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Posts Tagged ‘Antropologia’

Integrado em Utopias – Arquipélago Verde, o Teatro Municipal Maria Matos, em Lisboa, regressa ao tema da ecologia com um intenso programa de debates, seminários e projecção de filmes, aproximando-nos da experiência dos povos indígenas da América do Sul. Com a contribuição de Eduardo Viveiros de Castro, José Bengoa, Ailton Krenak, Luisa Elvira Belaunde e outros antropólogos, líderes indígenas, linguistas e historiadores oriundos do Brasil, Chile, Equador, Peru, Portugal e Venezuela.

Da edição dos textos no formato de um pequeno caderno, fazemos a transcrição, parcial, de Em busca de uma Terra sem tantos males! da autoria de Ailton Krenak: «Nossa Terra, como a conhecemos hoje, já foi destruída várias vezes, em algumas destas, sem a nossa ajuda. É o que dizem dezenas ou até centenas de narrativas, histórias sagradas de nossos ancestrais. Olhando bem de perto, notamos que alguma pequena ajuda sempre foi dada por alguns de nossos antepassados. Contrariando uma lei ou norma de conduta que dava segurança ao frágil equilíbrio de nossa instável relação com todos os seres da criação que fazem a teia da Vida neste planeta que chamamos Terra. (…) O Povo Krenak que teve o seu território devastado pela fúria dos colonos e desbravadores das florestas deste vale que foi nomeado de Rio Doce, e citado como o Vale do Aço, numa franca declaração de desprezo pela presença deste caudaloso rio, cheio de vida e abundância que poderia suprir toda a necessidade de alimento para seus ribeirinhos. Mas o aço – ou vil metal – encontrado nas suas entranhas brilhou mais do que suas águas cristalinas aos olhos dos seus novos habitantes. (…) Lembrando a citação que abre este texto, em que uma das narrativas de um povo indígena assolado pela ganância dos fazendeiros de soja e da cana no Mato Grosso do Sul lembra a todos nós, que esta terra que vivemos é mesmo imperfeita e por isso segue também o seu curso, em busca de sua Terra Sem Males ou Yvi Marãey. Viva todos os rios da Terra, todos os viventes!»

Ailton Krenak é Professor Honoris causa, Universidade Federal de Juiz de Fora e Grãn Cruz da Ordem de Mérito Cultural do Brasil 2015. Publicou O Lugar onde a Terra descansa (2000) na editora ECO-Rio e Encontros – Ailton Krenak (2015) na editora Azougue.

Dia 26 de Maio, 2017, em Questões Indígenas, Debate e Pensamento, pelas 18.30h, Aparecida Vilaça apresentará A humanidade e a animalidade no universo indígena amazónico. Enquanto dia 27, pelas 17.00h, Felipe Milanez, José Bengoa e Raul Llasag Fernandez promovem uma conferência sobre o tema: Resistência Política Ameríndia.  A entrada é livre, sujeita à lotação da sala principal, mediante levantamento do bilhete no próprio dia, a partir das 15.00h.

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Destinatários: Estudantes, professores e outros profissionais que pretendam ampliar o leque de conhecimentos e da sua cultura visual sobre as sociedades que se desenvolveram na América do Sul no período pré-colombiano.

Candidaturas: de 22 de fevereiro a 22 de março de 2016

Duração: 9 de abril a 25 de junho de 2016. O curso será realizado aos sábados, entre as 10h00 e as 13h00, num total de 36 horas distribuídas ao longo de 12 aulas.

Local: Museu Nacional de Etnologia (Lisboa)

Preço: € 240,00

Avaliação: Tratando-se de um curso livre, que não proporciona qualquer crédito escolar, a sua frequência será atestada através de certificado de participação emitido pelo coordenador/formador. Informações | Inscrições: e-mail.

Objectivos e Metodologia: Tendo como objetivo geral conhecer a história e culturas visuais das sociedades indígenas da América do Sul no período précolombiano, após contextualização prévia sobre as grandes áreas culturais da América do Norte e Central, o Curso incidirá principalmente sobre as seguintes áreas culturais da América do Sul: os Andes, Setentrionais e Centrais, as Terras Baixas Tropicais e a Planície Platina, em que se incluem a região do Grande Chaco, as Pampas e os Andes Meridionais. A par do estudo das estruturas sociais, serão abordadas as concepções que fundamentam as diversas expressões estéticas da arte ameríndia que, independentemente da maior ou menor complexidade do tipo de sociedade que as originou, evidencia uma relação íntima com o respectivo contexto ecológico. Acompanhando permanentemente a exposição e enquadramento teóricos, será apresentada uma selecção de imagens ilustrativas da ampla diversidade das expressões estéticas que caracterizaram as culturas sul americanas ao longo dos 25.000 anos da sua história previamente ao seu contato com as sociedades europeias.

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Estatueta olmeca representando um homem com atributos felinos. Período Formativo, 600-400 a.C.

A palavra nahual deriva do termo naualli do idioma Nahuatl e é uma palavra comum na literatura etnográfica do México; significando um feiticeiro que pode transformar a sua forma física. Para os ameríndios, interessava-lhes  sobretudo o sentido de co-essência animal mas para os padres do inicio da era colonial, estes alteradores de forma não eram apenas considerados como mera superstição, sendo uma fonte de muita preocupação. Escritos de 1600 do frade Juan Bautista avisam de feiticeiros nativos que se transformavam em cães, doninhas, mochos, galinhas e jaguares. O prior do século XVII Ruíz de Alarcón menciona casos específicos de nativos que se transformaram e explica os seus poderes como pactos com Satanás. Apesar do conceito nahual lembrar a bruxaria Europeia, ele é claramente de origem nativa mesoamericana e está profundamente ligado a conceitos indígenas de poder xamânico e transformação. Tezcatlipoca, a divindade-feiticeiro por excelência do período Pós-Clássico final, do centro do México , era tido como capaz de se transformar em jaguar. O conceito de transformadores de forma em jaguar também é representada na arte olmeca do período Formativo (The Gods and Symbols of Ancient Mexico and the Maya. Mary Miller and Karl Taube. Thames & Hudson, 2004).

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Cabeça de guerreiro tolteca com elmo em forma de coiote. Cerâmica e mosaico de madrepérola, 900-1250 d.C. Scala Group, 2009.

Em paralelo com os alter-ego animais, o nahual também se pode transformar numa força natural, como um relâmpago. Apesar dos feiticeiros nahual serem frequentemente temidos pelas suas capacidades em cometerem actos malignos, poderiam contudo servir como protectores da comunidade. Durante a era colonial, muitos movimentos nativistas foram liderados por feiticeiros nahual, dos quais o norte americano Daniel G. Briton apresenta, de um ponto de vista antropológico, o conceito de Nagualismo na sua obra com o mesmo nome ( Nagualism – Philadelphia, 1894 ). O termo nagual é uma palavra castelhana, utilizada em tempos mais recentes, derivando do termo nahual; tendendo a definir conceitos de gnose ou místicos interpretados a partir das antigas culturas mesoamericanas.

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Homem águia. Estatuária mexica, 1440-1469 d.C. Academia Real das Artes, Londres 2002.

Na literatura etnográfica contemporânea o termo tonal é usado em contraste com nahual. Enquanto nahual significa um transformador de forma, frequentemente manifestando-se como um animal; tonal é usado em referência a um espírito-familiar ou alma. Entre os povos mesoamericanos contemporâneos, o tonal é geralmente sinónimo do conceito de “sombra” espiritual de um individuo. O tonal é revelado pouco depois do nascimento, geralmente por contacto com um animal particular. O termo tonal deriva da língua Nahuatl tonalli, uma palavra que implica conotações como calor solar, dia, nome do dia, destino e alma ou espírito. Segundo Sahagún, a alma tonalli de uma criança era enviada do céu mais elevado, o Omeyocan. Esta alma estava inextricavelmente ligada ao tonalpohualli, o calendário ritual de 260 dias usado com propósitos divinatórios.

O termo amatl é a designação para papel na língua Nahuatl, daí o termo tonalamatl para designar os códices pictográficos divinatórios. Um dos mais representativos tonalamatl é o Códice Borbónico. Trata-se de um documento pintado, em forma de biombo, de acordo com a tradição indígena, caracterizado pelo delineamento dos desenhos a negro sendo estes posteriormente coloridos.

No entanto, existem nas representações da cidade de  Teotihuacan, no planalto central mexicano, indícios importantes para se compreender o contexto em que se desenvolveram as actividades guerreiras a par com os conceitos de nahual, muito vinculados a certos aspectos da religiosidade ou crenças mesoamericanas.

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Fragmento de pintura mural, Teotihuacan 150-650 d.C. Edições Somogy, Paris 2009.

Para isso, Annabeth Headrick (The Teotihuacan Trinity. University of Texas Press, 2007) realça um elemento iconográfico que poderá estar relacionado com as divindades da cidade cosmopolita: o jaguar e o coiote. Estas entidades pouco compreendidas, surgem muitas vezes representadas, no seu interior, por uma série de linhas duplas entrelaçadas, parecendo uma rede. Segundo Headrick, este padrão de representação é também encontrado em representações teotihuacanas de espelhos, sendo possível que, como o deus do Pós-Clássico Tezcatlipoca, estes dois animais representem a personificação do espelho de obsidiana, amplamente utilizado por toda a Mesoamérica.

Estabelecendo uma ponte, mesmo que ténue, entre esta relação metafórica que incorpora uma certa dicotomia, poderíamos partir deste pressuposto para observar uma característica particular da imagética militar que surge precisamente em Teotihuacan e que estará presente por toda a Mesoamérica no período seguinte até ao século XVI. Este aspecto também é importante, porque abre uma janela não só em relação ao vestuário mas, inclusivamente, aos pressupostos conceptuais relacionados com as acções bélicas e das propriedades da organização social dos militares. Os guerreiros de Teotihuacan não entravam nas batalhas somente com materiais protectores: eles utilizavam também armamentos do foro espiritual. Um dado importante na iconografia militar da cidade é a incorporação de atributos de animais nos costumes da maioria dos guerreiros. Apesar da utilização de espelhos de pirite, circulares, nas costas e de envergarem escudos protectores, alguns guerreiros parecem mais animais do que humanos. Nestas representações, as cabeças são de animais e têm poucas qualidades humanas, para além dos exuberantes toucados que envergam. No entanto, a roupa e o facto de se manterem sobre duas pernas implica que provavelmente estas são representações de actores humanos. Os guerreiros de Teotihuacan vestiam-se de animais ferozes, quando iam combater, provavelmente não de forma exclusiva, já que existem representações de tipos mais correntes de guerreiros. Esta distinção leva a acreditar que as ordens militares tiveram o seu surgimento em Teotihuacan. A sua continuidade será mais tarde observada entre os toltecas e, de forma substancial, entre os mexica, sendo que cada ordem é distintiva pelo tipo de animal que o seu uniforme representa.

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Guerreiro águia, arte mexica 1480 d.C. Scala Group 2009.

 Existem muitas razões para que um guerreiro escolha envergar um fato representando um felino feroz ou uma águia. O impacto psicológico da decoração estimula tanto o medo como a coragem, motiva o seu usuário a comprometer-se em actos corajosos, assim como encoraja o adversário a repensar na sua posição. No entanto, uma observação das crenças e práticas mesoamericanas pode revelar outra razão para o uso de vestuários animais dos guerreiros teotihuacanos; essa explicação envolve uma ampla crença cultural no nagualismo, ou seja, a capacidade dos humanos de se transformarem em animais.

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Estatueta olmeca. Período Formativo, 600-400 a.C.

Se considerarmos as figuras olmecas que representam homens-jaguar, temos uma clara indicação de que a crença mesoamericana no nagualismo vem dos tempos da sua antiguidade mais profunda; com uma forte preponderância na existência de práticas próximas ao xamanismo e da sua intrínseca crença na transformação humana, literal ou metafórica.

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Introdução ao universo mitológico e metafísico das principais culturas ameríndias

Mitologias

Os Indígenas Norte Americanos

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Os mitos dos indígenas Norte Americanos provêm de uma área que não só é vasta como variada em termos de clima e topografia, e na qual existem pelo menos 236 grupos étnicos reconhecidos, falando pelo menos 134 diferentes linguagens e dialectos. Usualmente cada grupo étnico tinha, ou tem, a sua própria mitologia e religião, estreitamente relacionada com a topografia e reflectindo a fauna e flora local. Apesar de haver por vezes similaridades estreitas entre grupos diferentes, a regra geral é a diversidade, e não a uniformidade.

As Florestas do Este

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A primeira parte do Norte da América a ser explorada e colonizada pelos europeus, era, mais ou menos, uma floresta contínua que se estendia da linha de árvores do Labrador e Baía de Hudson até ao Golfo do México, ficando sensivelmente na longitude do Mississipi a Oeste. A organização política comum desta região era a tribo, variando a população desde umas poucas centenas a um ou dois milhares de habitantes. Membros de uma tribo falam uma linguagem comum e estão unidos por um governo também comum. Em algumas partes do Este, certas tribos estavam tenuemente ligadas em “confederações”, como os Iroqueses no Norte e os Creek no Sul.

Todas as tribos das Florestas do Este acreditavam numa entidade suprema, por vezes referida em Inglês como o Grande Espírito. Este criou o mundo e é autor da vida. Invisível e imaterial, é invocado com reverência, mas não é uma personalidade definitiva de quem os mitos falem. Geralmente fora do mundo do senso comum, ele seria provavelmente melhor nomeado como o Grande Mistério.

A maioria das tribos nas Florestas do Este acreditava num multi-anel celeste, variando de 4 a 12 camadas. Na mais elevada destas, encontrava-se o Grande Espírito. Próximo do homem está o sol, os 4 ventos e a mãe terra. Estes 6 elementos são conjuntamente referidos durante a cerimónia do cachimbo sagrado. O número total destas entidades maiores, mais o ponto de partida do peticionando, faz sete. Quatro e sete são os números rituais mais importantes dos habitantes do Norte da América, e são constantemente recorrentes nos mitos nativos americanos.

As tribos das Florestas do Este referem-se conjuntamente ao mundo como “A ilha” e concebem-no espalmado, assente nas costas de uma tartaruga gigante. O céu é visto como o tecto do mundo do homem, mas como a base do anel celeste mais baixo. Este estrato, mesmo acima da terra, é a casa dos Pássaro Trovão. Estes são concebidos como pássaros gigantes com rostos humanos. O bater das suas asas é o som do trovão, e o flash dos seus olhos aguerridos é o relâmpago luminoso. Entidades poderosas também vivem dentro da terra e debaixo das águas dos lagos e dos rios. Algumas destas criaturas são espelhos “subaquáticos” de criaturas que vivem na superfície da terra, como o lobo subaquático e o urso subaquático. Tal como o céu tem múltiplos anéis, assim também é a região subaquática e subterrânea. Na região mais baixa está a casa dos chefes das criaturas do mundo subaquático e subterrâneo, os poderosos deuses conhecidos como as Panteras subaquáticas ou as Serpentes gigantes com cornos.

Os Pássaros Trovão estão constantemente em guerra com as Panteras subaquáticas e as Serpentes gigantes com cornos. Grandes tempestades, tremores de terra, inundações e outros fenómenos naturais violentos, são considerados como o resultado das batalhas entre estas duas forças cósmicas, opostas mas complementares.

As grandes planícies

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Estendendo-se até Oeste, desde o limite das Florestas do Este, até ás Montanhas Rochosas, e das pradarias canadianas até à costa do Texas, situa-se a região das Grandes Planícies da América do Norte. Antes da ocupação dos ocidentais, esta vasta área coberta de erva suportava inúmeros Bisontes, assim como outros animais. Ao longo dos seus rios era possível cultivar o milho, o feijão e a horticultura foi importada para a região tão cedo como 500 anos depois de Cristo. A introdução do cavalo, pelos europeus, no século XVIII, causou uma revolução na vida dos Índios da Planície, facilitando a caça, por grupos altamente móveis.

Muitas das entidades e mitos das tribos das planícies, estão proximamente ligadas aquelas dos Índios das Florestas do Este, e foram de facto importadas dessa região. Para o Índio das Planícies o seu mundo, apesar de colossal, era inteiramente inteligível. É plano, como a sua tenda era rasa, com uma base circular, sobre a qual se erguia a tenda dos céus. A porta virada para Este, a direcção do sol nascente. Assim, os acampamentos de Tipis eram circulares e representavam os círculos ou “arcos do mundo”, sendo um conceito recorrente nos mitos e cerimónias.

A cerimónia religiosa mais característica dos Índios da Planície era a Dança do Sol, dedicada aos Pássaros Trovão. A ideia era simples – pelas suas roupas, a sua dança, as flautas com som de pássaros, jejuando, não bebendo água e outros sacrifícios, os dançarinos do sol esperavam induzir os Pássaros Trovão a parar, trazendo chuva para alimentar as ervas das pradarias. Isto traria o Bisonte e outros bens de que o povo dependia. A chuva também germinava as plantações de milho, feijão e abóbora, que as mulheres plantavam junto das correntes de água.

O Sudoeste

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Alguns dos sítios arqueológicos melhores preservados das culturas nativas dos Estados Unidos, encontram-se numa região árida mas magnificamente cénica, conhecida pelos antropólogos como o Sudoeste. Ao princípio, esta área cultural estava definida para incluir unicamente o Arizona e o Novo México, mas foi agora estendido para incluir áreas adjacentes no Sul do Utah, sudoeste do Colorado a Norte do México. O elevado desenvolvimento cultural, baseado na agricultura, é ainda mais notável em vista das características desérticas da maioria desta região.

Talvez que a melhor conhecida subdivisão cultural do Sudoeste é aquela representada pelas chamadas tribos “pueblo”. Estes viviam em povoações ou cidades, ao longo do Alto Rio Grande no Novo México, nas vilas Hopi no noroeste do Arizona, e os Zuni no Oeste do Novo México. O seu governo era teocrático e cada Pueblo segue um estrito calendário cerimonial de raízes mitológicas. Desde que uma adequada chuvada é crucial para a vida destas comunidades, não é de surpreender que a maioria das cerimónias, e os mitos representados, estão relacionados com a chuva e a fertilidade das suas colheitas.

Os Pueblo dividem as suas entidades em duas grandes categorias. Os deuses representam os poderes e as divisões da natureza. O Pai Sol e a Mãe Terra são as grandes entidades do panteão, mas cada um é conhecido por muitos nomes e assume variadas personalidades. Também existem animais deuses, ou Anciãos, que são intermediários entre o homem e os deuses superiores, patronos das fraternidades religiosas. Outra entidade, associada tanto com os poderes subterrâneos como com os celestiais, é a Serpente Emplumada, entidade relacionada com a trovoada, a chuva e a fertilidade. Esta divindade refere-se ao famoso Quetzalcoatl mexicano, assim como à Serpente Gigante com cornos e a Pantera subaquática, do Este da América do Norte.

O segundo grupo de poderes elevados, é composto pelos ancestrais e totémicos Kachinas. Originalmente limitados aos espíritos ou medicina personificada, poder dos antepassados ou personificações de poder similar em outros objectos. Em geral, os Kachinas são antropomórficos. São muito numerosos e cada qual particularmente distinto em atributos, costume e comportamento. Pequenas bonecas Kachina, eram feitas pelos parentes, para as suas crianças se acostumarem às características máscaras e vestidos, destes seres sobrenaturais.

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Introdução ao universo mitológico e metafísico das principais culturas ameríndias.

 

América do Sul Tropical

 

Ao contrário das grandes civilizações mesoamericanas e andinas, os exploradores Ocidentais, não encontraram vestígios de uma civilização, durante as expedições ao vale do rio Amazonas. Em vez disso, descobriram centenas de tribos, vivendo em estados primordiais e descobriram que o mundo destes caçadores – colectores, e dos seus sonhos, se fundiam numa realidade única. Ela era, e é, um mundo povoado de espíritos – espíritos da lua, espírito dos abutres, espírito dos remoinhos, dos raios e dos trovões.

As inúmeras tribos amazónicas, têm a sua origem em três ramos relacionados: Os Tupi – Guarani, os Omagua e os Pano; a eles devem  ser acrescentadas as tribos Quíchua, que descendem dos índios Inca. Na altura em que os cronistas fizeram as primeiras viagens, sabia-se da existência de mais de 700 tribos, cuja subsistência inclui a caça, a pesca e a jardinagem. Os primeiros ocidentais não encontraram provas de uma linguagem escrita, nem sinais de registos pictóricos que  pudessem esclarecer a mitologia da Amazónia.

Os indígenas das florestas tropicais da América do sul, vivem em pequenas sociedades, tendo cada uma a sua base mitológica própria. Nenhum grupo de deuses ou heróis culturais é comum a todos os ameríndios, desta vasta região. Estamos também a lidar com mundos mitológicos, onde os homens são animais e os animais são homens; com tanta confusão deliberada, de identidades, entre o humano e o animal, é talvez mais relevante considerar os valores simbólicos da Anaconda ou do Jaguar, do que as aventuras dos seus parceiros humanos. A Anaconda, por exemplo, é várias vezes descrita como Mestre das Plantas Cultivadas e o Jaguar como Mestre do Fogo. Apesar dos deuses, heróis culturais e outros seres míticos, variarem de uma sociedade para outra, podemos falar genericamente sobre uma mitologia Sul Americana. O antropologista Francês Lévi – Strauss. Mostrou que os mitos de uma sociedade, não são mais do que a transformação dos mitos de outra sociedade, sendo modificados de maneira ordenada, por variações de entendimento do mundo e diferenças na organização social. À medida que movemos de uma cultura Ameríndia para outra, os mitos de uma são entendíveis em termos da outra, desde que ambos partilhem de uma base de preocupação comum e que vinculem, uma lógica também comum.

A origem da horticultura

 

Este mito vem do Trio de Suriname e do Brasil. O herói cultural Paraparawa foi pescar à borda de um rio. Ao princípio não apanhou nada, mas ao fim de algum tempo apanhou um pequeno peixe chamado Waraku. Quando o apanhou, ele bateu no chão, atrás de si, e começou a pular. Paraparawa procurou-o mas ele não estava lá. Depois ouviu uma voz atrás de si que dizia: “Sou eu”, e ele ficou espantado, porque o peixe transformou-se numa mulher. A mulher, Waraku, disse: “Eu quero ver a tua aldeia”. Assim eles foram, e nessa altura a aldeia de Paraparawa encontrava-se entre as raízes Waruna. Waraku ficou surpreendida quando viu a aldeia e disse: “Onde está a tua comida? Onde está a tua bebida? Onde é a tua casa?”

“Eu não tenho casa”, disse Paraparawa, “E o meu pão é a seiva mole que se encontra dentro da raiz Waruma”. Waraku disse que já tinha visto o suficiente e ambos retornaram para a água. Ela disse: “Espera um minuto, o meu pai está a chegar, e ele vai trazer comida, bananas, inhame – que tem por tipo o espargo comum – batatas-doces e yuca – yuca é a raiz principal de muitas sociedades ameríndias Tropicais, da qual se faz o pão e a bebida – Quando o pai de Waraku chegou, Paraparawa viu primeiro a planta da yuca. O seu pai foi-se aproximando, vindo da água, e eles viram as folhas da planta yuca vindo dentro da água, para fora. O pai de Waraku chegou como um crocodilo gigante. À medida que se aproximava, Paraparawa viu os seus olhos vermelhos e ficou tão assustado que fugiu. Mas a mulher manteve-se e ficou com as plantas alimentícias de seu pai. Depois deu tudo a Paraparawa. “Como poderei fixá-las?” perguntou Paraparawa. “Corta um lugar para elas. Alisa um campo para elas”, respondeu Waraku. “Certo”, disse ele, e então plantou-as. Plantou Yuca, bananas e todas as outras coisas no campo. Elas cresceram. Todas cresceram, até não poderem crescer mais. Waraku disse então a Paraparawa como fazer todos os utensílios necessários para fazer o pão, a partir da raiz yuca, porque ele era ignorante e não sabia nada destas coisas, de como cozinhar comida. Waraku fez pão para Paraparawa, mas quando ele experimentou um pouco, vomitou. Não estava acostumado, mesmo assim experimentou de tudo; teve que engolir todos os novos alimentos. Finalmente ele cresceu, acostumado a comer estes alimentos e deixou de comer o interior da haste da Waruma. Foi assim que aconteceu.

 

De uma maneira geral, os mitos das sociedades da selva Sul Americana, são uma complexa declaração sobre aquilo que existe no mundo: dizem que coisas existem no universo, como vieram a ser e qual a sua natureza. A sua principal preocupação, é definir o ideal ou as relações harmónicas que devem de permanecer entre os vários elementos para a sociedade poder existir. Para isso, elementos caracterizados como perigosos em relação a cada um, devem misturar-se – homem e mulher, humanos e animais, parentescos e famílias – e esta mistura deve seguir as regras próprias, usualmente atribuída a um herói cultural do tempo mítico. Um mito da origem da sociedade, encontrado com frequência entre os índigenas da América do Sul, fala de uma criação, normalmente a partir do peixe, de grupos separados de pessoas. Na sua separação, os grupos existiam numa forma associal, e num estado de infertilidade. A vida social, e por consequência a fertilidade, poderiam emergir apenas pela aproximação destes grupos. Eles tornaram-se um só povo, mesmo que de forma perigosa, através de inter. – casamentos. Entre os Shavante do Brasil o laço de parentesco e famílias é cortado novamente após a morte; porque nessa altura o defunto regressa ao seu próprio grupo de origem, que é livre de familiares. Assim, entidades perigosas estão mais uma vez separadas, umas das outras, no mundo do além, e nesta separação vem a não vida: uma declaração eloquente em si, da natureza da própria vida. Os mitos, então, estão ligados ao que quer dizer ser-se humano e vivo, dentro de uma sociedade humana, e são os perigos inerentes à sociedade que são consistentemente colocados à prova. A vida social tornou-se possível através da criação do cultivo, de cozinhar ao lume, de artefactos culturais, a caça, os poderes gerativos do homem e da mulher; mas no despertar destas criações, está não só o conhecimento e a lei, mas a morte, a doença, o canibalismo, a infortuna e o sofrimento. Todos estes elementos em conjunto, criam o mito. História e mito são um e o mesmo para os Ameríndios. Por vezes o mito introduz a um estado de estar pré – mítico, fala numa transformação e ao fazê-lo termina num tempo pós – mítico. Esta transformação de tempo pré – mítico, para pós – mítico, representa o tempo histórico para o Índio, enquanto que o estado de estar pós – mítico, descrito no mito, é percepcionado como a maneira própria e estado inevitável do quotidiano presente: o homem come carne cozinhada, não crua; o Jaguar come comida crua, e não cozinhada.

Um aspecto importante dos mitos é que qualquer dado mítico é sobre a multiplicidade de tópicos. Os mitos acerca da aquisição da agricultura são também sobre a origem da natureza das relações inter – familiares. Os temas estão interligados, sendo cada tema usado para explicitar o próximo. O contador de mitos, usa eventos míticos críticos criativa-mente e a construção de um mito é um processo altamente criativo, aquele da humanidade reflectindo sobre si própria.

 

De uma perspectiva de categorias Ocidentais, podíamos dizer que é nos mitos que podemos descobrir as filosofias de causalidade dos Ameríndios, a sua classificação dos elementos no universo, os seus conceitos de tempo e espaço, e a sua visão única do destino do homem. Se estes parâmetros ajudam a perceber a visão do mundo Ameríndio, no entanto é questionável. As teorias abstractas da nossa cultura acerca do ordenamento da sociedade e do universo, são tão alienígenas aos habitantes Índios do continente Americano, que podemos usá-las apenas como guia, desprendido, para entender a vida do mundo continental Americano, Pré – Colombiano.

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