Feeds:
Artigos
Comentários

Posts Tagged ‘Ameríndios’

As culturas nativas da área do Oceano Pacífico. Luís Covarrubias. Editorial Raízes, México.

As civilizações desenvolveram-se apenas em alguns lugares ao longo do globo terrestre. Dois destes lugares – os Andes e a Mesoamérica – encontram-se na última massa continental a ser colonizada pela humanidade. Desde as terras geladas do Alasca e do Árctico canadiano, atravessando as pradarias da América do Norte, passando pelos trópicos equatoriais e descendo os maciços andinos e as terras baixas Sul americanas, até à Terra do Fogo, as Américas apresentam uma variedade de paisagens e climas que serviram de cenário para os desafios colocados à capacidade de adaptação humana. Em 1519, Hernán Cortés e o seu grupo contemplaram, pela primeira vez, a capital colhua-mexica, Tenochtitlán, flutuando nas águas do Lago Tetzcoco, no planalto central mexicano. O seu companheiro incrédulo, Bernal Díaz, enalteceu a visão desta grande ilha metrópole, com os seus templos, praças, ruas ordenadas, jardins e passagens como “suplantando tudo o que se poderia ver em toda a Europa”.

No entanto, com a invasão ocorrida a partir do século XVI, fracturou-se de forma drástica a continuidade cultural que durante mais de trinta milénios havia inspirado os indígenas americanos forjando a sua própria identidade. Escrevendo por volta de 300 anos depois de Cortés, Charles Darwin descrevia os índios de canoa yahgan, da Terra do Fogo, como “os mais miseráveis infelizes à face da terra”, vivendo no mais baixo grau de existência humana. Darwin não estava consciente que, por décadas, caçadores de baleias e focas dizimaram as colónias de mamíferos marinhos dos quais os yahgan dependiam, introduzindo doenças contagiosas, além do álcool, no decurso da sua passagem, com consequências devastadoras.

Ilustração de embarcação da Polinésia. Fonte: Internet.

As narrativas divergentes coloriram a imaginação europeia que, de certa maneira, continua a ser tão ignorante sobre as culturas ameríndias agora como o era no século XVI. O etnocentrismo ocidental produziu, ao longo do tempo, um discurso parcializado sobre os seus movimentos expansionistas, tendo recebido no apoio da religião um instrumento político, chegando a referir-se à sua acção hegemónica como a fase dos descobrimentos; uma designação despida do seu sentido em relação aos povos e culturas pré-colombianas que continuam a ser propensas a uma classificação de primitivas e misteriosas. A própria questão da “descoberta” da América é, em si, ambígua. Sabemos que o primeiro contacto europeu com as Américas aconteceu através dos vikings, por volta do ano 1000 d.C., cujas colónias na Terra Nova foram possivelmente destruídas pelas populações autóctones. Mais recentemente, no Sul da Islândia, restos de ossadas encontradas foram identificadas, através de testes de ADN, como sendo referentes a homens e mulheres ameríndios trazidos para a Europa pelos povos escandinavos. Fora do contexto europeu é muito provável uma ligação trans-Pacifíco através de povos australianos e polinésios, talvez até antes de Cristo, no extremo Sul do continente americano. No entanto, o discurso oficial do ocidente exclui qualquer precedente, focalizando a sua afirmação em  Cristóvão Colombo  que, ao invés de um descobridor foi uma espécie de testa de ferro empresarial, ao exterminar as populações arawks, nas Antilhas Maiores, a troco de uma extorsão capitalista que teve a sua consumação, anos mais tarde, na exploração das minas de Potosi, nos Andes Centrais.

Massarocas de milho. Fonte: Internet.

Muitos investigadores estão de acordo que foram necessários 50.000 anos para que o Norte e o Sul do continente americano fosse povoado; sabemos de certeza que os primeiros colonos humanos chegaram à Patagónia por volta de 10.000 anos atrás. Com o aquecimento global que se seguiu no final da última idade do gelo, os habitats naturais favoreceram o desenvolvimento estável das diversas comunidades, proporcionando a transição gradual da caça e da recolecção para a agricultura. Tal como na Europa, algumas plantas selvagens tornaram-se colheitas altamente produtivas como resultado de milhares de anos de selecção e criação humana. Nas terras baixas da América do Sul este processo inclui a cassava – também conhecida como yuca ou mandioca, que requer uma tecnologia sofisticada de processamento – e outros tubérculos, picantes, amendoins, tabaco e algodão. Nas terras altas da América do Sul lamas e alpacas domesticados providenciaram carne para alimentação e lã, como serviam de animais de transporte bem adaptados ao terreno vertiginoso. O cavalo nativo americano extinguiu-se muito cedo, sendo que o cavalo que nos é familiar só foi reintroduzido na América no século XVI pelos espanhóis. O porco da Guiné foi outra fonte alimentícia – complementada com batata, feijão e quinoa. Na Mesoamérica o milho foi de importância estrutural, uma vez separado do seu progenitor selvagem – evitando assim uma criação cruzada – foi adoptado tanto na América Central como na América do Sul; permitindo o crescimento demográfico e aumentando a complexidade social.

Pintura de Monte Albán. Miguel Covarrubias, Museu Nacional de Antropologia e História, Cidade do México. Fotografia de Tempo Ameríndio.

Tal como em outras partes do globo a competição pelas melhores terras aráveis e água levaram à ascensão das elites governantes que presidiam sobre a agricultura e a produção de artefactos. Por seu lado, este processo levou ao crescimento da religião e à criação de obras de arte que reflectem tanto as preocupações espirituais como políticas. Desta forma, nas costas do Golfo do México, de 1200 a.C. para diante, a precoce cultura olmeca criou o primeiro grande estilo de arte mesoamericana. Esta cultura foi seguida pela ascensão das cidades estado maias, cujos relevos e hieróglifos esculpidos em pedra assinalam eventos decisivos na vida dos seus reis e rainhas. No planalto central do México, agricultores, artesãos e comerciantes mantiveram a cidade cosmopolita de Teotihuacán, acomodando uma população de 200.000 habitantes por volta de 600 d.C., fazendo desta um dos seis maiores centros urbanos do seu tempo. Teotihuacán continua a servir como exemplo de metrópole modelo, com um centro urbano multi-étnico alimentado por uma rede de comércio a longa distância.

No vale de Oaxaca, os zapotecas e posteriormente os mixtecas alargaram progressivamente o centro de Monte Albán, com os seus templos, tumbas e campos de jogo localizados numa esplanada no alto de uma montanha. Entretanto, mais para Sul, na costa peruana do Pacífico, produziu-se uma tradição de grandes recintos cerimoniais em forma de U, com uma arquitectura monumental e praças afundadas que precederam a introdução quantitativa da cerâmica. Facto que vem trazer uma nova premissa à investigação científica, já que usualmente se considera o surgimento de culturas através da cerâmica, o que não aconteceu no espaço andino, onde os têxteis e a arquitectura prevaleceram como elementos fundadores. Ainda anterior a estes centros e até mesmo antes do florescimento da civilização olmeca, Caral, situada perto da costa, no centro do Peru, é considerada o primeiro complexo urbanístico de todo o continente americano, na mesma época em que florescia a civilização egípcia.

Vista geral de Machu Picchu, Peru. Fonte: Internet.

O ritual e a cerimónia também deixaram a sua marca em Chavín de Huantar, no flanco Este da Cordilheira dos Andes, na forma de imagens interligadas de animais e pássaros. A arte de chavín exerceu uma influência seminal na cultura andina, sendo que os estados costeiros como os moche, nazca e chimú desenvolveram estilos de arte inovadores e diferenciados. Os vasos moche rivalizam na destreza com as cenas pintadas nos vasos Áticos da Grécia antiga; enquanto a estética de mancha policromática da cerâmica nazca aponta para a estilização abstracta, milhares de anos antes da arte ocidental colocar tais questões nas suas expressões artísticas. Os domínios contemporâneos de Wari e Tiwanaku, das terras altas andinas, tinham já criado estilos abstractos geométricos que utilizaram em têxteis, olaria e trabalhos escultóricos.

Qualquer pessoa que tenha percorrido os antigos caminhos que atravessam os Andes, levando ao topo da cidadela de Machu Picchu – empoleirada no topo de uma alta montanha com vista para o rio Urubamba – terá ficado maravilhada pelo engenho e capacidade envolvida na sua criação. Em torno deste sítio encontram-se fileiras rítmicas de terraços agrícolas que desempenharam um papel crucial na manutenção desta localidade. Ao domar as encostas vertiginosas, os incas tornaram um nicho ecológico previamente inexplorado, entre os vales baixos e as altas punas de campos de ervas, num terreno agrícola extremamente produtivo.  A sua sabedoria em relação às necessidades pragmáticas da gestão de água e tecnologia de irrigação juntava um conhecimento consumado da paisagem com uma sensibilidade estética sem precedentes. A vasta grandiosidade destes terraços em Pisac, Moray e Ollantaytambo ainda nos tira a respiração hoje em dia. Na costa desértica do Peru a irrigação tinha sido utilizada durante milénios para suportar uma agricultura de vale intensiva, a par com uma crescente especialização na fauna marítima, que capitalizou o bem estar dos recursos piscatórios nas margens do Oceano Pacífico.

Canais de regadio, América do Sul. Fonte: Internet.

Em outros ambientes, como as terras de ervas inundadas sazonalmente de Llanos de Mojos na Bolívia, em redor do lago Titicaca e nas bacias do Grande Rio das terras baixas da Colômbia e Equador, a criação de padrões complexos de campos levantados e canais permitiu um micro clima favorável que terá facultado a estes agricultores primordiais colheitas milagrosas.  Técnicas similares foram aplicadas no planalto mexicano e nas terras baixas dos maias. Todos estes complexos foram geridos de forma superior, paisagens “domesticadas” que requeriam uma enorme concretização de trabalho para projectar, construir e manter.

Desde os têxteis bordados de paracas – que eram os mais finos em qualquer parte do mundo ao seu tempo – à fusão e elaboração de uma gama de mistura de metais, as origens da metalurgia recuam quase 4.000 anos na América do Sul. O continente americano criou uma diversidade cultural espantosa, em cada nicho ecológico disponível, desde a costa aos desertos, desde as terras baixas ribeirinhas às elevadas montanhas de terras verdejantes.

Volador totonaca. Editorial Raízes, México.

Ao longo da América as culturas desenvolveram os seus calendários para marcar os movimentos do sol, da lua e das estrelas. A arquitectura pública inicial era produto do empenho colectivo para controlar as poderosas forças naturais que governavam as alterações sazonais e o sucesso das colheitas. A posição dos templos era frequentemente ligada ao ritmo do cosmos. Os sacerdotes estavam encarregues com a tarefa de alinhamento dos locais sagrados e templos, como a kalasasaya – o recinto sagrado – em Tiwanaku ou o Templo Maior de Tenochtitlán, dispostos em lugares chave, relativamente ao nascer e ao pôr do sol. Estes locais dão-nos um vislumbre do conhecimento impressionante das matemáticas e astronomias pré-hispânicas.

Estruturas monumentais foram construídas na forma de plataformas aplanadas, abrangendo desde os montículos de terra da cidade de Cahokia, no vale do Mississípi perto de Saint Louis, até às fachadas de pedra das pirâmides de Tlalóc e da “Lua” em Teotihuacán, além das estruturas monumentais, construídas em adobe, na costa peruana, como a Pirâmide do “Sol” no vale de Moche. Nenhuma destas construções assume a forma clássica triangular das pirâmides do Egipto e, de facto, não devem nada a contactos ou influências externas ao continente americano. Elas reflectem uma tendência humana universal para segregar o espaço secular e sagrado, tal como aconteceu com os zigurates no antigo Iraque.

Reconstituição digital de aldeamento iroquês. Fonte: Internet.

Ao contrário da Eurásia as Américas não viram a emergência de um grande império até ao século XIV d.C. – uma característica que tem levado à diminuição destas culturas como sendo “atrasadas”. No entanto a Constituição da Confederação Iroquesa foi inspiradora do Congresso Norte Americano, na procura de consensos entre o Senado e a Casa de Representantes. Seria importante sublinhar que, tanto nas macro estruturas como no âmbito das comunidades simples ameríndias, a reciprocidade caracterizou o seu padrão de vida socioeconómico, independentemente dos constrangimentos políticos.

Por volta de 1400, emergiram duas potencias com o intento de exercerem o controlo numa escala sem precedentes. Na Mesoamérica o domínio dos mexica promoveu um estado de ideologia mítico-militarista, desenvolvendo uma extensa rede comercial para assegurar materiais valiosos, incluindo a obsidiana, o algodão além de materiais exóticos como as deslumbrantes penas de quetzal. Entretanto, os incas, evoluindo sob tradições andinas mais antigas, criaram não só o maior império nativo das Américas, como consolidaram o seu poder na forma de um estado, tal como estes são reconhecidos ao longo da história. Expandindo-se com uma admirável rapidez, desde a sua terra natal no vale de Cuzco, governaram sobre um vasto território da cordilheira andina Sul americana. Tal como os mexica, perseguiam o domínio de bens materiais, penteando obsessivamente o seu império para terem acesso às espinhosos ostras – as spondylus princeps – reverenciadas pela sua concha de vermelho sanguíneo.

Museu do Templo Mayor, Cidade do México. Fotografia de Tempo Ameríndio.

Para onde se dirigiam as antigas culturas americanas, sob a égide destes dois regimes poderosos, nunca chegaremos a saber. Subitamente, estrangeiros que atravessaram o Oceano Atlântico introduziram um novo e inesperado desafio. Não tendo sido recebidos como deuses, ao contrário do que afirma a versão lendária da história, souberam, no entanto, explorar as tensões políticas e culturais existentes no seio das sociedades ameríndias – por exemplo, o império Inca vivia o final de uma guerra civil à chegada de Francisco Pizarro que se prolongou por mais 30 anos; com a competição pelo poder repartido entre a legitimidade indígena, os aventureiros que de forma corrente chamamos conquistadores e a coroa espanhola.

Milhares de anos de inovação cultural independente da América tinha acabado ao ser submetida por ideias e práticas que vinham da Europa, África e Ásia. A imposição religiosa, a penetração cultural e económica abalou o núcleo social e em muitos casos chegou a desintegra-lo, provocando a marginalização das comunidades. Os antigos habitantes da América sofreram com o choque desta invasão e subsequente colonização; o genocídio, a exploração calculada e a destruição cultural sistemática foram as ferramentas de uma expressão assente na iniciativa privada apoiada pelos estados soberanos europeus que deram inicio, no século XVI, ao processo de globalização da qual continuamos a fazer parte.

Principais etnias ameríndias no século XVI. Mapa de Carlos Punta e Tempo Ameríndio.

Outra consequência nefasta destes acontecimentos foi que teriam que passar muitos anos para que se inicia-se um estudo sério que permitisse recuperar à América antiga o seu lugar dentro do património da humanidade. Não obstante de um reconhecimento cultural cada vez mais patente, as comunidades indígenas americanas continuam a ser uns estranhos na sua própria casa e, no entanto, foram vastas e importantes as suas realizações em vinte ou vinte e cinco mil anos de história independente. Estes povos conseguiram uma das mais admiráveis demonstrações de história cumulativa que existiram no mundo: erigindo uma arquitectura de sentido cosmológico, desenvolvendo sociedades complexas com índices de higiene e reciprocidade que o Velho Mundo nessa altura não praticava, explorando a fundo as fontes do meio natural, domesticando ao lado das espécies animais as espécies vegetais mais variadas para a sua alimentação, os seus remédios e os seus venenos – facto nunca antes igualado – promovendo substancias ao papel de estimulantes ou de anestésicos; coleccionando certos venenos ou estupefacientes em função das espécies animais sobre as quais exercem uma acção electiva. Levando determinadas industrias como a tecelagem, a cerâmica e o trabalho de metais preciosos ao mais alto nível de perfeição. Para apreciar esta obra, basta medir a contribuição da América para as civilizações do Velho Mundo. Em primeiro lugar a batata, a borracha, o tabaco e a coca – base da anestesia moderna – que, a títulos sem duvida diversos, constituem quatro pilares da cultura ocidental. O milho e o amendoim, que vieram a revolucionar a economia africana antes talvez de se generalizarem no regime alimentar da Europa; em seguida, o cacau, a baunilha, o tomate, o ananás, o pimento, várias espécies de feijão, de algodões e de cucurbitáceas, uma família de plantas de haste rastejante como a abóbora ou o melão.

O hieróglifo maia para 0. Edições Könemann, 2006.

Finalmente, não poderíamos deixar de referenciar o zero, base da aritmética e, indirectamente, das matemáticas modernas, que era conhecido e utilizado pelos maias pelo menos meio milénio antes da sua descoberta pelos sábios indianos, de quem a Europa o recebeu por intermédio dos árabes. Talvez por esta razão os calendários mesoamericanos fossem mais exactos que os do Mundo Antigo. A questão de saber se o regime político dos incas era socialista ou totalitário já fez correr muita tinta. Apresentava, de qualquer maneira, as formas mais modernas e tinha em avanço vários séculos sobre os fenómenos europeus do mesmo tipo.

 

Anúncios

Read Full Post »

Com receio que a sua esposa já idosa venha a falecer, um velho pede que o seu sobrinho realize o Jamurikumalu, o maior ritual feminino do Alto Xingu (Mato Grosso), para que ela possa voltar a cantar uma última vez. As mulheres do grupo começam os ensaios enquanto a única cantora que de facto sabe todas as músicas se encontra gravemente doente.

Data de lançamento: 2011 
Realização: Takumã Kuikuro, Carlos Fausto, Leonardo Sette
Música composta por Kuikuro Culture
Edição: Leonardo Sette
Roteiro: Takumã Kuikuro, Carlos Fausto, Leonardo Sette
Produção: Carlos Fausto, Vincent Carelli

Read Full Post »

Encontram-se abertas as inscrições para o curso «Perspectivas Antropológicas Contemporâneas sobre os Índios no Brasil», que tem como tema principal o debate sobre o conhecimento e a vivência da terra sob perspectivas ameríndias. Serão abordadas questões como a revitalização das discussões sobre animismo na antropologia, o multinaturalismo, o papel da visão para o conhecimento, a posse da terra em sentidos múltiplos e o papel específico dos deslocamentos no espaço para uma compreensão integrada da cultura, da história e da política dos índios no Brasil. O curso integra também uma compreensão da forma como os índios no Brasil guiam, desviam e transformam a luta política pela defesa da terra, assim como abordará questões do conhecimento ameríndio pela visão e a filmagem e pela estética.

O curso é organizado pelo Instituto de Ciências Sociais com a colaboração do Museu Nacional de Etnologia de Lisboa e decorre entre 26 e junho e 12 de julho.

Programa detalhado neste link.

Read Full Post »

Integrado em Utopias – Arquipélago Verde, o Teatro Municipal Maria Matos, em Lisboa, regressa ao tema da ecologia com um intenso programa de debates, seminários e projecção de filmes, aproximando-nos da experiência dos povos indígenas da América do Sul. Com a contribuição de Eduardo Viveiros de Castro, José Bengoa, Ailton Krenak, Luisa Elvira Belaunde e outros antropólogos, líderes indígenas, linguistas e historiadores oriundos do Brasil, Chile, Equador, Peru, Portugal e Venezuela.

Da edição dos textos no formato de um pequeno caderno, fazemos a transcrição, parcial, de Em busca de uma Terra sem tantos males! da autoria de Ailton Krenak: «Nossa Terra, como a conhecemos hoje, já foi destruída várias vezes, em algumas destas, sem a nossa ajuda. É o que dizem dezenas ou até centenas de narrativas, histórias sagradas de nossos ancestrais. Olhando bem de perto, notamos que alguma pequena ajuda sempre foi dada por alguns de nossos antepassados. Contrariando uma lei ou norma de conduta que dava segurança ao frágil equilíbrio de nossa instável relação com todos os seres da criação que fazem a teia da Vida neste planeta que chamamos Terra. (…) O Povo Krenak que teve o seu território devastado pela fúria dos colonos e desbravadores das florestas deste vale que foi nomeado de Rio Doce, e citado como o Vale do Aço, numa franca declaração de desprezo pela presença deste caudaloso rio, cheio de vida e abundância que poderia suprir toda a necessidade de alimento para seus ribeirinhos. Mas o aço – ou vil metal – encontrado nas suas entranhas brilhou mais do que suas águas cristalinas aos olhos dos seus novos habitantes. (…) Lembrando a citação que abre este texto, em que uma das narrativas de um povo indígena assolado pela ganância dos fazendeiros de soja e da cana no Mato Grosso do Sul lembra a todos nós, que esta terra que vivemos é mesmo imperfeita e por isso segue também o seu curso, em busca de sua Terra Sem Males ou Yvi Marãey. Viva todos os rios da Terra, todos os viventes!»

Ailton Krenak é Professor Honoris causa, Universidade Federal de Juiz de Fora e Grãn Cruz da Ordem de Mérito Cultural do Brasil 2015. Publicou O Lugar onde a Terra descansa (2000) na editora ECO-Rio e Encontros – Ailton Krenak (2015) na editora Azougue.

Dia 26 de Maio, 2017, em Questões Indígenas, Debate e Pensamento, pelas 18.30h, Aparecida Vilaça apresentará A humanidade e a animalidade no universo indígena amazónico. Enquanto dia 27, pelas 17.00h, Felipe Milanez, José Bengoa e Raul Llasag Fernandez promovem uma conferência sobre o tema: Resistência Política Ameríndia.  A entrada é livre, sujeita à lotação da sala principal, mediante levantamento do bilhete no próprio dia, a partir das 15.00h.

Read Full Post »

photo3B

La Declaración de las Naciones Unidas sobre los derechos de los pueblos indígenas (en inglés: United Nations Declaration on the Rights of Indigenous Peoples ) precisa los derechos colectivos e individuales de los pueblos indígenas, especialmente el derechos a sus tierras, bienes, recursos vitales, territorios y recursos, a su cultura, identidad y lengua, al empleo, la salud, la educación y a determinar libremente su condición política y su desarrollo económico. Enfatiza en el derecho de los pueblos indígenas a mantener y fortalecer sus propias instituciones, culturas y tradiciones, y a perseguir libremente su desarrollo de acuerdo con sus propias necesidades y aspiraciones; prohíbe la discriminación contra los indígenas y promueve su plena y efectiva participación en todos los asuntos que les conciernen y su derecho a mantener su diversidad y a propender por su propia visión económica y social.

In Tupiniquim, Povos indígenas, pueblos indígenas, indigenous peoples.

Read Full Post »

Capa e contracapa

Assumindo um possível rigor científico este documento, editado pelo Tempo Ameríndio, apresenta-se numa caixa de DVD onde se inclui um CD com um PDF gravado de 281 páginas. O texto foi redigido no tipo de letra Century Gothic, tamanho 12 em bold, para facilitar a leitura no ecrã e é acompanhado por 20 mapas e 85 fotografias. Esta edição, que é um resumo de parte da matéria do curso A América Pré-Colombiana, leccionado no Museu Nacional de Etnologia, em Lisboa, Novembro 2011 a Março de 2012, pretende sobretudo suscitar um enquadramento introdutório que reúna as premissas mais importantes da “Era Clássica” das culturas indígenas do continente americano; reportando-se à faixa temporal que abarca cerca de 500 anos e que vai de 300 a 1000 depois de Cristo. O facto deste ser o período em que surge pujante uma clara identidade cultural das diversas matizes etnográficas ameríndias, pressupõe que se isole no tempo de forma a nos poder transmitir uma imagem de um continente que desenvolveu a sua expressão de forma aparentemente isolada e original.

Caixa

O preço deste CD é de 10.00 €, com portes incluídos. Para a sua aquisição, queira deixar um pedido nos comentários a este post ao que receberá instruções de como efectuar o pagamento, assim como informação relativamente ao envio por correio.

No sentido de aclarar a tónica deste documento, a seguir transcreve-se um resumo da introdução que abre a temática abordada neste livro-digital.

Paracas

Fragmento de um têxtil da cultura de Paracas. A iconografia representando cabeças de divindades, acompanhadas de serpentes e felinos, é muito similar à que se pode observar na cerâmica do período Nazca.

«Cada vez mais o registo histórico necessita de uma compilação de sentido universal e identitário para dar resposta às circunstâncias culturais e geopolíticas que tendem a segmentar e a isolar não só aquele que é o património da humanidade, assim como para criar recursos de enquadramento, para aqueles povos cujas afinidades se apresentam antes do conhecimento institucional. A América antiga, ou pré-colombiana do ponto de vista ocidental, é sobretudo conhecida por uma miríade de episódios regionais; muitas vezes tornando confusa a percepção temporal e as relações que se estabeleceram geograficamente. A desfragmentação social que se deu após a invasão europeia no século XVI continua patente, assim como o modo de olhar um mundo afastado da realidade moderna; perdido no seio dos seus mistérios e exotismos, votado à curiosidade turística ou à especialização académica. Restam poucas dúvidas em relação à identidade genética destes povos que os ligam directamente com a sua ancestralidade asiática, estando esta na base das primeiras vagas que entraram no continente americano pelo estreito de Bering na época glaciar. Sem dúvida que outras hipóteses continuam a merecer a atenção por parte dos especialistas, até porque a falta de comprovação não encerra mas suspende um debate que é sempre possível. Se olharmos para o mapa do mundo com atenção, o oceano “natural” – no sentido de complementaridade geográfica e etnográfica – das Américas é o Oceano Pacífico, relegando o Atlântico como uma fronteira de “águas primordiais”; sem desfazer o intenso intercâmbio das rotas comerciais costeiras que sempre existiram em ambos os lados da costa. As rotas transpacíficas da Austrália para a América do Sul não são comprováveis, sendo que será mais difícil explicar certas expressões estilísticas encontradas na arte, por exemplo, ou na relação com imagens simbólicas, assim como a relação de signos com a temporalidade, que aproximam de forma estreita as culturas pré-colombianas com a Ásia. Os factores naturais aqui, recriaram todo um mundo que, tudo indica, se desvinculou das suas raízes para criar uma matiz de sentido único e original.

AS habitações indígenas na zona do Oceano Pacífico. Mural de Miguel Covarrubias. Revista Arqueologia Mexicana, Vol. XV-Número 85. Editorial Raíces, 2007.

As habitações indígenas na zona do Oceano Pacífico. Mural de Miguel Covarrubias. Revista Arqueologia Mexicana, Vol. XV-Número 85. Editorial Raíces, 2007.

A América Clássica caracteriza-se sobretudo pela consolidação dos grandes espaços civilizacionais, propondo ligações cósmicas, com um profundo sentido de estruturação e regulação da sociedade humana. O franco desenvolvimento da agricultura, sobretudo do milho e da pastorícia – esta última nos Andes – levará à construção e implementação de obras públicas numa escala sem precedentes e que irão definir de forma indelével o padrão social da Ameríndia que os europeus vão encontrar já na Renascença. Duas capitais com características hegemónicas concordantes vão destacar-se neste período, com Teotihuacan na Mesoamérica e Tiwanaku nos Andes Centrais. Aliás, serão estas duas regiões que vão protagonizar o desenvolvimento das chamadas “altas culturas” ameríndias sem que, no entanto, estas estivessem isoladas das dinâmicas intercontinentais; influenciando ou recebendo influência de outras culturas ou etnias. Teotihuacan irá estabelecer as bases fundamentais para a expressão e teologia das futuras religiões mesoamericanas, iniciando um processo de expansão através da malha de  redes comerciais; criando colónias, tornando-se numa cidade cosmopolita sem apresentar, aparentemente, um modelo de poder centralizado. Padrão esse que se deverá ter em conta no período histórico seguinte e ao qual não é de estranhar a estrutura confederativa “imperial” encontrada pelos espanhóis no México Central em 1520.

Kalasasaya

Fachada da plataforma de Kalasasaya em Tiwanaku. Em primeiro plano pode observar-se um pátio afundado. Ao fundo, por detrás da imponente entrada, ergue-se o hierático monólito Ponce.

Tiwanaku florescera com o sistema de canais de regadio, ou chinampas, como ficaram conhecidas as parcelas de terra no lago de Tetzcoco – em Xochimilco e Tenochtitlan – actual cidade do México. Aliás, este sistema pode ser encontrado noutras áreas da América do Sul, como na Colômbia e no Equador; mostrando a capacidade de organizar hidraulicamente, vastas áreas, para a produção de bens agrícolas. Tiwanaku terá sido tão hierática, na escultura e arquitectura, como Teotihuacan; no entanto deixará pouco rasto do seu pensamento poético algo que a “cidade dos deuses” revela, também para o interior das casas, através da pintura mural. Desta forma, os códigos que definem o significado pictográfico também eles estão ligados aos cânones escultóricos e arquitectónicos. Uma imagem pública só está completa quando revestida – leia-se pintada – do seu significado. A pintura mural será sempre uma expressão da enfatização dos símbolos recorrentes de uma sociedade em que o registo da memória é organizada em forma de pictogramas, assentes na tradição oral. Com algumas características fonéticas, que cada vez mais se vão realçando mas partindo, definitivamente, de uma premissa semântica perfeitamente distinta da escrita Maia. Seriam, no entanto, os símbolos a ter predominância neste mundo Clássico ameríndio e não o discurso do registo de eventos dinásticos. Aos nossos olhos é fascinante reconhecer a assinatura de um ceramista Maia; no entanto o Período Clássico traduz-se pela elevada expressão da “cultura autor” em que, para além da identificação de alguns deuses e soberanos, pouco se conhece dos intervenientes individuais da história destes povos. Basicamente, a sua assinatura cultural é colectiva.

Teotihuacan

Maquete de complexo habitacional de Teotihuacan. Museu Nacional de Antropologia, Cidade do México.

Os elementos ritualistas que estruturaram a sociedade Clássica da América antiga também são visíveis na forma e expressão que a guerra assume nessa altura. Talvez que neste sistema institucionalizado, os Moche, do Norte do Peru, irão praticar de forma enfática a relação directa entre as estratégias sociais e os domínios guerreiros. A captura de prisioneiros para o estabelecimento dos cânones sacrificiais vai ser uma matriz dinâmica desta cultura; no quadro de referências belicistas geograficamente mais abrangente na figura das cabeças troféu, característica particular (mas não exclusiva) das etnias da América do Sul. Para além dos pressupostos ritualistas, os Moche vão criar um sistema de antagonismos sociais em que, tal como poderemos encontrar semelhanças com os Mexica séculos mais tarde, o duelo individual tem como predominância o valor estatutário do guerreiro capturado, no sentido de exponenciar o seu valor dentro do quadro de uma oferenda ilustre que, através do sacrifício sangrento, irá manter a ordem cósmica e social de um mundo que procura os seus equilíbrios internos. Paralelamente, a arte erótica dos Moche, poderá encontrar a sua resposta num pólo de preocupação demográfica, assim como no estabelecimento de créditos morais em que a dor e o prazer são os extremos das tensões internas sociais; ao que a sua popularização se traduz por uma mundivivência assumida. Neste aspecto, muitas outras sociedades ameríndias serão menos explicitas, relegando as suas preocupações para um foro de metafísica exclusiva.

América Central

Podemos claramente identificar vínculos técnicos, comerciais e ideológicos entre zonas afastadas da geografia Ameríndia; como poderá demonstrar o relacionamento da região Sul dos actuais Estados Unidos com a área mesoamericana, nomeadamente através da cidade de Teotihuacan. A América Central será um corredor de intercâmbio de influências e da diluição das fronteiras culturais dos dois pólos civilizacionais da América: a Mesoamérica e os Andes. O intercâmbio também passou pela zona costeira marítima, inclusivamente fazendo chegar as técnicas da fundição do ouro Sul americanas a regiões afastadas do México Central, via costa do Pacífico. O Caríbe, o “mar interior” da América Central, irá criar uma zona franca de contactos permanentes, se bem que os seus sinais se tornassem mais evidentes numa fase histórica posterior. Este espaço revelou a sua particularidade de interacção sócio-económica numa componente constitutiva para a fluição de bens e ideias que teriam encontrado neste quadro geográfico os canais para a sua disseminação natural e não impositiva. Como zona de uma certa fragilidade ecológica e exiguidade territorial, para a manutenção da vida humana, não irão surgir aqui grandes complexos civilizacionais; no entanto, por esta faixa tomaram contacto indelével os dois pólos destacados das “altas culturas” pré-colombianas permitindo, simultaneamente, a existência de uma cultura própria e um campo aberto para as migrações dos grupos históricos da região venezuelana e brasileira.

O amplo espaço geográfico que caracteriza as Terras Baixas Tropicais, da América do Sul, incluindo países como o Paraguai e  o Brasil, mantiveram-se apartados da esfera social que irá caracterizar a zona andina. Aqui, a relação geográfica vai ser evidente na demarcação de uma fronteira natural cujas características vão definir os pressupostos dos diferentes padrões sociais. Apesar do contacto andino com a esfera amazónica ter existido e de serem identificáveis os seus canais de comunicação, estes serão dois mundos em paralelo que não estarão em concorrência mas que vão salvaguardar, cada um, as suas tipicidades como reflexo de meios ambientes distintos.

Marajó

Urna funerária da ilha de Marajó, Brasil.

As selvas da Amazónia ou as terras altas do Sul do Brasil serão um repositório consequente de estruturas sociais que não desembocarão em estados amplos e influentes, preservando-se aqui um quadro de estruturas simples mesmo que dentro de um âmbito etnográfico diversificado. Pelo contrário, a geografia andina vai permitir e fazer expandir um enquadramento social unificador, cuja dinâmica encontrará as suas raízes na oposição das sociedades serranas com as da faixa litoral do Oceano Pacífico. Esta interacção conflituosa e simultaneamente partilhada através de ideias, bens e necessidades, criará as macro estruturas necessárias para que, com o tempo, a manipulação dos diversos nichos ecológicos se torne de tal forma expansiva e interdependente; tornando assim preponderante uma gestão a nível estatal com base nas características geográficas que lhe vão facultar a sua identidade própria. Não é pois de estranhar que a geografia mais sinuosa e complexa do continente americano, os Andes, tenha permitido uma expressão cultural mais homogénea e centralizada em contraponto a uma Mesoamérica ambientalmente mais diversificada que, apesar da expressão das suas culturas hegemónicas, sempre tendeu mais para regimes de relativa fluidez; dentro de uma malha de padrões de relacionamento, exigido pelas redes comerciais ou tributárias.

A religião representa, nesta altura, o depositário consequente de toda a sabedoria, interpretação e regulamentação dos princípios vigentes; sem esquecer que estamos perante um cenário de integração do homem num espaço que ele reconhece como divino. Ou seja, a sua relação com a natureza encontra-se nos cânones de repetição da ordem – ou fragilidade – cósmica, enunciando esta o seu devir social enquanto, simultaneamente, consegue adaptar-se e tirar proveito sustentável e equilibrador das fontes naturais que dispõe para produzir o seu sustento e crescimento.

Representação lítica de um ser sobrenatural diante de um túmulo funerário. San Agustin, Colômbia.

Apesar dos desastres naturais também terem concorrido para o colapso do mundo Clássico pré-colombiano, foi neste período que se assentaram, de forma decisiva, os conceitos que irão estabelecer os padrões estruturais das sociedades ameríndias de épocas posteriores. Os fluxos culturais que podemos encontrar na América Clássica, com as suas inflexões de enquadramento, encontram no parque arqueológico de San Agustin, Colômbia, talvez o seu testemunho mais paradigmático. Uma necrópole cheia de símbolos vivos que nos dão conta de atributos felinos integrados por uma humanidade simultaneamente organizadora e volátil ao seu meio ambiente. A expressão mais acabada desta filosofia existencial, encontra-se patenteada nos guerreiros desta acrópole que empunham as suas armas, servindo também eles como colunas de sustentação dos maciços tectos de pedra. Por sua vez, estes, cobrem um espaço guardado e sacralizado de uma entidade provavelmente deificada; que assume o poder inequivocamente através daquilo que representa – para além daquilo que é – numa clara afirmação monumental intimista das entidades que são reconhecíveis ao homem e a partir das quais este concebe a sua própria identidade.»

Mapa

Mapa que ilustra geograficamente as quatro zonas abordadas, por capítulos, neste documento. Por uma questão de simplificação e conteúdo a fronteira Norte da Mesoamérica mostra-se ampliada no mapa geral, assim como os Andes setentrionais são incluídos no capítulo da América Central.

Read Full Post »