Feeds:
Artigos
Comentários

Posts Tagged ‘Etnias’

Com receio que a sua esposa já idosa venha a falecer, um velho pede que o seu sobrinho realize o Jamurikumalu, o maior ritual feminino do Alto Xingu (Mato Grosso), para que ela possa voltar a cantar uma última vez. As mulheres do grupo começam os ensaios enquanto a única cantora que de facto sabe todas as músicas se encontra gravemente doente.

Data de lançamento: 2011 
Realização: Takumã Kuikuro, Carlos Fausto, Leonardo Sette
Música composta por Kuikuro Culture
Edição: Leonardo Sette
Roteiro: Takumã Kuikuro, Carlos Fausto, Leonardo Sette
Produção: Carlos Fausto, Vincent Carelli
Anúncios

Read Full Post »

Integrado em Utopias – Arquipélago Verde, o Teatro Municipal Maria Matos, em Lisboa, regressa ao tema da ecologia com um intenso programa de debates, seminários e projecção de filmes, aproximando-nos da experiência dos povos indígenas da América do Sul. Com a contribuição de Eduardo Viveiros de Castro, José Bengoa, Ailton Krenak, Luisa Elvira Belaunde e outros antropólogos, líderes indígenas, linguistas e historiadores oriundos do Brasil, Chile, Equador, Peru, Portugal e Venezuela.

Da edição dos textos no formato de um pequeno caderno, fazemos a transcrição, parcial, de Em busca de uma Terra sem tantos males! da autoria de Ailton Krenak: «Nossa Terra, como a conhecemos hoje, já foi destruída várias vezes, em algumas destas, sem a nossa ajuda. É o que dizem dezenas ou até centenas de narrativas, histórias sagradas de nossos ancestrais. Olhando bem de perto, notamos que alguma pequena ajuda sempre foi dada por alguns de nossos antepassados. Contrariando uma lei ou norma de conduta que dava segurança ao frágil equilíbrio de nossa instável relação com todos os seres da criação que fazem a teia da Vida neste planeta que chamamos Terra. (…) O Povo Krenak que teve o seu território devastado pela fúria dos colonos e desbravadores das florestas deste vale que foi nomeado de Rio Doce, e citado como o Vale do Aço, numa franca declaração de desprezo pela presença deste caudaloso rio, cheio de vida e abundância que poderia suprir toda a necessidade de alimento para seus ribeirinhos. Mas o aço – ou vil metal – encontrado nas suas entranhas brilhou mais do que suas águas cristalinas aos olhos dos seus novos habitantes. (…) Lembrando a citação que abre este texto, em que uma das narrativas de um povo indígena assolado pela ganância dos fazendeiros de soja e da cana no Mato Grosso do Sul lembra a todos nós, que esta terra que vivemos é mesmo imperfeita e por isso segue também o seu curso, em busca de sua Terra Sem Males ou Yvi Marãey. Viva todos os rios da Terra, todos os viventes!»

Ailton Krenak é Professor Honoris causa, Universidade Federal de Juiz de Fora e Grãn Cruz da Ordem de Mérito Cultural do Brasil 2015. Publicou O Lugar onde a Terra descansa (2000) na editora ECO-Rio e Encontros – Ailton Krenak (2015) na editora Azougue.

Dia 26 de Maio, 2017, em Questões Indígenas, Debate e Pensamento, pelas 18.30h, Aparecida Vilaça apresentará A humanidade e a animalidade no universo indígena amazónico. Enquanto dia 27, pelas 17.00h, Felipe Milanez, José Bengoa e Raul Llasag Fernandez promovem uma conferência sobre o tema: Resistência Política Ameríndia.  A entrada é livre, sujeita à lotação da sala principal, mediante levantamento do bilhete no próprio dia, a partir das 15.00h.

Read Full Post »

O sudoeste dos Estados Unidos da América – Irradiação das culturas Mogollón, Anasazi e Hohokam.

Oásis América – Mapa Tempo Ameríndio.

Alguns arqueólogos sustêm que mogollón começa em 1.000 a.C., sobre a base cultural da Tradição do Deserto, originada pelos cochise que em 2.000 a.C. já cultivavam um tipo de milho primitivo. O certo é que a transição de uma sociedade arcaica para uma sociedade de agricultores sedentários, com cerâmica introduzida desde o sul, se completou ao redor de 300 d.C. A sua principal fonte alimentícia proveio da domesticação e cultivo de espécies como a yuca – ou mandioca, uma espécie de tubérculo – cactos, milho, girassol, ervas e nozes.

Observam-se quatro fases distintas, na evolução da cultura mogollón que a distingue da sua similar, a anasazi. Num primeiro momento, os seus assentamentos caracterizam-se por um grande número de casas-poço de dimensões pequenas. A partir de 1.000 d.C., começaram a construi-las sobre o nível do solo e, por influência anasazi, apareceram os complexos cerimoniais e, em alguns casos, residências de varões, conhecidas como “kivas“, estas últimas sobreviventes das casas-poço.

As várias culturas do Sudoeste. Mapa Tempo Ameríndio.

Criaram todo o tipo de ornamentos: braceletes de concha, pendentes de madeira, adornos tubulares de osso e ferramentas, como metates – ou pedras para moer grãos e sementes – almofarizes, armadilhas, arcos e flechas. Também fabricaram têxteis, cestos, elementos de madeira e cerâmica como espátulas, tabuinhas, flautas e colares de sementes. No vale do rio Mimbres, desenvolveu-se uma sub-tradição com a manufactura de excelente cerâmica. Nos povoados de Casas Grandes e Chihuahua, deram-se amplos assentamentos ao que se supõe terem chegado mercadores do planalto mexicano. Por volta de 1.100 d.C. começa a sua decadência, talvez pelas mesmas causas que se fizeram sentir em todo o sudoeste, entrando em colapso definitivamente em 1350 d.C.

Vasilha com insectos, cerâmica pintada. Cultura mogollon, Novo México. Arte pré-colombiana. Scala Group. Milão, 2009.

Os anasazi – A partir de 185 a.C., sobre a base cultural dos cesteros – povos da Tradição do Deserto, sem agricultura nem cerâmica – evoluíram os anasazi. O seu epicentro foi a região conhecida como “Os Quatro Cantos”, formada pelo Arizona, Utah, Colorado e o Novo México. No seu desenvolvimento estabeleceram-se oito fases ou períodos, dos quais os três primeiros pertencem à evolução dos cesteros – até 750 d.C. – e os seguintes às culturas conhecidas como pueblo.

As primeiras habitações que levantaram foram do tipo casa-poço, superficiais e de simples estrutura. A seguir construíram-nas fazendo a base mais profunda e com uma abertura no tecto que fazia as vezes da chaminé e entrada, simultaneamente. Dentro das habitações cavaram um buraco central, o sipapu, que simbolizava o lugar por onde a humanidade havia emergido desde o interior do mundo. Com o decorrer do tempo, esta modalidade deu origem às kivas cerimoniais. Posteriormente, deu-se a sua expansão e, durante essa época, já construíram os edifícios com pedras, sobre o nível do solo. Por volta de 700 d.C., em Mesa Verde e Cliff Palace, construíram habitações dentro de reentrâncias rochosas naturais, no rebordo de precipícios.

Uma kiva (câmara ritual) construida pelos anasazi no pueblo de Mesa Verde,  Colorado. Duncan Baird Publishers, 1996.

A sua expansão, que alcançou uma dimensão máxima em 1.100 d.C. mostra que os anasazi possuíam um grande conhecimento sobre os períodos solares de solstícios e equinócios, urbanização de grandes povoações feitas em alvenaria de pedra com vários pisos; canais para rega e manufactura de vasos cerâmicos. Um dos mais importantes urbanismos desde período é Pueblo Bonito que contou um número próximo às 800 habitações e 25 kivas, as construções circulares para o culto. Esta estrutura apresenta um urbanismo racional de desenho intimista, projectado com as suas habitações de tipo original. Crê-se que foi habitado como cidade e centro de culto para umas 1.200 pessoas. Como já referimos, as habitações redondas são kivas, lugares religiosos para reuniões e cultos iniciáticos por parte dos homens. Também se supõe que a kiva principal terá sido observatório astronómico. Pueblo Bonito e Chetro Ketl são dois dos lugares mais relevantes dos 125 assentamentos distribuídos ao longo da bacia do rio Saint John, no Canyon Chaco e que formaram parte de um verdadeiro sistema económico, entre 950 a 1200 d.C. Estas localidades foram providas de residências, armazéns, recintos cerimoniais, edifícios públicos e estavam ligados por mais de 400 km de uma rede de caminhos. Ainda não foi devidamente esclarecido se Canyon Chaco foi um centro de culto e comércio, com cidades independentes anexadas ao sistema, ou se as mesmas foram colónias estabelecidas, para dar saída ao aumento demográfico que sofreram.

Planta e perspectiva de Pueblo Bonito. Cultura anasazi, cerca de 1100 d.C. Edições Corregidor, 2005.

Por volta de 1200 d.C. produziu-se uma alteração climática; por toda a região registou-se uma quebra nas escassas precipitações. Este fenómeno que criou uma ruptura no ecossistema frágil já por si, somando-se a incursão de tribos de origem dene: os navajos e apaches, são as causas possíveis que levaram ao abandono dos povoados na bacia do rio Saint John. Não se conhece de certeza o destino dos anasazi, porém, anos mais tarde, nas regiões dos rios Little Colorado e Rio Grande, deu-se uma nova etapa de construção de grandes povoações, por vezes combinadas com saliências rochosas, como na meseta de Pajaritos, no Novo México, que perduraram até à chegada dos espanhóis.

Ilustração de uma estrutura arquitectónica hohokam. Fonte: Internet.

Entretanto, nas terras desérticas dos vales do rio Gila, no Arizona, dentro de uma área restrita e próxima às outras duas tradições que já falamos, evoluiu a cultura hohokam, sobre a base da arcaica cultura cochise. Não se tem a certeza sobre o seu inicio e, ainda que alguns arqueólogos sustentem uma maior antiguidade; estima-se que os seus começos tenham coincidido com o principio da era cristã. Glawdin e Harry, em 1937, subdividem a sua duração em quatro períodos, dos quais aquele de maior desenvolvimento é o último, conhecido como Clássico. Os estudos actuais indicam que esta cultura foi regional, desenvolvendo-se no seu lugar com base a vinculações comerciais e rituais com as culturas mexicanas. Implementaram uma agricultura do deserto que lhes proporcionou duas colheitas anuais, para a qual construíram canais de rega que transportava a água desde as montanhas. Possivelmente, devido às relações frequentes que tiveram com as culturas meridionais, praticaram a astronomia, fabricaram cerâmica e braceletes de concha; trabalharam a pedra, as turquesas e o cobre.

A partir de 600 d.C. construíram praças com plataformas de 1 m de altura por 30 m de largura que, apesar de serem baixas, mostram influência mexicana. As suas habitações foram do tipo casa-poço, com recintos rectangulares, construídas com adobes sobre escavações no solo, alcançando em Casas Grandes os quatro pisos de altura.

A diminuição das colheitas e as frequentes incursões das tribos apaches, provocaram um colapso por volta de 1450 d.C. Os povoadores abandonaram os seus antigos locais e agruparam-se em pequenas povoações dispersas.

Fotografia do pueblo de Taos, Novo México. Editora Dargaud, 1969.

Apesar desta entrada ter um enfoque sobre as culturas Pré-Colombianas, ou seja, aquelas que se desenvolveram antes ou até ao contacto com os europeus, vale a pena aqui falarmos um pouco sobre as tribos históricas, desta área de estudo. Assim, quando os primeiros europeus pisaram estes territórios, por volta de 1540 da nossa era, encontraram cerca de 20.000 habitantes, disseminados por 70 povoações. A estes aborígenes denominaram, de forma genérica, como índios pueblo, devido às características das suas povoações. A sua fonte alimentícia principal era um tipo de milho adaptado à semi aridez do território, que complementavam com a caça. Mantinham uma organização social de clãs matriciais e ao povo como unidade política superior. Em chefia, um «governador» para as funções administrativas; um “chefe de guerra” encarregado dos trabalhos públicos e conflitos bélicos e, além destes, um séquito de sacerdotes cuja missão era a de propiciar as chuvas.

Dos grupos pueblo actuais, os tano e keres descendem dos anasazi. Os hopis de um ramo shoshoni; os zuñis supõe-se derivados da tradição mogollón, presumindo-se que quem actualmente habita a região de Sonora – onde se encontram as tribos pima, papago e tarahumara– são os herdeiros da tradição hohokam.

 

Read Full Post »

cursoamerica

Destinatários: Estudantes, professores e outros profissionais que pretendam ampliar o leque de conhecimentos e da sua cultura visual sobre as sociedades que se desenvolveram na América do Sul no período pré-colombiano.

Candidaturas: de 22 de fevereiro a 22 de março de 2016

Duração: 9 de abril a 25 de junho de 2016. O curso será realizado aos sábados, entre as 10h00 e as 13h00, num total de 36 horas distribuídas ao longo de 12 aulas.

Local: Museu Nacional de Etnologia (Lisboa)

Preço: € 240,00

Avaliação: Tratando-se de um curso livre, que não proporciona qualquer crédito escolar, a sua frequência será atestada através de certificado de participação emitido pelo coordenador/formador. Informações | Inscrições: e-mail.

Objectivos e Metodologia: Tendo como objetivo geral conhecer a história e culturas visuais das sociedades indígenas da América do Sul no período précolombiano, após contextualização prévia sobre as grandes áreas culturais da América do Norte e Central, o Curso incidirá principalmente sobre as seguintes áreas culturais da América do Sul: os Andes, Setentrionais e Centrais, as Terras Baixas Tropicais e a Planície Platina, em que se incluem a região do Grande Chaco, as Pampas e os Andes Meridionais. A par do estudo das estruturas sociais, serão abordadas as concepções que fundamentam as diversas expressões estéticas da arte ameríndia que, independentemente da maior ou menor complexidade do tipo de sociedade que as originou, evidencia uma relação íntima com o respectivo contexto ecológico. Acompanhando permanentemente a exposição e enquadramento teóricos, será apresentada uma selecção de imagens ilustrativas da ampla diversidade das expressões estéticas que caracterizaram as culturas sul americanas ao longo dos 25.000 anos da sua história previamente ao seu contato com as sociedades europeias.

Read Full Post »

photo3B

La Declaración de las Naciones Unidas sobre los derechos de los pueblos indígenas (en inglés: United Nations Declaration on the Rights of Indigenous Peoples ) precisa los derechos colectivos e individuales de los pueblos indígenas, especialmente el derechos a sus tierras, bienes, recursos vitales, territorios y recursos, a su cultura, identidad y lengua, al empleo, la salud, la educación y a determinar libremente su condición política y su desarrollo económico. Enfatiza en el derecho de los pueblos indígenas a mantener y fortalecer sus propias instituciones, culturas y tradiciones, y a perseguir libremente su desarrollo de acuerdo con sus propias necesidades y aspiraciones; prohíbe la discriminación contra los indígenas y promueve su plena y efectiva participación en todos los asuntos que les conciernen y su derecho a mantener su diversidad y a propender por su propia visión económica y social.

In Tupiniquim, Povos indígenas, pueblos indígenas, indigenous peoples.

Read Full Post »

POVOS INDÍGENAS NO MÉXICO

Mexico

Clicar sobre a imagem para ver o mapa ampliado.

Read Full Post »

OS MUISCAS

muiscas 2

Cerâmica muisca representando uma figura humana. Colômbia, 900-1600 d.C. Archivo Scala, Firenze 2009.

Os muisca ocuparam parte dos actuais departamentos de Cundinamarca e Boyacá na zona andina central, estando o seu maior núcleo nos planaltos de Bogotá. Ao que parece o seu lugar de origem foi a América Central dispersando-se, posteriormente, ocupando uma vasta extensão da Colômbia ao Equador, incluindo a região andina venezuelana; devendo terem-se apegado às zonas altas em consequência das migrações de grupos caribes provenientes da Amazónia.

Entre 500 a.C. e o ano de 800 d.C. chegou uma nova onda de povoadores cuja presença é indicada por cerâmica pintada e por obras de adequação agrícola e habitações. Estes grupos permaneceram até à época da invasão espanhola, deixando abundantes indícios da sua ocupação mediante os quais, e com a ajuda dos testemunhos escritos do século XVI podemos reconstituir de forma detalhada o seu modo de vida e organização socio-política. Ao que aprece, os muiscas integraram-se na população anterior, porém foram os muiscas que definiram o perfil cultural e a língua estreitamente relacionada com a dos povos da Sierra Nevada de Santa Marta e a vertente da Sierra Nevada de Cocuy.

A confederação muisca era a unidade político-administrativa conformada à data do contacto com os espanhóis em 1537. Esta organização pressupunha o predomínio das psihipkua – chefes ou caciques – dentro de cada comunidade. A origem e parte da explicação de unidades políticas que transcendiam a comunidade devem ser encontrada nos laços de parentesco, como os que existiam entre os caciques de Bacatá e Chía, Tunja e Ramiriquí ou Duitama e Tobasia. Ainda que a necessidade de unir-se para executar obras, comerciar ou aliar-se temporariamente durante as guerras, tenha desempenhado também um papel na articulação confederativa; entre os muiscas a tendência preponderante chegou a ser a subjugação das comunidades mais débeis pelas mais fortes, por meios militares.

O cacique dominante dentro de uma confederação respeitava o governo autónomo dos caciques subordinados e mantinha a territorialidade das respectivas comunidades; porém convertia-se no máximo chefe militar e era o detentor final e principal beneficiário de um sistema de tributos comunitários que foi documentado. Operava uma sobreposição de estruturas de caciques e comunidades dominantes, sub-dominantes e dominados, à que correspondiam caciques de hierarquias diferenciadas. Estes cargos eram herdados por linha materna.

muiscas 1

Mapa de Carlos Punta – Damian Sondereguer. Ediciones Corregidor. Argentina 2005.

As confederações irmanadas, situadas na área central da Cordilheira Oriental dos Andes colombianos, compreendiam um território de aproximadamente 46.972 km2 – área um pouco maior do que a Suíça – desde o norte de Chicamocha até Páramo de Sumapaz; e desde os altos até às abas da Cordilheira em Cundinamarca oriental, limitando com os povos panches e pijaos. Este território tinha uma população aproximada de um milhão de habitantes, ainda que os cálculos variem.

Como as confederações conservavam a soberania, será inexacto falar de um “reino Muisca”, muito menos de um “império”. Não foi um reino porque não existia um monarca absoluto e, também, não foi um império porque os muiscas não submeteram povos de outras etnias ao seu regime político. A importância política da Confederação Muisca é que foi a maior e a mais organizada confederação, a nível tribal, do continente. Cada comunidade era regida pelo seu chefe ou cacique, mantendo a sua autonomia e sentindo-se, paralelamente, parte da sua confederação.

Esta estrutura, alem de ser entre tribos irmãs da mesma cultura e idioma, garantia o comércio e a defesa comum, diante inimigos externos. Por esta razão o exército defendia directamente o chefe máximo – o zipa ou zaque – conformado pelos güechas, os tradicionais guerreiros muiscas.

Ao tempo da ocupação europeia, havia duas confederações principais, a de Hunza – hoje Tunja – cujo soberano era o zaque e a de Bacatá, cujo soberano era o zipa. Ambas confederações tinham relações políticas estreitas dada a afinidade étnica e cultural; porém mantinham a rivalidade. Além de Bacatá e Hunza, os cronistas referem a existência independente das confederações de Duitama – ou Tundama – e Sogamoso, cujo chefe era o iraca.

A legislação muisca era baseada consuetudinariamente, ou seja, na força da tradição. Um determinado comportamento mais ou menos aceite pelo senso comum e aprovado pela máxima autoridade – o zipa ou o zaque – sendo tido por todos como a força da lei. Em tal sentido, dita maneira de legislar corresponde naturalmente ao modo organizativo de uma confederação e desta maneira a normatividade muisca tinha um admirável nível administrativo. Os recursos naturais não podiam ser privatizados. Bosques, lagoas, planícies desertas, rios e recursos naturais em geral pertenciam ao bem de todos.

muiscas 5

Fragmento de têxtil muisca. Fonte: Internet.

No que diz respeito à economia, a confederação explorava os seguintes produtos: Esmeraldas, que ainda hoje em dia a Colômbia é o primeiro produtor mundial; as minas de cobre; o carvão, tanto vegetal como mineral; o sal das minas de Nemocón, Zipaquirá e Tausa; e o ouro, que era importado e chegou a ser tão abundante que foi o material principal para a ourivesaria muisca.

A cultura muisca era uma sociedade agrícola que tinha um complexo sistema de regadios. Outra actividade fundamental da economia era a cerâmica, conservando-se peças únicas de arte pré-colombiana muiscas de figuras com extraordinária fineza.

De maneira muito especial, há que mencionar a produção têxtil deste povo. A este respeito Paul Bahn disse que as culturas andinas dominaram todas as técnicas de tecido e decoração, sendo que já em 3.000 a.C. tinham desenvolvido os têxteis de algodão e produziam tecidos de extraordinária delicadeza superiores, em muitos casos, aos contemporâneos. A arqueóloga Sylvia Broadbent – que estudou tecidos pintados de algodão – conclui que as técnicas muiscas eram complexas para produzir telas de peça única, com inumeráveis entre-tecidos e uma grande capacidade para resistir ao tempo.

O mercado era o sítio obrigatório da economia das comunidades, onde praticavam a compra e venda, alem das trocas. Aí se cambiavam produtos de primeira necessidade como o milho, o sal, mel, frutas, grãos e mantas: inclusivamente artigos de luxo como plumas de pássaro, cobre, algodão, coca e búzios marinhos importados do território dos taironas. Bacatá, Chocontá Pacho e Hunza tinham os maiores mercados de todo o território. A moeda geral eram umas pequenas peças redondas de ouro, ainda que esmeraldas, sal, coca e mantas de algodão também foram usadas como equivalentes monetários ou para facilitar a troca.

muiscas 4

Gravura do século XIX representando um casal muisca adornado com joalharias antigas. Fonte: Internet.

O idioma muisca pertence à família linguística das línguas chibchas, que se estendeu por várias regiões da América Central e o Norte da América do Sul. Os tairona e os u’wa, que pertencem à mesma família, falam um idioma relacionado, o que permitiu que estes três povos estabelecessem fortes laços de intercâmbio económico e cultural.

No que diz respeito à religião, começaríamos por referir que os sacerdotes eram formados desde a infância, sendo os responsáveis por dirigir as principais cerimónias religiosas. Ninguém mais, além dos sacerdotes podia entrar no interior do templo. A religião muisca contemplava os sacrifícios humanos, porém é provável que à chegada dos espanhóis estes tivessem desaparecido tempos antes, sendo os relatos de sacrifícios histórias transmitidas pela tradição oral. Assim, não existe, portanto, nenhum testemunho em primeira mão que os mencione durante a presença dos espanhóis. Em todo o caso, as fontes coincidem em que cada família devia oferecer um filho aos sacerdotes, o qual era criado por estes como pessoa sagrada e aos 15 anos era sacrificado a Xue, o que constituía uma honra para a família da vítima. Conjuntamente às actividades religiosas, os sacerdotes participavam da vida da comunidade com recomendações acerca da agricultura ou mediando casos de conflito entre os líderes políticos.

Alinhamento calendárico muisca. Fonte: Internet.

Alinhamento calendário muisca. Fonte: Internet.

Se bem que não fosse um calendário muito preciso, os muiscas conheciam o solstício de verão a 21 de Junho. Essa era a data indicada para render culto a Xue – o deus do Sol. O templo desta divindade estava em Sogamoso, a cidade sagrada do sol e sede do iraca – ou sacerdote. Uma procissão da corte do zipa dirigia-se ao Templo do Sol e o dia era motivo de grande festa entre o povo, que pintavam o corpo e se embriagavam com chicha. Faziam-se oferendas a Xue para pedir a bênção sobre as colheitas anuais. Também era este o único dia no qual o povo podia ver o zipa.

Outra divindade do panteão muisca era Chía – A Lua . O seu templo estava no que hoje se conhece como o município de Chía e era venerada particularmente pelos súbditos do zipa, que se consideravam seus descendentes. Bochica era uma personagem misteriosa, não sendo propriamente um deus, porém era digno de grande veneração. Como sucede com os seres mitológicos de outros povos, deve ter-se tratado de um antigo chefe ou herói imortalizado e mistificado nos relatos que protagoniza.

Bachué, a mãe dos muiscas, segundo um relato, teria saído com um filho nos braços da lagoa de Iguaque. Desta lenda existem várias versões, como a que depois de submergir em Iguaque, Bachué ascendeu ao céu para converter-se em Chía; enquanto em outras crenças Chía é uma deusa diferente de Bachué.

muiscas 3

Reconstituição de habitação muisca. Fonte: Internet.

Os muiscas construíram as suas casas utilizando como material principal a cana e o barro para fazer as cercas chamadas bahareque. As casas comuns eram de duas formas: umas cónicas e outras rectangulares. As primeiras consistiam numa parede em círculo feito de paus enterrados como pilares mais fortes sobre os quais se sustinha de lado a lado um duplo entre-tecido de canas cujo interstício era tapado com barro. O tecto era cónico e coberto de palhas seguras sobre varas. As construções rectangulares consistiam em paredes paralelas também de bahareque, como as anteriores, com tectos nas duas alas, de forma rectangular.

Todas as construções cónicas como as rectangulares tinham portas e janelas pequenas. No interior o mobiliário era pequeno e consistia principalmente em camas, também feitas de canas, sobre as quais se estendia uma grande profusão de mantas. Os assentos eram escassos pois os indígenas descansavam de cócoras no solo. Além das casas comuns, existiam outras duas classes de construções: uma para os senhores principais, provavelmente o chefe da tribo ou do clã e outras para os chefes das confederações chibchas, como os zaque e os zipas.

 

Read Full Post »

Older Posts »