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Archive for the ‘América Central’ Category

Pennsylvania Museum of Archaeology Exhibit

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Beneath the Surface: Life, Death, and Gold in Ancient Panama, a new exhibition opening February 7, 2015 at the Penn Museum in Philadelphia, invites visitors to dig deeper, exploring the history, archaeological evidence, and new research perspectives, in search of a greater understanding of the Coclé people who lived from about 700 to 900 CE. Video footage from the original Sitio Conte excavation, video kiosks with opportunities to “meet” and hear from a range of experts, a centerpiece “burial” with interactive touchscreens—and more than 200 objects from the famous excavation—provide an immersive experience. The exhibition runs through November 1, 2015.
One massive burial, named “Burial 11” by the excavators, yielded the most extraordinary materials from the excavation. Believed to be that of a Paramount Chief, it contained 23 individuals in three distinct layers, accompanied by a vast array of grave objects. A to-scale installation of the burial serves as the exhibition’s centerpiece, drawing visitors beneath the surface of the site. The re-creation features many artifacts displayed in the actual positions they were found, as well as digital interactive stations for further exploration.

http://www.penn.museum/upcoming-exhibits/1156-beneath-the-surface.html

For more than a thousand years, a cemetery on the banks of the Rio Grande Coclé in Panama lay undisturbed, escaping the attention of gold seekers and looters. The river flooded in 1927, scattering beads of gold along its banks. In 1940, a Penn Museum team led by archaeologist J. Alden Mason excavated at the cemetery, unearthing spectacular finds—large golden plaques and pendants with animal-human motifs, precious and semi-precious stone, ivory, and animal bone ornaments, and literally tons of detail-rich painted ceramics. It was extraordinary evidence of a sophisticated Precolumbian people, the Coclé, who lived, died, and painstakingly buried their dead long ago.

Map

The site of Sitio Conte is situated about 100 miles southwest of Panama City. When golden grave goods were exposed on the banks of the Rio Grande de Coclé, the Conte family, owners of the land, invited scientific excavation. The Peabody Museum of Harvard University carried out the first investigations in the 1930s. In the spring of 1940, J. Alden Mason, then curator in Penn Museum’s American Section, led a Penn Museum team to carry out three months of excavations.

Diary entries, drawings, photographs, and color film from the excavations set the story of the research in time and place. New excavations in Panama, most recently at nearby El Caño, conservation work and laboratory analyses, and ongoing research on Coclé and neighboring Precolumbian cultures, adds to a growing body of knowledge, told through short interviews with Penn Museum and outside experts.

Coclé Culture and Society

Long overshadowed by research on other indigenous Central and South American peoples, the Coclé remain mysterious, but archaeologists, physical anthropologists, art historians, and other specialists are drawing on the materials they have excavated to tell more. The rich iconography, sophisticated gold working technologies and craftsmanship, exacting placement of bodies and materials in the burials: all offer clues about the world view, artistic style, and social hierarchy of the Coclé.

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Dr Julia Mayo uncovering a gold breast plate at El Cabo. Photograph by David Coventry.

The art and artifacts uncovered from Burial 11 and throughout the Sitio Conte cemetery were rich in cultural meaning and utilitarian value, and Beneath the Surface uses them to begin to create a portrait of the Coclé people. Central to Exhibition Curator Clark Erickson’s vision of “peopling the past” is a contemporary rendering of the central burial’s Paramount Chief; he stands replete with some of the golden pendants, arm cuffs, and plaques, exquisitely crafted and worthy of a great warrior, which he wore to his grave.
Though not identified as direct descendants of the Coclé, many indigenous groups continue to live in Panama and in the region of Sitio Conte today. A small section of the exhibition provides visitors with an opportunity to see contemporary Kuna clothing that echoes some of the design forms and styles of ancient Coclé pottery, pendants, and gold.
Throughout, visitors can explore the evidence and encounter new perspectives on who these people were and how they lived.

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Os arawaks ocupavam nas Antilhas Maiores uma zona de bosque tropical montanhoso, as selvas baixas chuvosas e os matagais do Sul de La Española – na sua língua, Haiti ou Quisquella – a ilha de Puerto Rico – ou Boriquén – e amplas zonas de Cuba, que conservou o seu nome nativo apesar de Colombo lhe chamar Juana. Mostravam uma uniformidade linguística e de organização social. Haviam conseguido igualmente um grande aperfeiçoamento das práticas agrícolas, da cerâmica, o trabalho em ouro e a construção de embarcações.

Cacique e mulher arawak. Fonte: Internet.

Cacique e mulher arawak. Fonte: Internet.

A sua vida desenrolava-se em torno de povoados, alguns deles muito grandes, onde a dignidade do cacique e a chefia étnica e religiosa haviam criado estratificações sociais muito complexas. Estes grupos arawaks haviam abandonado as roças pouco depois de terem chegado às ilhas, aplicando-se no uso especializado dos espaços produtivos que eram divididos em três zonas diferentes: os montículos, as hortas e os territórios de pesca, caça e recolecção. Os montículos – ou conucos – eram espaços específicos destinados ao cultivo intensivo. Situados perto dos povoamentos, neles produziam-se os alimentos básicos da comunidade, fundamentalmente os tubérculos. Para instalar um conuco elegia-se uma zona arborizada à qual se incendiava para que as cinzas servissem de abono. Assim, formavam-se montículos de terra e restos vegetais para melhorar a sua drenagem; sobre estes semeavam-se plantas, como a yuca – ou mandioca – o bolbo ou a batata. Quando a capacidade de produção do conuco diminuía, os tubérculos eram substituídos por outros produtos, deixando-se finalmente em pousio por algum tempo. Além de yucas e batatas, nos bordes do conuco semeava-se também o milho e, associado a ele, os feijões, maní ou cacahuetes, anyamas – ou abóboras – e ervilhas. A recolecção dos tubérculos era intermitente, quando eram necessários, e a sua produção continua; porém para outros produtos existiam colheitas convencionais.

Mandioca ou yuca. Fonte: Internet.

Mandioca ou yuca. Fonte: Internet.

A mandioca ou yuca era sem dúvida o produto mais importante, sendo o seu sedimento nesta zona superior ao milho. Dela se obtinha uma espécie de pão, constituindo a base da dieta chamada cassava ou cazabe. Primeiro raiava-se a mandioca num raspador construído em madeira com lajes encaixadas; a pasta resultante era embutida num cilindro de palmeira chamado sebucán para extrair-lhe o sumo, que é altamente venenoso. Uma vez seca, a massa era aplanada e cozida sobre o buren ou budare – um prato de cerâmica largo que se punha ao fogo até obter uma tortilha delgada chamada cassava. Com uma parte do milho produzia-se chicha. O cultivo em montículos e conucos trouxe como consequência uma maior produtividade e um crescimento demográfico que se notou especialmente nas Antilhas Maiores; onde em algumas zonas a densidade da população chegou a ser bastante elevada. Outro espaço especializado de produção eram as hortas. Situadas em redor das vivendas e dentro dos povoados, nelas se cultivavam árvores de frutos, anoneiras, papaias, malaguetas ou pinheiros. Também produziam tabaco, que se consumia nas festas e algodão, que usavam para tecidos.

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Identificação das zonas de estabelecimento das etnias arawak e caribe. Fonte: Internet.

Além do mais existia a caça e a pesca: eram pescadores destros e inventaram novos artefactos, como redes e cestos de verga; também usavam o barbasco, um estupefaciente para peixes que deitavam à água nos rios, esteiros e lagoas. Consumiam particularmente a tartaruga verde – hicotea ou monocoy – e uma grande variedade de crustáceos como lagostas e caranguejos. O Manatim – ou peixe-boi – e outros grandes mamíferos aquáticos, entre outras variedades de grandes peixes, eram caçados com arpões desde as embarcações, acantonando-os entre os recifes e a costa. A caça constituía outra actividade importante para a obtenção de proteínas: ainda que não usassem o arco e a flecha, eram peritos com os dardos e as lanças. Eram também hábeis construtores de armadilhas para aves. O porco do monte – ou báquira – constituía uma das peças mais apreciadas, assim como os porquinhos-da-índia – ou cobayas – e as iguanas. Igualmente, completavam a sua dieta a recolecção de moluscos como búzios e ostras, das quais se formaram gigantescos concheiros. Também realizavam a recolecção de plantas silvestres, normalmente com fins medicinais, ou para tingir os tecidos de algodão: o urucueiro – que é um arbusto americano – para fazer o vermelho, o mamão que é um rebento do qual faziam o preto e o índigo para fazer o azul. Os corações de palmeira constituíam também parte da sua dieta, assim como as uvas do mar e os cocos, se bem que estas árvores de origem continental não estivessem tão completamente estendidas por todas as Antilhas, como o estiveram depois.

Ceramica arawak. Fonte: Internet.

Cerâmica arawak. Fonte: Internet.

Outra actividade era a produção artesanal: a cerâmica chegou a ser um dos signos da sua identidade, em diversas cores e com representações incisas ou pintadas. Possuíam uma ampla utilização doméstica, com tigelas de barro cozido, cabaças, bandejas de madeira de jagüey para recolher água, havas – ou cestas feitas de folhas de palmeira, macanas – ou clavas de madeira – para combater e redes para descanso feitas de piteira. As pranchas para caçabe – ou torta de farinha da raiz da mandioca – constituíram talvez o elemento mais característico. Além do mais, possuíam diverso mobiliário doméstico realizado em madeira negra e brilhante – ou duhos – e umas plataformas de madeira e couro para dormir ou descansar chamadas barbacoas. Os tecidos eram de algodão. Esticando a fibra sobre as pernas das tecedoras até obterem um fio delgado, com as quais realizavam peças de roupas finas e delicadas – as naguas – ou saias das mulheres casadas. As canoas constituíam outra das suas habilidades: construídas com cedros escavados, primeiro com laje e queimando o seu interior de seguida, eram formidáveis embarcações para a navegação pelo Caribe, percorrendo com elas grandes distâncias. Algumas podiam ser de grande tamanho, tendo capacidade para transportar mais do que cinquenta pessoas.

O que mais chamou a atenção dos primeiros europeus sobre os arawaks foram as suas peças de ouro: eram hábeis ourives, ainda que não existam sólidas evidências de que conhecessem a fundição ou outras técnicas mais complexas de metalurgia; obtinham o ouro nos rios e moíam as pepitas com pedras de cantos arredondados até obterem lâminas finas, que às vezes serviam para realizar peitorais, braceletes, argolas para se pendurarem no nariz, orelheiras, ou elmos com os quais cobriam as suas cabeças. Também realizavam finos colares com pedras de cores formosas, que assinalavam o estatuto que possuíam. Para alem disso, os objectos de ouro, pedras e outras manufacturas, como os tecidos, serviam para um extenso inter-cambio de produtos especializados; não apenas entre os diversos grupos territoriais, mas entre as ilhas e inclusivamente com o continente.

O chefe Caonabo massacra os homens de Colombo em La Natividad, 1493. Ilustração de Adam Hook. Osprey Publishing, 2001.

O chefe Caonabo massacra os homens de Colombo em La Natividad, 1493. Ilustração de Adam Hook. Osprey Publishing, 2001.

Quanto à sua organização política e social, a partir do ano 1.000 d.C. começaram a aparecer aldeias maiores tanto no Haiti como em Cuba e Puerto Rico. Isso demonstra que o modelo tribal de chefias variáveis em relação com as habilidades e capacidade física da liderança do caudilho mudou para chefias étnicas com poderes sobre grupos extensos; âmbitos territoriais marcados precisamente e claros sintomas de teocracia, gerando cada vez mais uma complexa hierarquização social dos dirigentes, sacerdotes, guerreiros, trabalhadores e servos. Cada povoação tinha o seu próprio cacique. No Haiti existiam uns trinta, à chegada dos espanhóis, dos quais cinco eram os principais: Caizcimu – que incluía Macoríx, Higüey, Yaguatas e Haitises a sudeste da ilha. Ao nordeste Huhabo que incluía os Ciguayos. Na zona centro-oriental, Cayabo e Cibao. Depois, na região centro-ocidental Baiona, o maior de todos incluindo áreas de Xaraguá, Yaguana, Guahaba, Haitiei, Guanabo e Yaquimo. A sudoeste da ilha Gucayarima, que compreendia também alguns indígenas tribais pré-agrícolas.

Em Cuba os territórios caciques encontravam-se também consolidados: de Este a Oeste, Maya, Baracoa, Macaca, Cuciba, Bayamas, Marriabón, Camagüey, Savaneque, Xagua e Habana. No Oeste cubano, por Pinar del Rio, existiam grupos pré-agrícolas conhecidos como siboneyes. Na Jamaica também existiam estes territórios caciques; inclusivamente no arquipélago das Lucayas – nas Bahamas – ao Norte de Cuba, eram numerosos os grupos arawaks assentes.

Praça central de povoação arawak. Fonte: Internet.

Praça central de povoação arawak. Fonte: Internet.

Em todos eles a estrutura social estava fortemente estratificada. Presidiam os caciques hereditários, transmitidos normalmente por linha materna, tendo um papel protagonista as mulheres da elite. Muitos destes chefes foram mulheres, algumas delas viúvas do defunto cacique. O cacique apoiava-se por um amplo grupo de descendentes, relacionando-se amplamente através da poligamia com outras famílias da elite: era o chefe religioso e também um líder guerreiro. Muitas das actividades da caça e pesca eram dirigidas pessoalmente pelo cacique, assim como as campanhas contra os caribes invasores. Debaixo da sua autoridade figurava um grupo de nobres chamados taínos, uma espécie de aristocracia guerreira. Finalmente os sacerdotes, que recebiam diversos nomes – como moján ou mohanes. À parte das famílias produtoras, que constituíam a maior parte da população, existiam também uns servos chamados naborías que realizavam trabalhos para os caciques.

A terra era entendida e trabalhada como um recurso comunal, com uma clara divisão do trabalho: nos conucos os homens trabalhavam a roça e fabricavam os montículos, caçavam, pescavam e defendiam o território. As mulheres capinavam o conuco – uma tarefa continua – colhiam e cuidavam das hortas, encarregando-se normalmente da manufactura dos têxteis. Todas estas áreas eram organizadas e definidas pelas elites, sendo enquadradas em rituais calendarizados, dirigidos pelos sacerdotes.

Reconstituição de povoado arawak. Fonte: Internet.

Reconstituição de povoado arawak. Fonte: Internet.

Os núcleos da população eram numerosos e dispersos. Alguns alcançaram números superiores às 2.000 pessoas e a densidade demográfica ao redor das zonas agrícolas foi muito alta. Cálculos aproximados sobre a população do Haiti para 1492 situam em volta de um milhão de habitantes, um pouco menos para Cuba e menos ainda para Puerto Rico – em função do tamanho desta última e porque as incursões dos caribes a tornavam menos estável.

As casas construíam-se em redor de uma praça, na clareira de um bosque e nunca perto das costas. As suas paredes eram de madeira, cana e barro – ou bahareque – sendo os tectos fabricados com folhas de palmeira entrelaçadas e atadas com raízes – ou bejucos – com uma chaminé – ou coronilla – para a saída do fumo. Eram circulares, por vezes constituindo a parede e o tecto a mesma peça em forma de sino, excepto a dos caciques que podiam ser rectangulares, com tecto de duas vertentes, sendo profusamente decoradas. Os bohíos ou casas circulares da elite, situavam-se em redor desta vivenda principal. Alguns bohíos podiam ser muito grandes, chamados caneyes, para grupos familiares extensos, sem paredes, com pilares de madeira e tecto de palmeira.

Na praça central realizavam-se as funções públicas, religiosas, rituais e festivas. Existia uma cerimónia, uma espécie de jogo de bola vinculado com os mesoamericanos, chamado batey, donde ficou o nome adstrito a toda a praça e, posteriormente, ao conjunto das habitações nos engenhos açucareiros antilhanos. Outra cerimónia eram os areitos, cantos e danças colectivas relacionados com as colheitas e os ritos da fertilidade, onde se memorizavam as tradições do grupo. Os enterros dos caciques constituíam também grandes solenidades, acompanhando o corpo, nas suas tumbas, muitos acessórios domésticos e rituais.

Representações em escultura de Zemís. Fonte: Internet.

Representações em escultura de Zemís. Fonte: Internet.

A vida religiosa era complexa e era dirigida pelos sacerdotes, a meio caminho entre os curandeiros, a adivinhação e a feitiçaria. Os seus deuses, chamados Zemís, eram seres sobrenaturais situados noutra esfera, com os quais o cacique e os sacerdotes comunicavam mediante a ingestão de alucinogénos. Durante o transe viajavam até à terra dos deuses, numa migração mágica que pode estar relacionado com a tradição destes povos, que tanto erraram durante séculos. Aí, tratavam com os Zemís dos assuntos e problemas da comunidade. Regressavam com conselhos ou instruções que eram seguidos por todos como mandamentos divinos, pensando-se que as decisões dos caciques procediam destes poderes sobrenaturais, sendo expressões das forças sagradas. A cohoba era um poderoso narcótico que os sacerdotes queimavam e inalavam, tendo o fumo poderes curativos. Cada Zemí possuía a sua própria personalidade e contava com uma tradição individualizada. Representavam-se com símbolos zoomorfos ou antropomorfos, considerados sagrados. Assim, figuravam por vezes pintados nos corpos dos guerreiros, ou gravados sobre peças de ouro, talhados nas canoas e em muitos outros objectos considerados rituais. Não possuíam grandes templos mas adoratórios, incluídos na povoação onde depositavam as figuras dos Zemís.

Como já dissemos, uma das características comuns dos arawaks foi a sua língua. A maior parte dos vocábulos das Antilhas Maiores eram arawaks, uma espécie de língua geral, tendo passado muitos deles para o castelhano.

Guerreiro caribe. Fonte: Internet.

Guerreiro caribe. Fonte: Internet.

A dos caribes foi a última grande migração procedente das costas orientais e centrais da Venezuela que chegou às Antilhas. Até aí tinham ido deslocando as populações arawaks e, em 1492 estavam a assaltar, assolando com intensidade, as costas de Puerto Rico e inclusivamente as do Haiti.

O seu habitat era constituído nas Antilhas Menores, grandes áreas da costa oriental da Venezuela e a ilha de Trinidad. Eram mais propensos à guerra que os arawaks e, ainda que existissem semelhanças no que se refere à cultura material, a sua belicosidade e agressividade transformou-os em terríveis vizinhos na região. Chegaram em grandes invasões às ilhas e foram-se sedentarizando muito rapidamente. Ao contrário dos arawaks, usavam o arco e flecha, muitas delas com aplicação de venenos, o que os tornava muito superiores em combate; particularmente frente aos siboneyes, a quem varreram completamente das ilhas mais pequenas, onde ainda permaneciam alguns grupos.

As suas embarcações eram também maiores, o que lhes permitia chegar mais longe e rapidamente. Por isso, tanto no mar como em terra, eram imbatíveis para os arawaks, que apenas se podiam defender opondo uma grande massa de combatentes. Podiam assim acabar por expulsar os invasores, porem à custa de muitas baixas em mortos e prisioneiros.

Os caribes não se estruturaram em torno de caciques hereditários, mantendo uma organização social e política de carácter mais tribal, porque os seus grupos não eram tão numerosos. A chefia baseava-se no valor demonstrado em combate: os triunfos bélicos davam prestígio e, mediante a divisão do saque obtido – alimentos e prisioneiros – conseguiam controlar ou subscrever um maior número de guerreiros ao seu grupo, com o qual as empresas a cometer podiam ser mais ambiciosas.

Fonte: Internet.

Fonte: Internet.

Os seus assentamentos eram pequenos e compreendiam menos de cem pessoas; uma aldeia podia compor-se por uma família extensa de um guerreiro de importância que residia com várias esposas, porque os chefes praticavam a poligamia e recebiam as mulheres capturadas na guerra. Praticavam a agricultura dos conucos, porém, nas suas contínuas expedições tendiam mais para a caça, a pesca e a recolecção. Eram as mulheres que se dedicavam ao cultivo e, dada a escassa experiência dos caribes nesta matéria, usavam para este fim as mulheres arawaks prisioneiras; por isso era raro matarem-nas nas suas incursões. Alem do mais, dado o escasso tamanho dos seus grupos originários, era um modo de evitar a monogamia. Os jovens guerreiros ficavam com elas ou entregavam-nas aos seus pais e avós para que os servissem. Os filhos destas mulheres convertiam-se em membros legítimos da comunidade, que se ampliava mais rapidamente do que por evolução natural do grupo primogénito. Este crescimento, sobretudo o número de varões, ajudava a um chefe de aldeia a ampliar o seu prestígio e a sua base política em relação com outros grupos caribes.

Reconstituição de habitação caribe. Fonte: Internet.

Reconstituição de habitação caribe. Fonte: Internet.

As suas vivendas eram conformadas por uma grande casa comunitária colocada  no centro de uma clareira ampla junto dos rios. Nela, o chefe, seus filhos políticos e seus filhos varões, passavam o tempo entre os períodos de caça, pesca ou entre as incursões que realizavam ocasionalmente. Aí, eram atendidos por suas esposas e filhos, que viviam num conjunto de pequenas casas e cozinhas construídas ao redor da grande choupana central: uma para cada esposa e para as cativas. Assim, os europeus logo escreveram sobre a existência de “casas de varões” e casas ou “ilhas de mulheres” entre os caribes. Como a maior parte das mulheres eram arawaks prisioneiras ou descendentes delas, os europeus comentaram também que os caribes tinham uma língua própria dos homens e outra das mulheres.

Do mesmo modo, um assunto que os europeus não deixaram de referir foi o dos seus rituais em torno da antropofagia. A meio caminho entre a realidade e a lenda, alguns autores anotam que se tratou de uma característica própria das suas necessidades alimentícias, derivadas da falta de proteína animal que, nas Antilhas Menores, dado o tamanho das ilhas e antes da introdução do gado europeu era impossível ou muito difícil de conseguir. Outros apontam a uma ritualidade guerreira, mediante a qual se conseguia a apropriação das virtudes do inimigo. Seja como for, o certo é que o seu suposto canibalismo foi completamente tirado de contexto pelos espanhóis, que se apoiaram nele para amplificar o conceito de “selvagem”, aplicado à belicosidade própria dos caribes e conseguir assim a legalização da sua escravatura, quando não o seu completo extermínio.

 

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March 29, 2013–February 01, 2015
“Cerámica de los Ancestros: Central America’s Past Revealed”
Smithsonian National Museum of the American Indian Exhibit

ceramic

Greater Nicoya female figure-vessel, AD 800-1200. Linea Vieja area, Costa Rica. Pottery, clay slip, paint. Photo by Ernest Amoroso, NMAI. (22/8837)

This bilingual (English/Spanish) exhibition illuminates Central America’s diverse and dynamic ancestral heritage with a selection of more than 160 objects. For thousands of years, Central America has been home to vibrant civilizations, each with unique, sophisticated ways of life, value systems, and arts. The ceramics these peoples left behind, combined with recent archaeological discoveries, help tell the stories of these dynamic cultures and their achievements. Cerámica de los Ancestros examines seven regions representing distinct Central American cultural areas that are today part of Belize, Guatemala, Honduras, El Salvador, Nicaragua, Costa Rica, and Panama. Spanning the period from 1000 BC to the present, the ceramics featured, selected from the museum’s collection of more than 12,000 pieces from the region, are augmented with significant examples of work in gold, jade, shell, and stone. These objects illustrate the richness, complexity, and dynamic qualities of the Central American civilizations that were connected to peoples in South America, Mesoamerica, and the Caribbean through social and trade networks sharing knowledge, technology, artworks, and systems of status and political organization. This exhibition is a collaboration of the Smithsonian’s National Museum of the American Indian and the Smithsonian Latino Center.

W. Richard West, Jr. Contemporary Arts Gallery
Smithsonian National Museum of the American Indian
Independence Ave SW (4th St, Maryland Ave, Jefferson Dr SW),
Washington, DC

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Caribe-1

Situado na costa do Caribe da Colombia, nas alturas da Sierra Nevada de Santa Marta – que alcança cotas superiores aos 5.800 m – produziu-se um importante desenvolvimento urbano único em toda a região. Dada a diversidade de altitudes, a zona apresenta uma grande variedade ecológica, desde os areais e as zonas com salitre na costa até às neves montanhosas. A região foi muito densamente povoada. Ainda nos nossos dias, os seus descendentes, os indígenas kogí, aruacos ou arsarios, conservam uma boa parte das suas características culturais.

Histórica e arqueologicamente, a região atravessou duas fases antes de 1492: a Pré-tairona, nas zonas baixas a partir de 600 d.C. e a fase Tairona, nas zonas altas, desde essa data até à invasão europeia, alcançando o seu esplendor depois de 1000 d.C. Esta segunda fase é a de maiores esforços construtivos, com muitas infra-estruturas realizadas em pedra, entre as que se destaca Buritaca ou Ciudad Perdida.

A cultura tairona origina-se numa confederação de aldeias submetidas à autoridade de vários chefes de uma mesma linhagem. Eram vários territórios caciques independentes, porém unidos por uma história comum; uma saga que se remontava à noite dos tempos.

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O urbanismo reflecte as hierarquias existentes no seio da sociedade teocrática tairona, onde a elite era formada pelos cacíques de uma poderosa casta sacerdotal – os naomas. Ainda se podem contemplar, nos nossos dias, vivendas sumptuosas de pedra, recintos cerimoniais e espaços públicos ou praças que se articulam com oficinas artesanais, depósitos, casas unifamiliares e terraços de cultivo numa labiríntica disposição; ficando todos os elementos ligados através de tortuosos e empinados caminhos de laje e pedras que asseguram a circulação interna nas alturas.

Realizando uma excelente utilização dos distintos nichos ecológicos da verticalidade, estes laboriosos povos, puderam intercambiar sal, pescado, moluscos, mandioca, auyamas – uma espécie de abóbora – feijões e frutas das zonas baixas, com milho das zonas regáveis intermédias – onde praticaram a agricultura intensiva – ou com coca procedente das terras altas e frias. O calendário agrícola e cerimonial, bem complexo pelo que significava utilizar tal diversidade de micro ambientes produtivos, foi certamente utilizado pelos sacerdotes, que tiveram uma grande influência sobre a sociedade.

As distintas parcialidades eram governadas por chefias principais e chefias menores, divididas em bairros, cada um com a sua casa cerimonial que também funcionava como depósito. As personagens importantes eram enterradas perto dos lugares sagrados e os comuns dentro de suas casas.

A ourivesaria alcançou um desenvolvimento notável. Peças de ouro – relacionado com o sol e a fertilidade – pedras preciosas e cerâmica mostram homens e animais tanto em atitudes sagradas como profanas. Eram especialistas em manufactura de contas de colar que intercambiavam com outros povos situados em regiões remotas. Colares, pescado, sal da costa e conchas marinhas eram trocados por ouro e esmeraldas das zonas chibcha e muisca. Assim, é normal que nos objectos taironas apareça o ouro do interior trabalhado pelos ourives locais junto com esmeraldas procedentes da actual Antioquia; sendo que caciques muiscas e chibchas adornaram-se com conchas nacaradas procedentes das costas de Santa Marta.

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Podemos comparar a ourivesaria tairona à mestria dos ourives mixtecas do México central, tendo criado desenhos de um formalismo original e de uma estética excepcional. Dominaram a fundição, o cinzelado, a filigrana, a soldadura e o dourado. As jóias tairona são esculturas em pequeno formato, transcendem o facto puramente ornamental, possuindo uma dialéctica particular: jóia adorno-escultura conformando um todo morfoespacial de notável presença onde as formas tridimensionais comportam filigranas com desenho e fabrico cheio de preciosismo. Mostram um Intimismo purificado de estilo Abstracto-Figurativo, Barroco e Super-realista, sendo o mítico o fundamento criativo e o icónico a sua função.

Merecem um especial comentário os peitorais antropomórficos com rostos conectados com o morcego mais um enorme toucado, relacionado com a borboleta, a ave e o felino. Como veremos mais à frente, aprecia-se aqui uma evidente simbologia cósmica de transcendência metafísica.

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 A cerâmica possui similares qualidades criativas porem com um desenho próprio, separado formalmente das jóias e onde se aumentou o critério Barroco. Como norma, apresentam divindades e personagens da sua sociedade.

 Os seus mitos fundadores dão ideia da complexidade da sua cosmogonia: no princípio dos tempos, o mundo foi criado por uma divindade réptil cujos filhos foram fundadores das distintas linhagens taironas.  Logo o sol – o jaguar – e o morcego – o sol subterrâneo, a noite – dividiram o tempo, que é representado por uma serpente de duas cabeças. Então, as aves negras voaram situando a cada clã no seu território. As demais aves levaram o necessário: o colibri trouxe a coca, a águia a yuca, o carrapato as árvores e as flores, a arara o milho…  O sapo é o símbolo feminino: é o centro, o corpo, a fertilidade da terra; o cosmos está orientado segundo o nascer e o pôr-do-sol, cujos solstícios e equinócios, medidos pelo alinhamento de determinadas pedras sagradas, marcam as épocas de semear e das colheitas. O caracol mostra, nas suas espirais, a circulação da vida. Os taironas foram seguramente o povo mais evoluído, neste sentido, de todo o Caribe.

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Caribe-007

A região americana conhecida genericamente como a área do Caribe compreende um conjunto de territórios insulares e continentais que possuem características bem definidas. Apesar de situar-se entre as duas grandes massas continentais do Norte e do Sul do continente americano, tem constituído e constitui um espaço histórico e cultural independente e singular.

Unidade e diversidade encontram-se na região do Caribe com características muito vincadas. A sua marca geral de referência, por exemplo, é distinta de outras áreas da América: não se encadeia através de vales, montanhas e planaltos, como a Mesoamérica; tão pouco se estende sobre a bacia de grandes e caudalosos rios, como a Amazónia ou o rio da Prata; nem se articula numa região de grandes cordilheiras, como a região andina. Aqui, a referência, que por sua vez une e separa, é o mar: um mar interior que os espanhóis denominaram de mar dos Caribes, assinalando o nome de um dos grupos étnicos que o habitavam. Habitar um mar pode ser um contra-senso, porém neste caso não é assim. Por esse mar navegaram, migraram, houve intercâmbio de produtos e relacionaram-se de forma pacífica e violenta povos vigorosos que elaboraram complexas formas de articulação política, social e económica, alcançando diversos graus de desenvolvimento cultural. Ainda que as suas realizações materiais se mostrem menos impressionantes que as alcançadas pelas civilizações mesoamericanas e andinas, nem por isso, desde logo, deixam de ter importância e relevância na história do continente Americano.

 Em geral podemos afirmar que o Caribe foi uma região de grandes e continuas migrações de povos procedentes de dois focos distintos: um do litoral da América Central desde a Nicarágua, Costa Rica e Panamá, mais a costa Norte colombiana e o noroeste da Venezuela. E outro, do nordeste da Venezuela, o Norte do rio Orinoco e da bacia amazónica.

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Os arqueólogos estimam que entre 10.000 e 8.000 a.C. certos grupos adaptados às zonas costeiras da América Central haviam avançado pelo litoral em direcção ao Sul, até alcançar o istmo do Panamá, continuando a dirigir-se para o Este, bordeando a costa do Caribe das actuais Colômbia e Venezuela, enquanto outros grupos seguiram descendo para o Sul, ao longo da costa do Pacífico. Os que se assentaram nas costas continentais do Norte, ou se introduziram no curso baixo dos rios que vertem o Caribe – como o Atrato, Urabá ou Magdalena – ou pelas margens do lago Maracaibo, eram caçadores-recolectores com experiência na caça da mega fauna. Estes grupos eram possuidores de instrumentos líticos poderosos como as pontas grossas de projécteis em forma de folhas de salgueiro, que são as que aparecem no sítio arqueológico de El Jobo na Venezuela. Ao retirar-se ou a ser exterminada a mega fauna da região, estes grupos viram-se obrigados a evoluir para a recolecção de raízes, tubérculos e frutos silvestres; aproximando-se cada vez mais da costa, baseando uma boa parte da sua subsistência na recolecção de produtos marinhos. Provavelmente este processo deve ter começado por volta de 5.000 a.C., porque são desta data os depósitos arqueológicos mais antigos da zona costeira, concheiros – grandes acumulações de conchas marinhas, produto do consumo intensivo e colectivo – nos pantanais e nas desembocaduras dos rios.

Porém, por volta de 4.000 ou 3.000 a.C. outros grupos de caçadores-recolectores de alimentos vegetais e animais, estendidos ao longo do litoral da América Central, ao verem-se impossibilitados de seguir descendo para o Sul devido à sedentarização dos grupos anteriores que bloquearam a zona do istmo, parece que se viraram para as ilhas desde as costas da Nicarágua, chegando até à Jamaica e daí à La Española, inclusivamente até Cuba. Denominados «paleoíndios» por alguns especialistas, possuíam uma base tecnológica que respondia à sua experiência anterior, ou seja, uma mistura de recolecção e caça da mega fauna, que obviamente não realizaram nas ilhas, pelo que evoluíram para a pesca marítima.

No entanto, as migrações continuaram. Depois de 1.000 a.C., outros grupos cultural e tecnicamente mais avançados, conhecidos como «mesoíndios» e erradamente chamados por outros autores «siboneyes», organizados em redor de sociedades tribais e procedentes das costas venezuelanas, começaram a deslocar-se para as Antilhas Menores, desde Trinidad saltando de ilha em ilha ou cruzando directamente o mar, até chegarem a Puerto Rico, La Española e ao oriente de Cuba. Desconheciam a agricultura e sustentavam-se de peixes, crustáceos, moluscos, tartarugas, iguanas, manatins… Eram igualmente recolectores de produtos vegetais nos bosques e, ao que parece, não conheciam a cerâmica. Nas ilhas desalojaram os paleoíndios para zonas mais abruptas ou absorveram-nos.

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A migração seguinte sobre as ilhas veio a produzir-se nos primeiros séculos da nossa era. Foram os chamados «neoíndios» por alguns especialistas, «ostinoides» por outros ou «taínos» por outros ainda. Esta última acepção resulta antiquada porque, como veremos, os taínos era um estrato social e político entre os arawaks. Porém, desde há muito a literatura arqueológica do Caribe diferenciou os grupos pré-agrícolas como siboneyes e aos grupos agrícolas mais tardios como taínos e todavia assim aparecem em algumas publicações.

Os neoíndios ou ostinoides deslocaram os mesoíndios pela sua tecnologia superior e, além do mais, pelo seu número, que era bastante elevado. Conheciam a agricultura e a cerâmica e eram extraordinários marinheiros. Eram compostos por dois grupos étnicos diferentes que chegaram também em duas vagas distintas: primeiro os povos conhecidos genericamente como arawaks, que avançaram e ocuparam as Antilhas Maiores. De seguida os caribes, que chegaram posteriormente, instalando-se nas costa do Este venezuelano e nas Antilhas Menores.

Os dois grupos procedem das regiões Norte e nordeste da América do Sul. Os arawaks eram mais peregrinos e de maior impacto como difusores da cultura mais complexa da região. Procedentes do Amazonas médio e inferior, haviam chegado até ao Orinoco, subindo daí para a costa Este da Venezuela. Deviam as suas contínuas peregrinações, à parte do empurrão que sofriam por parte de outros povos desde o Sul das selvas continentais; ao tipo de cultivo que realizavam, a roça ou abate, a queimada do bosque e à intensa recolecção que efectuavam estes grandes grupos. Isto obrigava-os há deslocação permanente: por um lado, pela esterilização dos solos que provocava o cultivo intensivo que exerciam sobre a zona queimada do bosque, impondo-lhes a mudança para outra área da selva para começar de novo. E por outro, pela intensa recolecção que realizavam esgotando rapidamente a zona, o que os obrigava a deslocar-se cada vez mais longe em busca de frutos. Eram grupos familiares extensos que se organizavam em aldeias, com predomínio da identidade tribal. Na sua peregrinação para Norte, alcançaram a actual costa Este venezuelana, alcançando desde aí a ilha de Trinidad, onde se instalaram. A partir de Trinidad, passando por Granada, Martinica, Guadalupe e as Islas Vírgenes, chegaram a Puerto Rico. Não se ficaram pelas Antilhas Menores porque o reduzido tamanho do seu espaço agrícola os impedia do cultivo intensivo, dependendo este do abate e queima que até então realizavam.

Indígena Caribe.

Indígena Caribe.

Nas Antilhas Maiores, ao contrário, encontraram um espaço magnífico para se desenvolverem, expulsando para outras zonas os indígenas pré-agrículas que encontraram. É possível que outros grupos arawaks chegassem também às ilhas grandes cruzando o mar, desde a península de Paria, e ainda outros ostinoides desde a actual costa colombiana. Nessa altura parecia estendido pelo Caribe o sistema de cultivo em montículos – consistindo em empilhar a selva abatida e o húmus em determinados lugares, misturando tudo com terra, semeando sobre estes montículos; deixando assim a zona abandonada. Esta aplicação nas Antilhas tornou-os sedentários.

De Puerto Rico passaram á La Española, onde se estabeleceram os grupos mais numerosos e evoluídos; ainda que outros se expandissem também para Cuba e Jamaica criando um grande espaço cultural arawak que seria o que encontraram os europeus em 1492. Os seus primeiros assentamentos eram perto do mar, porém logo penetraram nas ilhas buscando os vales e as savanas para estabelecer os seus cultivos. A sua organização evoluiu para formas mais complexas abandonando as chefias tribais e adquirindo características caciquistas. A sua língua comum foi um factor de uniformidade.

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 A outra migração, posterior a esta, foi a dos Caribes. Procediam da região das Guianas, ocupando a costa Este da Venezuela e as Antilhas Menores. Tratou-se de uma verdadeira invasão, porque estes grupos de emigrantes eram muito mais agressivos do que os anteriores. As movimentações caribes chegaram inclusivamente aos povoados arawaks de Puerto Rico e La Española. Foram inimigos encarniçados: uns porque assolaram as terras agrícolas arawaks; outros porque se defendiam das contínuas razias em que lhes saqueavam os armazéns roubando-os, sobre tudo às suas mulheres. Fundamentalmente caçadores, os caribes praticavam uma agricultura rudimentar para a qual utilizavam, precisamente, as prisioneiras arawaks porque estas conheciam as técnicas dos montículos. Também possuíam uma língua própria, ainda que usassem vocábulos arawaks. Em Trinidad e Tobago parece que chegou a produzir-se uma certa coexistência entre ambos os grupos.

 Processos similares migratórios sucederam-se no continente. Diversos povos desceram de Norte para Sul pelas costas da América Central até chegarem ao istmo do Panamá, onde se instalaram numerosos e importantes grupos de agricultores – combinando a roça e recolecção, caça e pesca – alcançando um alto grau de desenvolvimento na região de Darién. Igualmente aconteceu na costa da actual Colômbia, onde encontramos assentamentos humanos altamente complexos, que dariam lugar há cultura Zenú, de influência Caribe, ou há Tairona, contactada com os grupos Chibchas do interior. Na Venezuela, as sociedades tribais evoluíram para formas caciquistas de maneira que, quando se produziu a invasão europeia, toda a região vivia um momento de grande ebulição e de consolidação das sociedades agrárias; algumas das quais já haviam adquirido formas de senhorio étnico e teocrático.

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