, caberia mencionar, durante o chamado período histórico do Pós-Clássico, de uma preponderância da mistura de influências culturais tolteca-mixteca.