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Posts Tagged ‘Brasil’

Encontram-se abertas as inscrições para o curso «Perspectivas Antropológicas Contemporâneas sobre os Índios no Brasil», que tem como tema principal o debate sobre o conhecimento e a vivência da terra sob perspectivas ameríndias. Serão abordadas questões como a revitalização das discussões sobre animismo na antropologia, o multinaturalismo, o papel da visão para o conhecimento, a posse da terra em sentidos múltiplos e o papel específico dos deslocamentos no espaço para uma compreensão integrada da cultura, da história e da política dos índios no Brasil. O curso integra também uma compreensão da forma como os índios no Brasil guiam, desviam e transformam a luta política pela defesa da terra, assim como abordará questões do conhecimento ameríndio pela visão e a filmagem e pela estética.

O curso é organizado pelo Instituto de Ciências Sociais com a colaboração do Museu Nacional de Etnologia de Lisboa e decorre entre 26 e junho e 12 de julho.

Programa detalhado neste link.

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Integrado em Utopias – Arquipélago Verde, o Teatro Municipal Maria Matos, em Lisboa, regressa ao tema da ecologia com um intenso programa de debates, seminários e projecção de filmes, aproximando-nos da experiência dos povos indígenas da América do Sul. Com a contribuição de Eduardo Viveiros de Castro, José Bengoa, Ailton Krenak, Luisa Elvira Belaunde e outros antropólogos, líderes indígenas, linguistas e historiadores oriundos do Brasil, Chile, Equador, Peru, Portugal e Venezuela.

Da edição dos textos no formato de um pequeno caderno, fazemos a transcrição, parcial, de Em busca de uma Terra sem tantos males! da autoria de Ailton Krenak: «Nossa Terra, como a conhecemos hoje, já foi destruída várias vezes, em algumas destas, sem a nossa ajuda. É o que dizem dezenas ou até centenas de narrativas, histórias sagradas de nossos ancestrais. Olhando bem de perto, notamos que alguma pequena ajuda sempre foi dada por alguns de nossos antepassados. Contrariando uma lei ou norma de conduta que dava segurança ao frágil equilíbrio de nossa instável relação com todos os seres da criação que fazem a teia da Vida neste planeta que chamamos Terra. (…) O Povo Krenak que teve o seu território devastado pela fúria dos colonos e desbravadores das florestas deste vale que foi nomeado de Rio Doce, e citado como o Vale do Aço, numa franca declaração de desprezo pela presença deste caudaloso rio, cheio de vida e abundância que poderia suprir toda a necessidade de alimento para seus ribeirinhos. Mas o aço – ou vil metal – encontrado nas suas entranhas brilhou mais do que suas águas cristalinas aos olhos dos seus novos habitantes. (…) Lembrando a citação que abre este texto, em que uma das narrativas de um povo indígena assolado pela ganância dos fazendeiros de soja e da cana no Mato Grosso do Sul lembra a todos nós, que esta terra que vivemos é mesmo imperfeita e por isso segue também o seu curso, em busca de sua Terra Sem Males ou Yvi Marãey. Viva todos os rios da Terra, todos os viventes!»

Ailton Krenak é Professor Honoris causa, Universidade Federal de Juiz de Fora e Grãn Cruz da Ordem de Mérito Cultural do Brasil 2015. Publicou O Lugar onde a Terra descansa (2000) na editora ECO-Rio e Encontros – Ailton Krenak (2015) na editora Azougue.

Dia 26 de Maio, 2017, em Questões Indígenas, Debate e Pensamento, pelas 18.30h, Aparecida Vilaça apresentará A humanidade e a animalidade no universo indígena amazónico. Enquanto dia 27, pelas 17.00h, Felipe Milanez, José Bengoa e Raul Llasag Fernandez promovem uma conferência sobre o tema: Resistência Política Ameríndia.  A entrada é livre, sujeita à lotação da sala principal, mediante levantamento do bilhete no próprio dia, a partir das 15.00h.

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Fonte: Internet.

Fonte: Internet.

Esta reportagem data de 25 de Julho de 2015, tendo sido difundida por Michael Ruggeri (Famsi) agradecendo a Charles Mann pela indicação do relatório completo.

Uma equipe internacional de investigadores tem estudado habitações encontradas na Amazónia, tendo chegado à conclusão que esta região foi densamente habitada por uma população que se estima ter tido entre os oito a quinze milhões de pessoas no ano de 1492. Descobriram também que 83 espécies nativas foram cultivadas nessa região. Rastos evidentes de múltiplas cidades de dimensões consideráveis foram também descobertas. A equipe de investigadores encontrou sistemas extensivos de gestão de terras, cidades que teriam congregado populações de 10.000 habitantes, com milhares de metros de terrenos agrícolas em seu redor. Grandes estruturas trabalhadas em terra foram encontradas conjuntamente com cemitérios, canais e calçadas. A actividade que levou a este sistema terá sido iniciada por volta de 3.000 anos antes de Cristo. Por toda esta região encontrou-se evidencia de uma mistura de solo criada por seres humanos, que se designa por “terra preta”, permitindo uma fértil colheita agrícola. Estas populações teriam cultivado milho, limão, nozes do Brasil, árvores de fruto e palmeiras. Centenas de sítios arqueológicos, neste contexto, já foram encontrados.

Reportagem no Daily Mail: http://dailym.ai/1DFrm00

Relatório da investigação publicada na Royal Society, Inglaterra:

http://rspb.royalsocietypublishing.org/content/282/1812/20150813

Groundbreaking report on Ancient Amazon Civilizations that reached millions in population

An international team of researchers have been investigating ancient human habitation in the Amazon. They have found that the Amazon was once inhabitated by millions of people. Eight million to fifty million may have lived there by 1492. They found that 83 native species were cultivated there. Evidence of sprawling towns that streetched for miles have been uncovered. The researchers have found extensive land management systems, towns that housed 10,000 people each, with miles of extensive agriculture around them. Giant earthworks have been uncovered, along with graveyards, canals and causeways. The activity was widespread by 3000 BCE. All throught these regions, evidence of a man made soil mix called terra preta allowed for fertile crop production. They cultivated maize, squash, Brazil nuts, palm trees and fruit. Hundreds of archaeological sites have already been found.

The Daily Mail has an extensive report here with their usual excellent series of photos and videos;
http://dailym.ai/1DFrm00

And the research was published by the Royal Society in the UK, which has the complete research report here;
http://rspb.royalsocietypublishing.org/content/282/1812/20150813

I want to thank Charles Mann who gave me the heads up on this complete report.

(Michael Ruggeri – Famsi)

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conferencia-waujafinal

Duas grandes colecções etnográficas provenientes dos índios wauja da Amazónia foram incorporadas em museus nacionais europeus em Lisboa e Paris em 2000 e 2005, respectivamente no Museu Nacional de Etnologia e no Musée du quai Branly. Ambas as colecções possuem objetos raros, inexistentes noutras coleções públicas, e cujo estudo se expandiu apenas muito recentemente. Essa conferência reflecte sobre as diferenças entre esses dois projetos de aquisição, as trajetórias curatoriais das artes indígenas da Amazónia e os desafios atuais para a sua aquisição e conhecimento.

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Aristóteles Barcelos Neto é professor e coordenador de pós-graduação na Sainsbury Research Unit for the Arts of Africa, Oceania and the Americas (University of East Anglia, Reino Unido), membro do Grupo de Antropologia Visual e do Centro de Estudos Mesoamericanos e Andinos, ambos da Universidade de São Paulo. Realizou pós-doutoramento no Laboratoire d’Anthropologie Sociale (Collège de France, Paris) e no Departamento de Antropologia da USP. Recebeu o Prémio CNPq-ANPOCS de Melhor Tese de Doutorado em Ciências Sociais.

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Museu Nacional de Etnologia
Avenida Ilha da Madeira, 1400-203 Lisboa
Tel. 21 304 11 60/9 | Fax 21 010 92 06

geral@mnetnologia.dgpc.pt

3ª das 14:00 às 18:00
4ª a Dom. das 10:00 às 18:00

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GRUPOS HISTÓRICOS DAS TERRAS BAIXAS TROPICAIS E DAS TERRAS ALTAS ORIENTAIS

1-Terras Baixas Tropicais

Aldeia Wauja, Alto Xingú. Fotografia de António Rento.

As tribos Jê-Kaingang foram grupos nómadas do Brasil Oriental cujos limites etnográficos estavam delimitados pelos rios Xingú e Paraguai Superior. Foram reunidos numa unidade linguística dividida em muitos dialectos – a família Macro-Jê – ainda que alguns estudiosos sustentem que só pertence à mesma os Kaingang, poderão também ser referidos os Caiapó ou os Timbira, entre outros.

Vários grupos mantiveram um estado primitivo, com uma economia baseada na pesca, na caça dos tapires, recolecção de nozes, repolhos de palmeiras, frutas de piquí, sapucaya, tubérculos, medulas de plantas, larvas de coleópteros e mel. Adoptaram tardiamente e de forma incipiente o cultivo do milho – colhido em estado verde – não conhecendo outros cultivos. Não usaram sal nem narcóticos e poucos grupos conheceram o costume de fumar em cachimbo.

As suas casas foram influenciadas pelos Tupi-Guaranis e variavam de simples pára ventos, construídas com folhas de palmeira e vivendas multifamiliares  com forma de cúpula, rectangulares ou circulares.

De uma maneira geral a sociedade era conformada por bandos de pequenos grupos familiares, com territórios exclusivos de caça e recolecção. Eram dirigidos por chefes considerados homens de prestígio. Em certos casos, e só por influência dos Tupi-Guarani praticaram o canibalismo e a captura de cabeças troféu. Também realizaram enterros secundários em canastas.

9-Terras Baixas Tropicais

Cabeça-troféu (tsan-tsa), indígenas Jívaro. Fotografia de Laura Guerreiro.

Os Caribes, que já tivemos oportunidade de falar no contexto dos povos das Antilhas, foram tribos de agricultores que se assenhoraram do território originalmente dos Arawak, em sucessivos avanços dispersos. Estes, ocorreram de forma tardia, expulsando os Arawaks da Guiana, a região do Orinoco e da costa setentrional. Andavam despidos e usavam largos cinturões ou corcéis muito ajustados ao corpo, tecidos com casca. Adornavam-se com missangas, cintas apertadas nos braços e pernas e faziam tensões frontais e nas coronárias. Foram mestres consumados na arte da cestaria e os introdutores das redes suspensas para dormir, feitas de algodão.

Guerreiros extremamente belicosos, praticaram a antropofagia ritual com os homens das tribos vencidas e tomaram como suas as mulheres destes. Tanto para a guerra como para a caça, estas tribos usaram as zarabatanas e as setas envenenadas.

A sua sociedade era basicamente de linha materna; tendo praticado em geral a poligamia e a autoridade máxima era ostentada pelos caciques chefes da aldeia que submetiam à escravidão os prisioneiros de guerra, para trabalho e proveito próprio. Tinham a crença em numerosos espíritos mal intencionados dos defuntos que se apresentavam por debaixo do aspecto de pequenos seres elementais das florestas e para os quais levavam figuras ou talismãs de madeira para contrariar as suas influências nefastas. Os xamãs eram intermediários entre os espíritos e os homens, sendo também encarregados de praticar a medicina na tribo.

Um grupo de Caribes, os Jívaros, realizavam uma prática ritual que consistia em reduzir as cabeças dos seus inimigos mortos – ou tsan-tsa – devido à crença de que nelas habitava a alma dos homens. O seu conceito da criação era que o primeiro homem desceu do céu, lugar para onde regressava depois de morto.

7-Terras Baixas Tropicais

Preparação de mandioca. Fonte: Internet.

Provenientes do Norte e Noroeste da América do Sul, com um ritmo muito mais lento e pacífico que as tribos Tupi-Guarani, levou-se a cabo a expansão dos Arawaks, cujo principal móbil era procurar novas terras para o seu cultivo tropical de tipo extensivo. Como consequência, produziu-se a sua influência cultural sobre outros povos da América do Sul, que foi mais perdurável e intensa que aquela deixada pelos Tupi-Guarani. A sua cultura chegou até ao Maranhão Superior, afectando grupos andinos e subandinos. Foram cultivadores e bons ceramistas.

Na Amazónia, o cultivo mais importante foi a mandioca: a Oeste a doce e a Norte e Este a amarga; de características venenosas, a transformação em alimento representa um sucesso admirável dos Arawaks. Da mandioca obtinham uma bebida fermentada conhecida como cashiri. Introduziram o milho, com o qual preparavam tortilhas, usando também o tabaco; alem disso dispunham de batatas, feijões, ají – ou picante doce – algodão e canas para flechas. Mascavam folhas de coca com cal e fumavam cigarros ou em cachimbos primitivos. Consumiam frutos de plantas silvestres e carne animal apenas numa escala reduzida. Caçavam macacos, pecaríes, roedores e aves; raramente caçavam também tapires, jaguares ou o caimão. Os veados eram somente caçados pelos grupos das savanas.

12-Terras Baixas Tropicais

Fotografia de Luís Pavão in Os Índios, Nós. Museu Nacional de Etnologia, Lisboa 2000.

Foram excelentes artesãos de cerâmica, cestaria e tecidos fiados. Realizaram estupendos adornos de plumas, gorros e capotes. Usavam colares e peitorais de dentes de animais e ossos, entre outros. No Grande Chaco serviram de intermediários no tráfego de produtos incaicos.

Viveram em aldeias apenas de forma eventual; em geral levantaram paradeiros conformados por algumas choças ou uma única maloca enorme que era a morada de todo um grupo e que em alguns casos protegiam com paliçadas. A comunidade económica não foi a tribo mas a macrofamilia, forma idêntica à aldeia que podiam ser de linha paterna ou de linha materna. O chefe gozava de pouca autoridade e somente em caso de guerra se juntavam várias aldeias para eleger um capitão.

Os xamãs “curavam” através da magia, controlando o tempo, a fertilidade, conjuravam os espíritos e “elevavam-se” por meio de jejuns e narcóticos.

Os mortos pertenciam ao circulo dos vivos e eram enterrados dentro das suas casas ou numa cova próxima. Acreditavam em demónios, espíritos dos defuntos ou da natureza, gnomos da selva e seres aquáticos que perseguiam o homem. Dispunham de instrumentos musicais relacionados com os actos mágicos ou rituais.

2-Terras Baixas Tropicais

Guerreiros Guarani, Chiriguano e Timbu. Ilustração de Ian Heath.

As tribos historicamente conhecidas como Guaranis, formavam parte da grande família linguística Tupi-Guarani que se estendia desde o Amazonas até ao delta do Rio da Prata; tendo estabelecido os seus assentamentos sobretudo ao longo do Rio Paraná. Os Tupi ocupavam a secção média e inferior da bacia amazónica e grande parte do litoral Atlântico, desde o Amazonas até Cananea. Desde aqui e até ao actual estado brasileiro do Rio Grande do Sul, encontramos, de igual modo que nas grandes vias fluviais que se internam na meseta, os Guaranis. Como se disse, o seu limite Sul estava um pouco mais abaixo do delta do Rio da Prata, com o grupo conhecido como “Guarani das ilhas”, cujos restos se têm encontrado até ao que é hoje em dia San Isidro, na periferia da cidade de Buenos Aires. Dedicados à horticultura, cultivaram o milho, a mandioca, o feijão e a abóbora. A estes agregavam-se o algodão, o cacahuate o maní e a erva mate, produto da recolecção na época pré-hispânica e destinada, provavelmente, ao consumo ritual nessa época, da mesma forma que um tipo de tabaco.

3-Terras Baixas Tropicais

Queimada. Fonte: Internet.

O sistema de cultivo era o método de roça onde, como já referimos, os homens talhavam e queimavam uma secção da floresta que seria posteriormente cultivada pelas mulheres. Este sistema obriga a uma grande mobilidade dos assentamentos para possibilitar os longos períodos indispensáveis de descanso, por forma a permitir a reconstituição do manto vegetal. Complementavam a sua dieta com a caça a pesca e a recolecção. Viveram em aldeias formadas por grandes casas comunais tipicamente amazónicas, as malocas, rodeadas de paliçadas, que albergavam várias unidades domésticas sobre o comando de um líder. Várias destas malocas constituíam uma aldeia – ou taba – conduzida por um chefe de maior hierarquia, assistido por um grupo de anciãos e grupos de caciques secundários. Os diversos grupos estabelecidos desta forma, podiam firmar alianças através de casamentos dos seus líderes étnicos – ou os mburuvichá – tecendo desta forma uma rede de alianças políticas que podia chegar a ser muito extensa.

O líder, como em outras culturas similares, era normalmente polígamo, o que reforçava a capacidade de estabelecer alianças políticas e acesso à força de trabalho dos seus cunhados – ou tovajá. No entanto, possuía um papel débil nos períodos de paz; era na realidade durante esses momentos pacíficos fundamentalmente um árbitro no seio da sua comunidade. Por outro lado, o seu poder agigantava-se durante as guerras e incluía, além do mais, um marcado carácter religioso-profético. Como noutros povos da selva tropical, um dos aspectos centrais do controlo dos líderes residia na sua generosidade que, por sua vez, se fundava na sua capacidade para constituir-se no centro de vários círculos de reciprocidade e na sua habilidade oratória.

Acreditavam em Tupa, o deus criador e civilizador, tendo concepções animistas, encontrando-se também os xamãs – ou pajé – homens conhecedores das enfermidades, as medicinas e a previsão do tempo, executando práticas por meio de narcóticos. Por vezes chegavam a possuir tanto prestígio – convertendo-se então em Karaí – que podiam por em perigo o controlo político dos líderes sobre a aldeia. De carácter guerreiro, mantiveram o culto das cabeça-troféu e o canibalismo ritual. Tiveram uma indústria lítica pouco desenvolvida e uma cerâmica simples. São característicos dos Tupi-Guarani os tembetás ou pendente labial e as grandes urnas funerárias.

4-Terras Baixas Tropicais

Guaranis. Fonte: Internet, ilustrador desconhecido.

Graças há sua habilidade como canoeiros, entre 500 e 700 d.C., os vários grupos Guaranis iniciaram uma grande migração expansiva através das vias aquáticas que abundam no meio da selva tropical e subtropical Sul americana. Em especial, a enorme bacia do Paraná que, desde o planalto dos Veadeiros até à desembocadura do Atlântico, estende-se por quilómetros ao longo do sistema Rio da Prata – Paraná. No sentido Oeste-Este, os seus afluentes – desde o subsistema do rio Paraguai, que toca os contrafortes andinos, até às nascentes do Tieté – abarcando os Andes até ao Atlântico, percorrendo também milhares de quilómetros. O tipo de agricultura itinerante de roça e as fortes crenças proféticas que ocupavam um lugar central na sua cultura, dinamizaram esta grande migração expansiva que com o decorrer dos anos, alcançou os contrafortes andinos, no sector ocidental do Grande Chaco, Mochos para o Oeste e a Baía de Samborombón a Sul. Estas movimentações foram frequentemente provocadas pela ânsia mística de encontrar “A Terra sem Mal”, uma espécie de paraíso na terra. Do mesmo modo, o afã de aventuras guerreiras conduziu as tribos proximamente aparentadas com os Guaranis do Paraguai – os Chiriguanos – até às fronteiras do império Inca; chegando estes a misturar-se profusamente com elementos estranhos a eles.

Sobre o litoral argentino existiram dois núcleos de assentamentos Guaranis, um em Misiones e outro sobre os arroios de Sandí e Malo no delta do Paraná. Devido a estes grandes movimentos migratórios o Tupi difundiu-se como a língua franca sobre toda a Amazónia e muitas tribos foram guaranizadas.

5-Terras Baixas Tropicais

Fotografia não identificada in As Origens do Homem, Edição Amigos do Livro, Lisboa.

O grande volume de tribos individuais com quem vieram a entrar em contacto no litoral do Brasil, espantaram os portugueses e os espanhóis que, pelo final do século XVI os agruparam à sua conveniência como os Guarani, Potiguara, Tamoyo, Tapuya, Tobayara e Tupinambá, apesar de algumas destas tribos conterem vários povos distintos e que continuam a ser conhecidos por vários nomes alternativos. As tribos Tupi canibais eram, como já vimos, a mais importante de todas, tendo sido o primeiro povo Brasileiro com quem os invasores europeus entraram em contacto. O termo “Tupi” abraça numerosas tribos relacionadas, sendo que as mais significantes eram os Tupinambá, Tupinikin, Tobayara, Potiguara, Tupina, Temiminó e os Caeté. Estes, tinham recentemente migrado para as terras costeiras, expulsando os povos de língua Jê que anteriormente ocuparam a mesma região. Pela altura do primeiro contacto os Tupi, como já referimos, tinham ocupado grande parte da linha de costa brasileira, desde a boca do Amazonas para Sul, além da actual cidade de S. Paulo. Cada tribo consistia em aldeias paliçadas que incluíam oito casas comunais, podendo cada uma acomodar até 30 famílias. Estas aldeias mudavam de localização cada cinco anos. Os Potiguara eram considerados dos mais poderosos entre os povos Tupi; Martim Leitão – em 1585 – descreve as suas tribos como “as maiores e mais unidas de todo o Brasil”; enquanto Gabriel Soares de Sousa reporta que eles eram capazes de constituir exércitos em campo de 20.000 homens.

8-Terras Baixas Tropicais

Pajé durante o xamanismo de um banquete de jaboti. Fotografia de Rômulo Fialdini.

A guerra inter-tribal era endémica, providenciando este conflito permanente vitimas para os seus rituais sacrificiais, incluindo o canibalismo. Consequentemente, as várias tribos Tupis não tinham problemas em se aliarem com os invasores portugueses e franceses que lutavam entre si. Os Tupinambá e Temiminó podiam ser encontrados a lutar por ambos, mas os Tupinikin e os Tobayara lutaram principalmente pelos portugueses.

No entanto, os Tupinikin rebelaram-se em 1562 e em 1584 uma traição esclavagista gananciosa levou os Tobayara a aliarem-se com os seus inimigos tradicionais, os Potiguara contra os portugueses, de tal forma que as autoridades invasoras recorreram às armas para os ganhar de novo. Os Tamoyo, Caeté e os poderosos Potiguara da Paraíba lutaram pelos franceses; os Tamoyo e Potiguara alcançando frequentemente sucessos contra os portugueses na segunda metade do século. No decurso de 1560, no entanto, os Tamoyo foram gradualmente empurrados para a terra interior e em 1575 foram todos eleminados por António de Salema.

A principal arma entre os Tupi era o arco, o que a julgar por artefactos contemporâneos teria cerca de 2 metros de comprimento. A estaca era por vezes decorada com padrões incisos usando madeira de cor e as cordas do arco eram pintadas de verde ou vermelho. Testemunhas dão conta da eficácia superior dos Tupi no uso desta arma, os Potiguara em particular são conhecidos por atiradores certeiros que “uma seta atirada por eles nunca falha”. Thevet reporta que as suas setas são “tão fortes que atravessam uma boa protecção de malha”, enquanto uma testemunha portuguesa escreve em 1601 que as setas Tupi podiam bem atravessar “um peitoral acolchoado…” Outra das suas armas principais era o tacape, uma moca plana com a silhueta de um remo feito de madeira dura, vermelha ou preta, com uma cabeça circular ou oval; com cerca de 2,5 cm de espessura, com um extremo cortante muito afiado. Poderia ter 1,80 m de comprimento e a maioria era usada a duas mãos. Como o arco, poderia ter padrões de madeira colorida e o seu manejo era por vezes decorado com penas, particularmente durante as celebrações.

6-Terras Baixas Tropicais

Fonte: Internet, fotografia não identificada.

Todos aqueles que eram capturados vivos, homens, mulheres e crianças, índios ou europeus, eram sacrificialmente executados e comidos. No entanto, isto podia ocorrer num espaço de tempo considerável, alguns dos prisioneiros tendo mesmo tempo para casar e terem filhos, durante o seu cativeiro.

Como muitas outras tribos brasileiras, os Tupi que viviam ao longo da costa, ou ao longo dos grandes rios, também faziam um uso considerável da canoa, que são descritas como sendo feitas do tronco de uma única árvore. Podiam levar entre 20 a 30 guerreiros. Os Tamoyo estavam até preparados para confrontar os portugueses – que também eles tiravam um uso intensivo das canoas nativas – em mar aberto, sendo por vezes vitoriosos nos seus confrontos.

Alem de uma tira ocasional para tapar o pénis, ou de pelo menos uma folha com folhagem à volta dos genitais – por vezes usado pelos homens mais velhos – eles andavam maioritariamente nus, especialmente em combate. Por sua vez decoravam-se a eles próprios para a batalha com pinturas de muitas variedades e categorias, usando também cola de resina para prender penas vermelhas e brancas aos seus corpos; Knivet descreve como alguns guerreiros se cobriam com “penas de diversas cores, de tal maneira que não se via um ponto da sua pele, alem das suas pernas”. Outros elementos de decoração eram utilizados, como bonitos cristais de alabastro branco ou verde ou pendentes feitos de concha usados através do nariz.

10-Terras Baixas Tropicais

Fotografia de Sebastião Salgado.

O povo Aimoré de língua Jê, eram canibais, nómadas da floresta para quem a antropofagia nada tinha de religioso ou de ritualista; eles apenas olhavam para os humanos como uma fonte alimentícia. Os Aimoré eram vizinhos e inimigos tradicionais dos Tupinambá, que os empurraram para o interior, pouco tempo antes dos portugueses começarem a fixar-se no Brasil em 1530. Os seus subsequentes raides às localidades Tupinambá no litoral, somando-se a expansão portuguesa terra dentro, trouxe-os a contacto e conflito com os últimos por volta de 1550. Mem de Sá foi bem sucedido ao conseguir empurra-los durante o ano de 1560-61, mas as capitanias de Ilhéus e Porto Seguro, no entanto, sofreram duramente às suas mãos antes que a maioria fosse submetida nas primeiras décadas do século XVII.

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Mostra Itinerante de Cinema Indígena Brasileiro

Lisboa de 03 de Maio a 07 de Junho de 2013

 Realização: Tagus-Atlanticus. Associação Cultural.

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Programa (entrada livre):

03 de Maio, sexta-feira| 18:00 | FACULDADE DE BELAS ARTES – UL

SHUKU SHUKUWE – VIDA É PARA SEMPRE |Agostinho Ika Muru | Acre, 2012

comentários de Daniel Ribeiro Duarte (Filmes de Quintal)

 

17 de Maio, sexta-feira| 18:00 | INSTITUTO UNIVERSITÁRIO DE LISBOA – ISCTE – IUL

CORUMBIARA | Vincent Carelli | Rondônia, 2009

comentários de Susana Viegas (ICS) e de Paulo Raposo (CRIA-ISCTE)

 

24 de Maio, sexta-feira| 18:00 | ESCOLA SUPERIOR DE TEATRO E CINEMA – IPT

BICICLETAS DE NHANDERU | Guarany-mbya, Video nas Aldeias | Rio Grande do Sul, 2011

comentários de Rodrigo Lacerda ( FCSH – UNL)

 

31 de Maio, sexta-feira| 18:00 | FACULDADE DE CIÊNCIAS SOCIAIS E HUMANAS – UNL

AS HIPER MULHERES | Carlos Fausto, Leonardo Sette, Takumã Kuikuro | Mato Grosso, 2011

comentários de Cristina de Branco ( FCSH – UNL)

 

07 de Junho, sexta-feira| 18:00 | CASA DA AMÉRICA LATINA . LISBOA

PI´ÕNHITSI – MULHERES XAVANTES SEM NOME| Tiago Torres, Divino Tserewahú | Mato Grosso, 2009

comentários de Cristina Branco (FCSH – UNL) e Daniel Ribeiro Duarte (Filmes de Quintal)

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Introdução ao universo mitológico e metafísico das principais culturas ameríndias.

 

América do Sul Tropical

 

Ao contrário das grandes civilizações mesoamericanas e andinas, os exploradores Ocidentais, não encontraram vestígios de uma civilização, durante as expedições ao vale do rio Amazonas. Em vez disso, descobriram centenas de tribos, vivendo em estados primordiais e descobriram que o mundo destes caçadores – colectores, e dos seus sonhos, se fundiam numa realidade única. Ela era, e é, um mundo povoado de espíritos – espíritos da lua, espírito dos abutres, espírito dos remoinhos, dos raios e dos trovões.

As inúmeras tribos amazónicas, têm a sua origem em três ramos relacionados: Os Tupi – Guarani, os Omagua e os Pano; a eles devem  ser acrescentadas as tribos Quíchua, que descendem dos índios Inca. Na altura em que os cronistas fizeram as primeiras viagens, sabia-se da existência de mais de 700 tribos, cuja subsistência inclui a caça, a pesca e a jardinagem. Os primeiros ocidentais não encontraram provas de uma linguagem escrita, nem sinais de registos pictóricos que  pudessem esclarecer a mitologia da Amazónia.

Os indígenas das florestas tropicais da América do sul, vivem em pequenas sociedades, tendo cada uma a sua base mitológica própria. Nenhum grupo de deuses ou heróis culturais é comum a todos os ameríndios, desta vasta região. Estamos também a lidar com mundos mitológicos, onde os homens são animais e os animais são homens; com tanta confusão deliberada, de identidades, entre o humano e o animal, é talvez mais relevante considerar os valores simbólicos da Anaconda ou do Jaguar, do que as aventuras dos seus parceiros humanos. A Anaconda, por exemplo, é várias vezes descrita como Mestre das Plantas Cultivadas e o Jaguar como Mestre do Fogo. Apesar dos deuses, heróis culturais e outros seres míticos, variarem de uma sociedade para outra, podemos falar genericamente sobre uma mitologia Sul Americana. O antropologista Francês Lévi – Strauss. Mostrou que os mitos de uma sociedade, não são mais do que a transformação dos mitos de outra sociedade, sendo modificados de maneira ordenada, por variações de entendimento do mundo e diferenças na organização social. À medida que movemos de uma cultura Ameríndia para outra, os mitos de uma são entendíveis em termos da outra, desde que ambos partilhem de uma base de preocupação comum e que vinculem, uma lógica também comum.

A origem da horticultura

 

Este mito vem do Trio de Suriname e do Brasil. O herói cultural Paraparawa foi pescar à borda de um rio. Ao princípio não apanhou nada, mas ao fim de algum tempo apanhou um pequeno peixe chamado Waraku. Quando o apanhou, ele bateu no chão, atrás de si, e começou a pular. Paraparawa procurou-o mas ele não estava lá. Depois ouviu uma voz atrás de si que dizia: “Sou eu”, e ele ficou espantado, porque o peixe transformou-se numa mulher. A mulher, Waraku, disse: “Eu quero ver a tua aldeia”. Assim eles foram, e nessa altura a aldeia de Paraparawa encontrava-se entre as raízes Waruna. Waraku ficou surpreendida quando viu a aldeia e disse: “Onde está a tua comida? Onde está a tua bebida? Onde é a tua casa?”

“Eu não tenho casa”, disse Paraparawa, “E o meu pão é a seiva mole que se encontra dentro da raiz Waruma”. Waraku disse que já tinha visto o suficiente e ambos retornaram para a água. Ela disse: “Espera um minuto, o meu pai está a chegar, e ele vai trazer comida, bananas, inhame – que tem por tipo o espargo comum – batatas-doces e yuca – yuca é a raiz principal de muitas sociedades ameríndias Tropicais, da qual se faz o pão e a bebida – Quando o pai de Waraku chegou, Paraparawa viu primeiro a planta da yuca. O seu pai foi-se aproximando, vindo da água, e eles viram as folhas da planta yuca vindo dentro da água, para fora. O pai de Waraku chegou como um crocodilo gigante. À medida que se aproximava, Paraparawa viu os seus olhos vermelhos e ficou tão assustado que fugiu. Mas a mulher manteve-se e ficou com as plantas alimentícias de seu pai. Depois deu tudo a Paraparawa. “Como poderei fixá-las?” perguntou Paraparawa. “Corta um lugar para elas. Alisa um campo para elas”, respondeu Waraku. “Certo”, disse ele, e então plantou-as. Plantou Yuca, bananas e todas as outras coisas no campo. Elas cresceram. Todas cresceram, até não poderem crescer mais. Waraku disse então a Paraparawa como fazer todos os utensílios necessários para fazer o pão, a partir da raiz yuca, porque ele era ignorante e não sabia nada destas coisas, de como cozinhar comida. Waraku fez pão para Paraparawa, mas quando ele experimentou um pouco, vomitou. Não estava acostumado, mesmo assim experimentou de tudo; teve que engolir todos os novos alimentos. Finalmente ele cresceu, acostumado a comer estes alimentos e deixou de comer o interior da haste da Waruma. Foi assim que aconteceu.

 

De uma maneira geral, os mitos das sociedades da selva Sul Americana, são uma complexa declaração sobre aquilo que existe no mundo: dizem que coisas existem no universo, como vieram a ser e qual a sua natureza. A sua principal preocupação, é definir o ideal ou as relações harmónicas que devem de permanecer entre os vários elementos para a sociedade poder existir. Para isso, elementos caracterizados como perigosos em relação a cada um, devem misturar-se – homem e mulher, humanos e animais, parentescos e famílias – e esta mistura deve seguir as regras próprias, usualmente atribuída a um herói cultural do tempo mítico. Um mito da origem da sociedade, encontrado com frequência entre os índigenas da América do Sul, fala de uma criação, normalmente a partir do peixe, de grupos separados de pessoas. Na sua separação, os grupos existiam numa forma associal, e num estado de infertilidade. A vida social, e por consequência a fertilidade, poderiam emergir apenas pela aproximação destes grupos. Eles tornaram-se um só povo, mesmo que de forma perigosa, através de inter. – casamentos. Entre os Shavante do Brasil o laço de parentesco e famílias é cortado novamente após a morte; porque nessa altura o defunto regressa ao seu próprio grupo de origem, que é livre de familiares. Assim, entidades perigosas estão mais uma vez separadas, umas das outras, no mundo do além, e nesta separação vem a não vida: uma declaração eloquente em si, da natureza da própria vida. Os mitos, então, estão ligados ao que quer dizer ser-se humano e vivo, dentro de uma sociedade humana, e são os perigos inerentes à sociedade que são consistentemente colocados à prova. A vida social tornou-se possível através da criação do cultivo, de cozinhar ao lume, de artefactos culturais, a caça, os poderes gerativos do homem e da mulher; mas no despertar destas criações, está não só o conhecimento e a lei, mas a morte, a doença, o canibalismo, a infortuna e o sofrimento. Todos estes elementos em conjunto, criam o mito. História e mito são um e o mesmo para os Ameríndios. Por vezes o mito introduz a um estado de estar pré – mítico, fala numa transformação e ao fazê-lo termina num tempo pós – mítico. Esta transformação de tempo pré – mítico, para pós – mítico, representa o tempo histórico para o Índio, enquanto que o estado de estar pós – mítico, descrito no mito, é percepcionado como a maneira própria e estado inevitável do quotidiano presente: o homem come carne cozinhada, não crua; o Jaguar come comida crua, e não cozinhada.

Um aspecto importante dos mitos é que qualquer dado mítico é sobre a multiplicidade de tópicos. Os mitos acerca da aquisição da agricultura são também sobre a origem da natureza das relações inter – familiares. Os temas estão interligados, sendo cada tema usado para explicitar o próximo. O contador de mitos, usa eventos míticos críticos criativa-mente e a construção de um mito é um processo altamente criativo, aquele da humanidade reflectindo sobre si própria.

 

De uma perspectiva de categorias Ocidentais, podíamos dizer que é nos mitos que podemos descobrir as filosofias de causalidade dos Ameríndios, a sua classificação dos elementos no universo, os seus conceitos de tempo e espaço, e a sua visão única do destino do homem. Se estes parâmetros ajudam a perceber a visão do mundo Ameríndio, no entanto é questionável. As teorias abstractas da nossa cultura acerca do ordenamento da sociedade e do universo, são tão alienígenas aos habitantes Índios do continente Americano, que podemos usá-las apenas como guia, desprendido, para entender a vida do mundo continental Americano, Pré – Colombiano.

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