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Posts Tagged ‘Etnias’

Integrado em Utopias – Arquipélago Verde, o Teatro Municipal Maria Matos, em Lisboa, regressa ao tema da ecologia com um intenso programa de debates, seminários e projecção de filmes, aproximando-nos da experiência dos povos indígenas da América do Sul. Com a contribuição de Eduardo Viveiros de Castro, José Bengoa, Ailton Krenak, Luisa Elvira Belaunde e outros antropólogos, líderes indígenas, linguistas e historiadores oriundos do Brasil, Chile, Equador, Peru, Portugal e Venezuela.

Da edição dos textos no formato de um pequeno caderno, fazemos a transcrição, parcial, de Em busca de uma Terra sem tantos males! da autoria de Ailton Krenak: «Nossa Terra, como a conhecemos hoje, já foi destruída várias vezes, em algumas destas, sem a nossa ajuda. É o que dizem dezenas ou até centenas de narrativas, histórias sagradas de nossos ancestrais. Olhando bem de perto, notamos que alguma pequena ajuda sempre foi dada por alguns de nossos antepassados. Contrariando uma lei ou norma de conduta que dava segurança ao frágil equilíbrio de nossa instável relação com todos os seres da criação que fazem a teia da Vida neste planeta que chamamos Terra. (…) O Povo Krenak que teve o seu território devastado pela fúria dos colonos e desbravadores das florestas deste vale que foi nomeado de Rio Doce, e citado como o Vale do Aço, numa franca declaração de desprezo pela presença deste caudaloso rio, cheio de vida e abundância que poderia suprir toda a necessidade de alimento para seus ribeirinhos. Mas o aço – ou vil metal – encontrado nas suas entranhas brilhou mais do que suas águas cristalinas aos olhos dos seus novos habitantes. (…) Lembrando a citação que abre este texto, em que uma das narrativas de um povo indígena assolado pela ganância dos fazendeiros de soja e da cana no Mato Grosso do Sul lembra a todos nós, que esta terra que vivemos é mesmo imperfeita e por isso segue também o seu curso, em busca de sua Terra Sem Males ou Yvi Marãey. Viva todos os rios da Terra, todos os viventes!»

Ailton Krenak é Professor Honoris causa, Universidade Federal de Juiz de Fora e Grãn Cruz da Ordem de Mérito Cultural do Brasil 2015. Publicou O Lugar onde a Terra descansa (2000) na editora ECO-Rio e Encontros – Ailton Krenak (2015) na editora Azougue.

Dia 26 de Maio, 2017, em Questões Indígenas, Debate e Pensamento, pelas 18.30h, Aparecida Vilaça apresentará A humanidade e a animalidade no universo indígena amazónico. Enquanto dia 27, pelas 17.00h, Felipe Milanez, José Bengoa e Raul Llasag Fernandez promovem uma conferência sobre o tema: Resistência Política Ameríndia.  A entrada é livre, sujeita à lotação da sala principal, mediante levantamento do bilhete no próprio dia, a partir das 15.00h.

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O sudoeste dos Estados Unidos da América – Irradiação das culturas Mogollón, Anasazi e Hohokam.

Oásis América – Mapa Tempo Ameríndio.

Alguns arqueólogos sustêm que mogollón começa em 1.000 a.C., sobre a base cultural da Tradição do Deserto, originada pelos cochise que em 2.000 a.C. já cultivavam um tipo de milho primitivo. O certo é que a transição de uma sociedade arcaica para uma sociedade de agricultores sedentários, com cerâmica introduzida desde o sul, se completou ao redor de 300 d.C. A sua principal fonte alimentícia proveio da domesticação e cultivo de espécies como a yuca – ou mandioca, uma espécie de tubérculo – cactos, milho, girassol, ervas e nozes.

Observam-se quatro fases distintas, na evolução da cultura mogollón que a distingue da sua similar, a anasazi. Num primeiro momento, os seus assentamentos caracterizam-se por um grande número de casas-poço de dimensões pequenas. A partir de 1.000 d.C., começaram a construi-las sobre o nível do solo e, por influência anasazi, apareceram os complexos cerimoniais e, em alguns casos, residências de varões, conhecidas como “kivas“, estas últimas sobreviventes das casas-poço.

As várias culturas do Sudoeste. Mapa Tempo Ameríndio.

Criaram todo o tipo de ornamentos: braceletes de concha, pendentes de madeira, adornos tubulares de osso e ferramentas, como metates – ou pedras para moer grãos e sementes – almofarizes, armadilhas, arcos e flechas. Também fabricaram têxteis, cestos, elementos de madeira e cerâmica como espátulas, tabuinhas, flautas e colares de sementes. No vale do rio Mimbres, desenvolveu-se uma sub-tradição com a manufactura de excelente cerâmica. Nos povoados de Casas Grandes e Chihuahua, deram-se amplos assentamentos ao que se supõe terem chegado mercadores do planalto mexicano. Por volta de 1.100 d.C. começa a sua decadência, talvez pelas mesmas causas que se fizeram sentir em todo o sudoeste, entrando em colapso definitivamente em 1350 d.C.

Vasilha com insectos, cerâmica pintada. Cultura mogollon, Novo México. Arte pré-colombiana. Scala Group. Milão, 2009.

Os anasazi – A partir de 185 a.C., sobre a base cultural dos cesteros – povos da Tradição do Deserto, sem agricultura nem cerâmica – evoluíram os anasazi. O seu epicentro foi a região conhecida como “Os Quatro Cantos”, formada pelo Arizona, Utah, Colorado e o Novo México. No seu desenvolvimento estabeleceram-se oito fases ou períodos, dos quais os três primeiros pertencem à evolução dos cesteros – até 750 d.C. – e os seguintes às culturas conhecidas como pueblo.

As primeiras habitações que levantaram foram do tipo casa-poço, superficiais e de simples estrutura. A seguir construíram-nas fazendo a base mais profunda e com uma abertura no tecto que fazia as vezes da chaminé e entrada, simultaneamente. Dentro das habitações cavaram um buraco central, o sipapu, que simbolizava o lugar por onde a humanidade havia emergido desde o interior do mundo. Com o decorrer do tempo, esta modalidade deu origem às kivas cerimoniais. Posteriormente, deu-se a sua expansão e, durante essa época, já construíram os edifícios com pedras, sobre o nível do solo. Por volta de 700 d.C., em Mesa Verde e Cliff Palace, construíram habitações dentro de reentrâncias rochosas naturais, no rebordo de precipícios.

Uma kiva (câmara ritual) construida pelos anasazi no pueblo de Mesa Verde,  Colorado. Duncan Baird Publishers, 1996.

A sua expansão, que alcançou uma dimensão máxima em 1.100 d.C. mostra que os anasazi possuíam um grande conhecimento sobre os períodos solares de solstícios e equinócios, urbanização de grandes povoações feitas em alvenaria de pedra com vários pisos; canais para rega e manufactura de vasos cerâmicos. Um dos mais importantes urbanismos desde período é Pueblo Bonito que contou um número próximo às 800 habitações e 25 kivas, as construções circulares para o culto. Esta estrutura apresenta um urbanismo racional de desenho intimista, projectado com as suas habitações de tipo original. Crê-se que foi habitado como cidade e centro de culto para umas 1.200 pessoas. Como já referimos, as habitações redondas são kivas, lugares religiosos para reuniões e cultos iniciáticos por parte dos homens. Também se supõe que a kiva principal terá sido observatório astronómico. Pueblo Bonito e Chetro Ketl são dois dos lugares mais relevantes dos 125 assentamentos distribuídos ao longo da bacia do rio Saint John, no Canyon Chaco e que formaram parte de um verdadeiro sistema económico, entre 950 a 1200 d.C. Estas localidades foram providas de residências, armazéns, recintos cerimoniais, edifícios públicos e estavam ligados por mais de 400 km de uma rede de caminhos. Ainda não foi devidamente esclarecido se Canyon Chaco foi um centro de culto e comércio, com cidades independentes anexadas ao sistema, ou se as mesmas foram colónias estabelecidas, para dar saída ao aumento demográfico que sofreram.

Planta e perspectiva de Pueblo Bonito. Cultura anasazi, cerca de 1100 d.C. Edições Corregidor, 2005.

Por volta de 1200 d.C. produziu-se uma alteração climática; por toda a região registou-se uma quebra nas escassas precipitações. Este fenómeno que criou uma ruptura no ecossistema frágil já por si, somando-se a incursão de tribos de origem dene: os navajos e apaches, são as causas possíveis que levaram ao abandono dos povoados na bacia do rio Saint John. Não se conhece de certeza o destino dos anasazi, porém, anos mais tarde, nas regiões dos rios Little Colorado e Rio Grande, deu-se uma nova etapa de construção de grandes povoações, por vezes combinadas com saliências rochosas, como na meseta de Pajaritos, no Novo México, que perduraram até à chegada dos espanhóis.

Ilustração de uma estrutura arquitectónica hohokam. Fonte: Internet.

Entretanto, nas terras desérticas dos vales do rio Gila, no Arizona, dentro de uma área restrita e próxima às outras duas tradições que já falamos, evoluiu a cultura hohokam, sobre a base da arcaica cultura cochise. Não se tem a certeza sobre o seu inicio e, ainda que alguns arqueólogos sustentem uma maior antiguidade; estima-se que os seus começos tenham coincidido com o principio da era cristã. Glawdin e Harry, em 1937, subdividem a sua duração em quatro períodos, dos quais aquele de maior desenvolvimento é o último, conhecido como Clássico. Os estudos actuais indicam que esta cultura foi regional, desenvolvendo-se no seu lugar com base a vinculações comerciais e rituais com as culturas mexicanas. Implementaram uma agricultura do deserto que lhes proporcionou duas colheitas anuais, para a qual construíram canais de rega que transportava a água desde as montanhas. Possivelmente, devido às relações frequentes que tiveram com as culturas meridionais, praticaram a astronomia, fabricaram cerâmica e braceletes de concha; trabalharam a pedra, as turquesas e o cobre.

A partir de 600 d.C. construíram praças com plataformas de 1 m de altura por 30 m de largura que, apesar de serem baixas, mostram influência mexicana. As suas habitações foram do tipo casa-poço, com recintos rectangulares, construídas com adobes sobre escavações no solo, alcançando em Casas Grandes os quatro pisos de altura.

A diminuição das colheitas e as frequentes incursões das tribos apaches, provocaram um colapso por volta de 1450 d.C. Os povoadores abandonaram os seus antigos locais e agruparam-se em pequenas povoações dispersas.

Fotografia do pueblo de Taos, Novo México. Editora Dargaud, 1969.

Apesar desta entrada ter um enfoque sobre as culturas Pré-Colombianas, ou seja, aquelas que se desenvolveram antes ou até ao contacto com os europeus, vale a pena aqui falarmos um pouco sobre as tribos históricas, desta área de estudo. Assim, quando os primeiros europeus pisaram estes territórios, por volta de 1540 da nossa era, encontraram cerca de 20.000 habitantes, disseminados por 70 povoações. A estes aborígenes denominaram, de forma genérica, como índios pueblo, devido às características das suas povoações. A sua fonte alimentícia principal era um tipo de milho adaptado à semi aridez do território, que complementavam com a caça. Mantinham uma organização social de clãs matriciais e ao povo como unidade política superior. Em chefia, um «governador» para as funções administrativas; um “chefe de guerra” encarregado dos trabalhos públicos e conflitos bélicos e, além destes, um séquito de sacerdotes cuja missão era a de propiciar as chuvas.

Dos grupos pueblo actuais, os tano e keres descendem dos anasazi. Os hopis de um ramo shoshoni; os zuñis supõe-se derivados da tradição mogollón, presumindo-se que quem actualmente habita a região de Sonora – onde se encontram as tribos pima, papago e tarahumara– são os herdeiros da tradição hohokam.

 

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cursoamerica

Destinatários: Estudantes, professores e outros profissionais que pretendam ampliar o leque de conhecimentos e da sua cultura visual sobre as sociedades que se desenvolveram na América do Sul no período pré-colombiano.

Candidaturas: de 22 de fevereiro a 22 de março de 2016

Duração: 9 de abril a 25 de junho de 2016. O curso será realizado aos sábados, entre as 10h00 e as 13h00, num total de 36 horas distribuídas ao longo de 12 aulas.

Local: Museu Nacional de Etnologia (Lisboa)

Preço: € 240,00

Avaliação: Tratando-se de um curso livre, que não proporciona qualquer crédito escolar, a sua frequência será atestada através de certificado de participação emitido pelo coordenador/formador. Informações | Inscrições: e-mail.

Objectivos e Metodologia: Tendo como objetivo geral conhecer a história e culturas visuais das sociedades indígenas da América do Sul no período précolombiano, após contextualização prévia sobre as grandes áreas culturais da América do Norte e Central, o Curso incidirá principalmente sobre as seguintes áreas culturais da América do Sul: os Andes, Setentrionais e Centrais, as Terras Baixas Tropicais e a Planície Platina, em que se incluem a região do Grande Chaco, as Pampas e os Andes Meridionais. A par do estudo das estruturas sociais, serão abordadas as concepções que fundamentam as diversas expressões estéticas da arte ameríndia que, independentemente da maior ou menor complexidade do tipo de sociedade que as originou, evidencia uma relação íntima com o respectivo contexto ecológico. Acompanhando permanentemente a exposição e enquadramento teóricos, será apresentada uma selecção de imagens ilustrativas da ampla diversidade das expressões estéticas que caracterizaram as culturas sul americanas ao longo dos 25.000 anos da sua história previamente ao seu contato com as sociedades europeias.

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La Declaración de las Naciones Unidas sobre los derechos de los pueblos indígenas (en inglés: United Nations Declaration on the Rights of Indigenous Peoples ) precisa los derechos colectivos e individuales de los pueblos indígenas, especialmente el derechos a sus tierras, bienes, recursos vitales, territorios y recursos, a su cultura, identidad y lengua, al empleo, la salud, la educación y a determinar libremente su condición política y su desarrollo económico. Enfatiza en el derecho de los pueblos indígenas a mantener y fortalecer sus propias instituciones, culturas y tradiciones, y a perseguir libremente su desarrollo de acuerdo con sus propias necesidades y aspiraciones; prohíbe la discriminación contra los indígenas y promueve su plena y efectiva participación en todos los asuntos que les conciernen y su derecho a mantener su diversidad y a propender por su propia visión económica y social.

In Tupiniquim, Povos indígenas, pueblos indígenas, indigenous peoples.

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POVOS INDÍGENAS NO MÉXICO

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OS MUISCAS

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Cerâmica muisca representando uma figura humana. Colômbia, 900-1600 d.C. Archivo Scala, Firenze 2009.

Os muisca ocuparam parte dos actuais departamentos de Cundinamarca e Boyacá na zona andina central, estando o seu maior núcleo nos planaltos de Bogotá. Ao que parece o seu lugar de origem foi a América Central dispersando-se, posteriormente, ocupando uma vasta extensão da Colômbia ao Equador, incluindo a região andina venezuelana; devendo terem-se apegado às zonas altas em consequência das migrações de grupos caribes provenientes da Amazónia.

Entre 500 a.C. e o ano de 800 d.C. chegou uma nova onda de povoadores cuja presença é indicada por cerâmica pintada e por obras de adequação agrícola e habitações. Estes grupos permaneceram até à época da invasão espanhola, deixando abundantes indícios da sua ocupação mediante os quais, e com a ajuda dos testemunhos escritos do século XVI podemos reconstituir de forma detalhada o seu modo de vida e organização socio-política. Ao que aprece, os muiscas integraram-se na população anterior, porém foram os muiscas que definiram o perfil cultural e a língua estreitamente relacionada com a dos povos da Sierra Nevada de Santa Marta e a vertente da Sierra Nevada de Cocuy.

A confederação muisca era a unidade político-administrativa conformada à data do contacto com os espanhóis em 1537. Esta organização pressupunha o predomínio das psihipkua – chefes ou caciques – dentro de cada comunidade. A origem e parte da explicação de unidades políticas que transcendiam a comunidade devem ser encontrada nos laços de parentesco, como os que existiam entre os caciques de Bacatá e Chía, Tunja e Ramiriquí ou Duitama e Tobasia. Ainda que a necessidade de unir-se para executar obras, comerciar ou aliar-se temporariamente durante as guerras, tenha desempenhado também um papel na articulação confederativa; entre os muiscas a tendência preponderante chegou a ser a subjugação das comunidades mais débeis pelas mais fortes, por meios militares.

O cacique dominante dentro de uma confederação respeitava o governo autónomo dos caciques subordinados e mantinha a territorialidade das respectivas comunidades; porém convertia-se no máximo chefe militar e era o detentor final e principal beneficiário de um sistema de tributos comunitários que foi documentado. Operava uma sobreposição de estruturas de caciques e comunidades dominantes, sub-dominantes e dominados, à que correspondiam caciques de hierarquias diferenciadas. Estes cargos eram herdados por linha materna.

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Mapa de Carlos Punta – Damian Sondereguer. Ediciones Corregidor. Argentina 2005.

As confederações irmanadas, situadas na área central da Cordilheira Oriental dos Andes colombianos, compreendiam um território de aproximadamente 46.972 km2 – área um pouco maior do que a Suíça – desde o norte de Chicamocha até Páramo de Sumapaz; e desde os altos até às abas da Cordilheira em Cundinamarca oriental, limitando com os povos panches e pijaos. Este território tinha uma população aproximada de um milhão de habitantes, ainda que os cálculos variem.

Como as confederações conservavam a soberania, será inexacto falar de um “reino Muisca”, muito menos de um “império”. Não foi um reino porque não existia um monarca absoluto e, também, não foi um império porque os muiscas não submeteram povos de outras etnias ao seu regime político. A importância política da Confederação Muisca é que foi a maior e a mais organizada confederação, a nível tribal, do continente. Cada comunidade era regida pelo seu chefe ou cacique, mantendo a sua autonomia e sentindo-se, paralelamente, parte da sua confederação.

Esta estrutura, alem de ser entre tribos irmãs da mesma cultura e idioma, garantia o comércio e a defesa comum, diante inimigos externos. Por esta razão o exército defendia directamente o chefe máximo – o zipa ou zaque – conformado pelos güechas, os tradicionais guerreiros muiscas.

Ao tempo da ocupação europeia, havia duas confederações principais, a de Hunza – hoje Tunja – cujo soberano era o zaque e a de Bacatá, cujo soberano era o zipa. Ambas confederações tinham relações políticas estreitas dada a afinidade étnica e cultural; porém mantinham a rivalidade. Além de Bacatá e Hunza, os cronistas referem a existência independente das confederações de Duitama – ou Tundama – e Sogamoso, cujo chefe era o iraca.

A legislação muisca era baseada consuetudinariamente, ou seja, na força da tradição. Um determinado comportamento mais ou menos aceite pelo senso comum e aprovado pela máxima autoridade – o zipa ou o zaque – sendo tido por todos como a força da lei. Em tal sentido, dita maneira de legislar corresponde naturalmente ao modo organizativo de uma confederação e desta maneira a normatividade muisca tinha um admirável nível administrativo. Os recursos naturais não podiam ser privatizados. Bosques, lagoas, planícies desertas, rios e recursos naturais em geral pertenciam ao bem de todos.

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Fragmento de têxtil muisca. Fonte: Internet.

No que diz respeito à economia, a confederação explorava os seguintes produtos: Esmeraldas, que ainda hoje em dia a Colômbia é o primeiro produtor mundial; as minas de cobre; o carvão, tanto vegetal como mineral; o sal das minas de Nemocón, Zipaquirá e Tausa; e o ouro, que era importado e chegou a ser tão abundante que foi o material principal para a ourivesaria muisca.

A cultura muisca era uma sociedade agrícola que tinha um complexo sistema de regadios. Outra actividade fundamental da economia era a cerâmica, conservando-se peças únicas de arte pré-colombiana muiscas de figuras com extraordinária fineza.

De maneira muito especial, há que mencionar a produção têxtil deste povo. A este respeito Paul Bahn disse que as culturas andinas dominaram todas as técnicas de tecido e decoração, sendo que já em 3.000 a.C. tinham desenvolvido os têxteis de algodão e produziam tecidos de extraordinária delicadeza superiores, em muitos casos, aos contemporâneos. A arqueóloga Sylvia Broadbent – que estudou tecidos pintados de algodão – conclui que as técnicas muiscas eram complexas para produzir telas de peça única, com inumeráveis entre-tecidos e uma grande capacidade para resistir ao tempo.

O mercado era o sítio obrigatório da economia das comunidades, onde praticavam a compra e venda, alem das trocas. Aí se cambiavam produtos de primeira necessidade como o milho, o sal, mel, frutas, grãos e mantas: inclusivamente artigos de luxo como plumas de pássaro, cobre, algodão, coca e búzios marinhos importados do território dos taironas. Bacatá, Chocontá Pacho e Hunza tinham os maiores mercados de todo o território. A moeda geral eram umas pequenas peças redondas de ouro, ainda que esmeraldas, sal, coca e mantas de algodão também foram usadas como equivalentes monetários ou para facilitar a troca.

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Gravura do século XIX representando um casal muisca adornado com joalharias antigas. Fonte: Internet.

O idioma muisca pertence à família linguística das línguas chibchas, que se estendeu por várias regiões da América Central e o Norte da América do Sul. Os tairona e os u’wa, que pertencem à mesma família, falam um idioma relacionado, o que permitiu que estes três povos estabelecessem fortes laços de intercâmbio económico e cultural.

No que diz respeito à religião, começaríamos por referir que os sacerdotes eram formados desde a infância, sendo os responsáveis por dirigir as principais cerimónias religiosas. Ninguém mais, além dos sacerdotes podia entrar no interior do templo. A religião muisca contemplava os sacrifícios humanos, porém é provável que à chegada dos espanhóis estes tivessem desaparecido tempos antes, sendo os relatos de sacrifícios histórias transmitidas pela tradição oral. Assim, não existe, portanto, nenhum testemunho em primeira mão que os mencione durante a presença dos espanhóis. Em todo o caso, as fontes coincidem em que cada família devia oferecer um filho aos sacerdotes, o qual era criado por estes como pessoa sagrada e aos 15 anos era sacrificado a Xue, o que constituía uma honra para a família da vítima. Conjuntamente às actividades religiosas, os sacerdotes participavam da vida da comunidade com recomendações acerca da agricultura ou mediando casos de conflito entre os líderes políticos.

Alinhamento calendárico muisca. Fonte: Internet.

Alinhamento calendário muisca. Fonte: Internet.

Se bem que não fosse um calendário muito preciso, os muiscas conheciam o solstício de verão a 21 de Junho. Essa era a data indicada para render culto a Xue – o deus do Sol. O templo desta divindade estava em Sogamoso, a cidade sagrada do sol e sede do iraca – ou sacerdote. Uma procissão da corte do zipa dirigia-se ao Templo do Sol e o dia era motivo de grande festa entre o povo, que pintavam o corpo e se embriagavam com chicha. Faziam-se oferendas a Xue para pedir a bênção sobre as colheitas anuais. Também era este o único dia no qual o povo podia ver o zipa.

Outra divindade do panteão muisca era Chía – A Lua . O seu templo estava no que hoje se conhece como o município de Chía e era venerada particularmente pelos súbditos do zipa, que se consideravam seus descendentes. Bochica era uma personagem misteriosa, não sendo propriamente um deus, porém era digno de grande veneração. Como sucede com os seres mitológicos de outros povos, deve ter-se tratado de um antigo chefe ou herói imortalizado e mistificado nos relatos que protagoniza.

Bachué, a mãe dos muiscas, segundo um relato, teria saído com um filho nos braços da lagoa de Iguaque. Desta lenda existem várias versões, como a que depois de submergir em Iguaque, Bachué ascendeu ao céu para converter-se em Chía; enquanto em outras crenças Chía é uma deusa diferente de Bachué.

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Reconstituição de habitação muisca. Fonte: Internet.

Os muiscas construíram as suas casas utilizando como material principal a cana e o barro para fazer as cercas chamadas bahareque. As casas comuns eram de duas formas: umas cónicas e outras rectangulares. As primeiras consistiam numa parede em círculo feito de paus enterrados como pilares mais fortes sobre os quais se sustinha de lado a lado um duplo entre-tecido de canas cujo interstício era tapado com barro. O tecto era cónico e coberto de palhas seguras sobre varas. As construções rectangulares consistiam em paredes paralelas também de bahareque, como as anteriores, com tectos nas duas alas, de forma rectangular.

Todas as construções cónicas como as rectangulares tinham portas e janelas pequenas. No interior o mobiliário era pequeno e consistia principalmente em camas, também feitas de canas, sobre as quais se estendia uma grande profusão de mantas. Os assentos eram escassos pois os indígenas descansavam de cócoras no solo. Além das casas comuns, existiam outras duas classes de construções: uma para os senhores principais, provavelmente o chefe da tribo ou do clã e outras para os chefes das confederações chibchas, como os zaque e os zipas.

 

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Os arawaks ocupavam nas Antilhas Maiores uma zona de bosque tropical montanhoso, as selvas baixas chuvosas e os matagais do Sul de La Española – na sua língua, Haiti ou Quisquella – a ilha de Puerto Rico – ou Boriquén – e amplas zonas de Cuba, que conservou o seu nome nativo apesar de Colombo lhe chamar Juana. Mostravam uma uniformidade linguística e de organização social. Haviam conseguido igualmente um grande aperfeiçoamento das práticas agrícolas, da cerâmica, o trabalho em ouro e a construção de embarcações.

Cacique e mulher arawak. Fonte: Internet.

Cacique e mulher arawak. Fonte: Internet.

A sua vida desenrolava-se em torno de povoados, alguns deles muito grandes, onde a dignidade do cacique e a chefia étnica e religiosa haviam criado estratificações sociais muito complexas. Estes grupos arawaks haviam abandonado as roças pouco depois de terem chegado às ilhas, aplicando-se no uso especializado dos espaços produtivos que eram divididos em três zonas diferentes: os montículos, as hortas e os territórios de pesca, caça e recolecção. Os montículos – ou conucos – eram espaços específicos destinados ao cultivo intensivo. Situados perto dos povoamentos, neles produziam-se os alimentos básicos da comunidade, fundamentalmente os tubérculos. Para instalar um conuco elegia-se uma zona arborizada à qual se incendiava para que as cinzas servissem de abono. Assim, formavam-se montículos de terra e restos vegetais para melhorar a sua drenagem; sobre estes semeavam-se plantas, como a yuca – ou mandioca – o bolbo ou a batata. Quando a capacidade de produção do conuco diminuía, os tubérculos eram substituídos por outros produtos, deixando-se finalmente em pousio por algum tempo. Além de yucas e batatas, nos bordes do conuco semeava-se também o milho e, associado a ele, os feijões, maní ou cacahuetes, anyamas – ou abóboras – e ervilhas. A recolecção dos tubérculos era intermitente, quando eram necessários, e a sua produção continua; porém para outros produtos existiam colheitas convencionais.

Mandioca ou yuca. Fonte: Internet.

Mandioca ou yuca. Fonte: Internet.

A mandioca ou yuca era sem dúvida o produto mais importante, sendo o seu sedimento nesta zona superior ao milho. Dela se obtinha uma espécie de pão, constituindo a base da dieta chamada cassava ou cazabe. Primeiro raiava-se a mandioca num raspador construído em madeira com lajes encaixadas; a pasta resultante era embutida num cilindro de palmeira chamado sebucán para extrair-lhe o sumo, que é altamente venenoso. Uma vez seca, a massa era aplanada e cozida sobre o buren ou budare – um prato de cerâmica largo que se punha ao fogo até obter uma tortilha delgada chamada cassava. Com uma parte do milho produzia-se chicha. O cultivo em montículos e conucos trouxe como consequência uma maior produtividade e um crescimento demográfico que se notou especialmente nas Antilhas Maiores; onde em algumas zonas a densidade da população chegou a ser bastante elevada. Outro espaço especializado de produção eram as hortas. Situadas em redor das vivendas e dentro dos povoados, nelas se cultivavam árvores de frutos, anoneiras, papaias, malaguetas ou pinheiros. Também produziam tabaco, que se consumia nas festas e algodão, que usavam para tecidos.

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Identificação das zonas de estabelecimento das etnias arawak e caribe. Fonte: Internet.

Além do mais existia a caça e a pesca: eram pescadores destros e inventaram novos artefactos, como redes e cestos de verga; também usavam o barbasco, um estupefaciente para peixes que deitavam à água nos rios, esteiros e lagoas. Consumiam particularmente a tartaruga verde – hicotea ou monocoy – e uma grande variedade de crustáceos como lagostas e caranguejos. O Manatim – ou peixe-boi – e outros grandes mamíferos aquáticos, entre outras variedades de grandes peixes, eram caçados com arpões desde as embarcações, acantonando-os entre os recifes e a costa. A caça constituía outra actividade importante para a obtenção de proteínas: ainda que não usassem o arco e a flecha, eram peritos com os dardos e as lanças. Eram também hábeis construtores de armadilhas para aves. O porco do monte – ou báquira – constituía uma das peças mais apreciadas, assim como os porquinhos-da-índia – ou cobayas – e as iguanas. Igualmente, completavam a sua dieta a recolecção de moluscos como búzios e ostras, das quais se formaram gigantescos concheiros. Também realizavam a recolecção de plantas silvestres, normalmente com fins medicinais, ou para tingir os tecidos de algodão: o urucueiro – que é um arbusto americano – para fazer o vermelho, o mamão que é um rebento do qual faziam o preto e o índigo para fazer o azul. Os corações de palmeira constituíam também parte da sua dieta, assim como as uvas do mar e os cocos, se bem que estas árvores de origem continental não estivessem tão completamente estendidas por todas as Antilhas, como o estiveram depois.

Ceramica arawak. Fonte: Internet.

Cerâmica arawak. Fonte: Internet.

Outra actividade era a produção artesanal: a cerâmica chegou a ser um dos signos da sua identidade, em diversas cores e com representações incisas ou pintadas. Possuíam uma ampla utilização doméstica, com tigelas de barro cozido, cabaças, bandejas de madeira de jagüey para recolher água, havas – ou cestas feitas de folhas de palmeira, macanas – ou clavas de madeira – para combater e redes para descanso feitas de piteira. As pranchas para caçabe – ou torta de farinha da raiz da mandioca – constituíram talvez o elemento mais característico. Além do mais, possuíam diverso mobiliário doméstico realizado em madeira negra e brilhante – ou duhos – e umas plataformas de madeira e couro para dormir ou descansar chamadas barbacoas. Os tecidos eram de algodão. Esticando a fibra sobre as pernas das tecedoras até obterem um fio delgado, com as quais realizavam peças de roupas finas e delicadas – as naguas – ou saias das mulheres casadas. As canoas constituíam outra das suas habilidades: construídas com cedros escavados, primeiro com laje e queimando o seu interior de seguida, eram formidáveis embarcações para a navegação pelo Caribe, percorrendo com elas grandes distâncias. Algumas podiam ser de grande tamanho, tendo capacidade para transportar mais do que cinquenta pessoas.

O que mais chamou a atenção dos primeiros europeus sobre os arawaks foram as suas peças de ouro: eram hábeis ourives, ainda que não existam sólidas evidências de que conhecessem a fundição ou outras técnicas mais complexas de metalurgia; obtinham o ouro nos rios e moíam as pepitas com pedras de cantos arredondados até obterem lâminas finas, que às vezes serviam para realizar peitorais, braceletes, argolas para se pendurarem no nariz, orelheiras, ou elmos com os quais cobriam as suas cabeças. Também realizavam finos colares com pedras de cores formosas, que assinalavam o estatuto que possuíam. Para alem disso, os objectos de ouro, pedras e outras manufacturas, como os tecidos, serviam para um extenso inter-cambio de produtos especializados; não apenas entre os diversos grupos territoriais, mas entre as ilhas e inclusivamente com o continente.

O chefe Caonabo massacra os homens de Colombo em La Natividad, 1493. Ilustração de Adam Hook. Osprey Publishing, 2001.

O chefe Caonabo massacra os homens de Colombo em La Natividad, 1493. Ilustração de Adam Hook. Osprey Publishing, 2001.

Quanto à sua organização política e social, a partir do ano 1.000 d.C. começaram a aparecer aldeias maiores tanto no Haiti como em Cuba e Puerto Rico. Isso demonstra que o modelo tribal de chefias variáveis em relação com as habilidades e capacidade física da liderança do caudilho mudou para chefias étnicas com poderes sobre grupos extensos; âmbitos territoriais marcados precisamente e claros sintomas de teocracia, gerando cada vez mais uma complexa hierarquização social dos dirigentes, sacerdotes, guerreiros, trabalhadores e servos. Cada povoação tinha o seu próprio cacique. No Haiti existiam uns trinta, à chegada dos espanhóis, dos quais cinco eram os principais: Caizcimu – que incluía Macoríx, Higüey, Yaguatas e Haitises a sudeste da ilha. Ao nordeste Huhabo que incluía os Ciguayos. Na zona centro-oriental, Cayabo e Cibao. Depois, na região centro-ocidental Baiona, o maior de todos incluindo áreas de Xaraguá, Yaguana, Guahaba, Haitiei, Guanabo e Yaquimo. A sudoeste da ilha Gucayarima, que compreendia também alguns indígenas tribais pré-agrícolas.

Em Cuba os territórios caciques encontravam-se também consolidados: de Este a Oeste, Maya, Baracoa, Macaca, Cuciba, Bayamas, Marriabón, Camagüey, Savaneque, Xagua e Habana. No Oeste cubano, por Pinar del Rio, existiam grupos pré-agrícolas conhecidos como siboneyes. Na Jamaica também existiam estes territórios caciques; inclusivamente no arquipélago das Lucayas – nas Bahamas – ao Norte de Cuba, eram numerosos os grupos arawaks assentes.

Praça central de povoação arawak. Fonte: Internet.

Praça central de povoação arawak. Fonte: Internet.

Em todos eles a estrutura social estava fortemente estratificada. Presidiam os caciques hereditários, transmitidos normalmente por linha materna, tendo um papel protagonista as mulheres da elite. Muitos destes chefes foram mulheres, algumas delas viúvas do defunto cacique. O cacique apoiava-se por um amplo grupo de descendentes, relacionando-se amplamente através da poligamia com outras famílias da elite: era o chefe religioso e também um líder guerreiro. Muitas das actividades da caça e pesca eram dirigidas pessoalmente pelo cacique, assim como as campanhas contra os caribes invasores. Debaixo da sua autoridade figurava um grupo de nobres chamados taínos, uma espécie de aristocracia guerreira. Finalmente os sacerdotes, que recebiam diversos nomes – como moján ou mohanes. À parte das famílias produtoras, que constituíam a maior parte da população, existiam também uns servos chamados naborías que realizavam trabalhos para os caciques.

A terra era entendida e trabalhada como um recurso comunal, com uma clara divisão do trabalho: nos conucos os homens trabalhavam a roça e fabricavam os montículos, caçavam, pescavam e defendiam o território. As mulheres capinavam o conuco – uma tarefa continua – colhiam e cuidavam das hortas, encarregando-se normalmente da manufactura dos têxteis. Todas estas áreas eram organizadas e definidas pelas elites, sendo enquadradas em rituais calendarizados, dirigidos pelos sacerdotes.

Reconstituição de povoado arawak. Fonte: Internet.

Reconstituição de povoado arawak. Fonte: Internet.

Os núcleos da população eram numerosos e dispersos. Alguns alcançaram números superiores às 2.000 pessoas e a densidade demográfica ao redor das zonas agrícolas foi muito alta. Cálculos aproximados sobre a população do Haiti para 1492 situam em volta de um milhão de habitantes, um pouco menos para Cuba e menos ainda para Puerto Rico – em função do tamanho desta última e porque as incursões dos caribes a tornavam menos estável.

As casas construíam-se em redor de uma praça, na clareira de um bosque e nunca perto das costas. As suas paredes eram de madeira, cana e barro – ou bahareque – sendo os tectos fabricados com folhas de palmeira entrelaçadas e atadas com raízes – ou bejucos – com uma chaminé – ou coronilla – para a saída do fumo. Eram circulares, por vezes constituindo a parede e o tecto a mesma peça em forma de sino, excepto a dos caciques que podiam ser rectangulares, com tecto de duas vertentes, sendo profusamente decoradas. Os bohíos ou casas circulares da elite, situavam-se em redor desta vivenda principal. Alguns bohíos podiam ser muito grandes, chamados caneyes, para grupos familiares extensos, sem paredes, com pilares de madeira e tecto de palmeira.

Na praça central realizavam-se as funções públicas, religiosas, rituais e festivas. Existia uma cerimónia, uma espécie de jogo de bola vinculado com os mesoamericanos, chamado batey, donde ficou o nome adstrito a toda a praça e, posteriormente, ao conjunto das habitações nos engenhos açucareiros antilhanos. Outra cerimónia eram os areitos, cantos e danças colectivas relacionados com as colheitas e os ritos da fertilidade, onde se memorizavam as tradições do grupo. Os enterros dos caciques constituíam também grandes solenidades, acompanhando o corpo, nas suas tumbas, muitos acessórios domésticos e rituais.

Representações em escultura de Zemís. Fonte: Internet.

Representações em escultura de Zemís. Fonte: Internet.

A vida religiosa era complexa e era dirigida pelos sacerdotes, a meio caminho entre os curandeiros, a adivinhação e a feitiçaria. Os seus deuses, chamados Zemís, eram seres sobrenaturais situados noutra esfera, com os quais o cacique e os sacerdotes comunicavam mediante a ingestão de alucinogénos. Durante o transe viajavam até à terra dos deuses, numa migração mágica que pode estar relacionado com a tradição destes povos, que tanto erraram durante séculos. Aí, tratavam com os Zemís dos assuntos e problemas da comunidade. Regressavam com conselhos ou instruções que eram seguidos por todos como mandamentos divinos, pensando-se que as decisões dos caciques procediam destes poderes sobrenaturais, sendo expressões das forças sagradas. A cohoba era um poderoso narcótico que os sacerdotes queimavam e inalavam, tendo o fumo poderes curativos. Cada Zemí possuía a sua própria personalidade e contava com uma tradição individualizada. Representavam-se com símbolos zoomorfos ou antropomorfos, considerados sagrados. Assim, figuravam por vezes pintados nos corpos dos guerreiros, ou gravados sobre peças de ouro, talhados nas canoas e em muitos outros objectos considerados rituais. Não possuíam grandes templos mas adoratórios, incluídos na povoação onde depositavam as figuras dos Zemís.

Como já dissemos, uma das características comuns dos arawaks foi a sua língua. A maior parte dos vocábulos das Antilhas Maiores eram arawaks, uma espécie de língua geral, tendo passado muitos deles para o castelhano.

Guerreiro caribe. Fonte: Internet.

Guerreiro caribe. Fonte: Internet.

A dos caribes foi a última grande migração procedente das costas orientais e centrais da Venezuela que chegou às Antilhas. Até aí tinham ido deslocando as populações arawaks e, em 1492 estavam a assaltar, assolando com intensidade, as costas de Puerto Rico e inclusivamente as do Haiti.

O seu habitat era constituído nas Antilhas Menores, grandes áreas da costa oriental da Venezuela e a ilha de Trinidad. Eram mais propensos à guerra que os arawaks e, ainda que existissem semelhanças no que se refere à cultura material, a sua belicosidade e agressividade transformou-os em terríveis vizinhos na região. Chegaram em grandes invasões às ilhas e foram-se sedentarizando muito rapidamente. Ao contrário dos arawaks, usavam o arco e flecha, muitas delas com aplicação de venenos, o que os tornava muito superiores em combate; particularmente frente aos siboneyes, a quem varreram completamente das ilhas mais pequenas, onde ainda permaneciam alguns grupos.

As suas embarcações eram também maiores, o que lhes permitia chegar mais longe e rapidamente. Por isso, tanto no mar como em terra, eram imbatíveis para os arawaks, que apenas se podiam defender opondo uma grande massa de combatentes. Podiam assim acabar por expulsar os invasores, porem à custa de muitas baixas em mortos e prisioneiros.

Os caribes não se estruturaram em torno de caciques hereditários, mantendo uma organização social e política de carácter mais tribal, porque os seus grupos não eram tão numerosos. A chefia baseava-se no valor demonstrado em combate: os triunfos bélicos davam prestígio e, mediante a divisão do saque obtido – alimentos e prisioneiros – conseguiam controlar ou subscrever um maior número de guerreiros ao seu grupo, com o qual as empresas a cometer podiam ser mais ambiciosas.

Fonte: Internet.

Fonte: Internet.

Os seus assentamentos eram pequenos e compreendiam menos de cem pessoas; uma aldeia podia compor-se por uma família extensa de um guerreiro de importância que residia com várias esposas, porque os chefes praticavam a poligamia e recebiam as mulheres capturadas na guerra. Praticavam a agricultura dos conucos, porém, nas suas contínuas expedições tendiam mais para a caça, a pesca e a recolecção. Eram as mulheres que se dedicavam ao cultivo e, dada a escassa experiência dos caribes nesta matéria, usavam para este fim as mulheres arawaks prisioneiras; por isso era raro matarem-nas nas suas incursões. Alem do mais, dado o escasso tamanho dos seus grupos originários, era um modo de evitar a monogamia. Os jovens guerreiros ficavam com elas ou entregavam-nas aos seus pais e avós para que os servissem. Os filhos destas mulheres convertiam-se em membros legítimos da comunidade, que se ampliava mais rapidamente do que por evolução natural do grupo primogénito. Este crescimento, sobretudo o número de varões, ajudava a um chefe de aldeia a ampliar o seu prestígio e a sua base política em relação com outros grupos caribes.

Reconstituição de habitação caribe. Fonte: Internet.

Reconstituição de habitação caribe. Fonte: Internet.

As suas vivendas eram conformadas por uma grande casa comunitária colocada  no centro de uma clareira ampla junto dos rios. Nela, o chefe, seus filhos políticos e seus filhos varões, passavam o tempo entre os períodos de caça, pesca ou entre as incursões que realizavam ocasionalmente. Aí, eram atendidos por suas esposas e filhos, que viviam num conjunto de pequenas casas e cozinhas construídas ao redor da grande choupana central: uma para cada esposa e para as cativas. Assim, os europeus logo escreveram sobre a existência de “casas de varões” e casas ou “ilhas de mulheres” entre os caribes. Como a maior parte das mulheres eram arawaks prisioneiras ou descendentes delas, os europeus comentaram também que os caribes tinham uma língua própria dos homens e outra das mulheres.

Do mesmo modo, um assunto que os europeus não deixaram de referir foi o dos seus rituais em torno da antropofagia. A meio caminho entre a realidade e a lenda, alguns autores anotam que se tratou de uma característica própria das suas necessidades alimentícias, derivadas da falta de proteína animal que, nas Antilhas Menores, dado o tamanho das ilhas e antes da introdução do gado europeu era impossível ou muito difícil de conseguir. Outros apontam a uma ritualidade guerreira, mediante a qual se conseguia a apropriação das virtudes do inimigo. Seja como for, o certo é que o seu suposto canibalismo foi completamente tirado de contexto pelos espanhóis, que se apoiaram nele para amplificar o conceito de “selvagem”, aplicado à belicosidade própria dos caribes e conseguir assim a legalização da sua escravatura, quando não o seu completo extermínio.

 

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