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Arte pré-colombiana. Scala Group. Itália, 2009.

A datação do desenho e da construção original, assim como a identidade dos construtores da efígie da serpente, são três questões ainda debatidas nas disciplinas da ciência social, incluindo a etnologia, a arqueologia e a antropologia. Adicionalmente, os índigenas americanos actuais têm um interesse particular por este sítio. Várias atribuições têm sido feitas, com preocupações académicas, filosóficas e questões de identidade dos Nativos Americanos, sobre os factores desconhecidos de quando foi desenhado, construído e por quem.

Este montículo encontra-se localizado num planalto da cratera do Montículo da Serpente, ao longo do rio Ohio Brush, no condado de Adams, no Ohio. Ao longo dos anos os estudiosos propuseram que a estrutura fôra construída pela cultura adena, a cultura hopewell ou a cultura de fort ancient. A datação de Rádio carbono, a partir de carvão descoberto dentro do montículo, em 1990, forneceu a indicação que esta foi eregida por volta de 1070 d.C. Dada esta ultima evidência, um pequeno grupo de investigadores atribui o montículo original à cultura de fort ancient. Algumas outras evidências contradizem esta ideia. Por exemplo, em 1880, investigadores da Universidade de Harvard desenterraram sepulturas na vizinhança que são datadas da cultura adena. Além de que o montículo não contem artefactos característicos da cultura de fort ancient.

Levantamento em desenho do Montículo da Serpente. Fonte: Internet.

Quanto ao seu propósito, o Montículo da Serpente é a mais comprida efígie do mundo, com 400 m de comprimento. Enquanto existem vários montículos sepulcrais ao redor dela, esta não contem nenhuns restos humanos. Portanto não foi construída com propósitos funerários.

Os cherokee relacionam a esta estrutura a lenda da Uktena, uma grande serpente com poderes e uma aparência sobrenatural. A existência desta lenda atesta a importância da figura esculpida. Vários investigadores têm especulado que, talvez, as antigas populações nativas tenham criado grandes santuários totémicos que foram construídos em plataformas feitas de terra e pedra. Tais efígies poderiam ter sido destruídas por guerras ou alterações entre culturas hereditárias, resultando que só a plataforma tenha sobrevivido.

Em 1987, Clark e Marjorie Hardman publicaram a sua descoberta, de que a área de cabeça oval da serpente estava alinhada com o por do sol no solstício de verão. Outros estudos apresentam alinhamentos lunares, dois solstícios e dois eventos dos equinócios, cada ano. Se o Montículo da Serpente foi desenhado para assinalar a ordem solar e lunar, seria importante como a consolidação do conhecimento astronómico, num único símbolo. Se a data de 1070 d.C. é correcta esta poderia, teoricamente, ter sido influenciada por dois eventos astronómicos: a luz da super nova que criou a Nébula do Caranguejo em 1054 e a aparência do Cometa Haley em 1066. O Montículo da Serpente também pode ter sido desenhado de acordo com o padrão das estrelas que compõem a constelação de Draco. Este padrão encaixa com bastante precisão na estrutura, com a antiga Estrela Polar, Draconis-alpha, como o seu centro geográfico dentro do primeiro, dos sete rolos da cabeça. O Montículo está localizado num planalto com uma estrutura única de criptoexplosão, contendo falhas rochosas dobradas, usualmente produzidas tanto por meteoritos como por explosões vulcânicas.

 

Encontram-se abertas as inscrições para o curso «Perspectivas Antropológicas Contemporâneas sobre os Índios no Brasil», que tem como tema principal o debate sobre o conhecimento e a vivência da terra sob perspectivas ameríndias. Serão abordadas questões como a revitalização das discussões sobre animismo na antropologia, o multinaturalismo, o papel da visão para o conhecimento, a posse da terra em sentidos múltiplos e o papel específico dos deslocamentos no espaço para uma compreensão integrada da cultura, da história e da política dos índios no Brasil. O curso integra também uma compreensão da forma como os índios no Brasil guiam, desviam e transformam a luta política pela defesa da terra, assim como abordará questões do conhecimento ameríndio pela visão e a filmagem e pela estética.

O curso é organizado pelo Instituto de Ciências Sociais com a colaboração do Museu Nacional de Etnologia de Lisboa e decorre entre 26 e junho e 12 de julho.

Programa detalhado neste link.

Integrado em Utopias – Arquipélago Verde, o Teatro Municipal Maria Matos, em Lisboa, regressa ao tema da ecologia com um intenso programa de debates, seminários e projecção de filmes, aproximando-nos da experiência dos povos indígenas da América do Sul. Com a contribuição de Eduardo Viveiros de Castro, José Bengoa, Ailton Krenak, Luisa Elvira Belaunde e outros antropólogos, líderes indígenas, linguistas e historiadores oriundos do Brasil, Chile, Equador, Peru, Portugal e Venezuela.

Da edição dos textos no formato de um pequeno caderno, fazemos a transcrição, parcial, de Em busca de uma Terra sem tantos males! da autoria de Ailton Krenak: «Nossa Terra, como a conhecemos hoje, já foi destruída várias vezes, em algumas destas, sem a nossa ajuda. É o que dizem dezenas ou até centenas de narrativas, histórias sagradas de nossos ancestrais. Olhando bem de perto, notamos que alguma pequena ajuda sempre foi dada por alguns de nossos antepassados. Contrariando uma lei ou norma de conduta que dava segurança ao frágil equilíbrio de nossa instável relação com todos os seres da criação que fazem a teia da Vida neste planeta que chamamos Terra. (…) O Povo Krenak que teve o seu território devastado pela fúria dos colonos e desbravadores das florestas deste vale que foi nomeado de Rio Doce, e citado como o Vale do Aço, numa franca declaração de desprezo pela presença deste caudaloso rio, cheio de vida e abundância que poderia suprir toda a necessidade de alimento para seus ribeirinhos. Mas o aço – ou vil metal – encontrado nas suas entranhas brilhou mais do que suas águas cristalinas aos olhos dos seus novos habitantes. (…) Lembrando a citação que abre este texto, em que uma das narrativas de um povo indígena assolado pela ganância dos fazendeiros de soja e da cana no Mato Grosso do Sul lembra a todos nós, que esta terra que vivemos é mesmo imperfeita e por isso segue também o seu curso, em busca de sua Terra Sem Males ou Yvi Marãey. Viva todos os rios da Terra, todos os viventes!»

Ailton Krenak é Professor Honoris causa, Universidade Federal de Juiz de Fora e Grãn Cruz da Ordem de Mérito Cultural do Brasil 2015. Publicou O Lugar onde a Terra descansa (2000) na editora ECO-Rio e Encontros – Ailton Krenak (2015) na editora Azougue.

Dia 26 de Maio, 2017, em Questões Indígenas, Debate e Pensamento, pelas 18.30h, Aparecida Vilaça apresentará A humanidade e a animalidade no universo indígena amazónico. Enquanto dia 27, pelas 17.00h, Felipe Milanez, José Bengoa e Raul Llasag Fernandez promovem uma conferência sobre o tema: Resistência Política Ameríndia.  A entrada é livre, sujeita à lotação da sala principal, mediante levantamento do bilhete no próprio dia, a partir das 15.00h.

OÁSIS AMÉRICA

O sudoeste dos Estados Unidos da América – Irradiação das culturas Mogollón, Anasazi e Hohokam.

Oásis América – Mapa Tempo Ameríndio.

Alguns arqueólogos sustêm que mogollón começa em 1.000 a.C., sobre a base cultural da Tradição do Deserto, originada pelos cochise que em 2.000 a.C. já cultivavam um tipo de milho primitivo. O certo é que a transição de uma sociedade arcaica para uma sociedade de agricultores sedentários, com cerâmica introduzida desde o sul, se completou ao redor de 300 d.C. A sua principal fonte alimentícia proveio da domesticação e cultivo de espécies como a yuca – ou mandioca, uma espécie de tubérculo – cactos, milho, girassol, ervas e nozes.

Observam-se quatro fases distintas, na evolução da cultura mogollón que a distingue da sua similar, a anasazi. Num primeiro momento, os seus assentamentos caracterizam-se por um grande número de casas-poço de dimensões pequenas. A partir de 1.000 d.C., começaram a construi-las sobre o nível do solo e, por influência anasazi, apareceram os complexos cerimoniais e, em alguns casos, residências de varões, conhecidas como “kivas“, estas últimas sobreviventes das casas-poço.

As várias culturas do Sudoeste. Mapa Tempo Ameríndio.

Criaram todo o tipo de ornamentos: braceletes de concha, pendentes de madeira, adornos tubulares de osso e ferramentas, como metates – ou pedras para moer grãos e sementes – almofarizes, armadilhas, arcos e flechas. Também fabricaram têxteis, cestos, elementos de madeira e cerâmica como espátulas, tabuinhas, flautas e colares de sementes. No vale do rio Mimbres, desenvolveu-se uma sub-tradição com a manufactura de excelente cerâmica. Nos povoados de Casas Grandes e Chihuahua, deram-se amplos assentamentos ao que se supõe terem chegado mercadores do planalto mexicano. Por volta de 1.100 d.C. começa a sua decadência, talvez pelas mesmas causas que se fizeram sentir em todo o sudoeste, entrando em colapso definitivamente em 1350 d.C.

Vasilha com insectos, cerâmica pintada. Cultura mogollon, Novo México. Arte pré-colombiana. Scala Group. Milão, 2009.

Os anasazi – A partir de 185 a.C., sobre a base cultural dos cesteros – povos da Tradição do Deserto, sem agricultura nem cerâmica – evoluíram os anasazi. O seu epicentro foi a região conhecida como “Os Quatro Cantos”, formada pelo Arizona, Utah, Colorado e o Novo México. No seu desenvolvimento estabeleceram-se oito fases ou períodos, dos quais os três primeiros pertencem à evolução dos cesteros – até 750 d.C. – e os seguintes às culturas conhecidas como pueblo.

As primeiras habitações que levantaram foram do tipo casa-poço, superficiais e de simples estrutura. A seguir construíram-nas fazendo a base mais profunda e com uma abertura no tecto que fazia as vezes da chaminé e entrada, simultaneamente. Dentro das habitações cavaram um buraco central, o sipapu, que simbolizava o lugar por onde a humanidade havia emergido desde o interior do mundo. Com o decorrer do tempo, esta modalidade deu origem às kivas cerimoniais. Posteriormente, deu-se a sua expansão e, durante essa época, já construíram os edifícios com pedras, sobre o nível do solo. Por volta de 700 d.C., em Mesa Verde e Cliff Palace, construíram habitações dentro de reentrâncias rochosas naturais, no rebordo de precipícios.

Uma kiva (câmara ritual) construida pelos anasazi no pueblo de Mesa Verde,  Colorado. Duncan Baird Publishers, 1996.

A sua expansão, que alcançou uma dimensão máxima em 1.100 d.C. mostra que os anasazi possuíam um grande conhecimento sobre os períodos solares de solstícios e equinócios, urbanização de grandes povoações feitas em alvenaria de pedra com vários pisos; canais para rega e manufactura de vasos cerâmicos. Um dos mais importantes urbanismos desde período é Pueblo Bonito que contou um número próximo às 800 habitações e 25 kivas, as construções circulares para o culto. Esta estrutura apresenta um urbanismo racional de desenho intimista, projectado com as suas habitações de tipo original. Crê-se que foi habitado como cidade e centro de culto para umas 1.200 pessoas. Como já referimos, as habitações redondas são kivas, lugares religiosos para reuniões e cultos iniciáticos por parte dos homens. Também se supõe que a kiva principal terá sido observatório astronómico. Pueblo Bonito e Chetro Ketl são dois dos lugares mais relevantes dos 125 assentamentos distribuídos ao longo da bacia do rio Saint John, no Canyon Chaco e que formaram parte de um verdadeiro sistema económico, entre 950 a 1200 d.C. Estas localidades foram providas de residências, armazéns, recintos cerimoniais, edifícios públicos e estavam ligados por mais de 400 km de uma rede de caminhos. Ainda não foi devidamente esclarecido se Canyon Chaco foi um centro de culto e comércio, com cidades independentes anexadas ao sistema, ou se as mesmas foram colónias estabelecidas, para dar saída ao aumento demográfico que sofreram.

Planta e perspectiva de Pueblo Bonito. Cultura anasazi, cerca de 1100 d.C. Edições Corregidor, 2005.

Por volta de 1200 d.C. produziu-se uma alteração climática; por toda a região registou-se uma quebra nas escassas precipitações. Este fenómeno que criou uma ruptura no ecossistema frágil já por si, somando-se a incursão de tribos de origem dene: os navajos e apaches, são as causas possíveis que levaram ao abandono dos povoados na bacia do rio Saint John. Não se conhece de certeza o destino dos anasazi, porém, anos mais tarde, nas regiões dos rios Little Colorado e Rio Grande, deu-se uma nova etapa de construção de grandes povoações, por vezes combinadas com saliências rochosas, como na meseta de Pajaritos, no Novo México, que perduraram até à chegada dos espanhóis.

Ilustração de uma estrutura arquitectónica hohokam. Fonte: Internet.

Entretanto, nas terras desérticas dos vales do rio Gila, no Arizona, dentro de uma área restrita e próxima às outras duas tradições que já falamos, evoluiu a cultura hohokam, sobre a base da arcaica cultura cochise. Não se tem a certeza sobre o seu inicio e, ainda que alguns arqueólogos sustentem uma maior antiguidade; estima-se que os seus começos tenham coincidido com o principio da era cristã. Glawdin e Harry, em 1937, subdividem a sua duração em quatro períodos, dos quais aquele de maior desenvolvimento é o último, conhecido como Clássico. Os estudos actuais indicam que esta cultura foi regional, desenvolvendo-se no seu lugar com base a vinculações comerciais e rituais com as culturas mexicanas. Implementaram uma agricultura do deserto que lhes proporcionou duas colheitas anuais, para a qual construíram canais de rega que transportava a água desde as montanhas. Possivelmente, devido às relações frequentes que tiveram com as culturas meridionais, praticaram a astronomia, fabricaram cerâmica e braceletes de concha; trabalharam a pedra, as turquesas e o cobre.

A partir de 600 d.C. construíram praças com plataformas de 1 m de altura por 30 m de largura que, apesar de serem baixas, mostram influência mexicana. As suas habitações foram do tipo casa-poço, com recintos rectangulares, construídas com adobes sobre escavações no solo, alcançando em Casas Grandes os quatro pisos de altura.

A diminuição das colheitas e as frequentes incursões das tribos apaches, provocaram um colapso por volta de 1450 d.C. Os povoadores abandonaram os seus antigos locais e agruparam-se em pequenas povoações dispersas.

Fotografia do pueblo de Taos, Novo México. Editora Dargaud, 1969.

Apesar desta entrada ter um enfoque sobre as culturas Pré-Colombianas, ou seja, aquelas que se desenvolveram antes ou até ao contacto com os europeus, vale a pena aqui falarmos um pouco sobre as tribos históricas, desta área de estudo. Assim, quando os primeiros europeus pisaram estes territórios, por volta de 1540 da nossa era, encontraram cerca de 20.000 habitantes, disseminados por 70 povoações. A estes aborígenes denominaram, de forma genérica, como índios pueblo, devido às características das suas povoações. A sua fonte alimentícia principal era um tipo de milho adaptado à semi aridez do território, que complementavam com a caça. Mantinham uma organização social de clãs matriciais e ao povo como unidade política superior. Em chefia, um «governador» para as funções administrativas; um “chefe de guerra” encarregado dos trabalhos públicos e conflitos bélicos e, além destes, um séquito de sacerdotes cuja missão era a de propiciar as chuvas.

Dos grupos pueblo actuais, os tano e keres descendem dos anasazi. Os hopis de um ramo shoshoni; os zuñis supõe-se derivados da tradição mogollón, presumindo-se que quem actualmente habita a região de Sonora – onde se encontram as tribos pima, papago e tarahumara– são os herdeiros da tradição hohokam.

 

OS PURÉPECHA

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Área do estado Purépecha, no Ocidente do México, durante o século VI. Fonte: Internet.

No Ocidente do México, Estado de Michoacán, região montanhosa onde se encontram grandes áreas de bosques e lagos muito extensos, estabeleceram-se por volta de 1400 d.C. vários grupos chichimecas.

De todas as áreas mesoamericanas, o ocidente foi a que apresentava uma maior diversidade cultural. Era uma região com alta densidade populacional, distribuída numa grande quantidade de pequenos senhorios, sendo politicamente muito instáveis.

Nesta região fundiram-se os elementos locais existentes de formas arcaicas, com outros estrangeiros mais evoluídos. Desta união cristalizou-se a cultura purépecha que os espanhóis denominaram de tarasca, pensando que a alcunha que os índios utilizaram para os invasores – tarascue ou “cunhados”, como alusão ao facto dos espanhóis terem roubado as suas filhas – era de facto o nome dos índios de Michoacán. Como estes se denominavam a si próprios não é conhecido com a devida certeza, algumas fontes históricas referem-se a eles como purepecha e huacanace. Os mexica referiam-se a estas populações como michoaque, termo que na língua nauhatl significa “aqueles da terra do peixe”. Ainda que também não se tenha a certeza da sua procedência, num passado não muito remoto foram nómadas caçadores, a julgar pela permanência das suas vestes e costumes; além da tradição mexica lhes consignar a sua própria pátria original, se bem que o idioma que falavam fosse um caso completamente isolado.

Historicamente este povo estava assente em mais de vinte aldeias, sobre as ribeiras e ilhas do lago Patzcuaro. O seu reino iniciou-se com a fundação da cidade de Patzcuaro pelo seu primeiro rei lendário Tariacuri, que uniu as tribos purépecha rivais, numa aliança tripartida conformada entre as cidades de Patzcuaro, Ihuatzio e Tzintzuntzan – esta última querendo dizer «O lugar dos Colibris». No entanto, foi já na segunda metade do século XV que o soberano Tzitzipandacuri conseguiu manter uma grande confederação, submetendo pela conquista ou coerção os seus vizinhos; tendo estendido os seus domínios até ao estado de Colima. Este soberano desenvolveu o que viria a ser, juntamente com o “império” mexica, uma cidade Estado organizada, que não só controlava com particular eficiência os seus territórios, como tinha conseguido opor-se com sucesso às ambições hegemónicas dos seus vizinhos mexica. Apesar da sua população ser consideravelmente menor, muitos espanhóis pensavam que o Estado Purépecha era igual em força ao da Tripla Aliança, cujas tentativas de conquista foram travadas em 1479. Em 1519 os papéis tinham-se invertido e eram os purépecha que avançavam seguramente em território mexica, notavelmente no Estado de Guerrero. No entanto, Michoacán manteve-se neutral durante a invasão espanhola do “império” mexica em 1519-1521, apesar dos pedidos de ajuda por ambas as partes.

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Imagem de um Lienzo com a capital purépecha junto do lago Patzcuaro. Fonte: Internet.

Os purépecha levantaram a sua capital em Tzintzuntzan por volta de 1450, nas margens do lago Patzcuaro, a qual consideravam “as portas do céu”. Daqui e governando o Estado Purépecha, estava o cazonci, representante do seu deus principal Curicaueri. É nesse período que a cidade controla a região e que o soberano Tzitzipandacuari expande os seus domínios mediante as conquistas militares. Nos tempos pré-hispânicos a cidade de Tzintzuntzan abarcava cerca de sete quilómetros quadrados. No entanto, no seu momento de maior esplendor, a sua influência cobria 75 mil km2, sendo que a próspera cidade era densamente povoada – calcula-se entre 25 e 35 mil o número de habitantes – estendendo-se das margens do lago Patzcuaro até às encostas das grandes montanhas vulcânicas.

A cidade contava com zonas residenciais bem definidas para a realeza e a alta nobreza, existindo outras para a realeza de menor hierarquia e a gente comum. Tudo indica que esta cidade tinha um traçado urbano bem planificado.

O elemento característico da arquitectura purepecha são as chamadas yacatas, plataformas que alcançam os 12 metros de altura, com uma planta rectangular ou mista e apresentam um anexo circular. O conjunto principal de Tzintzuntzan consta de cinco yacatas sobre uma grande plataforma encostada a um outeiro. Por vezes os purépecha conformavam em terraço a inclinação natural de um outeiro para formar plataformas. Procuravam um tamanho específico, de tal maneira que ao revestir-se de pedra talhada adquiriam um aspecto monumental.

As yacatas eram erigidas em honra de Curicaueri, o deus do sol. Na Relación de Michoacán observam-se sobre estas plataformas templos construídos em madeira. Com o tempo, as plataformas aumentaram de tamanho; por exemplo na yacata 5 observam-se até cinco sobreposições.

A maior parte das esculturas de pedra purepecha procedem da cidade de Ihuatzio, destacando-se entre elas os já referidos chacmool que indiciam influencias toltecas na sua cultura. Em geral, as peças realizadas em pedra vulcânica mostram pouco detalhe, conferindo realce às formas simples e estilizadas, num género híbrido e despojado. Outra figura que se destaca na arte lapidária purépecha são os tronos em forma de coiote, já que Ihuatzio significa “lugar do coiote”. Os espanhóis destruíram grande parte dessas esculturas, já que as associavam ao sacrifício humano.

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Reconstituição de plataforma cerimonial, ou yuacata. Fonte: Internet.

Se bem que os purépecha praticassem a agricultura, a pesca sempre foi a sua principal fonte alimentícia. Organizados como estado, o poder estava centralizado numa monarquia hereditária que oficiou como a suprema autoridade terrestre, militar e religiosa. O cazonci era assistido na administração do estado por um séquito de cortesãos, ajudantes e chefias alternadas. À sua morte, o corpo era incinerado e as suas cinzas eram enterradas por detrás da yuacata principal, acompanhadas pelas cinzas das suas esposas e criados. O ritual funerário dos purépecha implicava uma grande parafernália e, quando se tratava do seu governante envolvia não só o seu povo como, de várias regiões, chegavam emissários com obséquios preciosos que acompanhariam o defunto no seu caminho para o outro mundo. Encontraram-se poucos exemplos de pratos ou vasilhas de paredes rectas e fundos planos. Algumas peças repetem-se nos sepulcros, porém sendo miniaturas, pois existia a crença que apenas com esse tamanho o defunto podia fazer bom uso delas. Vários objectos recuperados em Tzintzuntzan e Ihuatzio formavam parte das oferendas funerárias de personagens da nobreza, enterrados nas imediações das yacatas. Outros objectos ligados às oferendas são cachimbos de cerâmica, cujo uso se relacionava com Curicaueri e o culto do fogo. Fumar cachimbo era um exclusivo das altas hierarquias, como se observa na Relación de Michoacán. O cachimbo purépecha tem um alto fornilho e dois pequenos suportes; sendo que o tubo por onde se aspira é bastante largo. Nos arredores da principal plataforma de Tzintzuntzan encontrou-se uma grande quantidade de fragmentos de cachimbos, o que parece indicar o seu uso extensivo nas cerimónias religiosas.

Possivelmente, devido a Michoacán ser uma região excessivamente vulcânica, o mito principal foi o culto ao fogo, sendo a sua divindade principal Curicaueri – ou “Grande Queimador” – que também simbolizava o sol. No entanto, os antigos purépecha rendiam culto a múltiplas divindades, de tal maneira que havia deuses criadores das montanhas, do mar e das lagoas; existindo inclusivamente divindades relacionadas com a mão direita e outras com a mão esquerda. Os deuses purépecha também intervinham em certos rituais de sacrifício humano, como a extracção do coração. Entre as práticas dos purépecha também se colocavam em varas os crânios dos sacrificados, sendo esfoladas algumas das vítimas. O culto e as cerimónias eram regidos por um calendário ritual dividido em 18 meses ou luas. Infelizmente, este povo não fez uso dos códices pictográficos, pelo que os seus mitos e lendas apenas se transmitiram oralmente.

Outra divindade relevante na religião purépecha era Cuerauperi, mãe dos deuses e dadora da vida. Outras divindades femininas eram Xaratanga, deusa da lua – venerada sobretudo em Tzintzuntzan – Taríaran, Peuame, deusa do parto e Auicanime, relacionada com a fome. As imagens dos deuses purépecha são escassas; de qualquer modo parece que elaboraram ídolos de madeira e massa, assim como em pedra. Aquelas realizadas neste ultimo material, além de raras são muito esquemáticas.

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Trabalho de metalurgia. Ilustração de Leonid Nepomniachi para Editorial México Desconocido.

Possivelmente vindo desde o Equador, na América do Sul, em 800 d.C. o ouro, a prata e o cobre entraram na região de Michoacán. A partir desse momento, a metalurgia foi tão importante que além de realizarem objectos sumptuários; construíram ferramentas, anzóis e projécteis de cobre. Na realidade, o Estado Purépecha adquiriu grande parte do seu poderio ao controlar a metalurgia; na sua época, o período Pós-Clássico Final, de 1200 a 1521 d.C., o domínio desta ciência tinha encontrado o seu espaço no ocidente do México. Este conhecimento, que a maioria dos estudiosos sobre o tema coincide em situar as suas origens no Centro e Sul da América, deve ter chegado a Michoacán por via marítima, através das costas do Oceano Pacífico.

O cazonci, supremo governante de Tzintzuntzan, estabeleceu uma cuidadosa organização encarregada de controlar as minas das quais se extraiam os metais valiosos. As áreas de extracção mais importantes situavam-se na região fronteiriça a sudeste do estado, nas redondezas de Pungarabato, Cutzamala, Coyuca e Ajuchitlan. Outra das regiões mineiras encontrava-se a ocidente de Michoacán, na zona próxima a Tuxpan e Zapotlan. Através do sistema tributário também se obtinham metais de Cualcoman, de Huacana, Turicato e Sinagua. Uma imagem idealizada destas minas indígenas é mostrada no Lienzo de Jucutacato.

A distinção mais notável da metalurgia purépecha consiste, no entanto, em que não produziram apenas peças ornamentais, pois utilizaram o cobre também para fabricar armas e ferramentas para a vida quotidiana. Uma das razões para que os exércitos de Michoacán tenham suplantado o poderio dos mexica, tornando-se praticamente invencíveis, pode residir na utilização do metal usado em machados de guerra e pontas de projéctil. Enquanto os camponeses, lenhadores e pescadores contavam com machados, enxadas e anzóis para facilitar o seu trabalho. Da mesma maneira, as oficinas purépecha já conheciam o uso do bronze, o qual superava a dureza do cobre e, só podemos especular, quando este se torna-se comum a que grau teria levado o Estado Purépecha no seu desenvolvimento e expansão se não tivesse sido prematuramente aniquilado pela invasão espanhola em 1530.

Tal como ocorreu com os tesouros dos mexica, os depósitos de metal precioso dos senhores de Michoacán, descritos nas crónicas como troféus, e as suas oferendas funerárias, foram saqueados e fundidos pelos espanhóis. Se contarmos com as entregas forçosas que o soberano Tzintzicha Tangaxoan fizera, tanto a Cristóbal Olid como ao selvático Nuño de Guzmán, o resultado foi que nos nossos dias apenas conservamos um testemunho mínimo, daquela arte dos metais que tanto distinguiu e qualificou os antigos michoacanos; perdendo-se de maneira irreversível o seu real valor artístico e cultural.

 

OS ANDES CENTRAIS

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Área total andina, na costa do Pacífico da América do Sul. Fonte: Internet.

As várias culturas dos Andes na América do Sul criaram uma das civilizações mais sublimes que o mundo conheceu. No contexto de um formidável e transcendente ambiente, estes antigos povos não sobreviveram e prosperaram como dedicaram um tempo e energia preciosa em realizações estéticas, desde elaborados rituais a vastas cidades, de delicados trabalhos em ouro a têxteis sumptuosos.

Dados os extremos ambientais é surpreendente que os seres humanos tivessem vivido durante tanto tempo e que tivessem prosperado nos Andes Centrais. O extremo Oeste da América do Sul inclui a costa desértica mais seca do mundo, numa estreita faixa que dá lugar há mais longa – a segunda maior cadeia montanhosa do planeta – e a uma das maiores e mais densas florestas tropicais, situada a partir do bordo Este da Cordilheira andina. Os habitats da montanha, a costa marítima, o deserto e a selva requerem distintas estratégias de adaptação e promovem diferentes padrões evolucionários, no caso dos Andes denominados de Montanha Árida, Oásis-Marítimo e Floresta Tropical. Os Incas foram uma sociedade da montanha mas o seu império incorporava povos adaptados às outras condições.

Nenhuma destas três zonas oferece um balanço satisfatório de água e terra para a agricultura, deste modo as populações indígenas tiveram que desenvolver organizações sociais em que a viagem, reciprocidade, diversificação e controlo são cruciais. Estas preocupações encontram-se naturalmente na cultura, já que esta expressa as crenças fundamentais e as práticas dos criadores de arte. O mar, dando abruptamente lugar ao deserto, que por sua vez ascende rapidamente para os Andes e que seguidamente desce para a selva, providencia estas tradições com uma série de extraordinários contrastes. A unidade, assente no equilíbrio da dualidade, as relações complementares parecem imbuir a arte, a política e a religião desta área.

As dunas de areia do deserto, algumas das quais sem qualquer registo de precipitação, mergulham rapidamente no Oceano Pacífico onde as profundas correntes de Humbolt, de águas frias, acomodam uma prodigiosa cadeia alimentar marítima. As proteínas disponíveis pelo mar fazem da área costeira uma fonte vital para as populações das montanhas, assegurando a necessidade de comércio, até mesmo de conquista, ao longo dos séculos. Além do mais, a costa árida actuou como um refúgio perfeito para a preservação de arte enterrada. Os povos antigos tinham consciência da natureza preservativa da areia seca; até as culturas da montanha enterraram aqui os seus tesouros assim como enviaram os seus corpos e trabalhos de arte para se manterem intactos na outra vida. De facto, a mumificação artificial iniciou-se no norte do Chile com a cultura Chinchorro, séculos antes dos famosos Egípcios iniciarem uma tradição similar no dito Velho Mundo.

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As várias regiões dos Andes centrais. Fonte: Internet.

A costa do deserto é segmentada pelos rios que vêm de Este para Oeste, trinta dos quais ligam directamente ao oceano as altas fontes glaciares dos Andes. No entanto, estas correntes com relativa baixa quantidade de água não são suficientes para irrigar as areias ao longo das suas margens, para além de alguns hectares. O efeito derradeiro do ambiente da costa foi o de isolar e regionalizar as primeiras culturas costeiras em pequenas unidades. Assim, os estilos de arte costeira variam tipicamente de um vale para outro. No entanto, sobretudo através de grandes projectos hidráulicos, os estados Nazca, Moche e Chimú conseguiram unificar amplas áreas costeiras. Mais tarde foram os Incas imperiais que conseguiram integrar todos os Andes, de maneira a que os ambientes complementares da costa e montanha juntos pudessem providenciar uma base de sustentação para todos. Mesmo assim, nem os poderosos Incas podiam evitar a dilaceração periódica trazida pelo conhecido El Niño, uma força maciça de desastre ambiental que continua a fustigar as costas andinas ainda nos nossos dias. Incaracterísticas correntes de águas quentes trazem consigo chuvas torrenciais, produzindo cheias e erosão que alteram profundamente a costa em cada geração. Em parte, o El Niño é responsável pelo estado ruinoso das antigas capitais costeiras como Cerro Blanco ou Chan Chan. Este é um dos muitos factores dos quais o ambiente dos Andes desafia a existência humana, trazendo a sua imprevisibilidade um sentimento de ansiedade aos seus habitantes.

Com picos tão altos como no Monte Aconcagua a 6.960 m, os Andes ficam apenas abaixo dos Himalaias em altitude, enquanto ultrapassam estes últimos três vezes em longitude, estendendo-se por 7.500 km. Apesar das montanhas serem a fonte dos rios costeiros, existe um volume de água extremamente baixo nos rios montanhosos. Dadas as encostas montanhosas serem de precipício, apenas ténues áreas de terra arável podem ser exploradas. A combinação de altitude extrema e a consequente força dos raios solares ultra violeta representa um calor abrasador durante o dia, baixando a temperatura 50 graus durante a noite. Poucas plantas alimentícias crescem, das quais apenas ervas secas no planalto a 4.800 m, batatas a 4.200 m, milho a 3.400 m, e coca – um estimulante e supressivo de apetite – a 1.200 m.

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Condições gerais do ambiente nos Andes centrais. The Incas and their Ancestors. Thames & Hudson, 2004.

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The Incas and their Ancestors. Thames & Hudson, 2004.

Duas fontes de energia, tectónica e solar, modelaram a Cordilheira Sul Americana numa terra de extremos ecológicos. A energia tectónica compele o movimento de Oeste da placa continental para fatigar o movimento marítimo de Este da placa de Nazca em níveis elevados, superiores a 15 cm por ano. A base oceânica cava-se numa abismal trincheira já que é subtraída debaixo da terra firme. A longa margem continental está em compressão, impulsionada para cima e apertada num longo paralelo de altas montanhas que se estendem da costa das Caraíbas da Colômbia até à Terra do Fogo. O clima é produto da energia solar conformada pela atmosfera e o oceano, sendo que à milhões de anos atrás a Cordilheira central cresceu suficientemente alto para dividir o clima continental entre os regimes do húmido Este e o seco Oeste. Normalmente toda a precipitação andina vem do distante Oceano Atlântico. As altas escarpas do Este capturam muita da humidade criando sombras de chuva a Oeste onde prevalece o regime árido do Pacífico.

Onde os Andes são mais altos e largos o plano montanhoso forma um H gigantesco, sendo a barra de ligação formada pelos picos de Nudo de Vilcanota. A distância Oeste, a Cordilheira Negra, apresenta-se em frente do deserto de Atacama. A secção a Este, a Cordilheira Branca, faz frente à Amazónia e amortece as nuvens vindas do Atlântico que trazem quase toda a chuva para a região andina. A Sul dos picos de Vilcanota as duas alturas divergem para enquadrar o planalto, uma imensidão de terra fechada através de planícies elevadas com 800 km de comprimento. A drenagem escorre para Sul através de uma rede de bacias e lagos. No Sul do Chile estas formam caldeiras de sal e as parcas terras com ervas que aí se encontram são chamadas de puna salgada. À medida que os Andes se vão tornando mais altos tornam-se secos. No entanto as pastagens da puna não são salgadas no planalto Norte, que forma a mais larga extensão de ininterrupta terra direita arável dos Andes, à volta do lago Titicaca, que drena a Sul para a Bolívia no lago de Poopó.

A Norte das montanhas de Vilcanota, as terras altas lascam-se em longas e estreitas distâncias em paralelo com a Cordilheira Negra e Branca, recortadas por numerosas pequenas punas de ervas e uma rede de bacias de serra baixa, chegando a um airoso ponto baixo tropical no Equador. À medida que a altitude decresce aumentam as chuvas e as terras com vegetação, conjuntamente com as bacias das serras do Norte do Peru que são relativamente luxuriantes. Cerca de 90% da água andina desce para a linha divisória Atlântica, enquanto apenas 10% desce para o Pacífico.

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Fonte: Internet.

Os Andes também canalizam as correntes maritimas. Fortes ventos diários, vindos do oceano, são desviados para Norte, pela Cordilheira Negra, causando o fluxo do mar para Norte ao longo da margem continental. Correntes ascendentes levantam-se das profundezas da trincheira tectónica propulsionando correntes extremamente frias mas ricas em nutrientes aquáticos para a superfície. As correntes frias geraram uma inversão de temperaturas, inibindo as chuvas costeiras, produzindo assim o deserto de Atacama. Desde o centro do Chile até à boca do rio Santa, no Norte do Peru, existe pouco ou nenhum recife continental. O rio Santa irrompe pela Cordilheira Negra e arremessa águas abundantes para o oceano. A Norte dele os Andes afastam-se da costa como um longo recife continental, emergindo uma planície costeira que se expande para Norte, compreendendo terras agrícolas abundantemente irrigadas da Cordilheira mais quente e baixa, dando lugar a grandes vales de oásis no Norte do Peru.

A Cordilheira apresenta muitas formas severas de stress crónico e episódico sobre os humanos. Alimentar as pessoas não é fácil por causa da baixa produtividade e da limitada diversidade biótica que tipifica o deserto e os ecossistemas das altas montanhas. Nos Andes Centrais a maioria das pessoas vive tradicionalmente acima dos 2.500 m, onde os corolários adversos da altitude incluem terreno áspero, topografia frágil, declives escarpados, solos pobres, terra arável limitada, estações de crescimento curtas, altos ventos, aridez, elevada radiação solar, chuva errática, nutrição precária, frio e hipoxia. O descanso e o trabalho são mais esforçados e a energia mais requerida acima dos 2.500 m devido ao aumento das necessidades respiratórias e circulatórias. Além do mais, para manter a temperatura do corpo nas frígidas terras altas é requerida uma energia adicional para sustentar elevados índices da base metabólica. Deste modo, o frio e a anoxia obrigam as pessoas a comerem mais, sendo que se estima que os montanheses necessitem cerca de mais 11.5% de calorias do que as pessoas das terras baixas. Consequentemente, custa proporcionalmente mais o suporte de vida e da civilização nas montanhas do que nas terras baixas. A vida é também mais precária porque faltas de comida comparáveis, causadas pela seca e outros desastres, exercem uma grande dureza nutricional a grandes elevações do que em terras mais baixas.

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Uma manada de lamas no vale de Calca, Peru. The Incas. Thames & Hudson, 2011.

Dado que as terras montanhosas consistem numa série de zonas agrícolas dependendo da altitude, a estratégia adaptativa desenvolvida pelos povos andinos foi a verticalidade e a sua base de subsistência consistiu na agropastorícia. Com a intenção de obter toda a comida e materiais necessários, as pessoas de diferentes altitudes transcorreram fisicamente as zonas de recursos, comerciando entre si num sistema de estrita reciprocidade, estendendo-se este princípio às relações de parentesco em ordem a cimentar os níveis de interdependência social e económica neste sistema vertical. Os montanheses dependiam mais de diferentes zonas de recursos para obterem bens alimentares essenciais e materiais artísticos do que as populações costeiras. Por essa razão foram os povos da montanha que geraram em larga escala os movimentos de unificação politico-religiosa, através das zonas ecológicas. Estes movimentos, a um grau limitado, incorporaram as imagens e produtos da selva. A arte das montanhas reflecte uma preocupação com a sobrevivência e incorpora o conceito em si de verticalidade. A um nível prático, os montanheses sempre dependeram dos camélidos americanos – lamas, alpacas, guanacos e vicunhas – para a obtenção de proteínas, combustível e tecidos. Estes animais eram cruciais para o transporte de objectos e pessoas através do terreno rugoso, figurando na iconografia das terras altas e em alguma da costeira. A verticalidade não foi apenas uma dinâmica socio-económica, ela também é expressa de forma mais abstracta, alcançando a partir de uma forte ênfase topográfica na arquitectura, inclusive nos recorrentes padrões escalonados das artes visuais.

Apesar da selva amazónica nunca ter estado formalmente unificada com a costa ou a montanha, estava inquestionavelmente envolvida ao nível da inspiração, simbolismo e comércio de bens materiais exóticos. As terras baixas ribeirinhas eram frequentemente concebidas como lugar de origem, certamente como focos de abundância e fertilidade. Animais como o temível caimão e o ágil macaco podem ser vistos em obras de arte distantes dos habitats da selva. A Amazónia funcionava como uma importante fonte de produtos estéticos inacessíveis e altamente requeridos, como penas, tintas e fibras de plantas. No entanto, as florestas de chuva mantinham-se demasiado remotas e inacessíveis para uma conquista por parte dos andinos.

Mesmo os ambientes mais marginais têm as suas vantagens para a arte e a sociedade. A própria dureza e incompatibilidade das diferentes zonas parece ter desafiado os povos antigos a forjarem fortes organizações sociais. Essas redes sociais encontraram nos artistas suporte e proeminência, da mesma forma que os providenciaram com diversos materiais, imagens e ideias. Contudo, paralelamente à ênfase do controlo, estandardização e pensamento colectivo, as culturas andinas também parecem ter desenvolvido um clima social de virtuosismo artístico; talvez vindo do mesmo espírito determinado que lhes permitiu construir impérios na orla do mundo. A interacção entre a criatividade e os constrangimentos é, sem duvida, uma das características mais interessantes da sociedade, arte e arquitectura dos Andes.

 

ANCIENT ANDEAN TEXTILES

May 20, 2016–September 18, 2016
Yale University Art Gallery Exhibit, New Haven, Connecticut

Tunica

Moche-Wari tunic. a.d. 600 – 900. Visual Encyclopedia of Art, Scala Group 2009.

“Weaving and the Social World: 3,000 Years of Ancient Andean Textiles”
celebrates the importance and beauty of ancient Andean textiles, demonstrating the wide spectrum of their designs and functions. The exhibition presents works on loan from two private collections, including tunics, mantles, and wall hangings as well as related feather, gold, and silver ornaments; weaving implements; and ceramic vessels. Characterized by graphically powerful images of deities, animals, and geometric motifs and by advanced weaving techniques, the objects on view represent one of the world’s oldest and most important textile traditions.

Weaving was a significant artistic achievement of ancient Andean cultures in South America. Lacking written languages, societies used textiles as the primary means of transmitting images and ideas. Clothing identified a person’s gender, status, occupation, wealth, and community affiliation. Over time, textiles played an increasing role in political and religious ceremonies, particularly funerary rituals. Garments worn in life were buried with the dead, and the bodies of high-status individuals were wrapped in layers of fabrics and accompanied by cloth offerings. Textiles were also used to make votive dolls, wall hangings for shrines, clothing for figurines, bags, and other items.

Andean weavers used portable looms lashed to posts or trees with vertical warp and horizontal weft threads. A textile’s width was limited by the size of the loom, but sections could be stitched together to make larger fabrics. Textiles were produced using plain weave as well as complex techniques, such as tapestry weave and scaffold weave. Scaffold weave was unique to the Andes, while tapestry was common in Europe—although Andean tapestries incorporated finer yarns, were more tightly woven, and were finished on both sides. Additional techniques included embroidery, brocading, dye painting, tie-dye, and sewing bird feathers onto plain weaves. Threads were made from cotton native to the coast and wool from highland camelids (llamas, alpacas, and vicuñas). Andean dyers used fine organic dyes, achieving a range of more than one hundred colors. Raw materials for weaving were traded and distributed throughout the Andes. Finished textiles and other goods flowed among widely dispersed communities and major cities as tribute, gifts, or items of trade.

Tear

Andean traditional weaver. Photo: Internet.

The textiles in the exhibition represent the most significant ancient Andean cultures— including the Chancay, Chavín, Chimú, Moche, Nazca, Inca, Paracas, Sihuas, and Wari societies— and they range in date from as early as 900 b.c. to the sixteenth century a.d. Bold geometric motifs are incorporated into many of the designs, including a striking Inca tunic with a black and white checkerboard pattern, accented with a section of bright red, and Nazca tunics with chevrons, stepped diamonds, and fret motifs. Supernatural beings are also common subjects: a hand-painted Chavín mantle portrays a fanged goddess; colorful Crested Moon Animals march across a feathered Chimú tunic; and the Rayed Deity, thought to represent the sun, is powerfully resplendent on Sihuas mantles.

Animals of sky, sea, and land are depicted in stylized and naturalistic forms. An extraordinary Chancay sleeved tunic portrays condors, the large soaring bird of the Andes, in threedimensional embroidery, seen from above as if in flight. A finely embroidered Nazca mantle features a dense, repeating pattern of stylized killer whales. One wall of the exhibition galleries displays a stunning array of colorful textiles created with feathers from tropical birds of the Amazon Basin.

Exhibition co-curator Dicey Taylor explains, “Few museums have been able to present a comprehensive exhibition of complete textiles from all of the major Andean cultures. Most exhibitions have focused on particular cultures, such as the Inca, or particular types of garments. Weaving and the Social World is unique in its presentation of largely intact textiles, some in almost pristine condition, from the broad spectrum of Andean societies that rose and fell in ancient times.”

http://artgallery.yale.edu/exhibitions/exhibition/weaving-and-social-world-3000-years-ancient-andean-textiles