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Posts Tagged ‘América Antiga’

As culturas nativas da área do Oceano Pacífico. Luís Covarrubias. Editorial Raízes, México.

As civilizações desenvolveram-se apenas em alguns lugares ao longo do globo terrestre. Dois destes lugares – os Andes e a Mesoamérica – encontram-se na última massa continental a ser colonizada pela humanidade. Desde as terras geladas do Alasca e do Árctico canadiano, atravessando as pradarias da América do Norte, passando pelos trópicos equatoriais e descendo os maciços andinos e as terras baixas Sul americanas, até à Terra do Fogo, as Américas apresentam uma variedade de paisagens e climas que serviram de cenário para os desafios colocados à capacidade de adaptação humana. Em 1519, Hernán Cortés e o seu grupo contemplaram, pela primeira vez, a capital colhua-mexica, Tenochtitlán, flutuando nas águas do Lago Tetzcoco, no planalto central mexicano. O seu companheiro incrédulo, Bernal Díaz, enalteceu a visão desta grande ilha metrópole, com os seus templos, praças, ruas ordenadas, jardins e passagens como “suplantando tudo o que se poderia ver em toda a Europa”.

No entanto, com a invasão ocorrida a partir do século XVI, fracturou-se de forma drástica a continuidade cultural que durante mais de trinta milénios havia inspirado os indígenas americanos forjando a sua própria identidade. Escrevendo por volta de 300 anos depois de Cortés, Charles Darwin descrevia os índios de canoa yahgan, da Terra do Fogo, como “os mais miseráveis infelizes à face da terra”, vivendo no mais baixo grau de existência humana. Darwin não estava consciente que, por décadas, caçadores de baleias e focas dizimaram as colónias de mamíferos marinhos dos quais os yahgan dependiam, introduzindo doenças contagiosas, além do álcool, no decurso da sua passagem, com consequências devastadoras.

Ilustração de embarcação da Polinésia. Fonte: Internet.

As narrativas divergentes coloriram a imaginação europeia que, de certa maneira, continua a ser tão ignorante sobre as culturas ameríndias agora como o era no século XVI. O etnocentrismo ocidental produziu, ao longo do tempo, um discurso parcializado sobre os seus movimentos expansionistas, tendo recebido no apoio da religião um instrumento político, chegando a referir-se à sua acção hegemónica como a fase dos descobrimentos; uma designação despida do seu sentido em relação aos povos e culturas pré-colombianas que continuam a ser propensas a uma classificação de primitivas e misteriosas. A própria questão da “descoberta” da América é, em si, ambígua. Sabemos que o primeiro contacto europeu com as Américas aconteceu através dos vikings, por volta do ano 1000 d.C., cujas colónias na Terra Nova foram possivelmente destruídas pelas populações autóctones. Mais recentemente, no Sul da Islândia, restos de ossadas encontradas foram identificadas, através de testes de ADN, como sendo referentes a homens e mulheres ameríndios trazidos para a Europa pelos povos escandinavos. Fora do contexto europeu é muito provável uma ligação trans-Pacifíco através de povos australianos e polinésios, talvez até antes de Cristo, no extremo Sul do continente americano. No entanto, o discurso oficial do ocidente exclui qualquer precedente, focalizando a sua afirmação em  Cristóvão Colombo  que, ao invés de um descobridor foi uma espécie de testa de ferro empresarial, ao exterminar as populações arawks, nas Antilhas Maiores, a troco de uma extorsão capitalista que teve a sua consumação, anos mais tarde, na exploração das minas de Potosi, nos Andes Centrais.

Massarocas de milho. Fonte: Internet.

Muitos investigadores estão de acordo que foram necessários 50.000 anos para que o Norte e o Sul do continente americano fosse povoado; sabemos de certeza que os primeiros colonos humanos chegaram à Patagónia por volta de 10.000 anos atrás. Com o aquecimento global que se seguiu no final da última idade do gelo, os habitats naturais favoreceram o desenvolvimento estável das diversas comunidades, proporcionando a transição gradual da caça e da recolecção para a agricultura. Tal como na Europa, algumas plantas selvagens tornaram-se colheitas altamente produtivas como resultado de milhares de anos de selecção e criação humana. Nas terras baixas da América do Sul este processo inclui a cassava – também conhecida como yuca ou mandioca, que requer uma tecnologia sofisticada de processamento – e outros tubérculos, picantes, amendoins, tabaco e algodão. Nas terras altas da América do Sul lamas e alpacas domesticados providenciaram carne para alimentação e lã, como serviam de animais de transporte bem adaptados ao terreno vertiginoso. O cavalo nativo americano extinguiu-se muito cedo, sendo que o cavalo que nos é familiar só foi reintroduzido na América no século XVI pelos espanhóis. O porco da Guiné foi outra fonte alimentícia – complementada com batata, feijão e quinoa. Na Mesoamérica o milho foi de importância estrutural, uma vez separado do seu progenitor selvagem – evitando assim uma criação cruzada – foi adoptado tanto na América Central como na América do Sul; permitindo o crescimento demográfico e aumentando a complexidade social.

Pintura de Monte Albán. Miguel Covarrubias, Museu Nacional de Antropologia e História, Cidade do México. Fotografia de Tempo Ameríndio.

Tal como em outras partes do globo a competição pelas melhores terras aráveis e água levaram à ascensão das elites governantes que presidiam sobre a agricultura e a produção de artefactos. Por seu lado, este processo levou ao crescimento da religião e à criação de obras de arte que reflectem tanto as preocupações espirituais como políticas. Desta forma, nas costas do Golfo do México, de 1200 a.C. para diante, a precoce cultura olmeca criou o primeiro grande estilo de arte mesoamericana. Esta cultura foi seguida pela ascensão das cidades estado maias, cujos relevos e hieróglifos esculpidos em pedra assinalam eventos decisivos na vida dos seus reis e rainhas. No planalto central do México, agricultores, artesãos e comerciantes mantiveram a cidade cosmopolita de Teotihuacán, acomodando uma população de 200.000 habitantes por volta de 600 d.C., fazendo desta um dos seis maiores centros urbanos do seu tempo. Teotihuacán continua a servir como exemplo de metrópole modelo, com um centro urbano multi-étnico alimentado por uma rede de comércio a longa distância.

No vale de Oaxaca, os zapotecas e posteriormente os mixtecas alargaram progressivamente o centro de Monte Albán, com os seus templos, tumbas e campos de jogo localizados numa esplanada no alto de uma montanha. Entretanto, mais para Sul, na costa peruana do Pacífico, produziu-se uma tradição de grandes recintos cerimoniais em forma de U, com uma arquitectura monumental e praças afundadas que precederam a introdução quantitativa da cerâmica. Facto que vem trazer uma nova premissa à investigação científica, já que usualmente se considera o surgimento de culturas através da cerâmica, o que não aconteceu no espaço andino, onde os têxteis e a arquitectura prevaleceram como elementos fundadores. Ainda anterior a estes centros e até mesmo antes do florescimento da civilização olmeca, Caral, situada perto da costa, no centro do Peru, é considerada o primeiro complexo urbanístico de todo o continente americano, na mesma época em que florescia a civilização egípcia.

Vista geral de Machu Picchu, Peru. Fonte: Internet.

O ritual e a cerimónia também deixaram a sua marca em Chavín de Huantar, no flanco Este da Cordilheira dos Andes, na forma de imagens interligadas de animais e pássaros. A arte de chavín exerceu uma influência seminal na cultura andina, sendo que os estados costeiros como os moche, nazca e chimú desenvolveram estilos de arte inovadores e diferenciados. Os vasos moche rivalizam na destreza com as cenas pintadas nos vasos Áticos da Grécia antiga; enquanto a estética de mancha policromática da cerâmica nazca aponta para a estilização abstracta, milhares de anos antes da arte ocidental colocar tais questões nas suas expressões artísticas. Os domínios contemporâneos de Wari e Tiwanaku, das terras altas andinas, tinham já criado estilos abstractos geométricos que utilizaram em têxteis, olaria e trabalhos escultóricos.

Qualquer pessoa que tenha percorrido os antigos caminhos que atravessam os Andes, levando ao topo da cidadela de Machu Picchu – empoleirada no topo de uma alta montanha com vista para o rio Urubamba – terá ficado maravilhada pelo engenho e capacidade envolvida na sua criação. Em torno deste sítio encontram-se fileiras rítmicas de terraços agrícolas que desempenharam um papel crucial na manutenção desta localidade. Ao domar as encostas vertiginosas, os incas tornaram um nicho ecológico previamente inexplorado, entre os vales baixos e as altas punas de campos de ervas, num terreno agrícola extremamente produtivo.  A sua sabedoria em relação às necessidades pragmáticas da gestão de água e tecnologia de irrigação juntava um conhecimento consumado da paisagem com uma sensibilidade estética sem precedentes. A vasta grandiosidade destes terraços em Pisac, Moray e Ollantaytambo ainda nos tira a respiração hoje em dia. Na costa desértica do Peru a irrigação tinha sido utilizada durante milénios para suportar uma agricultura de vale intensiva, a par com uma crescente especialização na fauna marítima, que capitalizou o bem estar dos recursos piscatórios nas margens do Oceano Pacífico.

Canais de regadio, América do Sul. Fonte: Internet.

Em outros ambientes, como as terras de ervas inundadas sazonalmente de Llanos de Mojos na Bolívia, em redor do lago Titicaca e nas bacias do Grande Rio das terras baixas da Colômbia e Equador, a criação de padrões complexos de campos levantados e canais permitiu um micro clima favorável que terá facultado a estes agricultores primordiais colheitas milagrosas.  Técnicas similares foram aplicadas no planalto mexicano e nas terras baixas dos maias. Todos estes complexos foram geridos de forma superior, paisagens “domesticadas” que requeriam uma enorme concretização de trabalho para projectar, construir e manter.

Desde os têxteis bordados de paracas – que eram os mais finos em qualquer parte do mundo ao seu tempo – à fusão e elaboração de uma gama de mistura de metais, as origens da metalurgia recuam quase 4.000 anos na América do Sul. O continente americano criou uma diversidade cultural espantosa, em cada nicho ecológico disponível, desde a costa aos desertos, desde as terras baixas ribeirinhas às elevadas montanhas de terras verdejantes.

Volador totonaca. Editorial Raízes, México.

Ao longo da América as culturas desenvolveram os seus calendários para marcar os movimentos do sol, da lua e das estrelas. A arquitectura pública inicial era produto do empenho colectivo para controlar as poderosas forças naturais que governavam as alterações sazonais e o sucesso das colheitas. A posição dos templos era frequentemente ligada ao ritmo do cosmos. Os sacerdotes estavam encarregues com a tarefa de alinhamento dos locais sagrados e templos, como a kalasasaya – o recinto sagrado – em Tiwanaku ou o Templo Maior de Tenochtitlán, dispostos em lugares chave, relativamente ao nascer e ao pôr do sol. Estes locais dão-nos um vislumbre do conhecimento impressionante das matemáticas e astronomias pré-hispânicas.

Estruturas monumentais foram construídas na forma de plataformas aplanadas, abrangendo desde os montículos de terra da cidade de Cahokia, no vale do Mississípi perto de Saint Louis, até às fachadas de pedra das pirâmides de Tlalóc e da “Lua” em Teotihuacán, além das estruturas monumentais, construídas em adobe, na costa peruana, como a Pirâmide do “Sol” no vale de Moche. Nenhuma destas construções assume a forma clássica triangular das pirâmides do Egipto e, de facto, não devem nada a contactos ou influências externas ao continente americano. Elas reflectem uma tendência humana universal para segregar o espaço secular e sagrado, tal como aconteceu com os zigurates no antigo Iraque.

Reconstituição digital de aldeamento iroquês. Fonte: Internet.

Ao contrário da Eurásia as Américas não viram a emergência de um grande império até ao século XIV d.C. – uma característica que tem levado à diminuição destas culturas como sendo “atrasadas”. No entanto a Constituição da Confederação Iroquesa foi inspiradora do Congresso Norte Americano, na procura de consensos entre o Senado e a Casa de Representantes. Seria importante sublinhar que, tanto nas macro estruturas como no âmbito das comunidades simples ameríndias, a reciprocidade caracterizou o seu padrão de vida socioeconómico, independentemente dos constrangimentos políticos.

Por volta de 1400, emergiram duas potencias com o intento de exercerem o controlo numa escala sem precedentes. Na Mesoamérica o domínio dos mexica promoveu um estado de ideologia mítico-militarista, desenvolvendo uma extensa rede comercial para assegurar materiais valiosos, incluindo a obsidiana, o algodão além de materiais exóticos como as deslumbrantes penas de quetzal. Entretanto, os incas, evoluindo sob tradições andinas mais antigas, criaram não só o maior império nativo das Américas, como consolidaram o seu poder na forma de um estado, tal como estes são reconhecidos ao longo da história. Expandindo-se com uma admirável rapidez, desde a sua terra natal no vale de Cuzco, governaram sobre um vasto território da cordilheira andina Sul americana. Tal como os mexica, perseguiam o domínio de bens materiais, penteando obsessivamente o seu império para terem acesso às espinhosos ostras – as spondylus princeps – reverenciadas pela sua concha de vermelho sanguíneo.

Museu do Templo Mayor, Cidade do México. Fotografia de Tempo Ameríndio.

Para onde se dirigiam as antigas culturas americanas, sob a égide destes dois regimes poderosos, nunca chegaremos a saber. Subitamente, estrangeiros que atravessaram o Oceano Atlântico introduziram um novo e inesperado desafio. Não tendo sido recebidos como deuses, ao contrário do que afirma a versão lendária da história, souberam, no entanto, explorar as tensões políticas e culturais existentes no seio das sociedades ameríndias – por exemplo, o império Inca vivia o final de uma guerra civil à chegada de Francisco Pizarro que se prolongou por mais 30 anos; com a competição pelo poder repartido entre a legitimidade indígena, os aventureiros que de forma corrente chamamos conquistadores e a coroa espanhola.

Milhares de anos de inovação cultural independente da América tinha acabado ao ser submetida por ideias e práticas que vinham da Europa, África e Ásia. A imposição religiosa, a penetração cultural e económica abalou o núcleo social e em muitos casos chegou a desintegra-lo, provocando a marginalização das comunidades. Os antigos habitantes da América sofreram com o choque desta invasão e subsequente colonização; o genocídio, a exploração calculada e a destruição cultural sistemática foram as ferramentas de uma expressão assente na iniciativa privada apoiada pelos estados soberanos europeus que deram inicio, no século XVI, ao processo de globalização da qual continuamos a fazer parte.

Principais etnias ameríndias no século XVI. Mapa de Carlos Punta e Tempo Ameríndio.

Outra consequência nefasta destes acontecimentos foi que teriam que passar muitos anos para que se inicia-se um estudo sério que permitisse recuperar à América antiga o seu lugar dentro do património da humanidade. Não obstante de um reconhecimento cultural cada vez mais patente, as comunidades indígenas americanas continuam a ser uns estranhos na sua própria casa e, no entanto, foram vastas e importantes as suas realizações em vinte ou vinte e cinco mil anos de história independente. Estes povos conseguiram uma das mais admiráveis demonstrações de história cumulativa que existiram no mundo: erigindo uma arquitectura de sentido cosmológico, desenvolvendo sociedades complexas com índices de higiene e reciprocidade que o Velho Mundo nessa altura não praticava, explorando a fundo as fontes do meio natural, domesticando ao lado das espécies animais as espécies vegetais mais variadas para a sua alimentação, os seus remédios e os seus venenos – facto nunca antes igualado – promovendo substancias ao papel de estimulantes ou de anestésicos; coleccionando certos venenos ou estupefacientes em função das espécies animais sobre as quais exercem uma acção electiva. Levando determinadas industrias como a tecelagem, a cerâmica e o trabalho de metais preciosos ao mais alto nível de perfeição. Para apreciar esta obra, basta medir a contribuição da América para as civilizações do Velho Mundo. Em primeiro lugar a batata, a borracha, o tabaco e a coca – base da anestesia moderna – que, a títulos sem duvida diversos, constituem quatro pilares da cultura ocidental. O milho e o amendoim, que vieram a revolucionar a economia africana antes talvez de se generalizarem no regime alimentar da Europa; em seguida, o cacau, a baunilha, o tomate, o ananás, o pimento, várias espécies de feijão, de algodões e de cucurbitáceas, uma família de plantas de haste rastejante como a abóbora ou o melão.

O hieróglifo maia para 0. Edições Könemann, 2006.

Finalmente, não poderíamos deixar de referenciar o zero, base da aritmética e, indirectamente, das matemáticas modernas, que era conhecido e utilizado pelos maias pelo menos meio milénio antes da sua descoberta pelos sábios indianos, de quem a Europa o recebeu por intermédio dos árabes. Talvez por esta razão os calendários mesoamericanos fossem mais exactos que os do Mundo Antigo. A questão de saber se o regime político dos incas era socialista ou totalitário já fez correr muita tinta. Apresentava, de qualquer maneira, as formas mais modernas e tinha em avanço vários séculos sobre os fenómenos europeus do mesmo tipo.

 

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Mapa de Carlos Punta. Edições Corregidor, Argentina.

Parece não existir um consenso, por parte dos especialistas, sobre o carácter das primeiras sociedades agrárias nestas zonas continentais. Há quem opine que foram sociedades baseadas no parentesco e na identidade étnica, com propriedade comunal sobre os meios de produção. Outros pensam que foram sociedades desiguais agrupadas em federações ou aldeias. Porém, o que parece claro é que algumas delas evoluíram para formas de poder baseado nos caciques, que utilizaram simultaneamente os ecossistemas da montanha tropical e da costa. Terão estabelecido relações mais ou menos violentas de dominação sobre outros grupos próximos que se encontravam num estado simples de evolução, tendo estado permanentemente em guerra com outros territórios caciques similares. Porem, ao mesmo tempo, mantiveram fluidas relações de intercâmbio. Portanto, toda a zona continental costeira, desde a Nicarágua até ao Este da Venezuela, foi uma complexa franja de interacção material, ainda que não de uma maneira homogénea. Na costa nicaraguense, por exemplo, a agricultura de conucos teve bastante êxito. Na Costa Rica, os güetar, controlavam boa parte da montanha e da costa. No Panamá, Comagre, Veragua e Darién foram áreas de importante desenvolvimento. Zenús e Taironas, na actual costa colombiana, alcançaram ao que parece uma maior identidade cultural e produtividade agrícola – com uma portentosa rede de canais e camalhões de cultivo – que outros grupos da América Central instalados em zonas de menor potencial ecológico; onde boa parte da produção agrária se obtinha com bastões para cavar.

Cerâmica coclé, Panamá. Arte pré-colombiana. Scala Group, Itália.

Será durante o período Clássico mesoamericano, entre 400 e 900 d.C. que se dará a transformação cultural dos diversos grupos da América Central, com a assimilação de povos amazónicos. Exemplo disso, é que não utilizaram materiais permanentes nas construções, o estabelecimento das comunidades foram temporais e, periodicamente, desativavam as suas residências. Tão pouco aplicaram o conceito de centro cerimonial. Em seu lugar, desenvolveram uma religião personalizada e um culto aos seus chefes que incluía a tatuagem e as pinturas corporais com os símbolos do líder. Este costume foi adoptado pelas etnias que emigraram da Mesoamérica, para a América Central, durante o Pós-Clássico. Não existiram, neste período, territórios alargados marcados por influências regionais. Observam-se certas zonas de difusão em Coclé, que se estendeu culturalmente sobre a península de Azuero e Plata del Venado. Como elementos estrangeiros, apareceu na zona Coclé uma cerâmica importante e pilares construídos que sugerem uma penetração nortenha no oriente da América Central.

Os chorotega construíram vivendas e templos de barro e palha. As suas pirâmides foram pequenos montículos de terra, sem templos no seu topo, tendo apenas uma peça lítica, para o ritual de sacrifícios na sua plataforma. O seu governo era presidido por um conselho de anciãos ao qual estava subordinado o Chefe de Guerra. À diferença de outros grupos que apenas praticavam a antropofagia como ritual, os chorotega deram um valor económico à carne humana, para o qual dispunham de “gado” humano obtido em caças organizadas de forma periódica.

Pendente chiriquí, Panamá. Arte pré-colombiana. Scala Group, Itália.

Parece que os nicarao haviam chegado à América do Sul, pois encontraram-se alguns elementos associados a este grupo em território venezuelano. Mais a Sul, nas terras que se estendem desde o Norte da Costa Rica até ao Panamá, existiu um mosaico de pequenos reinados, sem unidade política, com uma multiplicidade de idiomas, sendo conhecidos genericamente como tribos chibchas.

Na região atlântica, o Pós-Clássico Tardio caracterizou-se por ser um período de marcado ritual religioso, onde alguns símbolos sugerem influências meridionais. Na Costa Rica, levantaram em redor das áreas cerimoniais e cemitérios, montículos de paredes e recintos semi-enterrados com muralhas de pedra. Também construíram aquedutos e caminhos empedrados. Estes grupos dispunham de plantações de milho, cacau e tapires domesticados. Levantaram plataformas piramidais que serviam de bases templárias. Por sua vez, estavam presentes outras características especificamente meridionais como alguns objectos de culto, a utilização de redes para descanso e tecidos feitos de casca de árvore que sugerem contactos com grupos arawak. Dedicaram-se a um comércio intensivo e estavam sempre num estado beligerante. O seu governo foi um sistema de chefias com uma classe nobre poderosa e um xamanismo institucionalizado que tendia a transformar-se num principado despótico para a época da invasão ocidental. Nas artes prestaram maior atenção à ourivesaria e à cerâmica.

«Metate» zoomórfica da Costa Rica. Fonte: Internet

As regiões dos povos chiriquí e diquís, assim como a de Veraguas no Panamá, apresentam estreitas afinidades. Os sítios arqueológicos situados no Sul da Costa Rica, ao longo do Pacífico, apresentam montículos revestidos com pedra talhada e agrupadas em redor de praças. As sepulturas eram construídas de forma rectangular e, sobre elas, colocaram grandes lápides. Tiveram o costume Sul-americano do culto às cabeças-troféu. Também fabricaram uma cerâmica sensível e uma joalharia intensa, onde o ouro com que trabalharam os ourives deve ter sido importado.

O intercâmbio comercial deste período foi tão intenso como no anterior e muito do artesanato chegou até à cidade maia de Chichén Itzá por via comercial; além disso mantiveram vínculos comerciais com a península de Nicoya de onde obtinham o jade. Na Costa Rica realizou-se uma das mais originais talhas líticas da América antiga. Juntamente com a escultura modelaram-se excelentes cerâmicas escultóricas e pictóricas, além de uma  ourivesaria proeminente, pelo seu desenho e qualidade de manufactura, assim como uma abundante lapidaria, da qual se destacam as peças denominadas como «metates».

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VALDIVIA

Fonte: Internet.

 

Valdivia foi uma cultura que se desenvolveu entre 3.500 e 1.500 a.C. na costa ocidental do Equador, encontrando-se principalmente na Península de Santa Elena e também no estuário de Guayas, nos rios Manabí e Oro. O desenvolvimento da cultura valdiviana e muitos dos seus elementos culturais, como a cerâmica, difundiram-se rapidamente para as áreas vizinhas. Sendo uma verdadeira cultura do período Formativo, não há duvidas de que os valdivianos seguiram as tradições arcaicas da caça, pesca e a recolecção de moluscos; porém não se encontrou até agora provas claras de que fosse uma cultura intensivamente agrícola.

Como todas as sociedades da época, a cultura valdiviana teria uma organização do tipo tribal. Regulavam a sua vida através da reciprocidade e os laços de parentesco, que asseguravam a sobrevivência do grupo. É possível que tivesse contado com chefes especialistas nas relações com a esfera sobrenatural. Actualmente conhecem-se 22 sítios num período de 1.000 anos. Em Real Alto, que tinha uma população estimada em 2.000 habitantes; as casas estavam distribuídas ao redor de uma praça aberta. Pelas suas dimensões, possivelmente albergavam vários grupos familiares, tendo uma forma oval de 12 m por 8 m e era delimitada por valas. Parece que a população usava pinturas corporais, colares, adornos labiais, orelheiras e alucinogénios. A presença de enterros debaixo do piso argiloso das cabanas residenciais é bastante característica de muitas sociedades agrícolas. De facto, os enterros servem como títulos de propriedade que indicam cuja linhagem é dona da propriedade. Talvez os valdivianos fizessem o mesmo. A presença de uma “matriarca” num enterro especial no montículo do ossário de Real Alto reflecte, possivelmente uma organização matricial para a cultura de Valdivia.

A economia de Valdivia era mista, baseada na agricultura e na obtenção directa de recursos naturais. As culturas principais eram o milho, feijões e abóboras. É possível que também plantassem malaguetas e amendoim, assim como algodão. Recolectavam frutos silvestres como papaias, pinhas, anonas e caçavam veados, pescavam e recolectavam mariscos.

Fonte: Internet.

A cultura valdiviana destaca-se por ser uma das primeiras sociedades ameríndias em que se massificou o uso da cerâmica. Confeccionavam principalmente panelas, tigelas, sempre de boca larga e base côncava. Para a decoração destas vasilhas empregaram várias técnicas, como o modelado, o inciso ou estampado, com o que realizavam motivos geométricos, sobre vasilhas geralmente polidas. Outro elemento destacável da olaria desta cultura, são as figurinhas, cuja maioria representam mulheres nas suas distintas fases da vida feminina; como a puberdade, a gravidez ou o parto. A importância que tinha o adorno pessoal para esta cultura, também se mostra em figurinhas com adornos labiais, colares e orelheiras. Estes elementos eram feitos principalmente de conchas marinhas como o molusco bivalve e o búzio que, posteriormente teriam grande importância para o ritual dos povos andinos.

Os almofarizes em forma de felinos, macacos ou papagaios serviam para pulverizar substâncias medicinais e alucinogéneos, sendo que a folha de coca com cal eram os elementos mais utilizados. Estes objectos figuram entre a parafernália dos antigos ritos de transformação religiosa facilitada pelo uso de plantas de poder. Estes almofarizes, caracterizados por ter um recipiente côncavo, foram utilizados também para moer alimentos, preparar pigmentos ou colorantes, folhas medicinais ou veneno, para as suas actividades de caça ou magia. À sua função, acrescentaram frequentemente elementos artísticos ornamentais.

Fonte: Internet.

As Vénus de Valdivia são figuras de barro ou pedra, famosas por realçar as formas femininas, usualmente despidas, e por usarem penteados de todos os tamanhos. O penteado nesta cultura, quanto mais elevado era, indicava que a mulher tinha uma hierarquia mais importante dentro do seu grupo. O barro para executar estas peças era extraído do solo e rapidamente se converteram numa referência posterior, já que foi uma temática muito repetida. Por este facto, vemos a diferença estética e técnica nas diversas culturas posteriores.

Todas as figuras de barro e pedra da cultura valdiviana têm as mesmas características. Olhos registados simplesmente com uma incisão e em forma de grão de café; linha grossa de sobrancelhas que faz a forma do nariz; braços junto ao corpo e pernas sem pés. Além do mais, têm formas arredondadas e todas elas têm marcado o sexo, sobretudo os peitos. Outra característica importante são os complicados penteados que todas elas envergam. Ainda que se tenha teorizado muito acerca da sua finalidade, questionando-se também o nome dado de Vénus; encontraram-se muitas destas peças em tumbas e enterradas nos campos. Crê-se que seriam uma espécie de talismã para fecundar a terra e para propiciar a fertilidade.

O enterro de defuntos realizava-se nos mesmos montículos das habitações, ainda que não seja claro se estas eram abandonadas depois. Por vezes, as crianças eram sepultadas em vasos de cerâmica. Encontraram-se enterros de todos os tipos, primários e secundários, individuais e colectivos. Os cães domésticos também eram sepultados, seguindo um padrão funerário parecido ao dos seus donos. A grande quantidade de figuras fragmentadas, encontradas nos sítios arqueológicos, faz pensar que estas eram elementos de uso ritual. Estes estavam possivelmente associados à fertilidade, apresentando algumas delas rostos inchados e pequenos recipientes para guardar a substancia que liberta o alcalóide.

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Mapa da região Mixteca. Revista Arqueologia Mexicana, Editorial Raízes.

A área do povo mixteca corresponde à metade Oeste do estado de Oaxaca, com algumas comunidades desta etnia estendendo-se para os estados vizinhos de Puebla e Guerrero. Os centros urbanos principais dos mixtecas incluem a antiga capital de Tilantongo, assim como outras cidades como Achiutla, Huajuapan e Mitla, entre outras. O seu território está dividido por três áreas geográficas e culturais: A Mixteca Alta, nas zonas montanhosas que circundam o Oeste do vale de Oaxaca. A Mixteca Baixa, situando-se a Norte e Oeste da zona montanhosa. E finalmente a Mixteca Costeira, situando-se nas planícies do Sul e na costa do Oceano Pacífico. Na maior parte da história Mixteca a zona Alta foi a força politicamente dominante, com a capital, Tilantongo, localizada na zona central montanhosa. O vale de Oaxaca foi, durante o período Pós-Clássico, uma zona fronteiriça disputada entre os mixtecas e os zapotecas.

O termo Mixteca deriva da palavra Nahuatl Mixtecapan, ou “lugar do povo da nuvem”. Os mixtecas chamavam-se a si próprios ñuu savi ou ñuu djau, dependendo da variante local da sua linguagem. Na sua história dos Mixtecas, Kevin Terraciano usa o termo Ñudzahui, que traduz como “o povo do lugar da chuva”.

Maquete de estrutura arquitectónica Mixteca. Museu Nacional de Antropologia, México. Foto Tempoameríndio.

Já desde tempos Pré-Clássicos os antigos povoadores da região mixteca contavam-se entre os iniciadores da arquitectura lítica, como se pode ver nos primeiros edifícios de Montenegro, tendo sido desenvolvidos até ao final do período Clássico os novos centros que iriam afirmar a etnia mixteca que, apesar de conter elementos da arte zapoteca, desenvolveram características muito próprias, nomeadamente nos trabalhos de ourivesaria e na escrita pictográfica. Esta última irá difundir-se por quase toda a Mesoamérica durante o período Pós-Clássico. Alfonso Caso, ao interpretar os códices mixtecas, faz-nos remontar até à fundação da dinastia de Tilantongo por volta de 824 d.C., sendo esta a mais antiga resenha histórica que se conserva de fontes indígenas no México central e que descreve o seu desenvolvimento até depois da invasão espanhola. Intimamente misturados com os sucessos de carácter histórico, como ocorre sempre nas crónicas indígenas, aparecem figuras lendárias como o deus Quetzalcoatl e o mítico herói cultural mixteca Oito-Veado; este último aparecendo também esculpido numa lápide de Monte Albán.

Processo de fabrico de papel a partir da casca de figueira. Dorling Kindersley Ltd, Londres.

Estes códices eram realizados em folhas feitas de pele de veado ou a partir de papel feito de cascas de figueira, sendo que no final as folhas eram polidas com uma pedra e, finalmente, a superfície era coberta com cal branca onde posteriormente eram realizados os glifos desenhados. Estes códices são desdobrados em forma de biombo ou harmónio e a sua leitura é realizada da direita para a esquerda. De uma forma muito sucinta, poderíamos dizer que a linguagem pictográfica desenvolvida nestes livros utiliza uma sobreposição de símbolos fonéticos, topónimos e várias simbologias e numerações, nomeadamente calendarista. O seu dinamismo de leitura reside substancialmente numa relação de mnemónica visual, aliando de forma estreita e concisa o relato escrito e a tradição oral. Os códices mixtecas descrevem a sua história e as genealogias, sendo que o relato mais conhecido é do senhor Oito-Veado, chamado assim a partir do dia em que nasceu. O seu nome pessoal é Garra de Jaguar, cuja história épica é relatada em vários códices, incluindo o codex Bodley e o códice Zouche-Nuttal. Oito-Veado conseguiu com sucesso conquistar e unir a maior parte da região mixteca, tendo como capital a cidade de Tilantongo.

Pormenor do códice Zouche-Nuttall com a representação de Oito-Veado, a figura ao centro. Fonte: Internet.

Durante o período de Monte Albán IV, que abarca entre 1000 e 1300 anos d.C., os mixtecas alargaram o seu domínio em quase toda a região de Oaxaca, conforme se vai debilitando o impulso cultural zapoteca. Pensa-se que será nesta fase que intervêm na execução dos templos de Mitla, onde ainda se conservam restos de pinturas murais cuja proveniência é indiscutivelmente mixteca.

Os mixtecas acabaram por ocupar Monte Albán, esvaziando ocasionalmente algumas tumbas zapotecas, para colocar nelas os seus próprios defuntos. É assim que na tumba 7 de Monte Albán, descoberta em 1933 por Alfonso Caso, se recuperou um fabuloso tesouro constituído por jóias do mais puro fabrico mixteca: colares, anéis, pulseiras, pendentes e demais objectos finamente fundidos em ouro, pelo processo da cera perdida; copos, orelheiras de cristal de rocha, raspadores de osso lavrado, entre outros. Deste modo, uma cidade como Zaachila, que tinha sido a capital política dos zapotecas, ostenta nos seus sepulcros do último período, relevos mixtecas em estuque e oferendas de cerâmica mixteca-puebla. Apesar de na sua arquitectura, os mixtecas nunca terem conseguido superar a grandiosidade de Monte Albán e o refinamento de Mitla, haviam de converter-se nos mais geniais artificies que a Mesoamérica produziu. Foram eles que começaram a usar o branco resplandecente, a prata, o metal da Lua unido com o ouro, conseguindo desta maneira trabalhar melhor, podendo realizar obras mais detalhadas usando delgados e finos fios de ouro, os quais conseguiam na mesma fundição da peça.

Ourivesaria Mixteca. Office du Livre S. A. Suiça 1982.

Apenas aos governantes, sacerdotes e guerreiros era permitido utilizar objectos de ouro, porque este era considerado uma matéria sagrada. Estes objectos eram também comercializados para as elites estrangeiras.

Os ourives eram supervisionados pelos sacerdotes, sobretudo quando deviam representar os deuses: Toho Ita, o senhor das flores e do Verão. Koo Sal, a serpente emplumada. Iha Mahu, o Esfolado, deus da Primavera e dos ourives. Yaa Dzandaya, divindade do mundo inferior. Ñuhu Savi ou Dazahui, deus da chuva e do raio e Yaa Nikandii, o deus solar, implícito no próprio ouro. A todos eles se representava como homens, incluindo o sol, que também era invocado em forma de círculos lisos ou com raios solares repuxados. As divindades tinham também manifestações zoomorfas, como jaguares, águias, faisões, borboletas, cães, coiotes, tartarugas, rãs, serpentes, mochos e morcegos.

Conjuntamente com os popolocas de Puebla e outros povos, os mixtecas integraram no final do período Pós-Clássico, entre 1300 e 1521 d.C., um pujante complexo cultural conhecido pelo nome de mixteca-puebla. Este complexo, que cobre a zona de Oaxaca e os vales de Puebla e Tlaxcala, com ramificações em Veracruz, Morelos, Guerrero e no vale do México, estende a sua influência artística em todos os âmbitos da Mesoamérica, desde Sinaloa e Huaxteca a Norte, até ao Yucatão e Nicarágua no Sul; como podemos ver nas pinturas murais de Santa Rita no Belize e nas de Tulum, que têm o inconfundível selo do estilo gráfico dos códices mixtecas. Caberia aqui referir, em relação à arte pictórica destes manuscritos, mixtecas ou de outras culturas, como o códice Fejérvary-Mayer ou o Nuttal, que são de um grafismo conciso e extremamente expressivo, juntando um toque de precisão e preciosismo à linguagem simbólico-poetica que vimos nas pinturas murais da cidade Clássica de Teotihuacan. O códice Bórgia, obra de um tlacuilo ou escriba-pintor genial, mostra um sentido surpreendente na composição e na cor.

Prato decorado em estilo mixteca-puebla. Conaculta/Inah e Grupo Azabache, México.

Aparte dos grandes centros oleiros de Oaxaca, aquele com maior fama na época mexica foi sem dúvida Cholula, o grande santuário do vale de Puebla. A cerâmica cholulteca era tão apreciada nesse período, que constituía uma moeda particularmente estável dentro do sistema de comércio indígena – a par com os chalchihuites ou pequenas contas de jade, as penas preciosas ou das medidas de ouro em pó e o cacao – sendo que o próprio soberano Motehcuzoma apenas utilizava para o serviço da sua mesa dois desenhos especiais de “… barro de Cholula, um vermelho e outro negro”, segundo nos conta Bernal Diaz del Castillo, o soldado espanhol que integrou a invasão, adiantando que o imperador mexica não se servia duas vezes da mesma peça. O estilo pictórico desta cerâmica está ligado directamente aos desenhos dos códices. De uma execução perfeita, decorada com o gosto subtil mas vincado que se encontra nos códices, donde provem a denominação de cerâmica tipo códice. Atribuído a certos utensílios, esta cerâmica policroma finamente polida, com cores que ainda conservam a sua intensidade e brilho, caracteriza-se por incensários, com pega e suportes, elegantes cântaros, vasilhas tripoides com suportes zoomorfos, grandes pratos, copos com suporte anular e recipientes bi-cónicos de onde emergem caveiras ou cabeças de jaguares, águias e macacos.

Deste modo podemos apreciar como, se bem que a obra civilizadora tolteca tenha coberto todo o período Pós-Clássico, será mais ainda a arte mixteca-puebla aquela que haveria de exercer, até à chegada dos espanhóis, uma influência artística profunda em quase todas as regiões da vasta Mesoamérica. De facto, com esta arte começava a diluir-se as fronteiras estilísticas que delimitavam até então muitas zonas e, caberia mencionar, durante o chamado período histórico do Pós-Clássico, de uma preponderância da mistura de influências culturais tolteca-mixteca.

 

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Arte pré-colombiana. Scala Group. Itália, 2009.

A datação do desenho e da construção original, assim como a identidade dos construtores da efígie da serpente, são três questões ainda debatidas nas disciplinas da ciência social, incluindo a etnologia, a arqueologia e a antropologia. Adicionalmente, os índigenas americanos actuais têm um interesse particular por este sítio. Várias atribuições têm sido feitas, com preocupações académicas, filosóficas e questões de identidade dos Nativos Americanos, sobre os factores desconhecidos de quando foi desenhado, construído e por quem.

Este montículo encontra-se localizado num planalto da cratera do Montículo da Serpente, ao longo do rio Ohio Brush, no condado de Adams, no Ohio. Ao longo dos anos os estudiosos propuseram que a estrutura fôra construída pela cultura adena, a cultura hopewell ou a cultura de fort ancient. A datação de Rádio carbono, a partir de carvão descoberto dentro do montículo, em 1990, forneceu a indicação que esta foi eregida por volta de 1070 d.C. Dada esta ultima evidência, um pequeno grupo de investigadores atribui o montículo original à cultura de fort ancient. Algumas outras evidências contradizem esta ideia. Por exemplo, em 1880, investigadores da Universidade de Harvard desenterraram sepulturas na vizinhança que são datadas da cultura adena. Além de que o montículo não contem artefactos característicos da cultura de fort ancient.

Levantamento em desenho do Montículo da Serpente. Fonte: Internet.

Quanto ao seu propósito, o Montículo da Serpente é a mais comprida efígie do mundo, com 400 m de comprimento. Enquanto existem vários montículos sepulcrais ao redor dela, esta não contem nenhuns restos humanos. Portanto não foi construída com propósitos funerários.

Os cherokee relacionam a esta estrutura a lenda da Uktena, uma grande serpente com poderes e uma aparência sobrenatural. A existência desta lenda atesta a importância da figura esculpida. Vários investigadores têm especulado que, talvez, as antigas populações nativas tenham criado grandes santuários totémicos que foram construídos em plataformas feitas de terra e pedra. Tais efígies poderiam ter sido destruídas por guerras ou alterações entre culturas hereditárias, resultando que só a plataforma tenha sobrevivido.

Em 1987, Clark e Marjorie Hardman publicaram a sua descoberta, de que a área de cabeça oval da serpente estava alinhada com o por do sol no solstício de verão. Outros estudos apresentam alinhamentos lunares, dois solstícios e dois eventos dos equinócios, cada ano. Se o Montículo da Serpente foi desenhado para assinalar a ordem solar e lunar, seria importante como a consolidação do conhecimento astronómico, num único símbolo. Se a data de 1070 d.C. é correcta esta poderia, teoricamente, ter sido influenciada por dois eventos astronómicos: a luz da super nova que criou a Nébula do Caranguejo em 1054 e a aparência do Cometa Haley em 1066. O Montículo da Serpente também pode ter sido desenhado de acordo com o padrão das estrelas que compõem a constelação de Draco. Este padrão encaixa com bastante precisão na estrutura, com a antiga Estrela Polar, Draconis-alpha, como o seu centro geográfico dentro do primeiro, dos sete rolos da cabeça. O Montículo está localizado num planalto com uma estrutura única de criptoexplosão, contendo falhas rochosas dobradas, usualmente produzidas tanto por meteoritos como por explosões vulcânicas.

 

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O sudoeste dos Estados Unidos da América – Irradiação das culturas Mogollón, Anasazi e Hohokam.

Oásis América – Mapa Tempo Ameríndio.

Alguns arqueólogos sustêm que mogollón começa em 1.000 a.C., sobre a base cultural da Tradição do Deserto, originada pelos cochise que em 2.000 a.C. já cultivavam um tipo de milho primitivo. O certo é que a transição de uma sociedade arcaica para uma sociedade de agricultores sedentários, com cerâmica introduzida desde o sul, se completou ao redor de 300 d.C. A sua principal fonte alimentícia proveio da domesticação e cultivo de espécies como a yuca – ou mandioca, uma espécie de tubérculo – cactos, milho, girassol, ervas e nozes.

Observam-se quatro fases distintas, na evolução da cultura mogollón que a distingue da sua similar, a anasazi. Num primeiro momento, os seus assentamentos caracterizam-se por um grande número de casas-poço de dimensões pequenas. A partir de 1.000 d.C., começaram a construi-las sobre o nível do solo e, por influência anasazi, apareceram os complexos cerimoniais e, em alguns casos, residências de varões, conhecidas como “kivas“, estas últimas sobreviventes das casas-poço.

As várias culturas do Sudoeste. Mapa Tempo Ameríndio.

Criaram todo o tipo de ornamentos: braceletes de concha, pendentes de madeira, adornos tubulares de osso e ferramentas, como metates – ou pedras para moer grãos e sementes – almofarizes, armadilhas, arcos e flechas. Também fabricaram têxteis, cestos, elementos de madeira e cerâmica como espátulas, tabuinhas, flautas e colares de sementes. No vale do rio Mimbres, desenvolveu-se uma sub-tradição com a manufactura de excelente cerâmica. Nos povoados de Casas Grandes e Chihuahua, deram-se amplos assentamentos ao que se supõe terem chegado mercadores do planalto mexicano. Por volta de 1.100 d.C. começa a sua decadência, talvez pelas mesmas causas que se fizeram sentir em todo o sudoeste, entrando em colapso definitivamente em 1350 d.C.

Vasilha com insectos, cerâmica pintada. Cultura mogollon, Novo México. Arte pré-colombiana. Scala Group. Milão, 2009.

Os anasazi – A partir de 185 a.C., sobre a base cultural dos cesteros – povos da Tradição do Deserto, sem agricultura nem cerâmica – evoluíram os anasazi. O seu epicentro foi a região conhecida como “Os Quatro Cantos”, formada pelo Arizona, Utah, Colorado e o Novo México. No seu desenvolvimento estabeleceram-se oito fases ou períodos, dos quais os três primeiros pertencem à evolução dos cesteros – até 750 d.C. – e os seguintes às culturas conhecidas como pueblo.

As primeiras habitações que levantaram foram do tipo casa-poço, superficiais e de simples estrutura. A seguir construíram-nas fazendo a base mais profunda e com uma abertura no tecto que fazia as vezes da chaminé e entrada, simultaneamente. Dentro das habitações cavaram um buraco central, o sipapu, que simbolizava o lugar por onde a humanidade havia emergido desde o interior do mundo. Com o decorrer do tempo, esta modalidade deu origem às kivas cerimoniais. Posteriormente, deu-se a sua expansão e, durante essa época, já construíram os edifícios com pedras, sobre o nível do solo. Por volta de 700 d.C., em Mesa Verde e Cliff Palace, construíram habitações dentro de reentrâncias rochosas naturais, no rebordo de precipícios.

Uma kiva (câmara ritual) construida pelos anasazi no pueblo de Mesa Verde,  Colorado. Duncan Baird Publishers, 1996.

A sua expansão, que alcançou uma dimensão máxima em 1.100 d.C. mostra que os anasazi possuíam um grande conhecimento sobre os períodos solares de solstícios e equinócios, urbanização de grandes povoações feitas em alvenaria de pedra com vários pisos; canais para rega e manufactura de vasos cerâmicos. Um dos mais importantes urbanismos desde período é Pueblo Bonito que contou um número próximo às 800 habitações e 25 kivas, as construções circulares para o culto. Esta estrutura apresenta um urbanismo racional de desenho intimista, projectado com as suas habitações de tipo original. Crê-se que foi habitado como cidade e centro de culto para umas 1.200 pessoas. Como já referimos, as habitações redondas são kivas, lugares religiosos para reuniões e cultos iniciáticos por parte dos homens. Também se supõe que a kiva principal terá sido observatório astronómico. Pueblo Bonito e Chetro Ketl são dois dos lugares mais relevantes dos 125 assentamentos distribuídos ao longo da bacia do rio Saint John, no Canyon Chaco e que formaram parte de um verdadeiro sistema económico, entre 950 a 1200 d.C. Estas localidades foram providas de residências, armazéns, recintos cerimoniais, edifícios públicos e estavam ligados por mais de 400 km de uma rede de caminhos. Ainda não foi devidamente esclarecido se Canyon Chaco foi um centro de culto e comércio, com cidades independentes anexadas ao sistema, ou se as mesmas foram colónias estabelecidas, para dar saída ao aumento demográfico que sofreram.

Planta e perspectiva de Pueblo Bonito. Cultura anasazi, cerca de 1100 d.C. Edições Corregidor, 2005.

Por volta de 1200 d.C. produziu-se uma alteração climática; por toda a região registou-se uma quebra nas escassas precipitações. Este fenómeno que criou uma ruptura no ecossistema frágil já por si, somando-se a incursão de tribos de origem dene: os navajos e apaches, são as causas possíveis que levaram ao abandono dos povoados na bacia do rio Saint John. Não se conhece de certeza o destino dos anasazi, porém, anos mais tarde, nas regiões dos rios Little Colorado e Rio Grande, deu-se uma nova etapa de construção de grandes povoações, por vezes combinadas com saliências rochosas, como na meseta de Pajaritos, no Novo México, que perduraram até à chegada dos espanhóis.

Ilustração de uma estrutura arquitectónica hohokam. Fonte: Internet.

Entretanto, nas terras desérticas dos vales do rio Gila, no Arizona, dentro de uma área restrita e próxima às outras duas tradições que já falamos, evoluiu a cultura hohokam, sobre a base da arcaica cultura cochise. Não se tem a certeza sobre o seu inicio e, ainda que alguns arqueólogos sustentem uma maior antiguidade; estima-se que os seus começos tenham coincidido com o principio da era cristã. Glawdin e Harry, em 1937, subdividem a sua duração em quatro períodos, dos quais aquele de maior desenvolvimento é o último, conhecido como Clássico. Os estudos actuais indicam que esta cultura foi regional, desenvolvendo-se no seu lugar com base a vinculações comerciais e rituais com as culturas mexicanas. Implementaram uma agricultura do deserto que lhes proporcionou duas colheitas anuais, para a qual construíram canais de rega que transportava a água desde as montanhas. Possivelmente, devido às relações frequentes que tiveram com as culturas meridionais, praticaram a astronomia, fabricaram cerâmica e braceletes de concha; trabalharam a pedra, as turquesas e o cobre.

A partir de 600 d.C. construíram praças com plataformas de 1 m de altura por 30 m de largura que, apesar de serem baixas, mostram influência mexicana. As suas habitações foram do tipo casa-poço, com recintos rectangulares, construídas com adobes sobre escavações no solo, alcançando em Casas Grandes os quatro pisos de altura.

A diminuição das colheitas e as frequentes incursões das tribos apaches, provocaram um colapso por volta de 1450 d.C. Os povoadores abandonaram os seus antigos locais e agruparam-se em pequenas povoações dispersas.

Fotografia do pueblo de Taos, Novo México. Editora Dargaud, 1969.

Apesar desta entrada ter um enfoque sobre as culturas Pré-Colombianas, ou seja, aquelas que se desenvolveram antes ou até ao contacto com os europeus, vale a pena aqui falarmos um pouco sobre as tribos históricas, desta área de estudo. Assim, quando os primeiros europeus pisaram estes territórios, por volta de 1540 da nossa era, encontraram cerca de 20.000 habitantes, disseminados por 70 povoações. A estes aborígenes denominaram, de forma genérica, como índios pueblo, devido às características das suas povoações. A sua fonte alimentícia principal era um tipo de milho adaptado à semi aridez do território, que complementavam com a caça. Mantinham uma organização social de clãs matriciais e ao povo como unidade política superior. Em chefia, um «governador» para as funções administrativas; um “chefe de guerra” encarregado dos trabalhos públicos e conflitos bélicos e, além destes, um séquito de sacerdotes cuja missão era a de propiciar as chuvas.

Dos grupos pueblo actuais, os tano e keres descendem dos anasazi. Os hopis de um ramo shoshoni; os zuñis supõe-se derivados da tradição mogollón, presumindo-se que quem actualmente habita a região de Sonora – onde se encontram as tribos pima, papago e tarahumara– são os herdeiros da tradição hohokam.

 

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Fonte: Internet.

Fonte: Internet.

Esta reportagem data de 25 de Julho de 2015, tendo sido difundida por Michael Ruggeri (Famsi) agradecendo a Charles Mann pela indicação do relatório completo.

Uma equipe internacional de investigadores tem estudado habitações encontradas na Amazónia, tendo chegado à conclusão que esta região foi densamente habitada por uma população que se estima ter tido entre os oito a quinze milhões de pessoas no ano de 1492. Descobriram também que 83 espécies nativas foram cultivadas nessa região. Rastos evidentes de múltiplas cidades de dimensões consideráveis foram também descobertas. A equipe de investigadores encontrou sistemas extensivos de gestão de terras, cidades que teriam congregado populações de 10.000 habitantes, com milhares de metros de terrenos agrícolas em seu redor. Grandes estruturas trabalhadas em terra foram encontradas conjuntamente com cemitérios, canais e calçadas. A actividade que levou a este sistema terá sido iniciada por volta de 3.000 anos antes de Cristo. Por toda esta região encontrou-se evidencia de uma mistura de solo criada por seres humanos, que se designa por “terra preta”, permitindo uma fértil colheita agrícola. Estas populações teriam cultivado milho, limão, nozes do Brasil, árvores de fruto e palmeiras. Centenas de sítios arqueológicos, neste contexto, já foram encontrados.

Reportagem no Daily Mail: http://dailym.ai/1DFrm00

Relatório da investigação publicada na Royal Society, Inglaterra:

http://rspb.royalsocietypublishing.org/content/282/1812/20150813

Groundbreaking report on Ancient Amazon Civilizations that reached millions in population

An international team of researchers have been investigating ancient human habitation in the Amazon. They have found that the Amazon was once inhabitated by millions of people. Eight million to fifty million may have lived there by 1492. They found that 83 native species were cultivated there. Evidence of sprawling towns that streetched for miles have been uncovered. The researchers have found extensive land management systems, towns that housed 10,000 people each, with miles of extensive agriculture around them. Giant earthworks have been uncovered, along with graveyards, canals and causeways. The activity was widespread by 3000 BCE. All throught these regions, evidence of a man made soil mix called terra preta allowed for fertile crop production. They cultivated maize, squash, Brazil nuts, palm trees and fruit. Hundreds of archaeological sites have already been found.

The Daily Mail has an extensive report here with their usual excellent series of photos and videos;
http://dailym.ai/1DFrm00

And the research was published by the Royal Society in the UK, which has the complete research report here;
http://rspb.royalsocietypublishing.org/content/282/1812/20150813

I want to thank Charles Mann who gave me the heads up on this complete report.

(Michael Ruggeri – Famsi)

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