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Archive for the ‘Cidades Ameríndias’ Category

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Os dois sectores de Cuzco, a cinzento claro hanan e a cinzento escuro hurin. Fonte: Internet.

Os incas viam Cuzco (em língua quechua Qusqu ou Qosqo) como uma cidade sagrada e estruturaram-na de acordo com os princípios cosmogónicos andinos, que incluíam a organização dual como a unidade do poder político-religioso. Assim, a capital estava dividida em sector alto, hanan, e sector baixo, hurin, sendo que cinco linhagens reais ocupavam cada sector. As linhas de fronteira que enquadravam o Tawantinsuyu tinham origem na praça principal da metrópole. Uma linha divisória corria sensivelmente no eixo Norte-Oeste-sudeste ao longo do eixo da Via Láctea, enquanto a outra fronteira proseguia um curso perpendicular.

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O centro quadripartido de Cuzco. Andes Précolombiennes. Éditions Hazan, 2010.

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Cuzco central em 1530. 1-Saqsawaman. As grandes praças duais de 2-Haukaypata, 3-Kusipata. 4- Aqllawasi e 5-Qorikancha. The Incas. Thames & Hudson, 2011.

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Os quatro quadrantes de Tawantinsuyo, na sua máxima expansão. A amarelo-Qollasuyu. Rosa-Antisuyu.Violeta-Kuntisuyu. Laranja-Chinchaysuyu. The Incas and their Ancestors. Thames & Hudson, 2001.

Consequentemente, Cuzco situava-se no centro das quatro direcções, a meio caminho entre as terras baixas do deserto e da selva, perto do Nudo de Vilcanota, que dividia a serra Norte do planalto Sul.  Tawantinsuyu ou o “lugar das quatro regiões” era um território que abarcava desde a costa do Pacífico até às terras altas, tanto centrais como meridionais, vindo desde o Norte do Equador até ao rio Maule no Sul do Chile, compreendendo o Sul boliviano e o noroeste argentino.

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Reconstituição do Qorikancha. Andes Précolombiennes. Éditions Hazan, 2010.

Por causa da primazia de Inti (o deus do Sol) e da sua manifestação humana no governante Inca, o Qorikancha, ou o templo do sol em Cuzco, encontrava-se como o altar mais importante do império, seguido por outros no lago Titicaca e em Pachacamac. Alem do Qorikancha, os Incas dedicaram três outros templos em Cuzco ao sol. Alguns poderão ter funcionado também como observatórios solares, incluindo Saqsaywuaman, que Cieza descreve como “a casa do sol”.

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Idealização do interior do Qorikancha. Ilustração de Jeronaton.

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Restos arqueológicos do Qorikancha na actualidade. Fonte: Internet.

O Qorikancha servia como um modelo conceptual para uma rede de templos através do império, convivendo, no entanto, com outras crenças regionais. Os templos do sol recebiam doações de especialistas religiosos – os aqlla – facultando terras, muitas das quais devotadas ao cultivo do milho, assim como pastagens para sustentar rebanhos de camélidos. Como em todos os centros de peregrinação, apenas os mais devotos podiam entrar no santuário interno do Qorikancha, depois de jejuarem dispensando o sal, a carne, picantes e relações sexuais durante um ano; podendo apenas entrar descalço e trazendo um fardo, como sinal de submissão e reverencia.

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Planta do Qorikancha. The Incas. Thames & Hudson, 2011.

O calendário lunar de doze meses consistia em 354 dias – onze dias mais pequeno que o do ano solar de 365.25 dias; possivelmente um mês de intercalação foi adicionado para reconciliar os dois calendários. As gentes comuns usavam o calendário lunar mais simples assim como as observações estelares e solares. A elite de Cuzco, no entanto, estabeleceu um novo calendário fixado e determinado por observações solares. Existem indicações que, à medida que o culto ao sol se espalhava, o tradicional calendário lunar era substituído ou encaixado com o novo calendário solar. O calendário solar não só alicerçava a autoridade ritual em Cuzco, mas também pressuponha a ligação especial entre o Inca governante e o sol.

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Observadores del cielo en el México antiguo. Anthony F. Aveni. Fondo de Cultura Económica, 2005.

Em Cuzco, pares de pilares em pedra rectangular colocadas nos horizontes, a Oeste e a Este, fixavam o entardecer e amanhecer dos solstícios de Verão e Inverno. O numero de pilares reportado pelos cronistas varia de oito a dezasseis, e deveriam de ser suficientemente altos para serem vistos por aqueles que se reuniam na praça principal de Cuzco.

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Saqsaywaman. Discovering Art. Great Britain, 1965.

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Saqsaywaman. Fonte: Internet.

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Saqsaywaman e o seu entorno. Discovering Art. Great Britain, 1965.

Na sua terra pátria à volta de Cuzco, a alvenaria dos incas toma várias formas; em dado momento, acreditou-se que elas indicavam diferenças de idade mas sabe-se agora que todas datam do grande período do século XV. As diferenças dependem fundamentalmente da função. Existem dois tipos principais: um composto de blocos poligonais, geralmente de grande dimensão, e o outro de fiadas regulares de pequenos blocos rectangulares com as junções emalhadas. O tipo poligonal é usado principalmente para muros de cerca maciços e para os principais muros de suporte de terraços, sendo o melhor exemplo as três plataformas do grande parapeito de Saqsaywaman, que domina a cidade de Cuzco, contém pedras com uma altura superior a seis metros. O tipo rectangular é geralmente usado em edifícios e, o melhor de todos, raso, sem as junções emalhadas, deriva dele e usava-se em construções especiais. Um exemplo do último é a famosa parede curva situada debaixo da parede do santuário da igreja dominicana em Cuzco, até que o terramoto de 1950 a libertou daquela carga.

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A parede curva do Qorikancha. Fonte: Internet.

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Ilustração de RSE para a revista Finding Out, Londres 1966.

A noção de uma cidade habitada exclusivamente por nobres, ou pela classe alta, juntamente com uma cota de yanas (escalões mais baixos do aparelho administrativo) agindo como serventes é difícil de conceber na prática. Cuzco, vista como um todo, era razoavelmente extensa; a questão é saber que outros elementos inseriam a população. Rowe cita testemunhas afirmando que não havia pobres em Cuzco; ele concorda que essa declaração não deve ser vista excluindo os yanas. No entanto, estas testemunhas reportavam-se às duas metades de Cuzco central, hurin e hanan. A sua observação não inclui a zona que se estendia para além da fortaleza de Saqsaywaman, que não era composta apenas por residências dos Incas por privilégio mas também a periferia da “grande Cuzco”. Esta área não era habitada por patrícios mas mais por plebeus, membros de um leque mais abrangente de grupos sociais.

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Uma imagem idílica da cidade de Cuzco em forma de Puma. A cabeça encontra-se na elevação onde se localiza as muralhas de Saqsaywaman. Fonte: Internet.

Relatórios iniciais descrevem a grande quantidade de ouro e artistas que trabalhavam a prata em Cuzco, assim como muita produção feita com penas e uma quantidade maciça de cerâmica. Adicionalmente, a construção de edifícios em Cuzco e muitas outras formas de labor público implicavam a presença de uma força de trabalho especializada. Parte deste trabalho poderia ser fornecido a partir dos súbditos de kurakas (linhagens corporativas) próximos que viviam fora dos limites da própria capital. Provavelmente a categoria mais comum de mão de obra era chamada mit’a, compreendendo elementos competentes de senhorios que trabalhavam sazonalmente.

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Reconstrução de uma kancha de estilo inca, onde um módulo na cidade continha tipicamente duas kanchas, cada uma composta de quatro edifícios ladeando um pátio central. Fonte: Internet.

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O Sapa Inca possuía muitos palácios espalhados pelas cidades mais importantes do seu império. Estes palácios eram formados por uma profusão de edifícios construídos à volta de pátios. Os Incas. Círculo de Leitores, 1981.

Com milhões de súbditos masculinos disponíveis, o serviço de mit’a conferia a Tawantinsuyu uma economia de trabalho intensivo que podia ser visto no esplendor monumental de Cuzco. De facto, uma força rotativa de 20.000 trabalhadores foi empregue por décadas para erguer Saqsaywaman, a grande acrópole de pedra ciclópica coroando a capital imperial. No entanto, a maioria da força de trabalho consistia nos mitmaq, que eram povos de outras regiões transportados em massa para o vale de Cuzco. Cieza, escrevendo obviamente fora de Cuzco, afirma que grande parte da cidade está cheia de estrangeiros que têm sido empregados aí desde o reinado de Pachakuti; no tempo de Cieza gente vinda do Equador, trazidos originalmente em grupos de mitmaq, ainda estavam presentes em Cuzco. Estes migrantes faziam todos parte da força de trabalho disponível. Cieza também menciona que os rebanhos pessoais do Inca eram atendidos por mitmaq.

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A cidade de El Tajin localiza-se a Norte da cidade portuária de Veracruz. Esta urbe situa-se nas montanhas mais baixas que se juntam à Sierra Madre Oriental, até à costa do Golfo do México, perto do rio Tecolutla. Nos tempos antigos, a cidade estava localizada no canto nordeste do território que é designado por Mesoamérica; controlando uma área desde o centro dos rios Cazones e Tecolutla, até ao estado moderno de Puebla.

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Mapa de José Conesa. Office du Livre, Suíça 1982.

O centro da cidade é definido por duas ribeiras que se fundem para formar o Tlahuanapa Arroyo, uma corrente tributária do rio Tecolutla. Estas duas ribeiras providenciaram a população de água potável. A maior parte dos edifícios encontram-se na área Sul, onde a terra é relativamente plana e as duas ribeiras convergem. O assentamento estende-se para noroeste onde foram construídos terraços para erguer mais edifícios para a elite da cidade. Contudo, a cidade também tinha comunidades localizadas nas montanhas circundantes, a Este e a Oeste do centro urbano, onde se encontravam as habitações das classes mais baixas.

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Ilustração de Luis Rosales. Ediciones Corregidor, Argentina 2005.

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Arqueologia Mexicana Vol. VIII – numero 44. Editorial Raíces, México 2000.

O nome de El Tajin tem sido interpretado como “O Trovão” ou “O Raio”, derivando da crença totonaca que doze senhores da tempestade do trovão, conhecidos colectivamente como “Tajin”, viviam por entre as ruínas. Este nome também tem sido traduzido por alguns totonacas como querendo dizer “O lugar dos seres ou espíritos invisíveis”.

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Estrutura arquitectónica ornamentada com nichos abertos e preenchidos com motivos de gregas escalonadas. Fotografia de Tempo Ameríndio.

 El Tajin faz parte do Património Mundial desde 1992, sendo que a sua arquitectura é única na Mesoamérica, caracterizada sobretudo por elaborados relevos esculpidos nas colunas e nos frisos; além dos elementos arquitectónicos que caracterizam as fachadas das estruturas monumentais, ornamentados com nichos, abertos ou preenchidos com motivos de gregas escalonadas. Ao contrário dos padrões de grelhas rígidas das antigas cidades do centro do México, os construtores de El Tajin desenharam e alinharam os edifícios como unidades individuais.

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A Pirâmide dos Nichos. Arqueologia Mexicana Vol. VIII – numero 44. Editorial Raíces, México 2000.

 No primeiro século d.C. iniciaram-se as primeiras construções de pirâmides, em particular com a principal de entre estas, nesta fase desprovida dos nichos que lhe dariam mais tarde o nome. O seu primeiro estado remonta a 300 da nossa era. O desenvolvimento da cidade acelera-se entre 400 e 800 d.C., época em que a sua superfície totalizava cerca de 10 km2. Esta fase classifica-se como o apogeu Clássico da urbe, se bem que desde 600 d.C. El Tajin já era uma cidade por direito próprio. Tudo indica que no século IX, por volta de 818, uma vaga de invasores totonacas penetrou em Veracruz, onde se estabeleceram. Os totonocas vão habitar a cidade que parece conhecer um eclipse temporário.

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Mural de Diego Rivera representando um hipotético encontro entre pochtecas colhua mexica com responsáveis totonacas. Fonte: Internet.

 O rápido florescimento de Tajin deve-se à sua posição estratégica ao longo das antigas rotas comerciais mesoamericanas. Ela controlava o fluxo de comodidades, tanto exportações como a baunilha, como importações de outras localidades no que é hoje o México e a América Central. Sem surpresas, nos primeiros séculos da história da cidade, os objectos provenientes de Teotihuacan são abundantes. No entanto, de 600 a 1200 d.C., El Tajin foi uma cidade próspera, controlando muito do que é o moderno Estado de Veracruz. A cidade-estado era altamente centralizada, com a cidade em si tendo mais de 50 etnias a viver no seu âmago. A maioria da população vivia nos montes circundantes ao centro monumental, sendo que a cidade obtinha muitos dos seus bens alimentares das áreas de Tecolutla, Nautla e Cazones. Estes campos não produziam somente viveres como o milho e feijões como também bens luxuosos como o cacau. Um dos painéis na Pirâmide dos Nichos mostra uma cerimónia desenrolando-se numa árvore de cacau. A religião era baseada no movimento dos planetas, das estrelas, do Sol e da Lua; com o jogo de bola e o pulque assumindo papeis extremamente importantes. Isto levou à construção de muitas pirâmides e templos, alem de 17 campos de jogo de bola, mais do que em qualquer outro sítio mesoamericano. A cidade começou a ter uma extensiva influência por esta altura, que pode ser melhor observada na povoação vizinha de Yohualichan, cujos edifícios apresentam os nichos que definem El Tajin. Evidências da influência da cidade podem ser vistas ao longo da Costa do Golfo em Veracruz até à região maia e para o interior do planalto central mexicano.

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A zona da cidade onde se encontra a Pirâmide dos Nichos, ao fundo à direita. Fonte: Internet.

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Um aspecto notável da construção de El Tajin é a utilização de  cimento derramado em formas. Fragmentos que sobreviveram do Edifício C no Tajin Pequeno mostram um exemplo de construção com telhados feitos de cimento. O trabalho final apresenta uma espessura quase de um metro, praticamente liso. Enquanto este tipo de telhados de cimento é comum nos nossos dias, ele era único no mundo mesoamericano de então. O cimento também foi usado no único edifício com dois andares de Tajin, a Estrutura B, como tecto assim como separador entre o chão e o primeiro andar. A imagem apresenta uma reconstrução deste edifício, disponível na internet. O único exemplo conhecido de uma construção com dois andares encontra-se no território maia. Uma outra característica sem par em Tajin é que várias residências têm janelas colocadas para permitir a entrada de ar fresco nos dias de maior calor.

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Nesta fotografia podemos observar o largo do mercado que se situava no campo relvado, em primeiro plano,  circundado por quatro estruturas piramidais. Arqueologia Mexicana Vol. VIII – numero 44. Editorial Raíces, México 2000.

 No final do Período Clássico, El Tajin sobreviveu ao colapso social que se generalizou, com migrações e destruições que forçaram ao abandono de muitos centros populacionais no final deste período. El Tajin atingiu o seu pico após a queda de Teotihuacan, conservando muitos dos traços culturais herdados por essa civilização. O apogeu regista-se portanto durante o Epi-Clássico, de 900 a 1000 d.C. Esta designação é usada pelos arqueólogos para caracterizar o Período Clássico-Tardio, sobretudo após a queda de Teotihuacan e como momento de transição para o inicio do período seguinte, o Pós-Clássico. Já nesse período, existem claras evidências de que os toltecas tiveram influência directa em El Tajin. Com efeito, é deste período totonaco-tolteca que datam algumas realizações do Pequeno Tajin, em particular o Templo das Colunas, assim como os baixos-relevos do campo de jogo de bola Sul. Depois disso, a cidade sucumbe destruída pelo fogo, presumivelmente ateado por uma força invasora; tendo sido abandonada em 1230 d.C., talvez em parte devido a ataques levados a cabo por chichimecas, vindos dos desertos do Norte. Os totonacas estabeleceram-se no assentamento vizinho de Papantla após a queda de El Tajin; esta foi deixada para a selva e manteve-se silenciosamente coberta durante mais de 500 anos.

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Campo de jogo de bola em El Tajin. Fonte: Internet.

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Campo de jogo de bola Sul, onde se encontram vários baixos relevos narrativos, alusivos ao jogo e sua mitologia. Fonte: Internet.

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Relevo do painel noroeste do campo de bola Sul. Ilustração de José Conesa. Office du Livre, Suíça 1982.

O Tajin Pequeno é uma porção multi-nivelada da cidade que se estende de Norte para noroeste, desde a aparte mais antiga da cidade até subir uma colina. Muita desta secção foi criada artificialmente. É uma imensa acrópole composta por numerosos palácios e outras estruturas civis. Existem relativamente poucos templos aqui, apesar de esta zona ter pertencido ao centro da cidade. A Este de Tajin Pequeno existe uma área com piso de planície. Aqui encontra-se a Grande Xicalcoluihqui, que é um muro que visto de cima forma uma grega escalonada gigante, numa área de 12. 000 m2. Esta estrutura é única na Mesoamérica e contem dois ou três pequenos campos de jogo de bola.

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Pormenor da lustração de Luis Rosales. Ediciones Corregidor, Argentina 2005.

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Vista do Templo das Colunas reconstituído por Garcia Payon. Ilustração de José Conesa. Office du Livre, Suíça 1982.

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Secção ainda existente do muro que desenha a Grande Xicalcoluihqui. Fotografia Tempo Ameríndio.

El Tajin apresenta um estilo de harmonia invulgar dentro dos cânones arquitectónicos mesoamericanos. Fonte: Internet.

 

 

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Damos início, com esta entrada, a uma nova categoria neste blogue que se chamará Cidades Ameríndias, abordando os centros urbanísticos mais relevantes da América Antiga.

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Mapa que nos mostra as diversas culturas que se desenvolveram entre a região dos Grandes Lagos e o Golfo do México. A cidade de Cahokia está assinalada a vermelho. Fonte: Internet.

O nome indígena da primeira grande cidade aqui abordada é, na realidade, Twakanhah, sendo mais conhecida pelos estudiosos com o nome de Cahokia. No seu auge, no século XII, esta povoação localizada ao longo da margem do rio Mississípi, no Oeste do Illianois, alguns quilómetros a Leste da actual Saint Louis, exercia um controlo económico, cultural e religioso sobre uma larga faixa no coração do Sudeste da América do Norte.

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Arte: Greg Harlin. Fontes: Bill Iseminger and Mark Esarey, Cahokia Mounds State Historic Site; John Kelly, Washington University in St. Louis. National Geographic Site.

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Plano da zona paliçada de Cahokia. Imagem do arquitecto Dennis R. Holloway © 2009.

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Mapa do sítio arqueológico central da cidade, actualmente. Fonte: Internet.

Ao longo do tempo o milho tornou-se numa cada vez mais importante actividade agrícola, provendo as quantidades de excedentes necessárias para alimentar grandes populações a par de muitas outras fontes vegetais e animais que contribuíram para a dieta geral. Esta base alimentar permitiu o suporte de populações muito numerosas e, à medida que este números e densidades aumentaram, a ordem social tornou-se mais complexa. Desenvolvendo-se de forma mais definida classes sociais e hierarquias; ouve um incremento na especialização e divisão do trabalho. As alianças políticas tornaram-se mais relevantes; o comércio foi altamente especializado; os conflitos e mesmo a guerra entre grupos políticos aumentaram, possivelmente alimentadas pela competição por recursos ou território.

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Erecção do Woodhenge a Oeste de Monks Mound. Ilustração de Lloyd K. Townsend.

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A elaboração do ritualismo também se tornou cada vez mais significativa. Talvez que a ultima expressão deste factor possa ser visto em Cahokia, na construção do Woodhenge, um arranjo circular de grandes postes de cedro, com um posto de observação central. Daí, o sacerdote do sol poderia observar o astro nascente no horizonte à medida que este poderia alinhar com certos postes. Este calendário podia ser usado para determinar os solstícios de inverno e do verão, alem da primavera e o cair dos equinócios; assim como outras datas importantes no seu ciclo ritual. Existiam pelo menos cinco Woodhenges construídos em Cahokia.

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Fonte: National Geographic Site.

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Ilustração de Richard Hook para a Osprey Publishing, American Indians of the Southeast.

Durante a era mississipiana, novas formas de cerâmica apareceram, com uma grande variedade de formas e estilos e, gradualmente, a maioria dos objectos eram temperados com conchas esmagadas e queimadas, misturadas com uma pasta de barro local. Houve um aumento de utensílios exóticos vindos de regiões distantes, primariamente vindos do Sul.

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Detalhe de ilustração da autoria de Michael Hampshire. Fonte: Internet.

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Reconstituição artística de Cahokia por Bill Iseminger. Ao centro pode-se ver o montículo principal (Monks Mound).

A característica dominante de Cahokia são os montículos, existindo tantos como 20 dentro da área da cidade. Estes foram construídos inteiramente com terra, carregada em cestos, identificando-se três formas distintas de estruturas: com plataformas, cónica ou com o topo sulcado. Os montículos em plataforma são os mais comuns, servindo como bases elevadas para templos, residências da elite, para a comunidade, facilidades de armazenamento, centros para concelhos ou reuniões e outros aspectos relevantes. Os montículos cónicos foram interpretados como sendo sepulturas mas poucos foram escavados e poucos enterros localizados. Os montículos com sulcos no topo parecem marcar importantes localizações ao longo dos eixos principais de Cahokia, sendo que aqueles que foram testados indicam que teriam funções mortuárias também. Contudo, a maior parte da população não era sepultada nos montículos mas em cemitérios; apenas a elite ou enterros rituais parecem estar associados aos montículos, como o monte 72 com a sua tumba de elite e um numero elevado de jovens raparigas sacrificadas. Todos os montículos examinados mostram evidência de vários estádios de construção, talvez comemorando ciclos do calendário, a morte de líderes ou a ascensão de novos; ou até mesmo o reenterrar do montículo, num ritual de purificação.

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Detalhe de ilustração da autoria de Lloyd K. Townsend. Cahokia Mounds State Historic Site, Illinois.

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Ilustração de Michael Hampshire.

A maioria dos montículos do centro da cidade está enquadrada por várias praças sugeridas, a maior sendo a Grande Praça com 16 hectares, a Sul do maior montículo de Cahokia: Monks Mound, que cobre uma área aproximada de 5,3 hectares e tem cerca de 30 metros de altura, contendo à volta de 2.060 metros cúbicos de terra, toda ela erguida à mão. Esta é a terceira maior pirâmide do continente americano. Estas estruturas eram importantes, sendo os pontos centrais de reuniões para festivais, rituais e outros acontecimentos públicos. Aqui encontrava-se o coração da cidade.

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Vista sobre Monks Mound. Ilustração de Lloyd K. Townsend. Cahokia Mounds State Historic Site, Illinois.

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Reconstituição de cerimónia no interior de um edifício. Monumento Nacional de Ocmulgee, Geórgia central.

A população estimada para Cahokia varia grandemente. Porem, muitos investigadores modernos tendem a ser conservadores em conjugação com pesquisas mais recentes, reavaliando os dados iniciais. Sugerindo, assim, que a população no seu pico era provavelmente de 10 a 20.000 habitantes, por volta de 1050 a 1150 d.C. Cahokia teve a mais larga concentração de povos a norte do México e foi substancialmente maior do que outras comunidades no Mississípi, sendo que as maiores são geralmente referidas como “cidades templo”, mas pela virtude da sua escala, acreditamos que “cidade” será o termo mais correcto para Cahokia.

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Ilustração de Michael Hampshire. Cahokia Mounds State Historic Site.

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Ilustração de Lloyd K. Townsend. Cahokia Mounds State Historic Site, Illinois.

 

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Talvez tivesse ocorrido durante o mês de Agosto, já não me recordo bem. Estaria há 5 meses na cidade do México e combinei com outra bolseira portuguesa, a Marcia Pinto (as fotos são dela e algumas também captadas por mim) para tirarmos um dia e visitar as ruínas arqueológicas de Xochicalco. Este sítio fica no centro do México, a norte do estado de Morelos, perto da movimentada cidade de Cuernavaca. Chegados aí, tomamos nova camioneta que uma hora depois nos deixou no cruzamento, por onde seguia finalmente a estrada que sobe à elevação montanhosa onde se encontra o local arqueológico. Pedimos boleia e pouco depois estávamos a entrar no magnífico museu que expõe peças desta antiga urbe mesoamericana. O dia estava quente mas encontravam-se poucos visitantes a meio da manhã e, no céu planando, vários zipolotes aproveitavam as correntes do ar para pairar em círculos por sobre as ruínas de Xochicalco; querendo este nome dizer: O Lugar da Casa das Flores.

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A história pré-hispânica de Xochicalco abarca ao redor de 24 séculos. Longe do que se poderia supor, na maior parte deste lapso de tempo a paisagem esteve ocupada por pequenas aldeias agrícolas. Nelas viveram sociedades mais ou menos igualitárias que raras vezes construíram estruturas cívico-cerimoniais de grandes proporções. É surpreendente que os templos, palácios bastiões e vias que se encontram hoje em dia nas ruínas, pertenceram a uma cidade que teve uma vida tão curta como intensa. Entre 650 e 900 d.C. as aldeias cederam o seu lugar a uma urbe cosmopolita. Montanhas e planícies povoaram-se de grupos socialmente diferenciados e, muito provavelmente, pertencentes a diversas etnias. No entanto, o esplendor foi fugaz. O assentamento voltou à sua condição de aldeia, seiscentos anos antes que os espanhóis percorressem pela primeira vez esta região.

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Durante os duzentos e cinquenta anos em que se deu o apogeu da cidade de Xochicalco, esta viveu o seu máximo esplendor. A ocupação regista um crescimento verdadeiramente abrupto, alcançando em pouco tempo uma dispersão de 4Km quadrados. Nesta superfície observam-se agregações muito desiguais em que se encontram áreas residenciais nucleares como dispersas; construções públicas ou privadas, terraços habitacionais ou de cultivo, zonas exclusivas de lavradio, estruturas defensivas, vias de comunicação, etc. A maior concentração arquitectónica localiza-se no monte Xochicalco. É nesta fase quando se empreende a remodelação arquitectónica em grande escala, nivelando-se porções consideráveis do topo da montanha. Aí são erigidos os monumentos mais insignes, entre os quais está o Templo das Serpentes Emplumadas, o campo do jogo da bola principal e várias outras estruturas. Nas porções da área média e baixa constroem-se amplos terraços residenciais, pequenos grupos de plataformas domésticas e fortificações defensivas.

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Em todos os domínios observáveis – urbanismo, arquitectura, escultura, estelas, o impressionante observatório astrológico, inscrições e o campo da bola tão característico dos povos mesoamericanos – a cidade de Xochicalco testemunha contactos estreitos com os seus vizinhos próximos ou longínquos sejam eles de Teotihuacan, com a sua herança, de Monte Albán em Oaxaca, da zona Maia ou da costa do Golfo. Esta cidade do Epi-Clássico – denominação atribuída ao final do Período Clássico – estava predestinada a ser uma espécie de placa giratória de ideias, de conhecimento e técnicas; sobretudo com cidades como Tula, Chichén-Itzá e Cacaxtla, exprimindo um verdadeiro sincretismo cultural. Norberto Gonzalés Crespo encontrou numerosos indícios de que a cidade foi destruída violentamente e abandonada por volta do ano 900 d.C.

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