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Posts Tagged ‘Arquitectura’

Arte pré-colombiana. Scala Group. Itália, 2009.

A datação do desenho e da construção original, assim como a identidade dos construtores da efígie da serpente, são três questões ainda debatidas nas disciplinas da ciência social, incluindo a etnologia, a arqueologia e a antropologia. Adicionalmente, os índigenas americanos actuais têm um interesse particular por este sítio. Várias atribuições têm sido feitas, com preocupações académicas, filosóficas e questões de identidade dos Nativos Americanos, sobre os factores desconhecidos de quando foi desenhado, construído e por quem.

Este montículo encontra-se localizado num planalto da cratera do Montículo da Serpente, ao longo do rio Ohio Brush, no condado de Adams, no Ohio. Ao longo dos anos os estudiosos propuseram que a estrutura fôra construída pela cultura adena, a cultura hopewell ou a cultura de fort ancient. A datação de Rádio carbono, a partir de carvão descoberto dentro do montículo, em 1990, forneceu a indicação que esta foi eregida por volta de 1070 d.C. Dada esta ultima evidência, um pequeno grupo de investigadores atribui o montículo original à cultura de fort ancient. Algumas outras evidências contradizem esta ideia. Por exemplo, em 1880, investigadores da Universidade de Harvard desenterraram sepulturas na vizinhança que são datadas da cultura adena. Além de que o montículo não contem artefactos característicos da cultura de fort ancient.

Levantamento em desenho do Montículo da Serpente. Fonte: Internet.

Quanto ao seu propósito, o Montículo da Serpente é a mais comprida efígie do mundo, com 400 m de comprimento. Enquanto existem vários montículos sepulcrais ao redor dela, esta não contem nenhuns restos humanos. Portanto não foi construída com propósitos funerários.

Os cherokee relacionam a esta estrutura a lenda da Uktena, uma grande serpente com poderes e uma aparência sobrenatural. A existência desta lenda atesta a importância da figura esculpida. Vários investigadores têm especulado que, talvez, as antigas populações nativas tenham criado grandes santuários totémicos que foram construídos em plataformas feitas de terra e pedra. Tais efígies poderiam ter sido destruídas por guerras ou alterações entre culturas hereditárias, resultando que só a plataforma tenha sobrevivido.

Em 1987, Clark e Marjorie Hardman publicaram a sua descoberta, de que a área de cabeça oval da serpente estava alinhada com o por do sol no solstício de verão. Outros estudos apresentam alinhamentos lunares, dois solstícios e dois eventos dos equinócios, cada ano. Se o Montículo da Serpente foi desenhado para assinalar a ordem solar e lunar, seria importante como a consolidação do conhecimento astronómico, num único símbolo. Se a data de 1070 d.C. é correcta esta poderia, teoricamente, ter sido influenciada por dois eventos astronómicos: a luz da super nova que criou a Nébula do Caranguejo em 1054 e a aparência do Cometa Haley em 1066. O Montículo da Serpente também pode ter sido desenhado de acordo com o padrão das estrelas que compõem a constelação de Draco. Este padrão encaixa com bastante precisão na estrutura, com a antiga Estrela Polar, Draconis-alpha, como o seu centro geográfico dentro do primeiro, dos sete rolos da cabeça. O Montículo está localizado num planalto com uma estrutura única de criptoexplosão, contendo falhas rochosas dobradas, usualmente produzidas tanto por meteoritos como por explosões vulcânicas.

 

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Destinatários: Estudantes, professores e outros profissionais que pretendam ampliar o leque de conhecimentos e da sua cultura visual sobre as sociedades que se desenvolveram na América do Sul no período pré-colombiano.

Candidaturas: de 22 de fevereiro a 22 de março de 2016

Duração: 9 de abril a 25 de junho de 2016. O curso será realizado aos sábados, entre as 10h00 e as 13h00, num total de 36 horas distribuídas ao longo de 12 aulas.

Local: Museu Nacional de Etnologia (Lisboa)

Preço: € 240,00

Avaliação: Tratando-se de um curso livre, que não proporciona qualquer crédito escolar, a sua frequência será atestada através de certificado de participação emitido pelo coordenador/formador. Informações | Inscrições: e-mail.

Objectivos e Metodologia: Tendo como objetivo geral conhecer a história e culturas visuais das sociedades indígenas da América do Sul no período précolombiano, após contextualização prévia sobre as grandes áreas culturais da América do Norte e Central, o Curso incidirá principalmente sobre as seguintes áreas culturais da América do Sul: os Andes, Setentrionais e Centrais, as Terras Baixas Tropicais e a Planície Platina, em que se incluem a região do Grande Chaco, as Pampas e os Andes Meridionais. A par do estudo das estruturas sociais, serão abordadas as concepções que fundamentam as diversas expressões estéticas da arte ameríndia que, independentemente da maior ou menor complexidade do tipo de sociedade que as originou, evidencia uma relação íntima com o respectivo contexto ecológico. Acompanhando permanentemente a exposição e enquadramento teóricos, será apresentada uma selecção de imagens ilustrativas da ampla diversidade das expressões estéticas que caracterizaram as culturas sul americanas ao longo dos 25.000 anos da sua história previamente ao seu contato com as sociedades europeias.

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Os dois sectores de Cuzco, a cinzento claro hanan e a cinzento escuro hurin. Fonte: Internet.

Os incas viam Cuzco (em língua quechua Qusqu ou Qosqo) como uma cidade sagrada e estruturaram-na de acordo com os princípios cosmogónicos andinos, que incluíam a organização dual como a unidade do poder político-religioso. Assim, a capital estava dividida em sector alto, hanan, e sector baixo, hurin, sendo que cinco linhagens reais ocupavam cada sector. As linhas de fronteira que enquadravam o Tawantinsuyu tinham origem na praça principal da metrópole. Uma linha divisória corria sensivelmente no eixo Norte-Oeste-sudeste ao longo do eixo da Via Láctea, enquanto a outra fronteira proseguia um curso perpendicular.

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O centro quadripartido de Cuzco. Andes Précolombiennes. Éditions Hazan, 2010.

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Cuzco central em 1530. 1-Saqsawaman. As grandes praças duais de 2-Haukaypata, 3-Kusipata. 4- Aqllawasi e 5-Qorikancha. The Incas. Thames & Hudson, 2011.

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Os quatro quadrantes de Tawantinsuyo, na sua máxima expansão. A amarelo-Qollasuyu. Rosa-Antisuyu.Violeta-Kuntisuyu. Laranja-Chinchaysuyu. The Incas and their Ancestors. Thames & Hudson, 2001.

Consequentemente, Cuzco situava-se no centro das quatro direcções, a meio caminho entre as terras baixas do deserto e da selva, perto do Nudo de Vilcanota, que dividia a serra Norte do planalto Sul.  Tawantinsuyu ou o “lugar das quatro regiões” era um território que abarcava desde a costa do Pacífico até às terras altas, tanto centrais como meridionais, vindo desde o Norte do Equador até ao rio Maule no Sul do Chile, compreendendo o Sul boliviano e o noroeste argentino.

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Reconstituição do Qorikancha. Andes Précolombiennes. Éditions Hazan, 2010.

Por causa da primazia de Inti (o deus do Sol) e da sua manifestação humana no governante Inca, o Qorikancha, ou o templo do sol em Cuzco, encontrava-se como o altar mais importante do império, seguido por outros no lago Titicaca e em Pachacamac. Alem do Qorikancha, os Incas dedicaram três outros templos em Cuzco ao sol. Alguns poderão ter funcionado também como observatórios solares, incluindo Saqsaywuaman, que Cieza descreve como “a casa do sol”.

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Idealização do interior do Qorikancha. Ilustração de Jeronaton.

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Restos arqueológicos do Qorikancha na actualidade. Fonte: Internet.

O Qorikancha servia como um modelo conceptual para uma rede de templos através do império, convivendo, no entanto, com outras crenças regionais. Os templos do sol recebiam doações de especialistas religiosos – os aqlla – facultando terras, muitas das quais devotadas ao cultivo do milho, assim como pastagens para sustentar rebanhos de camélidos. Como em todos os centros de peregrinação, apenas os mais devotos podiam entrar no santuário interno do Qorikancha, depois de jejuarem dispensando o sal, a carne, picantes e relações sexuais durante um ano; podendo apenas entrar descalço e trazendo um fardo, como sinal de submissão e reverencia.

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Planta do Qorikancha. The Incas. Thames & Hudson, 2011.

O calendário lunar de doze meses consistia em 354 dias – onze dias mais pequeno que o do ano solar de 365.25 dias; possivelmente um mês de intercalação foi adicionado para reconciliar os dois calendários. As gentes comuns usavam o calendário lunar mais simples assim como as observações estelares e solares. A elite de Cuzco, no entanto, estabeleceu um novo calendário fixado e determinado por observações solares. Existem indicações que, à medida que o culto ao sol se espalhava, o tradicional calendário lunar era substituído ou encaixado com o novo calendário solar. O calendário solar não só alicerçava a autoridade ritual em Cuzco, mas também pressuponha a ligação especial entre o Inca governante e o sol.

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Observadores del cielo en el México antiguo. Anthony F. Aveni. Fondo de Cultura Económica, 2005.

Em Cuzco, pares de pilares em pedra rectangular colocadas nos horizontes, a Oeste e a Este, fixavam o entardecer e amanhecer dos solstícios de Verão e Inverno. O numero de pilares reportado pelos cronistas varia de oito a dezasseis, e deveriam de ser suficientemente altos para serem vistos por aqueles que se reuniam na praça principal de Cuzco.

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Saqsaywaman. Discovering Art. Great Britain, 1965.

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Saqsaywaman. Fonte: Internet.

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Saqsaywaman e o seu entorno. Discovering Art. Great Britain, 1965.

Na sua terra pátria à volta de Cuzco, a alvenaria dos incas toma várias formas; em dado momento, acreditou-se que elas indicavam diferenças de idade mas sabe-se agora que todas datam do grande período do século XV. As diferenças dependem fundamentalmente da função. Existem dois tipos principais: um composto de blocos poligonais, geralmente de grande dimensão, e o outro de fiadas regulares de pequenos blocos rectangulares com as junções emalhadas. O tipo poligonal é usado principalmente para muros de cerca maciços e para os principais muros de suporte de terraços, sendo o melhor exemplo as três plataformas do grande parapeito de Saqsaywaman, que domina a cidade de Cuzco, contém pedras com uma altura superior a seis metros. O tipo rectangular é geralmente usado em edifícios e, o melhor de todos, raso, sem as junções emalhadas, deriva dele e usava-se em construções especiais. Um exemplo do último é a famosa parede curva situada debaixo da parede do santuário da igreja dominicana em Cuzco, até que o terramoto de 1950 a libertou daquela carga.

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A parede curva do Qorikancha. Fonte: Internet.

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Ilustração de RSE para a revista Finding Out, Londres 1966.

A noção de uma cidade habitada exclusivamente por nobres, ou pela classe alta, juntamente com uma cota de yanas (escalões mais baixos do aparelho administrativo) agindo como serventes é difícil de conceber na prática. Cuzco, vista como um todo, era razoavelmente extensa; a questão é saber que outros elementos inseriam a população. Rowe cita testemunhas afirmando que não havia pobres em Cuzco; ele concorda que essa declaração não deve ser vista excluindo os yanas. No entanto, estas testemunhas reportavam-se às duas metades de Cuzco central, hurin e hanan. A sua observação não inclui a zona que se estendia para além da fortaleza de Saqsaywaman, que não era composta apenas por residências dos Incas por privilégio mas também a periferia da “grande Cuzco”. Esta área não era habitada por patrícios mas mais por plebeus, membros de um leque mais abrangente de grupos sociais.

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Uma imagem idílica da cidade de Cuzco em forma de Puma. A cabeça encontra-se na elevação onde se localiza as muralhas de Saqsaywaman. Fonte: Internet.

Relatórios iniciais descrevem a grande quantidade de ouro e artistas que trabalhavam a prata em Cuzco, assim como muita produção feita com penas e uma quantidade maciça de cerâmica. Adicionalmente, a construção de edifícios em Cuzco e muitas outras formas de labor público implicavam a presença de uma força de trabalho especializada. Parte deste trabalho poderia ser fornecido a partir dos súbditos de kurakas (linhagens corporativas) próximos que viviam fora dos limites da própria capital. Provavelmente a categoria mais comum de mão de obra era chamada mit’a, compreendendo elementos competentes de senhorios que trabalhavam sazonalmente.

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Reconstrução de uma kancha de estilo inca, onde um módulo na cidade continha tipicamente duas kanchas, cada uma composta de quatro edifícios ladeando um pátio central. Fonte: Internet.

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O Sapa Inca possuía muitos palácios espalhados pelas cidades mais importantes do seu império. Estes palácios eram formados por uma profusão de edifícios construídos à volta de pátios. Os Incas. Círculo de Leitores, 1981.

Com milhões de súbditos masculinos disponíveis, o serviço de mit’a conferia a Tawantinsuyu uma economia de trabalho intensivo que podia ser visto no esplendor monumental de Cuzco. De facto, uma força rotativa de 20.000 trabalhadores foi empregue por décadas para erguer Saqsaywaman, a grande acrópole de pedra ciclópica coroando a capital imperial. No entanto, a maioria da força de trabalho consistia nos mitmaq, que eram povos de outras regiões transportados em massa para o vale de Cuzco. Cieza, escrevendo obviamente fora de Cuzco, afirma que grande parte da cidade está cheia de estrangeiros que têm sido empregados aí desde o reinado de Pachakuti; no tempo de Cieza gente vinda do Equador, trazidos originalmente em grupos de mitmaq, ainda estavam presentes em Cuzco. Estes migrantes faziam todos parte da força de trabalho disponível. Cieza também menciona que os rebanhos pessoais do Inca eram atendidos por mitmaq.

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Localização de Chavín de Huantar e sua área de influência, no Peru. Fonte: Internet.

A uma elevação de 3.177 m, Chavín de Huantar está situado na confluência de dois pequenos ribeiros, o Mosna e o Wacheksa. O sítio inclui uma área residencial alargada de refugo estratificado e vários remanescentes investigados por Richard Burger, que divide a ocupação em três fases. Datas iniciais de radiocaborno para a Fase de Urabarriu recai em por volta de 800 a.C., apesar do assentamento poder ter começado um século ou dois antes. Inicialmente a comunidade tinha um tamanho modesto, mas durante o período de 400 a.C. a população duplicou ocupando uma área de 15 hectares. No decorrer da Fase final, Janabarriu em 200 a.C., os números voltam a duplicar e cerca de 3.000 pessoas ocupavam o centro urbano de 42 hectares, antes do sítio ter entrado em declínio.

Será relevante ter em conta que o período de existência de Chavín de Huantar corresponde à mesma faixa temporal do desenvolvimento da civilização Olmeca na Mesoamérica, nas terras baixas do Golfo do México.

A ascensão e queda da população local estiveram ligadas ao destino do complexo adjacente de edifícios de maçonaria, conhecido como o Castillo. Menos do que 1/10 da magnitude da grande plataforma de Sechín Alto, o que falta a Castillo em tamanho é compensado pela sua destacável engenharia e o seu maravilhoso trabalho em pedra. A engenharia é fascinante porque um quarto do interior deste edifício é oco e ocupado por um labirinto de estreitas galerias encimadas por grandes placas de pedra. Construído a níveis diferentes, algumas galerias estão ligadas por escadas e por um elaborado labirinto de pequenas drenagens e ventilações que passavam por debaixo das praças exteriores. Seria de mencionar as preocupações com a manipulação ritual da água e, em Chavín, a análise das características acústicas hidrológicas das suas condutas e quartos por Lumbreras e seus colegas em engenharia sugere que o fluxo da água através da drenagem, o som nas galerias e depois saindo do templo, poderia literalmente resultar num estrondoso rugido! No entanto, as galerias serviam mais do que propósitos acústicos. Algumas contêm placas com traços de figuras incisas e pintadas, incluindo um peixe com atributos felinos e quatro exemplos do que poderá ser um caranguejo. Outra galeria escavada por Lumbreras, estava repleta de oferendas votivas de cerâmica fina. O mapeamento sistemático das galerias e características internas revela uma longa e complexa história de construção.

Tradicionalmente, a fachada do Castillo tem sido dividida em dois templos complexos adjacentes, o antigo e o novo. Florescendo durante a Fase Urabarriu, o Templo Antigo mede aproximadamente 109 por 73 m e 15 m de altura, com alas em bloco formando uma praça em forma de U, que se abre para Este. Dentro da praça existe um pátio afundado circular, com escadarias descendentes e depois ascendentes que levam às escadarias do templo central. Cada parede do pátio era ornamentada com um friso representando a procissão de figuras antropomórficas por cima de uma procissão de jaguares. Marchando das escadarias descendentes, a procissão dual convergia nas escadas ascendentes na forma tinku – uma forma de dança cultural andina. Procissões humanas presumivelmente passavam pelo pátio ascendendo à estrutura de maneira similar. O acesso aos vários quartos internos do templo antigo poderia ter sido efectuado por passagens no topo.

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Modelo do centro cerimonial que se encontra no museu de Chavín de Huantar. Fotografia de Kimberly Munro no site Popular Archaeology.

Ao meio da estrutura existem duas galerias, uma acima da outra, com a mais baixa sendo um santuário finamente construído, tendo a inusual forma de uma cruz alongada. Construído no centro da cruz existe uma estela imponente chamada Lezón. Delgada e com 4,5 m de altura, a grande escultura tem a forma de uma faca, com a ponta introduzida no chão e com a outra  extremidade projectada no tecto e chão da galeria superior. Cravada em baixo relevo, a estela representa um ser com um corpo humano cujos dedos terminam em garras. Vestida de uma simples mas fina roupagem, com largos pendentes nas orelhas, a figura tem uma marcada face felina. Os lábios curvam-se para trás expondo dois longos dentes caninos, enquanto as sobrancelhas e o cabelo são representados por serpentes. Variavelmente chamado de Sorridente ou Deus Raivoso, a divindade contempla para Este, ao longo do eixo da galeria escura, confrontando forçosamente qualquer visitante que chega. Levantando uma laje do chão, na galeria imediatamente acima do Lanzón, um acólito oculto poderia falar pela divindade, situada em baixo. Isto levou à proposição de que o Lanzón era um oráculo que falava aos suplicantes privilegiados, que ganhavam acesso ao santuário interior.

O culto do Lanzón cresceu depois de 500 a.C., assim como as facilidades monumentais. Uma plataforma apartada foi construída imediatamente em frente da ala Norte do Templo Antigo. Mais importante, a ala Sul do templo foi expandida lateralmente para Sul mais de 30 m, em várias fases de construção para criar uma larga plataforma em bloco, constituindo a base do Templo Novo.

O Castillo – ou Templo Novo – era ornamentado com um esplêndido trabalho artístico sobre pedra, do qual apenas restam alguns traços no sítio. No alto das paredes exteriores do Templo Novo existiam mais fileiras de cabeças redondas montadas em espigas, de forma que as cabeças esculpidas se projectassem da parede. Estas são as únicas esculturas tridimensionais em Chavín que incluem pássaros estilizados e caninos, assim como seres antropomórficos desenhados com dentes curvos e cabelos em forma de serpentes.

Perto da fachada, no topo do templo, existia uma linha circundando cornijas em baixo relevo, representando jaguares sarapintados e aves de rapina com atributos felinos. Aparentemente, estes formavam uma procissão dual que dividia e partia da parte de trás da plataforma. Cada uma avançava à volta de um dos lados do templo, antes de convergirem em cima do Portal Preto e Branco.

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Página de publicação não identificada. Fonte: Internet.

Entre muitos trabalhos de arte não encontrados no seu contexto original, o último e mais elaborado da arte de Chavín é a estela Raimondi, uma placa monolítica de 2 m descoberta no século XIX pelo naturalista com o mesmo nome. Esta representa o deus do Lazón, após 500 anos de evolução, como um ser sobrenatural olhando em frente, ainda com garras nos dedos e cabelo serpentino. No entanto, agora, ele está ricamente ornamentado, culminando num toucado raiado em torre, maior do que a própria divindade. Falando de poderes sinergéticos, o ser sobrenatural segura duas varas elaboradas, um grande bastão em cada mão, unindo assim as esferas duais da sociedade e cosmos andinos. Cristalizado primeiro em Chavín, este motivo do Deus do Bastão, de síntese sobrenatural, ressoará novamente através dos Andes em tempos muito mais tardios.

O trabalho em pedra de Chavín de Huantar foi inquestionavelmente produto de mestres artífices e o Castillo reflecte uma engenharia profissional assim como um relevante trabalho corporativo. Como este centro veio a organizar os seus recursos, a resposta poderá estar na maneira em que o tributo e suporte eram obtidos de populações distantes. Isto não era feito pela exportação de objectos produzidos localmente, de pedra ou cerâmica. O monumental trabalho de arte em pedra, da iconografia corporativa de Chavín, encontrava-se no próprio local . Quando a pedra talhada é ocasionalmente encontrada em centros contemporâneos noutras regiões, representa produções locais que podem ou não incluir atributos encontrados em Chavín, sendo o mesmo verdade para a cerâmica. Aquilo que estava a ser exportado era a palavra de um culto, de um deus que sorria ou rosnava no princípio e que tempos depois transportava os bastões dualistas da unidade social e cósmica. A disseminação talvez envolvesse missionários prosélitos; mais provavelmente envolvia peregrinos devotos que eram ritualmente ungidos no Castillo para espalhar a fé, porque existe uma grande variação regional na expressão da ideologia de Chavín.

Na ausência de papel, tradicionalmente os têxteis serviam como meios de graficamente disseminarem as ideias e ideologias nos Andes, devido à sua flexibilidade e portabilidade. O maior e único corpo de arte de Chavín, encontrado para além do sítio típico, é um resto ocultado de várias centenas de peças de algodão numa tumba despojada em Karwa, na Península de Paracas. Estas peças não eram vestuários mas largos painéis de algodão com motivos de Chavín e, pelo menos 25,  são a representação do Deus do Bastão; pintados em vermelho alaranjado, bronzeado, castanho, verde e azul. A maioria destes trabalhos, muito iconográficos, era de tamanho substancial, portanto propicias para mostras públicas como bandeiras, entradas de tendas ou pendentes para muros.

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Desenho de um têxtil de Karwa, representando uma divindade feminina. O estilo de Chavín foi exportado ao longo de 500 milhas desde o seu centro. Ferdinand Anton, Thames and Hudson, 1987.

O espalhar da influência ideológica de Chavín durante a Fase Janabarriu de 400 a 200 a.C. estava em parte relacionado com uma seca recorrente na Cordilheira. Se a chuva declina e a produção alimentar é afectada, então supõe-se que pessoas, produtos e a informação deveria mover-se ao longo de grandes distâncias para satisfazer as necessidades básicas. Permitindo que os “peregrinos” viajassem pacificamente através do campo, o culto do Lazón facilitava a mobilidade e a interacção era benéfica para o comércio e a difusão de tecnologias inovadoras em muitos meios, incluindo os têxteis.

Alterações durante os tempos Janabarriu não foram simplesmente económicas mas sociais e políticas. As escavações de Richard Burger em áreas residenciais, em redor do Castillo, indicam que durante a época da seca, entre 400 e 200 a.C., as pessoas que residiam perto do monumento tinham uma dieta melhor e mais proteínas de camelídeos do que aquelas que viviam nas margens do assentamento. O estratificar das classes sociais é evidente em Kuntur Wasi nas montanhas do Norte, onde cientistas da Universidade de Tóquio recuperaram quatro tumbas com 2,3 m de profundidade, cortadas no topo de um montículo-plataforma primordial. Cada uma continha um indivíduo singular com ricas oferendas que caracterizam as elites kurakas mais tardias. As tumbas de Kuntur Wasi e as da necrópole de Paracas apontam para um processo de difusão na formação de estratificações sociais. Em parte, este processo é explicado pela “teoria da circunscrição” que defende que existem limites para a terra arável e água nos vales costeiros e nas bacias serranas. Quando o aumento da população atinge estes limites, então aumenta a competição sobre os escassos recursos e os conflitos promovem a ascensão do autoritarismo secular e da liderança. Porque as circunscrições de recursos são mais constrangidos durante os tempos secos do que nos húmidos, a seca contribui provavelmente para a ascensão da liderança secular e a diferenciação social, durante o Horizonte Inicial.

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A cidade de El Tajin localiza-se a Norte da cidade portuária de Veracruz. Esta urbe situa-se nas montanhas mais baixas que se juntam à Sierra Madre Oriental, até à costa do Golfo do México, perto do rio Tecolutla. Nos tempos antigos, a cidade estava localizada no canto nordeste do território que é designado por Mesoamérica; controlando uma área desde o centro dos rios Cazones e Tecolutla, até ao estado moderno de Puebla.

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Mapa de José Conesa. Office du Livre, Suíça 1982.

O centro da cidade é definido por duas ribeiras que se fundem para formar o Tlahuanapa Arroyo, uma corrente tributária do rio Tecolutla. Estas duas ribeiras providenciaram a população de água potável. A maior parte dos edifícios encontram-se na área Sul, onde a terra é relativamente plana e as duas ribeiras convergem. O assentamento estende-se para noroeste onde foram construídos terraços para erguer mais edifícios para a elite da cidade. Contudo, a cidade também tinha comunidades localizadas nas montanhas circundantes, a Este e a Oeste do centro urbano, onde se encontravam as habitações das classes mais baixas.

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Ilustração de Luis Rosales. Ediciones Corregidor, Argentina 2005.

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Arqueologia Mexicana Vol. VIII – numero 44. Editorial Raíces, México 2000.

O nome de El Tajin tem sido interpretado como “O Trovão” ou “O Raio”, derivando da crença totonaca que doze senhores da tempestade do trovão, conhecidos colectivamente como “Tajin”, viviam por entre as ruínas. Este nome também tem sido traduzido por alguns totonacas como querendo dizer “O lugar dos seres ou espíritos invisíveis”.

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Estrutura arquitectónica ornamentada com nichos abertos e preenchidos com motivos de gregas escalonadas. Fotografia de Tempo Ameríndio.

 El Tajin faz parte do Património Mundial desde 1992, sendo que a sua arquitectura é única na Mesoamérica, caracterizada sobretudo por elaborados relevos esculpidos nas colunas e nos frisos; além dos elementos arquitectónicos que caracterizam as fachadas das estruturas monumentais, ornamentados com nichos, abertos ou preenchidos com motivos de gregas escalonadas. Ao contrário dos padrões de grelhas rígidas das antigas cidades do centro do México, os construtores de El Tajin desenharam e alinharam os edifícios como unidades individuais.

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A Pirâmide dos Nichos. Arqueologia Mexicana Vol. VIII – numero 44. Editorial Raíces, México 2000.

 No primeiro século d.C. iniciaram-se as primeiras construções de pirâmides, em particular com a principal de entre estas, nesta fase desprovida dos nichos que lhe dariam mais tarde o nome. O seu primeiro estado remonta a 300 da nossa era. O desenvolvimento da cidade acelera-se entre 400 e 800 d.C., época em que a sua superfície totalizava cerca de 10 km2. Esta fase classifica-se como o apogeu Clássico da urbe, se bem que desde 600 d.C. El Tajin já era uma cidade por direito próprio. Tudo indica que no século IX, por volta de 818, uma vaga de invasores totonacas penetrou em Veracruz, onde se estabeleceram. Os totonocas vão habitar a cidade que parece conhecer um eclipse temporário.

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Mural de Diego Rivera representando um hipotético encontro entre pochtecas colhua mexica com responsáveis totonacas. Fonte: Internet.

 O rápido florescimento de Tajin deve-se à sua posição estratégica ao longo das antigas rotas comerciais mesoamericanas. Ela controlava o fluxo de comodidades, tanto exportações como a baunilha, como importações de outras localidades no que é hoje o México e a América Central. Sem surpresas, nos primeiros séculos da história da cidade, os objectos provenientes de Teotihuacan são abundantes. No entanto, de 600 a 1200 d.C., El Tajin foi uma cidade próspera, controlando muito do que é o moderno Estado de Veracruz. A cidade-estado era altamente centralizada, com a cidade em si tendo mais de 50 etnias a viver no seu âmago. A maioria da população vivia nos montes circundantes ao centro monumental, sendo que a cidade obtinha muitos dos seus bens alimentares das áreas de Tecolutla, Nautla e Cazones. Estes campos não produziam somente viveres como o milho e feijões como também bens luxuosos como o cacau. Um dos painéis na Pirâmide dos Nichos mostra uma cerimónia desenrolando-se numa árvore de cacau. A religião era baseada no movimento dos planetas, das estrelas, do Sol e da Lua; com o jogo de bola e o pulque assumindo papeis extremamente importantes. Isto levou à construção de muitas pirâmides e templos, alem de 17 campos de jogo de bola, mais do que em qualquer outro sítio mesoamericano. A cidade começou a ter uma extensiva influência por esta altura, que pode ser melhor observada na povoação vizinha de Yohualichan, cujos edifícios apresentam os nichos que definem El Tajin. Evidências da influência da cidade podem ser vistas ao longo da Costa do Golfo em Veracruz até à região maia e para o interior do planalto central mexicano.

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A zona da cidade onde se encontra a Pirâmide dos Nichos, ao fundo à direita. Fonte: Internet.

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Um aspecto notável da construção de El Tajin é a utilização de  cimento derramado em formas. Fragmentos que sobreviveram do Edifício C no Tajin Pequeno mostram um exemplo de construção com telhados feitos de cimento. O trabalho final apresenta uma espessura quase de um metro, praticamente liso. Enquanto este tipo de telhados de cimento é comum nos nossos dias, ele era único no mundo mesoamericano de então. O cimento também foi usado no único edifício com dois andares de Tajin, a Estrutura B, como tecto assim como separador entre o chão e o primeiro andar. A imagem apresenta uma reconstrução deste edifício, disponível na internet. O único exemplo conhecido de uma construção com dois andares encontra-se no território maia. Uma outra característica sem par em Tajin é que várias residências têm janelas colocadas para permitir a entrada de ar fresco nos dias de maior calor.

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Nesta fotografia podemos observar o largo do mercado que se situava no campo relvado, em primeiro plano,  circundado por quatro estruturas piramidais. Arqueologia Mexicana Vol. VIII – numero 44. Editorial Raíces, México 2000.

 No final do Período Clássico, El Tajin sobreviveu ao colapso social que se generalizou, com migrações e destruições que forçaram ao abandono de muitos centros populacionais no final deste período. El Tajin atingiu o seu pico após a queda de Teotihuacan, conservando muitos dos traços culturais herdados por essa civilização. O apogeu regista-se portanto durante o Epi-Clássico, de 900 a 1000 d.C. Esta designação é usada pelos arqueólogos para caracterizar o Período Clássico-Tardio, sobretudo após a queda de Teotihuacan e como momento de transição para o inicio do período seguinte, o Pós-Clássico. Já nesse período, existem claras evidências de que os toltecas tiveram influência directa em El Tajin. Com efeito, é deste período totonaco-tolteca que datam algumas realizações do Pequeno Tajin, em particular o Templo das Colunas, assim como os baixos-relevos do campo de jogo de bola Sul. Depois disso, a cidade sucumbe destruída pelo fogo, presumivelmente ateado por uma força invasora; tendo sido abandonada em 1230 d.C., talvez em parte devido a ataques levados a cabo por chichimecas, vindos dos desertos do Norte. Os totonacas estabeleceram-se no assentamento vizinho de Papantla após a queda de El Tajin; esta foi deixada para a selva e manteve-se silenciosamente coberta durante mais de 500 anos.

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Campo de jogo de bola em El Tajin. Fonte: Internet.

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Campo de jogo de bola Sul, onde se encontram vários baixos relevos narrativos, alusivos ao jogo e sua mitologia. Fonte: Internet.

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Relevo do painel noroeste do campo de bola Sul. Ilustração de José Conesa. Office du Livre, Suíça 1982.

O Tajin Pequeno é uma porção multi-nivelada da cidade que se estende de Norte para noroeste, desde a aparte mais antiga da cidade até subir uma colina. Muita desta secção foi criada artificialmente. É uma imensa acrópole composta por numerosos palácios e outras estruturas civis. Existem relativamente poucos templos aqui, apesar de esta zona ter pertencido ao centro da cidade. A Este de Tajin Pequeno existe uma área com piso de planície. Aqui encontra-se a Grande Xicalcoluihqui, que é um muro que visto de cima forma uma grega escalonada gigante, numa área de 12. 000 m2. Esta estrutura é única na Mesoamérica e contem dois ou três pequenos campos de jogo de bola.

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Pormenor da lustração de Luis Rosales. Ediciones Corregidor, Argentina 2005.

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Vista do Templo das Colunas reconstituído por Garcia Payon. Ilustração de José Conesa. Office du Livre, Suíça 1982.

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Secção ainda existente do muro que desenha a Grande Xicalcoluihqui. Fotografia Tempo Ameríndio.

El Tajin apresenta um estilo de harmonia invulgar dentro dos cânones arquitectónicos mesoamericanos. Fonte: Internet.

 

 

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Damos início, com esta entrada, a uma nova categoria neste blogue que se chamará Cidades Ameríndias, abordando os centros urbanísticos mais relevantes da América Antiga.

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Mapa que nos mostra as diversas culturas que se desenvolveram entre a região dos Grandes Lagos e o Golfo do México. A cidade de Cahokia está assinalada a vermelho. Fonte: Internet.

O nome indígena da primeira grande cidade aqui abordada é, na realidade, Twakanhah, sendo mais conhecida pelos estudiosos com o nome de Cahokia. No seu auge, no século XII, esta povoação localizada ao longo da margem do rio Mississípi, no Oeste do Illianois, alguns quilómetros a Leste da actual Saint Louis, exercia um controlo económico, cultural e religioso sobre uma larga faixa no coração do Sudeste da América do Norte.

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Arte: Greg Harlin. Fontes: Bill Iseminger and Mark Esarey, Cahokia Mounds State Historic Site; John Kelly, Washington University in St. Louis. National Geographic Site.

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Plano da zona paliçada de Cahokia. Imagem do arquitecto Dennis R. Holloway © 2009.

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Mapa do sítio arqueológico central da cidade, actualmente. Fonte: Internet.

Ao longo do tempo o milho tornou-se numa cada vez mais importante actividade agrícola, provendo as quantidades de excedentes necessárias para alimentar grandes populações a par de muitas outras fontes vegetais e animais que contribuíram para a dieta geral. Esta base alimentar permitiu o suporte de populações muito numerosas e, à medida que este números e densidades aumentaram, a ordem social tornou-se mais complexa. Desenvolvendo-se de forma mais definida classes sociais e hierarquias; ouve um incremento na especialização e divisão do trabalho. As alianças políticas tornaram-se mais relevantes; o comércio foi altamente especializado; os conflitos e mesmo a guerra entre grupos políticos aumentaram, possivelmente alimentadas pela competição por recursos ou território.

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Erecção do Woodhenge a Oeste de Monks Mound. Ilustração de Lloyd K. Townsend.

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A elaboração do ritualismo também se tornou cada vez mais significativa. Talvez que a ultima expressão deste factor possa ser visto em Cahokia, na construção do Woodhenge, um arranjo circular de grandes postes de cedro, com um posto de observação central. Daí, o sacerdote do sol poderia observar o astro nascente no horizonte à medida que este poderia alinhar com certos postes. Este calendário podia ser usado para determinar os solstícios de inverno e do verão, alem da primavera e o cair dos equinócios; assim como outras datas importantes no seu ciclo ritual. Existiam pelo menos cinco Woodhenges construídos em Cahokia.

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Fonte: National Geographic Site.

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Ilustração de Richard Hook para a Osprey Publishing, American Indians of the Southeast.

Durante a era mississipiana, novas formas de cerâmica apareceram, com uma grande variedade de formas e estilos e, gradualmente, a maioria dos objectos eram temperados com conchas esmagadas e queimadas, misturadas com uma pasta de barro local. Houve um aumento de utensílios exóticos vindos de regiões distantes, primariamente vindos do Sul.

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Detalhe de ilustração da autoria de Michael Hampshire. Fonte: Internet.

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Reconstituição artística de Cahokia por Bill Iseminger. Ao centro pode-se ver o montículo principal (Monks Mound).

A característica dominante de Cahokia são os montículos, existindo tantos como 20 dentro da área da cidade. Estes foram construídos inteiramente com terra, carregada em cestos, identificando-se três formas distintas de estruturas: com plataformas, cónica ou com o topo sulcado. Os montículos em plataforma são os mais comuns, servindo como bases elevadas para templos, residências da elite, para a comunidade, facilidades de armazenamento, centros para concelhos ou reuniões e outros aspectos relevantes. Os montículos cónicos foram interpretados como sendo sepulturas mas poucos foram escavados e poucos enterros localizados. Os montículos com sulcos no topo parecem marcar importantes localizações ao longo dos eixos principais de Cahokia, sendo que aqueles que foram testados indicam que teriam funções mortuárias também. Contudo, a maior parte da população não era sepultada nos montículos mas em cemitérios; apenas a elite ou enterros rituais parecem estar associados aos montículos, como o monte 72 com a sua tumba de elite e um numero elevado de jovens raparigas sacrificadas. Todos os montículos examinados mostram evidência de vários estádios de construção, talvez comemorando ciclos do calendário, a morte de líderes ou a ascensão de novos; ou até mesmo o reenterrar do montículo, num ritual de purificação.

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Detalhe de ilustração da autoria de Lloyd K. Townsend. Cahokia Mounds State Historic Site, Illinois.

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Ilustração de Michael Hampshire.

A maioria dos montículos do centro da cidade está enquadrada por várias praças sugeridas, a maior sendo a Grande Praça com 16 hectares, a Sul do maior montículo de Cahokia: Monks Mound, que cobre uma área aproximada de 5,3 hectares e tem cerca de 30 metros de altura, contendo à volta de 2.060 metros cúbicos de terra, toda ela erguida à mão. Esta é a terceira maior pirâmide do continente americano. Estas estruturas eram importantes, sendo os pontos centrais de reuniões para festivais, rituais e outros acontecimentos públicos. Aqui encontrava-se o coração da cidade.

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Vista sobre Monks Mound. Ilustração de Lloyd K. Townsend. Cahokia Mounds State Historic Site, Illinois.

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Reconstituição de cerimónia no interior de um edifício. Monumento Nacional de Ocmulgee, Geórgia central.

A população estimada para Cahokia varia grandemente. Porem, muitos investigadores modernos tendem a ser conservadores em conjugação com pesquisas mais recentes, reavaliando os dados iniciais. Sugerindo, assim, que a população no seu pico era provavelmente de 10 a 20.000 habitantes, por volta de 1050 a 1150 d.C. Cahokia teve a mais larga concentração de povos a norte do México e foi substancialmente maior do que outras comunidades no Mississípi, sendo que as maiores são geralmente referidas como “cidades templo”, mas pela virtude da sua escala, acreditamos que “cidade” será o termo mais correcto para Cahokia.

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Ilustração de Michael Hampshire. Cahokia Mounds State Historic Site.

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Ilustração de Lloyd K. Townsend. Cahokia Mounds State Historic Site, Illinois.

 

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Puuc 1

Edifício conhecido como a “Igreja”. Arquitectura de Chichén Itzá, Yucatão, México, Clássico Final.

É durante o Período Clássico inicial quando aparece o estilo Puuc, juntamente com outros como o Chenes, Petén, Palancano, Rio Bec e Mexicano. A região geográfica Puuc estende-se desde a zona Norte do estado de Campeche até ao estado do Yucatão. Segundo Alberto Ruiz, esta região é melhor conhecida como La Milpa; por se caracterizar pela sua aptidão para a agricultura, apesar do seu clima quente e seco. Aqui, existem sérios problemas de água, já que a ausência de rios é evidente; de qualquer forma pode-se encontrar em alguns sítios depósitos de água conhecidos como “cenotes”. A topografia desta região caracteriza-se por extensões planas de terra povoadas por vários tipos de arbustos e matagais.

Os conhecedores afirmam que a cultura maia se desenvolveu ao mesmo tempo nas zonas Norte e centro da península do Yucatão e que a diferença dos estilos se deve às diversas influências que tiveram, devido a incursões de outras culturas como a teotihuacana, zapoteca e tolteca entre outras. Mesmo assim, podemos dizer que o estilo arquitectónico do Puuc se caracteriza por ser único, tendo sabido adaptar de outras culturas certos perfis para transforma-los num estilo próprio de grande força e com uma criatividade muito própria, enraizada profundamente na tradição maia. Desta forma a arte Puuc ressalta nas suas edificações pela decoração escultórica que os adorna e pelo vigoroso conteúdo estético e religioso, ao conjugar harmoniosamente imagens simbólico-religiosas como as máscaras do deus Chaac, serpentes, jaguares e figuras humanas; com formas puramente decorativas, tais como gregas, colunas, choças e gelosias, numa acentuação da horizontalidade do volume arquitectónico por meio de frisos e molduras.

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Estes complexos arquitectónicos são resultado e, por sua vez, o símbolo da transformação registada na sociedade maia das terras do Puuc, no decurso das etapas tardia e final do período Clássico, entre 600 e 900 d.C. No mesmo momento em que estavam a ser abandonados a maior parte das cidades das terras baixas; muitos dos assentamentos Puuc e suas dinastias tiveram a capacidade de manter de pé as suas antigas tradições. Este período que os arqueólogos denominam de Clássico Terminal, caracteriza-se por um grandioso florescimento da arquitectura e da arte, paralelamente a uma enorme decadência, que provocou alterações políticas decisivas preparando terreno para a erupção do período Pós-Clássico.

Comparadas com as de outras regiões das terras baixas maias, os povoamentos das cidades Puuc concentravam-se em torno de um núcleo, de onde derivava uma densidade demográfica relativamente elevada. Apesar disso, também aqui cerca de 70% do perímetro urbano estava despovoado. De qualquer maneira, apenas se pode falar de terreno desocupado, porque o solo estava destinado a diversos usos, como por exemplo o cultivo agrícola, produção e armazenamento de víveres e actividades de olaria. As hortas domésticas de exploração intensiva e os campos circundantes eram um componente básico da paisagem urbana e serviam para o auto-abastecimento da população. Assim, torna-se perfeitamente lícito qualificar os centros urbanos da região Puuc de cidades-jardim, dado que grandes extensões do solo urbano estavam destinadas a hortas, cultivo de legumes e hortaliças de cuidados intensivos, plantas de adorno e inclusivamente campos de milho, feijões e abóboras.

Os grandes centros do Puuc competiam entre si pelos solos mais aptos para a agricultura. Ao longo do século IX d.C. várias cidades-estado rivais repartiram a parte norte-oriental da região. Os centros destas cidade-estado podiam ser relativamente pequenos, como Labná, um assentamento de 2 a 3 km2, como também cidades relativamente grandes como Yaxhom e Uxmal.

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A “Rainha de Uxmal”. Na realidade trata-se de um deus cuja cabeça emerge da boca de uma serpente mitológica. Fonte: Internet.

Em muitos dos principais centros do Puuc oriental foram descobertas estelas. Das imagens e textos destas, depreende-se que a estrutura política era orientada para a centralização do poder. Da linhagem aristocrática dominante de uma cidade, elegia-se um membro que governava a comunidade como senhor supremo. É possível que, como ocorria em outras cidades do Clássico Tardio, os dirigentes do Puuc compartissem – dentro de certos limites – o seu poder político e económico com os chefes das casas aristocráticas competidoras.

Como visão geral e resumida das cidades que conformam a zona Puuc, iremos apresentar uma descrição sumária de cada uma delas, começando por Uxmal. Fundada por volta de 500 d.C., a consolidação desta cidade ocorre durante a fase final do esplendor da cultura maia, entre os anos de 600 e 900 d.C. O seu nome, Uxmal, quer dizer “a que foi três vezes edificada” e segundo textos de fontes maias, consignados por escrito nos séculos XVI e XVII, estabelece-se uma conexão entre a fundação da cidade e a aparição da dinastia étnica Tutul Xiue. Nesse tempo, Uxmal era um assentamento relativamente pequeno. Ao longo do século IX Uxmal foi mais um dos numerosos centros que competiam pelo domínio da região. No início do século X d.C. a cidade impôs a sua hegemonia em todo o território do vale de Santa Elena e possivelmente mais além.

A secção principal do centro cerimonial de Uxmal ocupa uma extensão aproximada de um quilómetro de largura por 600 metros de comprimento, sendo que no traçado geral da cidade encontramos a Pirâmide do Adivinho que remonta a 1010 – 1090 d.C. A sua forma invulgar, já que arredondada, deve-se às várias sobreposições arquitectónicas que sofreu ao longo da sua existência.

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Panorâmica do quadrangulo das “Monjas”, a partir do sudoeste, mostrando à direita a pirâmide do “Adivinho”. Arte Prehispánico en Mesoamérica. Paul Gendrop, Editorial Trillas, 2004.

Em Uxmal e nas cidades “aliadas” de Nohpat e Kabah começaram-se a construir em finais do século X d.C. edifícios monumentais. Nesta época foram impulsionados na cidade ambiciosos projectos arquitectónicos nunca realizados até então. Tomou parte desta actividade construtora o Palácio do Governador, erguido sobre uma plataforma formada por uma das maiores pirâmides das terras baixas maias, cuja execução exigiu seguramente muita mão-de-obra. O palácio unia em si a função de residência real e de popol naah ou edifício para as assembleias da nobreza. Esta obra espectacular foi executada por ordem do príncipe Chan Chaak K’ak’nal Ajaw. A este soberano de Uxmal relaciona-se também com a construção do campo de jogo de bola 1, do chamado Convento ou Quadrângulo das Monjas e de outros edifícios, todos eles levados a cabo entre os anos de 890 e 915 d.C.

O Quadrângulo das Monjas é uma magnífica expressão do poder político desta cidade e do seu senhor. O complexo de edifícios configura, definitivamente, um cosmo grama do universo maia de proporções gigantescas. As alas do edifício elevam-se em três níveis diferentes. A mais baixa é a do Sul; está adornada com símbolos do mundo inferior, relacionando-se iconograficamente com o deus Itzamnaaj. A construção está unida arquitectonicamente com o campo de jogo de bola 1, entrada simbólica para o mundo inferior nos cosmos maia. A ala Norte ocupa um nível mais elevado que o resto do Quadrângulo das Monjas e foi decorada com símbolos celestes; a sua denominação iconográfica é chan-naah ou casa do céu. As alas Este e Oeste foram construídas num nível intermédio e correspondem ao mundo central do universo maia. A ornamentação do edifício oriental é dedicada à criação do mundo, enquanto o interesse principal da ala ocidental se situava nos temas da guerra, os sacrifícios, a morte e o renascimento. O centro deste edifício estava ocupado por uma gigantesca estátua em forma da coluna wakaj chan ou a árvore do mundo e por um trono-jaguar ou altar-jaguar, que representava a mítica pedra fundamental do lugar cósmico. Em conjunto, os elementos do Quadrângulo das Monjas resultam num diagrama gigantesco e complexo do cosmos maia, cujo ponto central é constituído pela árvore e a casa cósmica.

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“El Palomar”. Fonte: Internet.

O grupo conhecido como El Palomar identifica-se desta forma pelos ornamentos rendilhados na sua cobertura. Este edifício foi destinado ao ensino superior e à preparação de guerreiros. Aí se hospedavam tanto os estudantes internados como os arquitectos e os artistas mais destacados.

A transformação de Uxmal de cidade provinciana a estado regional implicou, sem dúvida, um processo marcado pela violência. Na arte e ornamentação arquitectónica de Uxmal, Kabah, Oxkintok e outros lugares nos decénios em torno de 900 d.C. predominam os temas bélicos. A estela 14 de Uxmal, onde se podem ver, debaixo do soberano Chaak, prisioneiros atados e despidos, é mais um exemplo típico. A cena dotada de maior força expressiva para descrever esta situação é, provavelmente, a que oferece as imagens murais de um pequeno lugar chamado Mulchic, perto de Nohpat. O fresco mostra guerreiros com trajes sumptuosos que atacam outros homens, fazendo-os prisioneiros, sendo finalmente sacrificados. Alguns dos representados nas criações artísticas desta época são assombrosamente parecidos com guerreiros itzá da arte contemporânea de Chichén Itzá. É possível que nas inscrições de Uxmal se mencionem algumas personalidades importantes da dita cidade, o que reforçaria a hipótese de que o soberano Chaak e outros senhores de Uxmal mantivessem uma espécie de aliança com Chichén Itzá, podendo alistar guerreiros itzá nas suas campanhas bélicas. Porém, em todo o caso, admitindo-se a existência desta aliança, é claro que se quebrou em pouco tempo, porque mais tarde, pelo ano de 950 d.C. Uxmal era já uma sombra de si própria. Aparecem, de facto, objectos cerâmicos da chamada “esfera Sotuta” arqueologicamente relacionados com Chichén Itzá, assim como pequenos edifícios em forma de “C” no estilo desta cidade dentro e em torno do Quadrângulo das Monjas, na plataforma do Palácio do Governador e em outros lugares importantes da capital. Também se vê claramente que existem personagens itzá tomando parte nos ritos de consagração de alguns edifícios de Uxmal e no templo Redondo. Não puderam concluir-se os trabalhos de várias obras monumentais iniciados em Uxmal. A posterior construção de uma muralha em torno da cidade insinua que os habitantes de Chichén Itzá teriam submetido pela força Uxmal e que os maias da região Puuc se defenderam vigorosamente contra os seus atacantes.

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Reconstrução de um extremo da fachada do “Codz-Poop”. Desenho de Juan Artigas Hernández.

Dentro da rota Puuc, temos também a cidade de Kabáh, conhecida paralelamente como o Palácio das Máscaras ou Codz-Poop. Esta construção apresenta na sua fachada principal o deus narigudo, mais conhecido como Chaac, o senhor da chuva e da agricultura. No sacbé – ou calçada cerimonial, denominação maia para os caminhos construídos que, neste caso ligava Kabáh com Uxmal – encontra-se um formoso arco construído à base de pedras.

Continuando o nosso périplo, encontramos o templo de Xlapak, que representa genuinamente o estilo Puuc. É uma edificação alargada de forma paralelepípedo, baixa, seguindo a linha horizontal, com as suas fachadas de muros lisos e frisos ricamente decorados; aqui também encontramos como elemento decorativo o uso de colunatas.

No decurso de escavações intensivas foi possível fotografar exaustivamente a cidade de Sayil, nas colinas de Bolonchén. O perímetro desta povoação urbana abarca cerca de 5 km2, tendo albergado entre 7.000 a 8.000 habitantes. Formam parte da urbanização alguns grupos de edifícios monumentais de pedra, unidos entre si por calçadas cerimoniais, também estas realizadas em pedra e estucadas posteriormente. Como já referimos, a mais impressionante das construções de Sayil é o Grande Palácio ou “Casa Grande”, cujas obras duraram seguramente de 100 a 200 anos. Com toda a probabilidade, este edifício era a residência oficial da família reinante ou da linhagem aristocrática mais poderosa do lugar, sendo portanto utilizado também como centro administrativo.

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O “Grande Palácio” de Sayil, visto do sudoeste. Los Mayas. Nikolai Grube, Könemann, 2006.

Sayil situa-se num grande vale de solo muito fértil, com declives irregulares. Admite-se a hipótese de que a cidade estendia o seu raio de influência sobre uma área de mais de 70 km2. Entravam na sua esfera de influência política vários pequenos povoados. Em alguns casos, a situação destes justifica a suspeita de que foram fundados expressamente para poder explorar uma maior superfície de terras férteis, situadas a longa distância de Sayil.

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O grande arco de Labná com a pirâmide do Mirador, ao fundo. Yucatão, México. Fonte: Internet.

Por último, nesta brevíssima súmula, encontramos a cidade de Labná e o seu impressionante e formoso arco. Este majestoso palácio foi construído buscando uma simetria quase perfeita, de tal maneira as colunatas, frisos, máscaras do deus Chaac e gregas são de tamanhos tão proporcionados. Nas suas esquinas sobressaem enormes goelas abertas de serpentes, de onde emergem rostos humanos. Destacando-se do resto do edifício, encontra-se a Pirâmide do Mirador; subindo a sua escadaria central, os homens encontravam-se mais perto dos deuses, contemplando o eterno mistério do mundo.

Aproximadamente na época em que a cidade estado de Uxmal foi destruída ou abandonada, registou-se uma crescente despovoação da região oriental do Puuc. Não se tratou, ao que parece, de uma migração precipitada e repentina. Assim, por exemplo, em Kabah, com uma população urbana reduzida, continuaram a construir-se edifícios monumentais, ainda que de dimensões mais modestas, até provavelmente ao ano de 1050 d.C. Em Xkipché vivia um pequeno grupo residual da povoação de amplas zonas afastadas do centro que derrubou edifícios antigos para reutilizar os materiais. A área do Puuc oriental ficou totalmente abandonada nos primeiros anos do século XI d.C. Tão dramática desolação indica claramente que este território esteve despovoado pelo menos durante algum tempo. Se tivermos em conta que os habitantes destas zonas dependiam totalmente da água da chuva, a explicação mais provável para o abandono daquelas terras foi uma seca pertinaz. De facto, cada vez mais dados paleoecológicos reforçam a hipótese de que vários períodos de secas regionais prolongadas, durante o período Clássico Final, converteram em deserto algumas partes das terras baixas dos maias.

Chama a atenção o facto de que inclusivamente durante o período Pós-Clássico, quando a região oriental ficou abandonada, subsistiram no Puuc ocidental alguns centros habitados e que algumas cidades importantes puderam sobreviver até ao século XI d.C. É evidente que em numerosos pontos do Oeste a evolução política caminhava por direcções claramente diferentes aos do Puuc oriental.

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