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Archive for the ‘A América Clássica’ Category

1 Bering

Mapa de José Conesa para Office du Livre S. A. Fribourg (Suíça) 1982.

Com a intenção de explicar a origem dos americanos e a sua antiguidade no continente americano existiram, através do tempo, muitas e diversas teorias, as quais contam com os seus defensores e detractores, se bem que algumas delas não apresentem a devida sustentação.

Em 1870 Florentino Ameghino propôs que o princípio de todo o género humano se gerou na Patagónia Argentina, hipótese que não resistiu aos fundamentos científicos de Alex Hrdlicka que propôs a teoria migratória do homem americano através do Estreito de Bering. Também se enunciaram teorias como dos possíveis, no entanto insuficientemente comprovados, contactos transpacíficos que tiveram como mentor Paul Rivet; ou as que aceitam a chegada de outros europeus antes de Cristóvão Colombo como Alcina Franch e ainda outras que postulam o provável ingresso de australianos pelo sul do continente, seguindo o caminho litoral antárctico.

No que diz respeito à antiguidade de ocupação, tão pouco se deve considerar as datas actuais como definitivas já que, desde os 12.000 anos estimados até há pouco tempo, e os mais de 40.000 anos que tratam de provar os cientistas, existe uma brecha temporal muito significativa. Porém, se bem que os dados possam sofrer de variações, o que se pode assegurar é que actualmente os arqueólogos estão de acordo em que o continente americano começou a povoar-se entre cerca de 40.000 e uns 25.000 anos, coincidindo com o momento do quarto e último glaciar, no qual os gelos cobriram grande parte do Hemisfério Norte. Este período glaciar provocou a descida de uns noventa metros do nível do mar e a consequente aparição de uma ponte natural entre a Ásia e a América, através do actual Estreito de Bering. Por este caminho e seguindo a rota dos grandes animais do Plistocénico – hoje extintos como o mamute e o mastodonte, entre outros – teriam penetrado os primeiros grupos humanos no continente, iniciando desta maneira uma das epopeias mais notáveis de descobrimento e captação de um continente, ainda virgem, pela espécie humana.

2 protomongoloide

Inuit do Alasca que pela proximidade geográfica e etnológica mais se aproxima dos primeiros povoadores do continente Americano. Foto: Smithsonian Institution, American Ethnology.

Estes homens, procedentes do sector oriental da Ásia Setentrional, no princípio moveram-se em pequenos grupos nómadas, associados em forma de bandos de tipo caçador-recolector. Possivelmente tiveram diversas origens étnicas e penetraram no continente em distintos fluxos migratórios, aproveitando os processos naturais do avanço e retrocesso dos gelos. Porém, tendo em conta o protótipo indígena actual, a migração étnica preponderante deve ter sido do tipo protomongoloide de olhos rasgados e tez amarelada.

Com respeito aos possíveis contactos transpacíficos, encontraram-se similitudes entre a cerâmica muito inicial aparecida no Equador – Valdivía 3.000 a.C. – e a do período Jomón do Japão. Alguns estudiosos analisaram distintos períodos mesoamericanos onde encontraram características parecidas com a China e a Índia, de acordo com a época. A partir do Oceano Atlântico também foram possíveis os contactos com o «Velho Mundo»; sendo que o mais aceite e que deixou vestígios arqueológicos foi aquele protagonizado pelos vikings escandinavos por volta do ano 1.100 d.C. quando, sobre a chefia de Erik o Vermelho, chegaram ao sul da Gronelândia e desde aí estenderam as suas colónias até ao que hoje são as costas do Labrador da Terra Nova, na América do Norte.

De todos os modos, mesmo os que na actualidade aceitam os contactos extra-continentais, reconhecem que o primeiro povoamento da América se realizou pelo Estreito de Bering e que os possíveis contactos teriam sido relativamente tardios, esporádicos e de grupos reduzidos. Se bem que comprovados, os mesmos não teriam tido uma incidência de importância sobre a origem e evolução cultural dos ameríndios, que realizaram o seu desenvolvimento com carácter local e de forma independente de outros continentes.

3 mapa povoamento

Mapa de Carlos Punta e Damian Sondereguer para Edições Corregidor, Buenos Aires 2005.

No mapa que agora podem ver, as setas a negro indicam a rota de inserção e possível dispersão dos primeiros homens no continente, cerca de 25.000 ou 40.000 anos a.C. Note-se que as setas pontilhadas são apenas possíveis rotas de contactos em épocas muito posteriores à ocupação inicial. Uma vez entrados no continente, os grupos dispersaram e ocuparam os mais variados nichos ecológicos, ou seja todos os ambientes, climas e geografias que se lhes apresentavam e que de alguma maneira permitiam a vida humana. Estima-se que para concluir esta ocupação, que implica atravessar os 18.000 km que separam o estreito de Bering – no extremo setentrional – com a Terra do Fogo – no extremo austral – terá demorado aproximadamente 20.000 anos. A economia de subsistência destes grupos foi diversificada, dedicando-se tanto à recolecção de plantas silvestres como à caça de distintos animais, sem observar-se nenhuma especialização regional nem variações tecnológicas das suas ferramentas.

Ao redor de 15.000 anos a.C. começou na América do Norte uma especialização nos diversos grupos, estádio conhecido como «Tradição de Grandes Caçadores», cuja economia estava orientada para a caça de mamutes, mastodontes e megatérios; assim como na América do Sul, no ano de 13.000 a.C. apareceu a «Tradição Antiga de Caça Sul-americana», com especialização na captura de megatérios, cavalos plistocénicos, gliptodontes e camelídios.

Aproximadamente pelo ano 9.000 a.C., começaram a retirar-se os gelos de forma definitiva, trazendo consigo grandes alterações climáticas que pelo ano 8.000 a.C. modificaram a flora e a fauna. Esta crise, da qual não se descarta a possibilidade de uma caça excessiva, terminou com os animais do Plistocénico e com eles a forma de vida dos Grandes Caçadores, que sofreram alterações profundas até desaparecerem.

4 camelídios

Ilustração de RSE para a revista Finding Out, Londres 1966.

Devido à variedade e particularidades de cada um dos ecossistemas habitados, os distintos grupos foram-se adaptando de acordo com as novas condições ambientais e apareceram então os “Caçadores-recolectores do Pós-glacial”, caracterizados pela especialização na caça de animais pequenos, recolecção de plantas alimentícias silvestres e na pesca; podendo constituir-se sociedades com preponderância de uma só das ditas economias, ou com a combinação de ambas.

Posteriormente, em certas áreas deu-se um processo de domesticação de plantas e animais. É assim que, na região andina central por volta do ano 7.000 a.C., começou o manejo de rebanhos de camelídios e, na Mesoamérica, por volta do ano 5.000 a.C. uma maior dependência da recolecção, mais a aparição de certos cultivos incipientes, obtidos por meio da domesticação de plantas alimentícias silvestres. Nesse seguimento, é provável que se tenham dado aumentos demográficos importantes, trazendo consigo o consequente desequilíbrio entre as populações e dos recursos de abastecimento. A pressão gerada por estas causas mais o feito de que os grupos haviam alcançado a optimização nos processos de domesticação, podem ter sido algumas das razões que deram como resultado a aparição da agricultora, com o cultivo incipiente do milho por volta de 3.000 anos a.C. e a pastorícia de camelídos em 1.000 a.C. Os factores anteriores, mais outros relacionados com a restrição territorial, a que seguramente se viram submetidas algumas sociedades de caçadores-recolectores, originaram as sociedades de agricultores sedentários. Além do mais, deve-se ter em conta que muitos grupos de caçadores-recolectores, em maior ou menor medida, já utilizavam estas técnicas como meio de ampliação da sua gama de recursos; sem terem rompido, até aí, com as suas pautas tradicionais de subsistência. A alteração conceptual que implicou passar de uma subsistência de depredação – caça e recolecção – a outra – produção agrícola – implicou também o fim da vida nómada, consumando-se a sedentarização em aldeias permanentes. Esta nova forma de vida permitiu o desenvolvimento da agricultura, a cerâmica, os têxteis e as obras de culto, além de dar início a sistemas sociais complexos que, com o decorrer do tempo, originará as elites governantes.

 

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Capa e contracapa

Assumindo um possível rigor científico este documento, editado pelo Tempo Ameríndio, apresenta-se numa caixa de DVD onde se inclui um CD com um PDF gravado de 281 páginas. O texto foi redigido no tipo de letra Century Gothic, tamanho 12 em bold, para facilitar a leitura no ecrã e é acompanhado por 20 mapas e 85 fotografias. Esta edição, que é um resumo de parte da matéria do curso A América Pré-Colombiana, leccionado no Museu Nacional de Etnologia, em Lisboa, Novembro 2011 a Março de 2012, pretende sobretudo suscitar um enquadramento introdutório que reúna as premissas mais importantes da “Era Clássica” das culturas indígenas do continente americano; reportando-se à faixa temporal que abarca cerca de 500 anos e que vai de 300 a 1000 depois de Cristo. O facto deste ser o período em que surge pujante uma clara identidade cultural das diversas matizes etnográficas ameríndias, pressupõe que se isole no tempo de forma a nos poder transmitir uma imagem de um continente que desenvolveu a sua expressão de forma aparentemente isolada e original.

Caixa

O preço deste CD é de 10.00 €, com portes incluídos. Para a sua aquisição, queira deixar um pedido nos comentários a este post ao que receberá instruções de como efectuar o pagamento, assim como informação relativamente ao envio por correio.

No sentido de aclarar a tónica deste documento, a seguir transcreve-se um resumo da introdução que abre a temática abordada neste livro-digital.

Paracas

Fragmento de um têxtil da cultura de Paracas. A iconografia representando cabeças de divindades, acompanhadas de serpentes e felinos, é muito similar à que se pode observar na cerâmica do período Nazca.

«Cada vez mais o registo histórico necessita de uma compilação de sentido universal e identitário para dar resposta às circunstâncias culturais e geopolíticas que tendem a segmentar e a isolar não só aquele que é o património da humanidade, assim como para criar recursos de enquadramento, para aqueles povos cujas afinidades se apresentam antes do conhecimento institucional. A América antiga, ou pré-colombiana do ponto de vista ocidental, é sobretudo conhecida por uma miríade de episódios regionais; muitas vezes tornando confusa a percepção temporal e as relações que se estabeleceram geograficamente. A desfragmentação social que se deu após a invasão europeia no século XVI continua patente, assim como o modo de olhar um mundo afastado da realidade moderna; perdido no seio dos seus mistérios e exotismos, votado à curiosidade turística ou à especialização académica. Restam poucas dúvidas em relação à identidade genética destes povos que os ligam directamente com a sua ancestralidade asiática, estando esta na base das primeiras vagas que entraram no continente americano pelo estreito de Bering na época glaciar. Sem dúvida que outras hipóteses continuam a merecer a atenção por parte dos especialistas, até porque a falta de comprovação não encerra mas suspende um debate que é sempre possível. Se olharmos para o mapa do mundo com atenção, o oceano “natural” – no sentido de complementaridade geográfica e etnográfica – das Américas é o Oceano Pacífico, relegando o Atlântico como uma fronteira de “águas primordiais”; sem desfazer o intenso intercâmbio das rotas comerciais costeiras que sempre existiram em ambos os lados da costa. As rotas transpacíficas da Austrália para a América do Sul não são comprováveis, sendo que será mais difícil explicar certas expressões estilísticas encontradas na arte, por exemplo, ou na relação com imagens simbólicas, assim como a relação de signos com a temporalidade, que aproximam de forma estreita as culturas pré-colombianas com a Ásia. Os factores naturais aqui, recriaram todo um mundo que, tudo indica, se desvinculou das suas raízes para criar uma matiz de sentido único e original.

AS habitações indígenas na zona do Oceano Pacífico. Mural de Miguel Covarrubias. Revista Arqueologia Mexicana, Vol. XV-Número 85. Editorial Raíces, 2007.

As habitações indígenas na zona do Oceano Pacífico. Mural de Miguel Covarrubias. Revista Arqueologia Mexicana, Vol. XV-Número 85. Editorial Raíces, 2007.

A América Clássica caracteriza-se sobretudo pela consolidação dos grandes espaços civilizacionais, propondo ligações cósmicas, com um profundo sentido de estruturação e regulação da sociedade humana. O franco desenvolvimento da agricultura, sobretudo do milho e da pastorícia – esta última nos Andes – levará à construção e implementação de obras públicas numa escala sem precedentes e que irão definir de forma indelével o padrão social da Ameríndia que os europeus vão encontrar já na Renascença. Duas capitais com características hegemónicas concordantes vão destacar-se neste período, com Teotihuacan na Mesoamérica e Tiwanaku nos Andes Centrais. Aliás, serão estas duas regiões que vão protagonizar o desenvolvimento das chamadas “altas culturas” ameríndias sem que, no entanto, estas estivessem isoladas das dinâmicas intercontinentais; influenciando ou recebendo influência de outras culturas ou etnias. Teotihuacan irá estabelecer as bases fundamentais para a expressão e teologia das futuras religiões mesoamericanas, iniciando um processo de expansão através da malha de  redes comerciais; criando colónias, tornando-se numa cidade cosmopolita sem apresentar, aparentemente, um modelo de poder centralizado. Padrão esse que se deverá ter em conta no período histórico seguinte e ao qual não é de estranhar a estrutura confederativa “imperial” encontrada pelos espanhóis no México Central em 1520.

Kalasasaya

Fachada da plataforma de Kalasasaya em Tiwanaku. Em primeiro plano pode observar-se um pátio afundado. Ao fundo, por detrás da imponente entrada, ergue-se o hierático monólito Ponce.

Tiwanaku florescera com o sistema de canais de regadio, ou chinampas, como ficaram conhecidas as parcelas de terra no lago de Tetzcoco – em Xochimilco e Tenochtitlan – actual cidade do México. Aliás, este sistema pode ser encontrado noutras áreas da América do Sul, como na Colômbia e no Equador; mostrando a capacidade de organizar hidraulicamente, vastas áreas, para a produção de bens agrícolas. Tiwanaku terá sido tão hierática, na escultura e arquitectura, como Teotihuacan; no entanto deixará pouco rasto do seu pensamento poético algo que a “cidade dos deuses” revela, também para o interior das casas, através da pintura mural. Desta forma, os códigos que definem o significado pictográfico também eles estão ligados aos cânones escultóricos e arquitectónicos. Uma imagem pública só está completa quando revestida – leia-se pintada – do seu significado. A pintura mural será sempre uma expressão da enfatização dos símbolos recorrentes de uma sociedade em que o registo da memória é organizada em forma de pictogramas, assentes na tradição oral. Com algumas características fonéticas, que cada vez mais se vão realçando mas partindo, definitivamente, de uma premissa semântica perfeitamente distinta da escrita Maia. Seriam, no entanto, os símbolos a ter predominância neste mundo Clássico ameríndio e não o discurso do registo de eventos dinásticos. Aos nossos olhos é fascinante reconhecer a assinatura de um ceramista Maia; no entanto o Período Clássico traduz-se pela elevada expressão da “cultura autor” em que, para além da identificação de alguns deuses e soberanos, pouco se conhece dos intervenientes individuais da história destes povos. Basicamente, a sua assinatura cultural é colectiva.

Teotihuacan

Maquete de complexo habitacional de Teotihuacan. Museu Nacional de Antropologia, Cidade do México.

Os elementos ritualistas que estruturaram a sociedade Clássica da América antiga também são visíveis na forma e expressão que a guerra assume nessa altura. Talvez que neste sistema institucionalizado, os Moche, do Norte do Peru, irão praticar de forma enfática a relação directa entre as estratégias sociais e os domínios guerreiros. A captura de prisioneiros para o estabelecimento dos cânones sacrificiais vai ser uma matriz dinâmica desta cultura; no quadro de referências belicistas geograficamente mais abrangente na figura das cabeças troféu, característica particular (mas não exclusiva) das etnias da América do Sul. Para além dos pressupostos ritualistas, os Moche vão criar um sistema de antagonismos sociais em que, tal como poderemos encontrar semelhanças com os Mexica séculos mais tarde, o duelo individual tem como predominância o valor estatutário do guerreiro capturado, no sentido de exponenciar o seu valor dentro do quadro de uma oferenda ilustre que, através do sacrifício sangrento, irá manter a ordem cósmica e social de um mundo que procura os seus equilíbrios internos. Paralelamente, a arte erótica dos Moche, poderá encontrar a sua resposta num pólo de preocupação demográfica, assim como no estabelecimento de créditos morais em que a dor e o prazer são os extremos das tensões internas sociais; ao que a sua popularização se traduz por uma mundivivência assumida. Neste aspecto, muitas outras sociedades ameríndias serão menos explicitas, relegando as suas preocupações para um foro de metafísica exclusiva.

América Central

Podemos claramente identificar vínculos técnicos, comerciais e ideológicos entre zonas afastadas da geografia Ameríndia; como poderá demonstrar o relacionamento da região Sul dos actuais Estados Unidos com a área mesoamericana, nomeadamente através da cidade de Teotihuacan. A América Central será um corredor de intercâmbio de influências e da diluição das fronteiras culturais dos dois pólos civilizacionais da América: a Mesoamérica e os Andes. O intercâmbio também passou pela zona costeira marítima, inclusivamente fazendo chegar as técnicas da fundição do ouro Sul americanas a regiões afastadas do México Central, via costa do Pacífico. O Caríbe, o “mar interior” da América Central, irá criar uma zona franca de contactos permanentes, se bem que os seus sinais se tornassem mais evidentes numa fase histórica posterior. Este espaço revelou a sua particularidade de interacção sócio-económica numa componente constitutiva para a fluição de bens e ideias que teriam encontrado neste quadro geográfico os canais para a sua disseminação natural e não impositiva. Como zona de uma certa fragilidade ecológica e exiguidade territorial, para a manutenção da vida humana, não irão surgir aqui grandes complexos civilizacionais; no entanto, por esta faixa tomaram contacto indelével os dois pólos destacados das “altas culturas” pré-colombianas permitindo, simultaneamente, a existência de uma cultura própria e um campo aberto para as migrações dos grupos históricos da região venezuelana e brasileira.

O amplo espaço geográfico que caracteriza as Terras Baixas Tropicais, da América do Sul, incluindo países como o Paraguai e  o Brasil, mantiveram-se apartados da esfera social que irá caracterizar a zona andina. Aqui, a relação geográfica vai ser evidente na demarcação de uma fronteira natural cujas características vão definir os pressupostos dos diferentes padrões sociais. Apesar do contacto andino com a esfera amazónica ter existido e de serem identificáveis os seus canais de comunicação, estes serão dois mundos em paralelo que não estarão em concorrência mas que vão salvaguardar, cada um, as suas tipicidades como reflexo de meios ambientes distintos.

Marajó

Urna funerária da ilha de Marajó, Brasil.

As selvas da Amazónia ou as terras altas do Sul do Brasil serão um repositório consequente de estruturas sociais que não desembocarão em estados amplos e influentes, preservando-se aqui um quadro de estruturas simples mesmo que dentro de um âmbito etnográfico diversificado. Pelo contrário, a geografia andina vai permitir e fazer expandir um enquadramento social unificador, cuja dinâmica encontrará as suas raízes na oposição das sociedades serranas com as da faixa litoral do Oceano Pacífico. Esta interacção conflituosa e simultaneamente partilhada através de ideias, bens e necessidades, criará as macro estruturas necessárias para que, com o tempo, a manipulação dos diversos nichos ecológicos se torne de tal forma expansiva e interdependente; tornando assim preponderante uma gestão a nível estatal com base nas características geográficas que lhe vão facultar a sua identidade própria. Não é pois de estranhar que a geografia mais sinuosa e complexa do continente americano, os Andes, tenha permitido uma expressão cultural mais homogénea e centralizada em contraponto a uma Mesoamérica ambientalmente mais diversificada que, apesar da expressão das suas culturas hegemónicas, sempre tendeu mais para regimes de relativa fluidez; dentro de uma malha de padrões de relacionamento, exigido pelas redes comerciais ou tributárias.

A religião representa, nesta altura, o depositário consequente de toda a sabedoria, interpretação e regulamentação dos princípios vigentes; sem esquecer que estamos perante um cenário de integração do homem num espaço que ele reconhece como divino. Ou seja, a sua relação com a natureza encontra-se nos cânones de repetição da ordem – ou fragilidade – cósmica, enunciando esta o seu devir social enquanto, simultaneamente, consegue adaptar-se e tirar proveito sustentável e equilibrador das fontes naturais que dispõe para produzir o seu sustento e crescimento.

Representação lítica de um ser sobrenatural diante de um túmulo funerário. San Agustin, Colômbia.

Apesar dos desastres naturais também terem concorrido para o colapso do mundo Clássico pré-colombiano, foi neste período que se assentaram, de forma decisiva, os conceitos que irão estabelecer os padrões estruturais das sociedades ameríndias de épocas posteriores. Os fluxos culturais que podemos encontrar na América Clássica, com as suas inflexões de enquadramento, encontram no parque arqueológico de San Agustin, Colômbia, talvez o seu testemunho mais paradigmático. Uma necrópole cheia de símbolos vivos que nos dão conta de atributos felinos integrados por uma humanidade simultaneamente organizadora e volátil ao seu meio ambiente. A expressão mais acabada desta filosofia existencial, encontra-se patenteada nos guerreiros desta acrópole que empunham as suas armas, servindo também eles como colunas de sustentação dos maciços tectos de pedra. Por sua vez, estes, cobrem um espaço guardado e sacralizado de uma entidade provavelmente deificada; que assume o poder inequivocamente através daquilo que representa – para além daquilo que é – numa clara afirmação monumental intimista das entidades que são reconhecíveis ao homem e a partir das quais este concebe a sua própria identidade.»

Mapa

Mapa que ilustra geograficamente as quatro zonas abordadas, por capítulos, neste documento. Por uma questão de simplificação e conteúdo a fronteira Norte da Mesoamérica mostra-se ampliada no mapa geral, assim como os Andes setentrionais são incluídos no capítulo da América Central.

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