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Archive for the ‘Mesoamérica’ Category

Mapa da região Mixteca. Revista Arqueologia Mexicana, Editorial Raízes.

A área do povo mixteca corresponde à metade Oeste do estado de Oaxaca, com algumas comunidades desta etnia estendendo-se para os estados vizinhos de Puebla e Guerrero. Os centros urbanos principais dos mixtecas incluem a antiga capital de Tilantongo, assim como outras cidades como Achiutla, Huajuapan e Mitla, entre outras. O seu território está dividido por três áreas geográficas e culturais: A Mixteca Alta, nas zonas montanhosas que circundam o Oeste do vale de Oaxaca. A Mixteca Baixa, situando-se a Norte e Oeste da zona montanhosa. E finalmente a Mixteca Costeira, situando-se nas planícies do Sul e na costa do Oceano Pacífico. Na maior parte da história Mixteca a zona Alta foi a força politicamente dominante, com a capital, Tilantongo, localizada na zona central montanhosa. O vale de Oaxaca foi, durante o período Pós-Clássico, uma zona fronteiriça disputada entre os mixtecas e os zapotecas.

O termo Mixteca deriva da palavra Nahuatl Mixtecapan, ou “lugar do povo da nuvem”. Os mixtecas chamavam-se a si próprios ñuu savi ou ñuu djau, dependendo da variante local da sua linguagem. Na sua história dos Mixtecas, Kevin Terraciano usa o termo Ñudzahui, que traduz como “o povo do lugar da chuva”.

Maquete de estrutura arquitectónica Mixteca. Museu Nacional de Antropologia, México. Foto Tempoameríndio.

Já desde tempos Pré-Clássicos os antigos povoadores da região mixteca contavam-se entre os iniciadores da arquitectura lítica, como se pode ver nos primeiros edifícios de Montenegro, tendo sido desenvolvidos até ao final do período Clássico os novos centros que iriam afirmar a etnia mixteca que, apesar de conter elementos da arte zapoteca, desenvolveram características muito próprias, nomeadamente nos trabalhos de ourivesaria e na escrita pictográfica. Esta última irá difundir-se por quase toda a Mesoamérica durante o período Pós-Clássico. Alfonso Caso, ao interpretar os códices mixtecas, faz-nos remontar até à fundação da dinastia de Tilantongo por volta de 824 d.C., sendo esta a mais antiga resenha histórica que se conserva de fontes indígenas no México central e que descreve o seu desenvolvimento até depois da invasão espanhola. Intimamente misturados com os sucessos de carácter histórico, como ocorre sempre nas crónicas indígenas, aparecem figuras lendárias como o deus Quetzalcoatl e o mítico herói cultural mixteca Oito-Veado; este último aparecendo também esculpido numa lápide de Monte Albán.

Processo de fabrico de papel a partir da casca de figueira. Dorling Kindersley Ltd, Londres.

Estes códices eram realizados em folhas feitas de pele de veado ou a partir de papel feito de cascas de figueira, sendo que no final as folhas eram polidas com uma pedra e, finalmente, a superfície era coberta com cal branca onde posteriormente eram realizados os glifos desenhados. Estes códices são desdobrados em forma de biombo ou harmónio e a sua leitura é realizada da direita para a esquerda. De uma forma muito sucinta, poderíamos dizer que a linguagem pictográfica desenvolvida nestes livros utiliza uma sobreposição de símbolos fonéticos, topónimos e várias simbologias e numerações, nomeadamente calendarista. O seu dinamismo de leitura reside substancialmente numa relação de mnemónica visual, aliando de forma estreita e concisa o relato escrito e a tradição oral. Os códices mixtecas descrevem a sua história e as genealogias, sendo que o relato mais conhecido é do senhor Oito-Veado, chamado assim a partir do dia em que nasceu. O seu nome pessoal é Garra de Jaguar, cuja história épica é relatada em vários códices, incluindo o codex Bodley e o códice Zouche-Nuttal. Oito-Veado conseguiu com sucesso conquistar e unir a maior parte da região mixteca, tendo como capital a cidade de Tilantongo.

Pormenor do códice Zouche-Nuttall com a representação de Oito-Veado, a figura ao centro. Fonte: Internet.

Durante o período de Monte Albán IV, que abarca entre 1000 e 1300 anos d.C., os mixtecas alargaram o seu domínio em quase toda a região de Oaxaca, conforme se vai debilitando o impulso cultural zapoteca. Pensa-se que será nesta fase que intervêm na execução dos templos de Mitla, onde ainda se conservam restos de pinturas murais cuja proveniência é indiscutivelmente mixteca.

Os mixtecas acabaram por ocupar Monte Albán, esvaziando ocasionalmente algumas tumbas zapotecas, para colocar nelas os seus próprios defuntos. É assim que na tumba 7 de Monte Albán, descoberta em 1933 por Alfonso Caso, se recuperou um fabuloso tesouro constituído por jóias do mais puro fabrico mixteca: colares, anéis, pulseiras, pendentes e demais objectos finamente fundidos em ouro, pelo processo da cera perdida; copos, orelheiras de cristal de rocha, raspadores de osso lavrado, entre outros. Deste modo, uma cidade como Zaachila, que tinha sido a capital política dos zapotecas, ostenta nos seus sepulcros do último período, relevos mixtecas em estuque e oferendas de cerâmica mixteca-puebla. Apesar de na sua arquitectura, os mixtecas nunca terem conseguido superar a grandiosidade de Monte Albán e o refinamento de Mitla, haviam de converter-se nos mais geniais artificies que a Mesoamérica produziu. Foram eles que começaram a usar o branco resplandecente, a prata, o metal da Lua unido com o ouro, conseguindo desta maneira trabalhar melhor, podendo realizar obras mais detalhadas usando delgados e finos fios de ouro, os quais conseguiam na mesma fundição da peça.

Ourivesaria Mixteca. Office du Livre S. A. Suiça 1982.

Apenas aos governantes, sacerdotes e guerreiros era permitido utilizar objectos de ouro, porque este era considerado uma matéria sagrada. Estes objectos eram também comercializados para as elites estrangeiras.

Os ourives eram supervisionados pelos sacerdotes, sobretudo quando deviam representar os deuses: Toho Ita, o senhor das flores e do Verão. Koo Sal, a serpente emplumada. Iha Mahu, o Esfolado, deus da Primavera e dos ourives. Yaa Dzandaya, divindade do mundo inferior. Ñuhu Savi ou Dazahui, deus da chuva e do raio e Yaa Nikandii, o deus solar, implícito no próprio ouro. A todos eles se representava como homens, incluindo o sol, que também era invocado em forma de círculos lisos ou com raios solares repuxados. As divindades tinham também manifestações zoomorfas, como jaguares, águias, faisões, borboletas, cães, coiotes, tartarugas, rãs, serpentes, mochos e morcegos.

Conjuntamente com os popolocas de Puebla e outros povos, os mixtecas integraram no final do período Pós-Clássico, entre 1300 e 1521 d.C., um pujante complexo cultural conhecido pelo nome de mixteca-puebla. Este complexo, que cobre a zona de Oaxaca e os vales de Puebla e Tlaxcala, com ramificações em Veracruz, Morelos, Guerrero e no vale do México, estende a sua influência artística em todos os âmbitos da Mesoamérica, desde Sinaloa e Huaxteca a Norte, até ao Yucatão e Nicarágua no Sul; como podemos ver nas pinturas murais de Santa Rita no Belize e nas de Tulum, que têm o inconfundível selo do estilo gráfico dos códices mixtecas. Caberia aqui referir, em relação à arte pictórica destes manuscritos, mixtecas ou de outras culturas, como o códice Fejérvary-Mayer ou o Nuttal, que são de um grafismo conciso e extremamente expressivo, juntando um toque de precisão e preciosismo à linguagem simbólico-poetica que vimos nas pinturas murais da cidade Clássica de Teotihuacan. O códice Bórgia, obra de um tlacuilo ou escriba-pintor genial, mostra um sentido surpreendente na composição e na cor.

Prato decorado em estilo mixteca-puebla. Conaculta/Inah e Grupo Azabache, México.

Aparte dos grandes centros oleiros de Oaxaca, aquele com maior fama na época mexica foi sem dúvida Cholula, o grande santuário do vale de Puebla. A cerâmica cholulteca era tão apreciada nesse período, que constituía uma moeda particularmente estável dentro do sistema de comércio indígena – a par com os chalchihuites ou pequenas contas de jade, as penas preciosas ou das medidas de ouro em pó e o cacao – sendo que o próprio soberano Motehcuzoma apenas utilizava para o serviço da sua mesa dois desenhos especiais de “… barro de Cholula, um vermelho e outro negro”, segundo nos conta Bernal Diaz del Castillo, o soldado espanhol que integrou a invasão, adiantando que o imperador mexica não se servia duas vezes da mesma peça. O estilo pictórico desta cerâmica está ligado directamente aos desenhos dos códices. De uma execução perfeita, decorada com o gosto subtil mas vincado que se encontra nos códices, donde provem a denominação de cerâmica tipo códice. Atribuído a certos utensílios, esta cerâmica policroma finamente polida, com cores que ainda conservam a sua intensidade e brilho, caracteriza-se por incensários, com pega e suportes, elegantes cântaros, vasilhas tripoides com suportes zoomorfos, grandes pratos, copos com suporte anular e recipientes bi-cónicos de onde emergem caveiras ou cabeças de jaguares, águias e macacos.

Deste modo podemos apreciar como, se bem que a obra civilizadora tolteca tenha coberto todo o período Pós-Clássico, será mais ainda a arte mixteca-puebla aquela que haveria de exercer, até à chegada dos espanhóis, uma influência artística profunda em quase todas as regiões da vasta Mesoamérica. De facto, com esta arte começava a diluir-se as fronteiras estilísticas que delimitavam até então muitas zonas e, caberia mencionar, durante o chamado período histórico do Pós-Clássico, de uma preponderância da mistura de influências culturais tolteca-mixteca.

 

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OS PURÉPECHA

1-purepecha

Área do estado Purépecha, no Ocidente do México, durante o século VI. Fonte: Internet.

No Ocidente do México, Estado de Michoacán, região montanhosa onde se encontram grandes áreas de bosques e lagos muito extensos, estabeleceram-se por volta de 1400 d.C. vários grupos chichimecas.

De todas as áreas mesoamericanas, o ocidente foi a que apresentava uma maior diversidade cultural. Era uma região com alta densidade populacional, distribuída numa grande quantidade de pequenos senhorios, sendo politicamente muito instáveis.

Nesta região fundiram-se os elementos locais existentes de formas arcaicas, com outros estrangeiros mais evoluídos. Desta união cristalizou-se a cultura purépecha que os espanhóis denominaram de tarasca, pensando que a alcunha que os índios utilizaram para os invasores – tarascue ou “cunhados”, como alusão ao facto dos espanhóis terem roubado as suas filhas – era de facto o nome dos índios de Michoacán. Como estes se denominavam a si próprios não é conhecido com a devida certeza, algumas fontes históricas referem-se a eles como purepecha e huacanace. Os mexica referiam-se a estas populações como michoaque, termo que na língua nauhatl significa “aqueles da terra do peixe”. Ainda que também não se tenha a certeza da sua procedência, num passado não muito remoto foram nómadas caçadores, a julgar pela permanência das suas vestes e costumes; além da tradição mexica lhes consignar a sua própria pátria original, se bem que o idioma que falavam fosse um caso completamente isolado.

Historicamente este povo estava assente em mais de vinte aldeias, sobre as ribeiras e ilhas do lago Patzcuaro. O seu reino iniciou-se com a fundação da cidade de Patzcuaro pelo seu primeiro rei lendário Tariacuri, que uniu as tribos purépecha rivais, numa aliança tripartida conformada entre as cidades de Patzcuaro, Ihuatzio e Tzintzuntzan – esta última querendo dizer «O lugar dos Colibris». No entanto, foi já na segunda metade do século XV que o soberano Tzitzipandacuri conseguiu manter uma grande confederação, submetendo pela conquista ou coerção os seus vizinhos; tendo estendido os seus domínios até ao estado de Colima. Este soberano desenvolveu o que viria a ser, juntamente com o “império” mexica, uma cidade Estado organizada, que não só controlava com particular eficiência os seus territórios, como tinha conseguido opor-se com sucesso às ambições hegemónicas dos seus vizinhos mexica. Apesar da sua população ser consideravelmente menor, muitos espanhóis pensavam que o Estado Purépecha era igual em força ao da Tripla Aliança, cujas tentativas de conquista foram travadas em 1479. Em 1519 os papéis tinham-se invertido e eram os purépecha que avançavam seguramente em território mexica, notavelmente no Estado de Guerrero. No entanto, Michoacán manteve-se neutral durante a invasão espanhola do “império” mexica em 1519-1521, apesar dos pedidos de ajuda por ambas as partes.

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Imagem de um Lienzo com a capital purépecha junto do lago Patzcuaro. Fonte: Internet.

Os purépecha levantaram a sua capital em Tzintzuntzan por volta de 1450, nas margens do lago Patzcuaro, a qual consideravam “as portas do céu”. Daqui e governando o Estado Purépecha, estava o cazonci, representante do seu deus principal Curicaueri. É nesse período que a cidade controla a região e que o soberano Tzitzipandacuari expande os seus domínios mediante as conquistas militares. Nos tempos pré-hispânicos a cidade de Tzintzuntzan abarcava cerca de sete quilómetros quadrados. No entanto, no seu momento de maior esplendor, a sua influência cobria 75 mil km2, sendo que a próspera cidade era densamente povoada – calcula-se entre 25 e 35 mil o número de habitantes – estendendo-se das margens do lago Patzcuaro até às encostas das grandes montanhas vulcânicas.

A cidade contava com zonas residenciais bem definidas para a realeza e a alta nobreza, existindo outras para a realeza de menor hierarquia e a gente comum. Tudo indica que esta cidade tinha um traçado urbano bem planificado.

O elemento característico da arquitectura purepecha são as chamadas yacatas, plataformas que alcançam os 12 metros de altura, com uma planta rectangular ou mista e apresentam um anexo circular. O conjunto principal de Tzintzuntzan consta de cinco yacatas sobre uma grande plataforma encostada a um outeiro. Por vezes os purépecha conformavam em terraço a inclinação natural de um outeiro para formar plataformas. Procuravam um tamanho específico, de tal maneira que ao revestir-se de pedra talhada adquiriam um aspecto monumental.

As yacatas eram erigidas em honra de Curicaueri, o deus do sol. Na Relación de Michoacán observam-se sobre estas plataformas templos construídos em madeira. Com o tempo, as plataformas aumentaram de tamanho; por exemplo na yacata 5 observam-se até cinco sobreposições.

A maior parte das esculturas de pedra purepecha procedem da cidade de Ihuatzio, destacando-se entre elas os já referidos chacmool que indiciam influencias toltecas na sua cultura. Em geral, as peças realizadas em pedra vulcânica mostram pouco detalhe, conferindo realce às formas simples e estilizadas, num género híbrido e despojado. Outra figura que se destaca na arte lapidária purépecha são os tronos em forma de coiote, já que Ihuatzio significa “lugar do coiote”. Os espanhóis destruíram grande parte dessas esculturas, já que as associavam ao sacrifício humano.

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Reconstituição de plataforma cerimonial, ou yuacata. Fonte: Internet.

Se bem que os purépecha praticassem a agricultura, a pesca sempre foi a sua principal fonte alimentícia. Organizados como estado, o poder estava centralizado numa monarquia hereditária que oficiou como a suprema autoridade terrestre, militar e religiosa. O cazonci era assistido na administração do estado por um séquito de cortesãos, ajudantes e chefias alternadas. À sua morte, o corpo era incinerado e as suas cinzas eram enterradas por detrás da yuacata principal, acompanhadas pelas cinzas das suas esposas e criados. O ritual funerário dos purépecha implicava uma grande parafernália e, quando se tratava do seu governante envolvia não só o seu povo como, de várias regiões, chegavam emissários com obséquios preciosos que acompanhariam o defunto no seu caminho para o outro mundo. Encontraram-se poucos exemplos de pratos ou vasilhas de paredes rectas e fundos planos. Algumas peças repetem-se nos sepulcros, porém sendo miniaturas, pois existia a crença que apenas com esse tamanho o defunto podia fazer bom uso delas. Vários objectos recuperados em Tzintzuntzan e Ihuatzio formavam parte das oferendas funerárias de personagens da nobreza, enterrados nas imediações das yacatas. Outros objectos ligados às oferendas são cachimbos de cerâmica, cujo uso se relacionava com Curicaueri e o culto do fogo. Fumar cachimbo era um exclusivo das altas hierarquias, como se observa na Relación de Michoacán. O cachimbo purépecha tem um alto fornilho e dois pequenos suportes; sendo que o tubo por onde se aspira é bastante largo. Nos arredores da principal plataforma de Tzintzuntzan encontrou-se uma grande quantidade de fragmentos de cachimbos, o que parece indicar o seu uso extensivo nas cerimónias religiosas.

Possivelmente, devido a Michoacán ser uma região excessivamente vulcânica, o mito principal foi o culto ao fogo, sendo a sua divindade principal Curicaueri – ou “Grande Queimador” – que também simbolizava o sol. No entanto, os antigos purépecha rendiam culto a múltiplas divindades, de tal maneira que havia deuses criadores das montanhas, do mar e das lagoas; existindo inclusivamente divindades relacionadas com a mão direita e outras com a mão esquerda. Os deuses purépecha também intervinham em certos rituais de sacrifício humano, como a extracção do coração. Entre as práticas dos purépecha também se colocavam em varas os crânios dos sacrificados, sendo esfoladas algumas das vítimas. O culto e as cerimónias eram regidos por um calendário ritual dividido em 18 meses ou luas. Infelizmente, este povo não fez uso dos códices pictográficos, pelo que os seus mitos e lendas apenas se transmitiram oralmente.

Outra divindade relevante na religião purépecha era Cuerauperi, mãe dos deuses e dadora da vida. Outras divindades femininas eram Xaratanga, deusa da lua – venerada sobretudo em Tzintzuntzan – Taríaran, Peuame, deusa do parto e Auicanime, relacionada com a fome. As imagens dos deuses purépecha são escassas; de qualquer modo parece que elaboraram ídolos de madeira e massa, assim como em pedra. Aquelas realizadas neste ultimo material, além de raras são muito esquemáticas.

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Trabalho de metalurgia. Ilustração de Leonid Nepomniachi para Editorial México Desconocido.

Possivelmente vindo desde o Equador, na América do Sul, em 800 d.C. o ouro, a prata e o cobre entraram na região de Michoacán. A partir desse momento, a metalurgia foi tão importante que além de realizarem objectos sumptuários; construíram ferramentas, anzóis e projécteis de cobre. Na realidade, o Estado Purépecha adquiriu grande parte do seu poderio ao controlar a metalurgia; na sua época, o período Pós-Clássico Final, de 1200 a 1521 d.C., o domínio desta ciência tinha encontrado o seu espaço no ocidente do México. Este conhecimento, que a maioria dos estudiosos sobre o tema coincide em situar as suas origens no Centro e Sul da América, deve ter chegado a Michoacán por via marítima, através das costas do Oceano Pacífico.

O cazonci, supremo governante de Tzintzuntzan, estabeleceu uma cuidadosa organização encarregada de controlar as minas das quais se extraiam os metais valiosos. As áreas de extracção mais importantes situavam-se na região fronteiriça a sudeste do estado, nas redondezas de Pungarabato, Cutzamala, Coyuca e Ajuchitlan. Outra das regiões mineiras encontrava-se a ocidente de Michoacán, na zona próxima a Tuxpan e Zapotlan. Através do sistema tributário também se obtinham metais de Cualcoman, de Huacana, Turicato e Sinagua. Uma imagem idealizada destas minas indígenas é mostrada no Lienzo de Jucutacato.

A distinção mais notável da metalurgia purépecha consiste, no entanto, em que não produziram apenas peças ornamentais, pois utilizaram o cobre também para fabricar armas e ferramentas para a vida quotidiana. Uma das razões para que os exércitos de Michoacán tenham suplantado o poderio dos mexica, tornando-se praticamente invencíveis, pode residir na utilização do metal usado em machados de guerra e pontas de projéctil. Enquanto os camponeses, lenhadores e pescadores contavam com machados, enxadas e anzóis para facilitar o seu trabalho. Da mesma maneira, as oficinas purépecha já conheciam o uso do bronze, o qual superava a dureza do cobre e, só podemos especular, quando este se torna-se comum a que grau teria levado o Estado Purépecha no seu desenvolvimento e expansão se não tivesse sido prematuramente aniquilado pela invasão espanhola em 1530.

Tal como ocorreu com os tesouros dos mexica, os depósitos de metal precioso dos senhores de Michoacán, descritos nas crónicas como troféus, e as suas oferendas funerárias, foram saqueados e fundidos pelos espanhóis. Se contarmos com as entregas forçosas que o soberano Tzintzicha Tangaxoan fizera, tanto a Cristóbal Olid como ao selvático Nuño de Guzmán, o resultado foi que nos nossos dias apenas conservamos um testemunho mínimo, daquela arte dos metais que tanto distinguiu e qualificou os antigos michoacanos; perdendo-se de maneira irreversível o seu real valor artístico e cultural.

 

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Mayapan 1

A pirâmide de Mayapán. Yucatão, México, 1200-1500 d.C. Könemann, 2006.

Algumas das migrações citadas nas fontes escritas referem, provavelmente, povos de diversas regiões que alcançaram sucessivamente o norte do Yucatão. Dentro das probabilidades à que considerar que em épocas anteriores surgiram alianças multiétnicas com povos distantes e que se produziram migrações a grandes distâncias, de modo que este fenómeno não introduz nenhuma novidade no período Pós-Clássico.

Fossem quais fossem as raízes étnicas dos itzá, é um facto claro que a elite que levou Chichén Itzá à categoria de potência hegemónica, no período Pós-Clássico Inicial, era composta por um grupo cosmopolita revisionista, agressivo, rigidamente organizado e firmemente orientado para o exterior; tanto nos aspectos económicos como nos culturais. As investigações mostraram que os itzá não ignoraram – como não reprimiram – as instituições religiosas nucleares existentes nas terras baixas dos maias, como integraram habilmente alguns dos seus elementos essenciais; como o mito da criação, pondo-os ao serviço dos seus novos objectivos políticos. A fase de transição desde o período Clássico ao Pós-Clássico está marcada em muitas comunidades mesoamericanas por uma acentuada abertura das suas relações para o exterior. As amplas redes comerciais entre as populações das terras altas e as baixas aceleraram as relações e os inter-câmbios de mercadorias e de ideias, fomentando a expansão que os teóricos da cultura denominam por “estilo internacional”.

Como já referimos anteriormente, os itzá de Chichén mantiveram relações amistosas com as cidades de Uxmal e Mayapán, ou seja, com os xiues e cocomes, graças a uma aliança concertada pelas três cidades – a Liga de Mayapán – a qual durou até 1185 – 1204 da era cristã. Esta liga rompeu-se porque um senhor dos cocomes de Mayapán, chamado Hunac Ceel, aumentou o seu poder conquistando Chichén Itzá, conseguindo com isso a hegemonia de Mayapán que se apropriou do império económico criado por Chichén Itzá. As fontes históricas alimentam a suspeita que Mayapán chegou a converter-se no centro do poder graças a uma sequência de intrigas políticas, traições e alianças de grupos políticos contra Chichén Itzá. Os relatos bélicos aludem ao apoio militar que este “golpe” obteve por parte dos aliados maias da cidade portuária de Xicalango, na costa mexicana do golfo.

Mayapan 3

Os pórticos de colunas são um elemento típico da arquitectura senhorial de Mayapán, assim como de outros lugares do Yucatão. Könemann, 2006.

Os edifícios de Mayapán não são tão grandes nem estão tão bem conservados como os de Chichén Itzá. Este facto induz, numa primeira observação, a falar de uma sociedade maia do período Pós-Clássico Final como “decadente”, se não já degenerada. Porém, as investigações posteriores sobre este período trouxeram à luz uma sociedade extremamente “eficiente” nos aspectos políticos e económico. Neste sentido, a parcial redução da monumentalidade e da faustosidade arquitectónica considera-se agora como a expressão de uma reorientação da organização política e económica. Segundo esta interpretação, as energias sociais inverteram-se para a produção e o inter-cambio de mercadorias, com os sistemas de mercados bem desenvolvidos a promoverem uma mais justa participação de todos os membros da sociedade na prosperidade económica; com a possibilidade de obtenção de benefícios pelas prestações laborais. Este sistema económico aberto recompensa o espírito empresarial empreendedor e reduzia, finalmente, as desigualdades sociais entre a casta dominante e o resto da população, porque agora era maior o número de pessoas que podiam beneficiar da bonança económica geral. Neste clima social, uma arquitectura menos dispendiosa – que, além do mais, apenas afectava os edifícios públicos e as residências da classe superior – não deve ser julgada como um “retrocesso” em relação ao precedente período Clássico mas como um reflexo de novas pautas sociais e de novas prioridades económicas.

Mayapan 2

Casa moderna do Yucatão. A planta em forma de abside e o tipo de construção são similares às casas das povoações antigas dos maias.

A técnica com que se construíram as casas e os edifícios públicos de Mayapán, Cozumel e outros centros do período Pós-Clássico Final dão provas de uma notável eficácia. Quando as paredes destas construções eram de madeira, cobriam-se com gesso e estuque, sendo as coberturas realizadas com materiais vegetais. Com frequência, as paredes interiores dos edifícios públicos desta época estavam ricamente ornamentadas, assim como os muros exteriores de estuque. Exemplos disso são as povoações de Tulum e Santa Rita, ainda que só tenham chegado até nós restos fragmentários. Mayapán era uma cidade fortificada de mais de 3 km de longitude por quase 2 de largura. Os governadores dos estados que estavam incluídos na esfera de poder de Mayapán devem ter vivido dentro dos seus muros. As casas da cidade que se identificam arqueologicamente mostram zonas densamente povoadas, tanto dentro como fora das muralhas. As amplas divisões das habitações indicam que se havia assente aqui, de forma permanente, tanto a classe dominante como uma população provavelmente dedicada aos labores agrícolas. A arquitectura monumental de Mayapán concentra-se numa área de 2,5 hectares, em que domina ao centro, uma pirâmide quadrangular, chamada como em Chichén Itzá, El Castillo; situada imediatamente a Oeste de um cenote. A praça está rodeada de pórticos com colunas, habitações da aristocracia; templos, sepulcros, oratórios e edifícios circulares. Nesta zona onde se descobriu a maioria das criações escultóricas do assentamento, entre as quais existem figuras humanas, jaguares, serpentes, estandartes com inscrições e estelas. Para além desta praça central estendem-se em todas as direcções, até aos muros da cidade, muito juntas entre si, casas e pátios da nobreza e do povo comum. As pequenas esculturas, como tartarugas e as figuras de deuses que se assomam desde o céu, encontrados nestes bairros residenciais, indicam que também fora do centro cerimonial se levavam a cabo acções rituais.

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Reconstituição de pintura mural do edifício 16, em Tulum. Esta pintura une elementos de Oaxaca com outros que recordam os códices maias do Período Pós-Clássico. Quintana Roo, México. Könemann, 2006.

As expedições arqueológicas e os percursos pela superfície da costa oriental da península do Yucatão, permitiram descobrir uma zona densamente povoada no período Pós-Clássico Final. Os centros políticos situavam-se nos lugares chave desta extensa zona costeira. Entre eles encontravam-se El Meco, as localidades de San Gervasio e Buena Vista na ilha de Cozumel; Tulum, Ichpaatún, Santa Rita e alguns mais. Cada uma destas comunidades criou as suas próprias combinações de templos, habitações e sepulcros. Da mesma forma que Mayapán, também Tulum e Ichpaatún estavam fortificados. Tulum e Santa Rita são conhecidas, além do mais, pelo bom estado de conservação das pinturas murais do Pós-Clássico Tardio. Todos estes lugares costeiros foram provavelmente importantes praças comerciais. Nelas inter-cambiava-se as manufacturas regionais pelas matérias-primas das províncias das terras baixas e mercadorias do comércio a grande distância. Ambas categorias de bens foram comercializadas com a ajuda de mercadores que se deslocavam por via marítima, ao longo da costa.

Mayapan 5

Embarcação maia. Fonte: Internet.

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01Yucatão

Mapa de H. A. Shelley. The State University of New Jersey, 1982.

O conceito de “Pós-Clássico” implica a ideia de que nesta época a cultura maia era apenas uma pálida imagem do seu passado grandioso. As recentes investigações arqueológicas põem em causa este conceito da sociedade maia Pós-Clássica. É certo que o inicio desta época se caracteriza por profundas convulsões e alterações sociais, porém a ordem destas convulsões na sociedade apresentam divergências notáveis nas várias regiões das terras baixas. Se considerar-mos as terras baixas maias meridionais e setentrionais como um todo, existem documentos para o Pós-Clássico que revelam seis séculos de evolução ininterrupta, desde o ano de 900 até 1500 d.C.; desenhando-se um quadro de crescimento económico a longo prazo, aumento da população nas regiões costeiras e uma lenta integração Norte-Sul. À chegada dos invasores espanhóis existia uma sociedade estável, altamente desenvolvida, próspera e culta, que mantinha uma rede internacional muito extensa, de múltiplas e variadas relações comerciais

O Yucatão setentrional esteve dominado durante todo o período Pós-Clássico por poderosos centros políticos. O colapso das formações estatais da época Clássica nas terras baixas, cujo rasto se pode seguir aproximadamente a partir de 750 d.C., coincidiu com o fortalecimento do poder da cidade de Chichén Itzá, que foi durante certo tempo o centro mais importante do Norte do Yucatão. Esta grande metrópole impôs o seu domínio sobre amplas zonas das terras baixas setentrionais e forjou um dos estados mais pujantes e extensos da história dos maias. A cidade de Chichén Itzá foi substituída por Mayapán, um centro rival do Norte, que se apoderou de uma grande parte do império económico de Chichén Itzá e marcou o destino político e económico de muitos pequenos estados das terras baixas até pouco antes da chegada dos espanhóis, no ano de 1517 d.C.

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Vista da pirâmide de «El Castillo» a partir do Templo dos Guerreiros. Könemann, 2006.

A maioria dos especialistas partem hoje em dia da hipótese de que Chichén Itzá foi fundada no período Clássico Final – século XI – e impôs o seu domínio como potência hegemónica sobre a região setentrional até muito dentro da primeira fase Pós-Clássica, entre 1000 e 1200 d.C. Pouco depois do ano 1200 foi substituída pela cidade de Mayapán, que controlou a maior parte do Norte do Yucatão, quase durante a totalidade do período Pós-Clássico posterior, entre 1200 e 1500 d.C. Segundo documentos da época colonial, Mayapán foi destruída no ano de 1441 d.C. A importância deste centro depois desta última fase é objecto de investigações, ainda em curso.

A identidade étnica da classe dominante de então é objecto, hoje em dia de vivas discussões, porque as informações históricas aludem, repetidas vezes, à supremacia de senhores “estrangeiros”. Os paralelos entre a arquitectura de Chichén Itzá e da cidade de Tula, sua contemporânea do México central, induzem alguns estudiosos a supor que deve-se ter produzido uma invasão guerreira por parte dos toltecas sobre os itzá. Porém, em todas as partes do mundo encontram-se histórias de novas linhagens dominantes que tendem a legitimar a sua ascensão ao poder aludindo à sua origem exótica ou estrangeira, sem que se possa demonstrar essa procedência pretendida. Deve, por conseguinte, submeter-se à comprovação se estas reclamações se baseiam em invasões ou conquistas efectivas ou se trata simplesmente de colocar em relevo alianças matrimoniais ou de outro tipo com uma potência estrangeira, através das quais uma elite local tenta destacar-se por sobre os seus competidores locais.

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Edifícios de estilo Puuc em Chichén Itzá. Revista de Arqueologia Mexicana.

Acerca desta cidade, o célebre explorador inglês Stephens diz-nos que o nome Chichén é composto de duas palavras da língua maia: Chi que significa boca e chen, poço; de maneira que as duas palavras traduzem-se como “na boca do poço”. Quanto à sua segunda denominação, a da etnia itzá, vemos que Itz significa bruxo e á àgua; de modo que Chichén Itzá significa “na boca do poço do bruxo da água”. Os itzaes foram um povo que chegaram relativamente tarde ao Yucatão, quando já existiam numerosos sítios ocupados pelos maias, como a cidade de Chichén, que nessa altura talvez se chamava Uuc-yab-nal, ou seja: os Sete Abnal. A arquitectura singular e eclética de Chichén Itzá proporciona argumentos para defender as hipóteses de hegemonias que referimos anteriormente. Na zona Sul da necrópole encontram-se exemplos da arquitectura Puuc convencional, do mesmo modo que em outras zonas do Yucatão setentrional, como já vimos em relação a Uxmal e outras cidades. No caso de Chichén Itzá, este estilo pode ser observado no caso dos belíssimos edifícios da “Igreja” ou da “Casa das Monjas”. Num estilo mais híbrido e apresentando uma elegante forma circular, pode-se observar, perto dos edifícios mencionados anteriormente, o destacado observatório astronómico que tem como nome “El Caracol”.

04Yucatão

Zona arqueológica de Chichén Itzá. Fonte: Internet.

No entanto, no sector Norte da cidade predomina um estilo arquitectónico que tem sido denominado de maia/tolteca mas que pode bem ser considerado de “estilo internacional”, como os “atlantes” do Templo dos Jaguares, os chamados “altares chacmol” que tivemos oportunidade de observar em Tula, que na cidade maia se encontram no Templo dos Guerreiros, cuja zona frontal e lateral é ocupada por uma imensidão de filas de colunas que teriam suportado uma vasta cobertura. A pirâmide quadrada principal, conhecida como “El Castillo” e considerada, desde 2007, como uma das 7 maravilhas do mundo antigo, encontra-se destacada ao centro de uma grande praça, nesta zona Norte da cidade. A noroeste deste edifício dedicado a Kulkucan, o equivalente maia do deus Quetzalcoatl, encontra-se o maior campo de jogo de bola de toda a Mesoamérica, cuja base das paredes laterais apresenta a representação da cerimónia sagrada deste jogo, em que se enfrentam duas equipas com os seus sete jogadores cada uma, incluindo um capitão. No centro da cena apresenta-se uma grande bola de pedra com uma caveira falante dentro. Ao lado desta cena central observa-se uma cena de sacrifício por decapitação, muito semelhante à que vimos na sessão dedicada à cidade de El Tajin.

Não podemos deixar de referir o impressionante cenote sagrado, que se encontra mais a Norte da pirâmide de Kulkucan e que foi objecto de muitos rituais onde múltiplas oferendas foram lançadas, mesmo quando a cidade já não era habitada.

05Yucatão

Reconstituição de parte de um baixo relevo no Templo dos Jaguares de Chichén Itzá com a representação de guerreiros. Revista Arqueologia Mexicana, Março-Abril 2007.

A maioria dos investigadores afirma que Chichén Itzá manteve o seu firme domínio até ao período Clássico Final. Todos os dados disponíveis corroboram que se produziu um ataque militar a cargo de um grupo que procedia do Yucatão setentrional, suplantando e absorvendo a classe dominante local. Esta erupção estrangeira teve lugar nos primeiros anos do século XI e marcou o início do período Pós-Clássico. Ao que parece, os grandes centros de poder que até então haviam dominado no Norte, como Ek Balam e Yaxuná, forma submetidos nesta época mediante a intervenção armada deste novo e poderoso estado em expansão. A destruição dos edifícios e das instalações defensivas destes lugares, ocorreu paralelamente à conquista militar levada a cabo pelos invasores procedentes do estado Itzá.

As opiniões dividem-se sobre a região de origem da nova classe dominante dos itzá. As diferentes hipóteses assinalam desde as terras altas mexicanas – toltecas de Tula – passando pelos maias putun “mexicanizados” das costas do Golfo do México, até aos grupos de população dos estados das terras baixas meridionais em decomposição; que se destroçavam mutuamente numa série de conflitos bélicos.

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Templo de Tlahuizcalpantecuhtli , Tula, Hidalgo. Discovering Art. Inglaterra, 1965.

Entre as causas determinantes para a queda do mundo Clássico, podem ser considerados os seguintes factores: o aumento demográfico, a proliferação de centros em competição, uma maior diferenciação social entre a nobreza e os homens comuns, o incremento da pressão tributária, problemas de alimentação e doenças conjuntamente com a falta de respostas tecnológicas adequadas aos novos tempos; estas geraram pressões internas e externas que provocaram o colapso do sistema. Como consequência imediata deu-se uma maior mobilidade social, novas formas de integração política e alterações substanciais nos padrões culturais, fundindo-se povos de etnias e culturas diversas.

O período Pós-Clássico caracterizou-se por um acentuado aumento do militarismo. As antigas estruturas teocráticas, sobretudo no México central, foram substituídas por reis guerreiros que, simultaneamente incorporaram o papel dos antigos sacerdotes. Paralelamente e por várias razões, sobressai a filosofia religiosa assente numa extrema fragilidade dos equilíbrios universais, requerendo o aumento da prática de sacrifícios humanos. Se bem que se conservaram várias das antigas bases culturais adquiridas, neste novo período substituíram-se os velhos padrões ideológicos, religiosos e técnicos.

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Baixo relevo de um guerreiro, representado num dos edifícios do Templo Maior de Tenochtitlan. Foto de S. Guilliem Arroyo para Jaca Book SpA. Milão, 1995.

Os grupos pertencentes à Tradição Cultural do Deserto, no Norte do México, conhecidos de uma forma geral pelos mexica como chichimecas eram, sobretudo, tribos nómadas habitantes de uma região árida e portanto de poucos recursos naturais. O seu nome designa uma forma de vida comum à qual pertenciam povos que falavam línguas distintas, na sua maioria nahuas. Tal denominação não deixa de ser ambígua porque, primitivamente, a mesma designava povos relacionados histórica, mítica, etnográfica e linguisticamente. Estas tribos irromperam no planalto mexicano em diversas vagas, dilatadas no tempo, transformando paulatinamente o seu padrão de vida de caçadores nómadas para a de agricultores sedentários. Assimilaram a alta cultura dos grupos locais subjugados; conservando porém o seu carácter extremamente belicoso. As contínuas invasões e adaptações culturais que se verificaram desde o final do período Clássico no planalto central do México, provocaram que a partir de 900 d.C. e em pouco tempo, os toltecas passaram a ser o grupo dominante no vale do México. Este grupo nahua protagonizou a primeira revolução militar de importância na Mesoamérica, fundando Tula em 860 d.C. como o seu centro de culto e que, posteriormente, foram considerados pelos mexica como os seus sábios antecessores e mestres em todas as artes. As fontes etno-históricas revelam que os primeiros habitantes de Tula tiveram a sua origem numa das muitas tribos nómadas vindas dos desertos nortenhos; os toltecas-chichimecas, que conviveram com outro povo vindo, aparentemente das costas do Golfo do México, os nonoalcas.

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Reconstituição da praça central de Tula Grande. Antonio Serrato-Combe. The University of Utah Press, 2001.

Os toltecas são o primeiro povo pré-colombiano do México central sobre o qual se conta com um corpo de dados históricos referentes a diversos aspectos da sua cultura: listas dinásticas, nomes de reis e governantes, relatos de migrações, a fundação da cidade, o seu desenvolvimento, as suas conquistas e posterior decadência. De facto, sobreviveram numerosas crónicas e fontes tanto pré-hispânicas como do século XVI, sobre a história de Tula e dos toltecas; estando entre as principais a «História Tolteca-Chichimeca», o «Códice Florentino» de Sahagún e seus informadores, os «Anais de Cuauhtitlán», a «História dos mexicanos pelas suas pinturas» e os textos de Ixtlilxóchitl, Motolinía, Muñoz Camargo e Torquemada.

A cidade de Tula situa-se no actual estado de Hidalgo, 65 km a noroeste da Cidade do México e foi um dos centros urbanos mais extensos da Mesoamérica. Teve uma superfície aproximada de 15 km2 albergando cerca de 50.000 habitantes durante o seu apogeu, entre 900 e 1150 d.C. e contou com três centros cerimoniais destacados: Tula Chico, Praça Charnay e a principal conhecida como a Acrópole. Esta última constituiu-se por uma grande praça central rodeada de templos, palácios e campos de jogo de bola. O edifício principal, a pirâmide templo de Tlahuizcalpantecuhtli – uma manifestação do deus Quetzalcoatl como Vénus – consta de quatro corpos sendo que no seu topo figuram as colunas conhecidas como «Os Atlantes»; hieráticas esculturas de guerreiros armados que supostamente suportavam o edifício que coroava a pirâmide.

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Plano geral de Tula Grande. Revista Arqueologia Mexicana. Editorial Raíces.

A praça principal estava rodeada por um complexo sistema de plataformas em terraço que se estendiam até ao rio e sobre os quais se levantavam numerosos conjuntos residenciais. Estas, pelas suas dimensões, características e proximidade da zona monumental permitem supor que se tratava de um dos núcleos residenciais mais importantes da cidade; habitados pela nobreza e funcionários de alto nível. Fora desta zona de elite, encontravam-se os bairros habitados pela maior parte da população.

Do mesmo modo que outros centros urbanos do México antigo, Tula contava, seguramente, com um amplo sistema de mercado e redistribuição interna, assim como uma extensa rede de intercâmbio, tributo e comércio a longa distancia. Uma grande quantidade de produtos de índole e procedência diversificada chegava a esta cidade, em alguns casos de regiões tão longínquas como a Costa Rica ou a Nicarágua.

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As salas de reunião do Palacio Quemado, um dos edifícios mais importantes de Tula. Jaca Book SpA. Milão, 1995.

A destruição que Tula sofreu no seu colapso como centro de poder é impressionante. Todos os edifícios da praça principal e de outros sectores da cidade foram incendiados e saqueados. É provável que estas destruições fossem cometidas pelos próprios toltecas, com a intenção de dessacralizar a cidade no momento do seu colapso. Exemplos idênticos são frequentes e de longa tradição por toda a Mesoamérica. Durante o final de Tula, grande parte da pirâmide de Tlahuizcalpantecuhtli foi desmontada, com os Atlantes e colunas que estavam no seu topo depositados numa enorme vala, escavada no lado Norte do edifício. Assim terminou o longo domínio e existência da cidade de Tula, que durou quase cinco séculos de vida; duração bastante longa para um estado de tempos pré-industriais.

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1-Maias

Dintel com inclusão de hieróglifos, Chiapas, México. Könemann, 2006.

O uso de uma escrita hieroglífica é a característica cultural mais importante que distingue o Período Clássico dos maias, vinda do período anterior. O nascimento da escrita hieroglífica nas planícies do Yucatão foi consequência de alterações sociais profundas que aconteceram com a ruína das grandes cidades Pré-Clássicas. O processo que finalmente conduziu ao ocaso das populações ainda não é claro. No entanto, está demonstrado que algumas cidades sobreviveram a essa violenta transformação, convertendo-se em pequenos núcleos que iriam originar a cultura Clássica Maia. Especialmente na zona central das terras baixas do Sul, em algumas localidades como Tikal, Uaxactún, Yaxhá e Xultún inclusivamente saíram reforçadas dessas revoluções.

Ao mesmo tempo que a escrita hieroglífica, durante a primeira Época Clássica desenvolveu-se uma nova instituição política: a monarquia hereditária. Enquanto a arte do Período Formativo era impessoal, expressando-se em forma de máscaras de deuses e símbolos cósmicos, ao iniciar-se o Período Clássico passou para um primeiro plano a representação de personagens históricos configurados individualmente. A tarefa dos escritos hieroglíficos e das obras de arte do Período Clássico consistiu em reafirmar as reivindicações do poder dos reis equiparáveis a deuses, na sua função como o centro do cosmos e de mediadores entre a humanidade e as divindades.

5-Maias

«Vaso dos coelhos». Pintura em vasilha que inclui hieróglifos; período Clássico-Tardio, 720-730 d.C. Könemann, 2006.

De facto, a escrita hieroglífica maia é o registo escrito, criado pelas civilizações da América pré-colombiana, mais próximo aquele que nós conhecemos. Contudo, não devemos assumir de forma conclusiva e precipitada que esta similitude de registo seja mais avançado do que o sistema pictográfico do centro do México ou os khipus andinos. De facto, estes dois últimos não dependem dos mesmos pressupostos constitutivos, baseando-se numa outra percepção de registo gramatical conseguindo, dessa forma aparentemente inferior, conter o mesmo grau de complexidade de informação que a escrita maia, tendo inclusive servido para registos de domínios políticos bastante mais abrangentes que o da própria civilização maia; nomeadamente o império Inca ou a extensa confederação acolhua-mexica. Na realidade, o que acontece com a escrita hieroglífica maia é que, para nós, ela possibilita uma série de informação que está ao alcance da nossa percepção, sendo interessante verificar que este sistema nunca extravasou as fronteiras culturais da civilização maia, mesmo para o México central, que teve sempre um ascendente político-cultural sobre os maias.

De qualquer das formas, o processo de descodificação dos hieróglifos maias passou por várias fases ao longo das investigações arqueológicas a que foi sendo sujeita. Em meados do século passado era inimaginável que algum dia se pudesse ler os textos maias, tendo sido qualificada com resignação como um “problema insolúvel”. Quando chegaram aos territórios maias, os invasores espanhóis encontraram esta escrita em pleno uso. Convencidos que esta era um obstáculo à sua conquista e evangelização, os espanhóis destruíram todos os testemunhos da cultura indígena. Esta apenas se manteve até ao ano de 1697 nas regiões remotas da selva, no Sul e centro da península do Yucatão. Apenas três manuscritos maias escaparam ao fogo, além dos registos encontrados na cerâmica ou nos edifícios e estátuas monumentais que fazem parte das ruínas desta majestosa civilização. As primeiras interpretações dos hieróglifos surgiram nas últimas décadas do século XIX a partir do estudo das tabelas de calendários representados no Códice de Dresde, que permitiu decifrar o sistema aritmético vigesimal e o calendário de longo curso, comprovando-se que os maias conheciam o conceito de zero e a sua importância. Mas, como tudo o que se conseguiu “ler” desta escrita eram datas de calendário e cálculos astronómicos, manteve-se a concepção dominante na segunda parte do século XX da sociedade maia como sendo constituída por agricultores pacíficos, governados por sacerdotes a observar o céu e a pensar no fenómeno do tempo.

3-Maias

Cerâmica decorada com a representação de um escriba trabalhando. Procedência desconhecida; Clássico-Tardio, 600-900 d. C. Könemann, 2006.

Os primeiros passos para descodificar outro tipo de registos foram alcançados pela historiadora de arte russo-americana Tatiana Proskouriakoff que localizou um hieróglifo de “nascimento” e outro de “entronização”, identificando como hieróglifo de “morte” o último signo de uma série de datas. Com o seu descobrimento demonstrou inequivocamente que as inscrições informavam da vida e da história de príncipes terrenos, facilitando uma visão da política e do poder das grandes cidades das terras baixas. Apesar desta revolucionária alteração de paradigma, que convertia uma sociedade “pré-histórica” num povo com uma história escrita, nem sempre se estava em condições de ler correctamente a escrita maia. A leitura de um texto significa definitivamente a sua recomposição linguística. Nesse sentido, conhecia-se a estrutura da escrita maia e articulavam-se os signos tal como faziam os maias do Período Clássico. Porém, seriam os hieróglifos maias uma escrita em que os signos correspondiam a sons linguísticos concretos? Os investigadores defendiam, até há poucas décadas, a tese que os caracteres remetiam a ideias de um modo pouco preciso. Será o arqueólogo e especialista em escrita, o russo Yurii Knozorov, apoiado mais tarde por investigadores norte americanos como David Kelley ou Michael D. Coe a demonstrar que a escrita maia era realmente um sistema formado por logo-gramas por um lado e por caracteres silábicos por outro, demonstrando que estes sempre se combinam entre si do mesmo modo para transcrever palavras maias. Desta forma a escrita maia é definida pelos especialistas como escrita logo-silábica ou “escritura mista”.

2-Maias

Variantes logo-gráficas e silábicas para a palavra ajaw – rei. Könemann, 2006.

O facto de que determinados signos possam ser lidos de diversos modos, complica mais a leitura dos textos hieroglíficos maias. Os escribas mais virtuosos acrescentavam a complexidade visual da escrita, para o qual não se limitavam a colocar os signos uns atrás dos outros, sendo que os sobrepunham ou inclusivamente encaixavam um dentro do outro, sem introduzir nenhuma alteração na leitura. Além de que havia muitos signos susceptíveis de se apresentar numa variante plena ou na sua forma abreviada. Quando um escriba caligraficamente ambicioso queria fazer do texto uma verdadeira obra de arte, conformava os signos como cabeças ou com figuras completas. A qualidade estética da escrita era muito importante para sublinhar o seu carácter sagrado. Ao contrário da maioria dos restantes sistemas de escrita, o sistema maia não foi produto da necessidade de assegurar as transacções comerciais, sendo desde o primeiro momento um meio utilizado para se dirigirem aos deuses ou para legitimar o poder dos reis, que se equiparavam a deuses. Os escribas que operavam a escrita hieroglífica, ocupavam uma posição social elevada e geralmente viviam e actuavam nas cortes reais. Segundo parece, da mesma forma que sucedia com outros povos mesoamericanos, entre os maias o domínio da escrita e, logicamente da leitura, ainda que fosse apenas passivo, formava parte da educação da aristocracia. Não se sabe de certeza se a escrita era dominada pela população rural; é muito pouco provável que assim fosse, pois não existem documentos escritos sobre a vida quotidiana das hierarquias sociais inferiores. Não obstante, possivelmente todas as pessoas podiam reconhecer o nome do soberano reinante na inscrição de uma pedra. O carácter gráfico de muitos hieróglifos facilitava seguramente o reconhecimento dos diversos signos.

4-Maias

Ilustração da escadaria de Cópan. Fonte: Internet.

Dos cerca de 800 signos da escrita maia, actualmente estão decifrados uns 300 e tem-se uma ideia mais ou menos precisa do significado de outros tantos. Sem dúvida que o idioma linguístico dos hieróglifos foi desenvolvido no Período Formativo por um grupo linguístico ch’ol, sendo esta a língua franca da aristocracia maia do Período Clássico e desfrutava de grande prestígio como língua escrita. Na realidade a escrita hieroglífica dispunha de muitas possibilidades estilísticas, não obstante, o carácter formalista e as incessantes repetições dos textos conservados produzem uma impressão de monotonia. São comunicados oficiais, propaganda real e crónicas. As formas expressivas narrativas e poéticas estavam ausentes, pelo menos nos monumentos públicos. No entanto, em peças de cerâmica pintada aparecem indícios de criações literárias perdidas e do amplo espectro de temas consignados por escrito em épocas anteriores. Estas peças eram concebidas para um âmbito privado, pelo que os artistas deveriam sofrer menos limitações. Nelas há pinturas em que aparecem homens conversando, de um modo muito similar às vinhetas da banda desenhada moderna, podendo-se observar umas linhas que ligam as falas hieroglíficas com as bocas dos falantes.

Não se deve esquecer que apenas se conserva uma pequena parte da riquíssima literatura maia. A humidade e o calor do clima tropical provocaram a perda de todos os suportes elaborados com material perecível, como as inscrições em madeira ou tecido. Actualmente contamos sobretudo com as inscrições em pedra, como as estelas comemorativas, altares, em painéis, em tronos ou em dintel. Os edifícios aparecem com inscrições e decoravam-se escadas inteiras, como a famosa estrutura de Copán, que tem mais de 2. 000 hieróglifos. Os textos eram realizados em estuque e colocados tanto no interior como no exterior dos edifícios; as paredes eram pintadas e as representações cénicas acompanhadas de anotações explicativas. Para além dos especialistas, os maias actuais da Guatemala e do México fazem sua a escrita hieroglífica para recuperar uma parte da sua identidade através dela, proclamando-se assim os herdeiros legítimos de uma cultura escrita milenária.

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Zona cultural de Veracruz no Período Clássico. Fonte: Internet.

Remojadas é um nome aplicado a uma cultura e a um sítio arqueológico, como também a um estilo artístico que floresceu na costa do Golfo do México, na região de Veracruz, de 100 a.C. até 800 d.C. A cultura de Remojadas é considerada parte da mais extensa Cultura Clássica de Veracruz que inclui Higueras, Zapotal, Cerro de las Mesas, Nopiloa e o centro que mais se destaca, a cidade de El Tajin.

Enquanto a Cultura Clássica de Veracruz apresenta influências de Teotihuacan e dos Maias, nenhuma destas culturas são os seus directos antecessores. Pelo contrário, as sementes deste grupo cultural parecem ter originado, pelo menos em parte, dos centros culturais Epi-Olmecas, tais como o Cerro de las Mesas e La Mojarra.

Por vezes, a Cultura Clássica de Veracruz é erroneamente associada com os totonacas, que ocupavam este território ao tempo da invasão espanhola do México. Contudo, existem poucas ou nenhumas evidências de que os totonacas tenham sido os originadores da cultura Clássica desta área.

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Arte de Veracruz Central. Figura feminina em cerâmica. Museu Nacional de Antropologia e História, Cidade do México.

Presentemente, é necessária muito mais investigação sobre a cultura de Remojadas. O sítio arqueológico tem-se mantido amplamente inexplorado, desde as investigações iniciais levadas a cabo por Alfonso Medellin Zenil em 1949 e 1950. Remojadas é particularmente conhecida pela sua cerâmica e as suas figuras ocas. Literalmente, centenas destas expressivas e diversas figuras têm sido desenterradas, encontradas através de uma ampla variedade de locais, incluindo sepulturas e pilhas de detritos. As figuras retratam divindades, governantes e homens comuns, assim como tipos de animais como cães e veados. De interesse particular são as curiosas peças das figuras e faces “sorridentes”. Muitas destas figuras deste período funcionam como flautas, apitos e ocarinas. Algumas figuras de animais, interpretados como brinquedos ou talvez como objectos rituais, estão providos de rodas, um dos poucos registos da aplicação da tecnologia da roda na América pré-colombiana.

Muitas figuras têm dentes limados, representando uma prática comum na cultura de Remojadas. As primeiras figuras foram executadas à mão, enquanto as mais tardias foram criadas usando moldes. Em estilo e presença, as figuras têm uma próxima relação com as figuras maias.

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Figura “sorridente”, cerâmica, 600-900 d. C. Galeria de Arte da Universidade de Yale, New Haven.

Os “sorridentes” são as figuras cerâmicas melhor conhecidas de Remojadas, tendo sorrisos abertos em rostos curiosamente delineados em forma quase triangular. Muitas vezes as cabeças estão soltas. Outras vezes estão conectadas a corpos mais pequenos com braços em posição votiva, mostrando a palma das mãos. A expressão do sorriso é formalizada, usualmente mostrando os dentes e, em certas ocasiões, com a língua saliente, entre os dentes e fora da boca.

As figuras “sorridentes” apresentam-se nuas ou usam saiotes. Tanto as figuras masculinas como femininas estão geralmente adornados com peitorais e ou colares, assim como com vários tipos de toucados. Estes e por vezes as roupas apresentam uma espécie de glifo emblema ou um animal estilizado.

As figuras sorrindo são raras na arte mesoamericana, sendo que o grande número de figuras “sorridentes” atesta sem dúvida o seu papel especial na sociedade de Remojadas, apesar do papel que possam ter tido seja alvo de muita especulação. Alguns investigadores vêm a característica do sorriso sendo produzida através da ingestão de alucinogénos; enquanto outros afirmam que eles estão sem dúvida relacionados com o culto dos mortos.

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