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O sudoeste dos Estados Unidos da América – Irradiação das culturas Mogollón, Anasazi e Hohokam.

Oásis América – Mapa Tempo Ameríndio.

Alguns arqueólogos sustêm que mogollón começa em 1.000 a.C., sobre a base cultural da Tradição do Deserto, originada pelos cochise que em 2.000 a.C. já cultivavam um tipo de milho primitivo. O certo é que a transição de uma sociedade arcaica para uma sociedade de agricultores sedentários, com cerâmica introduzida desde o sul, se completou ao redor de 300 d.C. A sua principal fonte alimentícia proveio da domesticação e cultivo de espécies como a yuca – ou mandioca, uma espécie de tubérculo – cactos, milho, girassol, ervas e nozes.

Observam-se quatro fases distintas, na evolução da cultura mogollón que a distingue da sua similar, a anasazi. Num primeiro momento, os seus assentamentos caracterizam-se por um grande número de casas-poço de dimensões pequenas. A partir de 1.000 d.C., começaram a construi-las sobre o nível do solo e, por influência anasazi, apareceram os complexos cerimoniais e, em alguns casos, residências de varões, conhecidas como “kivas“, estas últimas sobreviventes das casas-poço.

As várias culturas do Sudoeste. Mapa Tempo Ameríndio.

Criaram todo o tipo de ornamentos: braceletes de concha, pendentes de madeira, adornos tubulares de osso e ferramentas, como metates – ou pedras para moer grãos e sementes – almofarizes, armadilhas, arcos e flechas. Também fabricaram têxteis, cestos, elementos de madeira e cerâmica como espátulas, tabuinhas, flautas e colares de sementes. No vale do rio Mimbres, desenvolveu-se uma sub-tradição com a manufactura de excelente cerâmica. Nos povoados de Casas Grandes e Chihuahua, deram-se amplos assentamentos ao que se supõe terem chegado mercadores do planalto mexicano. Por volta de 1.100 d.C. começa a sua decadência, talvez pelas mesmas causas que se fizeram sentir em todo o sudoeste, entrando em colapso definitivamente em 1350 d.C.

Vasilha com insectos, cerâmica pintada. Cultura mogollon, Novo México. Arte pré-colombiana. Scala Group. Milão, 2009.

Os anasazi – A partir de 185 a.C., sobre a base cultural dos cesteros – povos da Tradição do Deserto, sem agricultura nem cerâmica – evoluíram os anasazi. O seu epicentro foi a região conhecida como “Os Quatro Cantos”, formada pelo Arizona, Utah, Colorado e o Novo México. No seu desenvolvimento estabeleceram-se oito fases ou períodos, dos quais os três primeiros pertencem à evolução dos cesteros – até 750 d.C. – e os seguintes às culturas conhecidas como pueblo.

As primeiras habitações que levantaram foram do tipo casa-poço, superficiais e de simples estrutura. A seguir construíram-nas fazendo a base mais profunda e com uma abertura no tecto que fazia as vezes da chaminé e entrada, simultaneamente. Dentro das habitações cavaram um buraco central, o sipapu, que simbolizava o lugar por onde a humanidade havia emergido desde o interior do mundo. Com o decorrer do tempo, esta modalidade deu origem às kivas cerimoniais. Posteriormente, deu-se a sua expansão e, durante essa época, já construíram os edifícios com pedras, sobre o nível do solo. Por volta de 700 d.C., em Mesa Verde e Cliff Palace, construíram habitações dentro de reentrâncias rochosas naturais, no rebordo de precipícios.

Uma kiva (câmara ritual) construida pelos anasazi no pueblo de Mesa Verde,  Colorado. Duncan Baird Publishers, 1996.

A sua expansão, que alcançou uma dimensão máxima em 1.100 d.C. mostra que os anasazi possuíam um grande conhecimento sobre os períodos solares de solstícios e equinócios, urbanização de grandes povoações feitas em alvenaria de pedra com vários pisos; canais para rega e manufactura de vasos cerâmicos. Um dos mais importantes urbanismos desde período é Pueblo Bonito que contou um número próximo às 800 habitações e 25 kivas, as construções circulares para o culto. Esta estrutura apresenta um urbanismo racional de desenho intimista, projectado com as suas habitações de tipo original. Crê-se que foi habitado como cidade e centro de culto para umas 1.200 pessoas. Como já referimos, as habitações redondas são kivas, lugares religiosos para reuniões e cultos iniciáticos por parte dos homens. Também se supõe que a kiva principal terá sido observatório astronómico. Pueblo Bonito e Chetro Ketl são dois dos lugares mais relevantes dos 125 assentamentos distribuídos ao longo da bacia do rio Saint John, no Canyon Chaco e que formaram parte de um verdadeiro sistema económico, entre 950 a 1200 d.C. Estas localidades foram providas de residências, armazéns, recintos cerimoniais, edifícios públicos e estavam ligados por mais de 400 km de uma rede de caminhos. Ainda não foi devidamente esclarecido se Canyon Chaco foi um centro de culto e comércio, com cidades independentes anexadas ao sistema, ou se as mesmas foram colónias estabelecidas, para dar saída ao aumento demográfico que sofreram.

Planta e perspectiva de Pueblo Bonito. Cultura anasazi, cerca de 1100 d.C. Edições Corregidor, 2005.

Por volta de 1200 d.C. produziu-se uma alteração climática; por toda a região registou-se uma quebra nas escassas precipitações. Este fenómeno que criou uma ruptura no ecossistema frágil já por si, somando-se a incursão de tribos de origem dene: os navajos e apaches, são as causas possíveis que levaram ao abandono dos povoados na bacia do rio Saint John. Não se conhece de certeza o destino dos anasazi, porém, anos mais tarde, nas regiões dos rios Little Colorado e Rio Grande, deu-se uma nova etapa de construção de grandes povoações, por vezes combinadas com saliências rochosas, como na meseta de Pajaritos, no Novo México, que perduraram até à chegada dos espanhóis.

Ilustração de uma estrutura arquitectónica hohokam. Fonte: Internet.

Entretanto, nas terras desérticas dos vales do rio Gila, no Arizona, dentro de uma área restrita e próxima às outras duas tradições que já falamos, evoluiu a cultura hohokam, sobre a base da arcaica cultura cochise. Não se tem a certeza sobre o seu inicio e, ainda que alguns arqueólogos sustentem uma maior antiguidade; estima-se que os seus começos tenham coincidido com o principio da era cristã. Glawdin e Harry, em 1937, subdividem a sua duração em quatro períodos, dos quais aquele de maior desenvolvimento é o último, conhecido como Clássico. Os estudos actuais indicam que esta cultura foi regional, desenvolvendo-se no seu lugar com base a vinculações comerciais e rituais com as culturas mexicanas. Implementaram uma agricultura do deserto que lhes proporcionou duas colheitas anuais, para a qual construíram canais de rega que transportava a água desde as montanhas. Possivelmente, devido às relações frequentes que tiveram com as culturas meridionais, praticaram a astronomia, fabricaram cerâmica e braceletes de concha; trabalharam a pedra, as turquesas e o cobre.

A partir de 600 d.C. construíram praças com plataformas de 1 m de altura por 30 m de largura que, apesar de serem baixas, mostram influência mexicana. As suas habitações foram do tipo casa-poço, com recintos rectangulares, construídas com adobes sobre escavações no solo, alcançando em Casas Grandes os quatro pisos de altura.

A diminuição das colheitas e as frequentes incursões das tribos apaches, provocaram um colapso por volta de 1450 d.C. Os povoadores abandonaram os seus antigos locais e agruparam-se em pequenas povoações dispersas.

Fotografia do pueblo de Taos, Novo México. Editora Dargaud, 1969.

Apesar desta entrada ter um enfoque sobre as culturas Pré-Colombianas, ou seja, aquelas que se desenvolveram antes ou até ao contacto com os europeus, vale a pena aqui falarmos um pouco sobre as tribos históricas, desta área de estudo. Assim, quando os primeiros europeus pisaram estes territórios, por volta de 1540 da nossa era, encontraram cerca de 20.000 habitantes, disseminados por 70 povoações. A estes aborígenes denominaram, de forma genérica, como índios pueblo, devido às características das suas povoações. A sua fonte alimentícia principal era um tipo de milho adaptado à semi aridez do território, que complementavam com a caça. Mantinham uma organização social de clãs matriciais e ao povo como unidade política superior. Em chefia, um «governador» para as funções administrativas; um “chefe de guerra” encarregado dos trabalhos públicos e conflitos bélicos e, além destes, um séquito de sacerdotes cuja missão era a de propiciar as chuvas.

Dos grupos pueblo actuais, os tano e keres descendem dos anasazi. Os hopis de um ramo shoshoni; os zuñis supõe-se derivados da tradição mogollón, presumindo-se que quem actualmente habita a região de Sonora – onde se encontram as tribos pima, papago e tarahumara– são os herdeiros da tradição hohokam.

 

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conferencia-waujafinal

Duas grandes colecções etnográficas provenientes dos índios wauja da Amazónia foram incorporadas em museus nacionais europeus em Lisboa e Paris em 2000 e 2005, respectivamente no Museu Nacional de Etnologia e no Musée du quai Branly. Ambas as colecções possuem objetos raros, inexistentes noutras coleções públicas, e cujo estudo se expandiu apenas muito recentemente. Essa conferência reflecte sobre as diferenças entre esses dois projetos de aquisição, as trajetórias curatoriais das artes indígenas da Amazónia e os desafios atuais para a sua aquisição e conhecimento.

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Aristóteles Barcelos Neto é professor e coordenador de pós-graduação na Sainsbury Research Unit for the Arts of Africa, Oceania and the Americas (University of East Anglia, Reino Unido), membro do Grupo de Antropologia Visual e do Centro de Estudos Mesoamericanos e Andinos, ambos da Universidade de São Paulo. Realizou pós-doutoramento no Laboratoire d’Anthropologie Sociale (Collège de France, Paris) e no Departamento de Antropologia da USP. Recebeu o Prémio CNPq-ANPOCS de Melhor Tese de Doutorado em Ciências Sociais.

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Museu Nacional de Etnologia
Avenida Ilha da Madeira, 1400-203 Lisboa
Tel. 21 304 11 60/9 | Fax 21 010 92 06

geral@mnetnologia.dgpc.pt

3ª das 14:00 às 18:00
4ª a Dom. das 10:00 às 18:00

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Destinatários: Estudantes, professores e outros profissionais que pretendam ampliar o leque de conhecimentos e da sua cultura visual sobre as sociedades que se desenvolveram na América do Sul no período pré-colombiano.

Candidaturas: de 22 de fevereiro a 22 de março de 2016

Duração: 9 de abril a 25 de junho de 2016. O curso será realizado aos sábados, entre as 10h00 e as 13h00, num total de 36 horas distribuídas ao longo de 12 aulas.

Local: Museu Nacional de Etnologia (Lisboa)

Preço: € 240,00

Avaliação: Tratando-se de um curso livre, que não proporciona qualquer crédito escolar, a sua frequência será atestada através de certificado de participação emitido pelo coordenador/formador. Informações | Inscrições: e-mail.

Objectivos e Metodologia: Tendo como objetivo geral conhecer a história e culturas visuais das sociedades indígenas da América do Sul no período précolombiano, após contextualização prévia sobre as grandes áreas culturais da América do Norte e Central, o Curso incidirá principalmente sobre as seguintes áreas culturais da América do Sul: os Andes, Setentrionais e Centrais, as Terras Baixas Tropicais e a Planície Platina, em que se incluem a região do Grande Chaco, as Pampas e os Andes Meridionais. A par do estudo das estruturas sociais, serão abordadas as concepções que fundamentam as diversas expressões estéticas da arte ameríndia que, independentemente da maior ou menor complexidade do tipo de sociedade que as originou, evidencia uma relação íntima com o respectivo contexto ecológico. Acompanhando permanentemente a exposição e enquadramento teóricos, será apresentada uma selecção de imagens ilustrativas da ampla diversidade das expressões estéticas que caracterizaram as culturas sul americanas ao longo dos 25.000 anos da sua história previamente ao seu contato com as sociedades europeias.

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Ocidente 1

Estados correspondentes à zona cultural do Ocidente do México. Mapa de José Conesa, Office du Livre, 1982.

As culturas que se desenvolveram no Ocidente do México, correspondem a três zonas coincidentes, incluindo os actuais estados de Colima, Jalisco e Nayarit; numa vasta região delimitada pela linha de costa do Oceano Pacífico. Muitos arqueólogos são de opinião que uma parte muito importante da cultura Arcaica, teve a sua origem junto a estes três sítios costeiros, sendo para o interior próximos a Michoacán e Guanajuato, conhecidos como o Ocidente mexicano. Os primeiros achados localizaram-se em El Opeño, estado de Michoacán, onde se descobriram tumbas subterrâneas, em cujo interior jaziam esqueletos dispostos em várias posições, colocados sobre uns bancos talhados na rocha.

Ocidente 2

Representação de um jogo de bola e seus espectadores. Desenho de Paul Gendrop. Editorial Trillas, 2004

Estes povos, afastados das cidades clássicas, não tinham grandes centros cerimoniais em pedra, nem tão pouco erigiram uma paisagem urbana sagrada. O seu nível de arquitectura nunca passou além da construção de casas habitacionais, sendo que a mais importante teria como função a protecção dos espíritos do lugar. Os tectos altos, cobertos de colmo, ainda podem ser vistos hoje em dia, em algumas remotas aldeias da região. Praticaram o jogo de bola tão característico das culturas mesoamericanas, construindo campos para esse propósito. O pouco que se conhece da sua história, foi obtido da grande quantidade de restos materiais encontrados nos lugares funerários, conhecidos como “Túmulos em Poço”; onde abundam as vasilhas, figuras humanas, de animais e ferramentas de cobre. Apesar do artesanato das populações do Ocidente do México não serem exclusivamente de cerâmica, porque incluía também a cestaria, os têxteis, a lapidaria, etc; foi sem dúvida a arte da cerâmica que mais desenvolveram, tanto tecnicamente como plasticamente. De facto, enquanto outras zonas mesoamericanas geravam as grandes culturas do Período Clássico, com o crescimento e florescimento de importantes centros cerimoniais – desenvolvendo uma arte caracterizada pela religião sumptuária, através de símbolos altamente esotéricos, numa sociedade teocrática – a região do Ocidente do México produziu, na mesma altura, uma forma de arte aparentemente mais profana, representando múltiplas facetas da vida comum. As cerâmicas mostram cenas da vida quotidiana e fazem as vezes de fontes históricas; o que permitiu identificar os três tipos de povoadores: os de Jalisco, Nayarit e Colima.

Ocidente 3

Cerâmica de estilo Nayarit. Discovering Art, 1965.

O primeiro, de Jalisco, apresenta a etapa mais antiga. Esta teve ampla difusão por toda a região, até serem submetidos e convertidos em vassalos de outras tribos. Andavam nus, condição da sua servidão, pintavam-se e tatuavam-se, deformavam a boca e usavam argolas, como brincos das orelhas, sendo que as mulheres usavam toucados.

O segundo, Nayarit, que aparentemente conviveu em paz com o primeiro, habitou ao Sul. Os seus homens foram representados com tangas largas, camisas curtas, cintas frontais ou gorros com pontas e mantos ornamentados; as mulheres usavam saias compridas. Este grupo produziu têxteis de excelente qualidade.

O terceiro, Colima, estava bastante desenvolvido e mostra uma complexa indumentaria onde se observam marcadas diferenças de postos e de distintas classes sociais. As imagens que deixaram mostram, entre outras coisas, danças e a prática ritual do jogo de bola.

Ocidente 5

Planta de um Túmulo em Poço. Revista Arqueologia Mexicana.

Não se encontraram representações dos seus deuses nem das suas crenças mítico-religiosas. As suas tumbas foram escavadas num solo rochoso, tinham forma rectangular prolongadas e largas ao fundo, com cavidades verticais e cilíndricas de, aproximadamente, metro e meio, em cujo final se cavou um nicho ovalado. A câmara mortuária tinha a sua entrada fechada por uma lápide tapada com terra. O enxoval funerário, nos enterros dos seus altos dignitários, compreendia além das oferendas materiais – pertences de uso quotidiano – a companhia das suas esposas, criados e cães mascotes que o acompanhavam na sua viajem para o além. Alguns dos objectos de cerâmica incluem representações de guerreiros, dos quais podemos fazer uma ideia das actividades belicosas destes povos. Muitas destas figuras também foram encontradas nos Túmulos em Poço, sugerindo que a guerra era uma actividade local comum. Os guerreiros tumulares teriam como função proteger as almas dos mortos das forças dos espíritos malignos. Associado à guerra estava a decapitação e as cabeças troféu de prisioneiros, como podemos observar na decoração dos vasos de Colima.

Ocidente 4

Cerâmica de estilo Colima. Scala Group, 2009.

Em linhas gerais, a cultura que se desenvolveu nesta região, apresenta a característica de haver passado do Período Formativo ao Pós-Clássico, aparentemente de forma directa, ou seja, sem apresentar as componentes culturais que caracterizaram o Período Clássico teocrático. A sua evolução parece ser produto da chegada de tribos estrangeiras. Por volta de 1200 d.C., com o advento dos povos nahuas, ou seja de língua nahuatle, forjou-se uma cultura com elementos arcaicos e desenvolvidos simultaneamente, historicamente conhecida como cultura tarasca ou purepecha. Na actualidade, vivem na região os coroas e huicholes, que falam a língua nahua.

Neste território mesoamericano, trabalhou-se virado de costas para o monumentalismo que caracterizou as altas culturas do Período Clássico. É uma estética antípoda da solenidade teocrática e da sua síntese volumétrica. Pelo contrário, aqui magnificaram o Intimismo e a introversão como auto afirmação do próprio, ignorando o exterior. Tal critério fez com que permanecessem encerrados numa rotina aldeã que não passou, durante o milénio Clássico, do nível de uma cultura Pré-Clássica Tardia. Foram escultores natos, de agudas observações psicológicas; motivadas pelo enamoramento do real – similar ao critério moche, no Peru ou maia – no entanto sem expressões trágicas nem solenes. Projectando antes um pensamento plástico de uma cosmo visão do aqui e o agora.

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Introdução ao universo mitológico e metafísico das principais culturas ameríndias

Mitologias

Os Indígenas Norte Americanos

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Os mitos dos indígenas Norte Americanos provêm de uma área que não só é vasta como variada em termos de clima e topografia, e na qual existem pelo menos 236 grupos étnicos reconhecidos, falando pelo menos 134 diferentes linguagens e dialectos. Usualmente cada grupo étnico tinha, ou tem, a sua própria mitologia e religião, estreitamente relacionada com a topografia e reflectindo a fauna e flora local. Apesar de haver por vezes similaridades estreitas entre grupos diferentes, a regra geral é a diversidade, e não a uniformidade.

As Florestas do Este

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A primeira parte do Norte da América a ser explorada e colonizada pelos europeus, era, mais ou menos, uma floresta contínua que se estendia da linha de árvores do Labrador e Baía de Hudson até ao Golfo do México, ficando sensivelmente na longitude do Mississipi a Oeste. A organização política comum desta região era a tribo, variando a população desde umas poucas centenas a um ou dois milhares de habitantes. Membros de uma tribo falam uma linguagem comum e estão unidos por um governo também comum. Em algumas partes do Este, certas tribos estavam tenuemente ligadas em “confederações”, como os Iroqueses no Norte e os Creek no Sul.

Todas as tribos das Florestas do Este acreditavam numa entidade suprema, por vezes referida em Inglês como o Grande Espírito. Este criou o mundo e é autor da vida. Invisível e imaterial, é invocado com reverência, mas não é uma personalidade definitiva de quem os mitos falem. Geralmente fora do mundo do senso comum, ele seria provavelmente melhor nomeado como o Grande Mistério.

A maioria das tribos nas Florestas do Este acreditava num multi-anel celeste, variando de 4 a 12 camadas. Na mais elevada destas, encontrava-se o Grande Espírito. Próximo do homem está o sol, os 4 ventos e a mãe terra. Estes 6 elementos são conjuntamente referidos durante a cerimónia do cachimbo sagrado. O número total destas entidades maiores, mais o ponto de partida do peticionando, faz sete. Quatro e sete são os números rituais mais importantes dos habitantes do Norte da América, e são constantemente recorrentes nos mitos nativos americanos.

As tribos das Florestas do Este referem-se conjuntamente ao mundo como “A ilha” e concebem-no espalmado, assente nas costas de uma tartaruga gigante. O céu é visto como o tecto do mundo do homem, mas como a base do anel celeste mais baixo. Este estrato, mesmo acima da terra, é a casa dos Pássaro Trovão. Estes são concebidos como pássaros gigantes com rostos humanos. O bater das suas asas é o som do trovão, e o flash dos seus olhos aguerridos é o relâmpago luminoso. Entidades poderosas também vivem dentro da terra e debaixo das águas dos lagos e dos rios. Algumas destas criaturas são espelhos “subaquáticos” de criaturas que vivem na superfície da terra, como o lobo subaquático e o urso subaquático. Tal como o céu tem múltiplos anéis, assim também é a região subaquática e subterrânea. Na região mais baixa está a casa dos chefes das criaturas do mundo subaquático e subterrâneo, os poderosos deuses conhecidos como as Panteras subaquáticas ou as Serpentes gigantes com cornos.

Os Pássaros Trovão estão constantemente em guerra com as Panteras subaquáticas e as Serpentes gigantes com cornos. Grandes tempestades, tremores de terra, inundações e outros fenómenos naturais violentos, são considerados como o resultado das batalhas entre estas duas forças cósmicas, opostas mas complementares.

As grandes planícies

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Estendendo-se até Oeste, desde o limite das Florestas do Este, até ás Montanhas Rochosas, e das pradarias canadianas até à costa do Texas, situa-se a região das Grandes Planícies da América do Norte. Antes da ocupação dos ocidentais, esta vasta área coberta de erva suportava inúmeros Bisontes, assim como outros animais. Ao longo dos seus rios era possível cultivar o milho, o feijão e a horticultura foi importada para a região tão cedo como 500 anos depois de Cristo. A introdução do cavalo, pelos europeus, no século XVIII, causou uma revolução na vida dos Índios da Planície, facilitando a caça, por grupos altamente móveis.

Muitas das entidades e mitos das tribos das planícies, estão proximamente ligadas aquelas dos Índios das Florestas do Este, e foram de facto importadas dessa região. Para o Índio das Planícies o seu mundo, apesar de colossal, era inteiramente inteligível. É plano, como a sua tenda era rasa, com uma base circular, sobre a qual se erguia a tenda dos céus. A porta virada para Este, a direcção do sol nascente. Assim, os acampamentos de Tipis eram circulares e representavam os círculos ou “arcos do mundo”, sendo um conceito recorrente nos mitos e cerimónias.

A cerimónia religiosa mais característica dos Índios da Planície era a Dança do Sol, dedicada aos Pássaros Trovão. A ideia era simples – pelas suas roupas, a sua dança, as flautas com som de pássaros, jejuando, não bebendo água e outros sacrifícios, os dançarinos do sol esperavam induzir os Pássaros Trovão a parar, trazendo chuva para alimentar as ervas das pradarias. Isto traria o Bisonte e outros bens de que o povo dependia. A chuva também germinava as plantações de milho, feijão e abóbora, que as mulheres plantavam junto das correntes de água.

O Sudoeste

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Alguns dos sítios arqueológicos melhores preservados das culturas nativas dos Estados Unidos, encontram-se numa região árida mas magnificamente cénica, conhecida pelos antropólogos como o Sudoeste. Ao princípio, esta área cultural estava definida para incluir unicamente o Arizona e o Novo México, mas foi agora estendido para incluir áreas adjacentes no Sul do Utah, sudoeste do Colorado a Norte do México. O elevado desenvolvimento cultural, baseado na agricultura, é ainda mais notável em vista das características desérticas da maioria desta região.

Talvez que a melhor conhecida subdivisão cultural do Sudoeste é aquela representada pelas chamadas tribos “pueblo”. Estes viviam em povoações ou cidades, ao longo do Alto Rio Grande no Novo México, nas vilas Hopi no noroeste do Arizona, e os Zuni no Oeste do Novo México. O seu governo era teocrático e cada Pueblo segue um estrito calendário cerimonial de raízes mitológicas. Desde que uma adequada chuvada é crucial para a vida destas comunidades, não é de surpreender que a maioria das cerimónias, e os mitos representados, estão relacionados com a chuva e a fertilidade das suas colheitas.

Os Pueblo dividem as suas entidades em duas grandes categorias. Os deuses representam os poderes e as divisões da natureza. O Pai Sol e a Mãe Terra são as grandes entidades do panteão, mas cada um é conhecido por muitos nomes e assume variadas personalidades. Também existem animais deuses, ou Anciãos, que são intermediários entre o homem e os deuses superiores, patronos das fraternidades religiosas. Outra entidade, associada tanto com os poderes subterrâneos como com os celestiais, é a Serpente Emplumada, entidade relacionada com a trovoada, a chuva e a fertilidade. Esta divindade refere-se ao famoso Quetzalcoatl mexicano, assim como à Serpente Gigante com cornos e a Pantera subaquática, do Este da América do Norte.

O segundo grupo de poderes elevados, é composto pelos ancestrais e totémicos Kachinas. Originalmente limitados aos espíritos ou medicina personificada, poder dos antepassados ou personificações de poder similar em outros objectos. Em geral, os Kachinas são antropomórficos. São muito numerosos e cada qual particularmente distinto em atributos, costume e comportamento. Pequenas bonecas Kachina, eram feitas pelos parentes, para as suas crianças se acostumarem às características máscaras e vestidos, destes seres sobrenaturais.

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Introdução ao universo mitológico e metafísico das principais culturas ameríndias.

 

América do Sul Tropical

 

Ao contrário das grandes civilizações mesoamericanas e andinas, os exploradores Ocidentais, não encontraram vestígios de uma civilização, durante as expedições ao vale do rio Amazonas. Em vez disso, descobriram centenas de tribos, vivendo em estados primordiais e descobriram que o mundo destes caçadores – colectores, e dos seus sonhos, se fundiam numa realidade única. Ela era, e é, um mundo povoado de espíritos – espíritos da lua, espírito dos abutres, espírito dos remoinhos, dos raios e dos trovões.

As inúmeras tribos amazónicas, têm a sua origem em três ramos relacionados: Os Tupi – Guarani, os Omagua e os Pano; a eles devem  ser acrescentadas as tribos Quíchua, que descendem dos índios Inca. Na altura em que os cronistas fizeram as primeiras viagens, sabia-se da existência de mais de 700 tribos, cuja subsistência inclui a caça, a pesca e a jardinagem. Os primeiros ocidentais não encontraram provas de uma linguagem escrita, nem sinais de registos pictóricos que  pudessem esclarecer a mitologia da Amazónia.

Os indígenas das florestas tropicais da América do sul, vivem em pequenas sociedades, tendo cada uma a sua base mitológica própria. Nenhum grupo de deuses ou heróis culturais é comum a todos os ameríndios, desta vasta região. Estamos também a lidar com mundos mitológicos, onde os homens são animais e os animais são homens; com tanta confusão deliberada, de identidades, entre o humano e o animal, é talvez mais relevante considerar os valores simbólicos da Anaconda ou do Jaguar, do que as aventuras dos seus parceiros humanos. A Anaconda, por exemplo, é várias vezes descrita como Mestre das Plantas Cultivadas e o Jaguar como Mestre do Fogo. Apesar dos deuses, heróis culturais e outros seres míticos, variarem de uma sociedade para outra, podemos falar genericamente sobre uma mitologia Sul Americana. O antropologista Francês Lévi – Strauss. Mostrou que os mitos de uma sociedade, não são mais do que a transformação dos mitos de outra sociedade, sendo modificados de maneira ordenada, por variações de entendimento do mundo e diferenças na organização social. À medida que movemos de uma cultura Ameríndia para outra, os mitos de uma são entendíveis em termos da outra, desde que ambos partilhem de uma base de preocupação comum e que vinculem, uma lógica também comum.

A origem da horticultura

 

Este mito vem do Trio de Suriname e do Brasil. O herói cultural Paraparawa foi pescar à borda de um rio. Ao princípio não apanhou nada, mas ao fim de algum tempo apanhou um pequeno peixe chamado Waraku. Quando o apanhou, ele bateu no chão, atrás de si, e começou a pular. Paraparawa procurou-o mas ele não estava lá. Depois ouviu uma voz atrás de si que dizia: “Sou eu”, e ele ficou espantado, porque o peixe transformou-se numa mulher. A mulher, Waraku, disse: “Eu quero ver a tua aldeia”. Assim eles foram, e nessa altura a aldeia de Paraparawa encontrava-se entre as raízes Waruna. Waraku ficou surpreendida quando viu a aldeia e disse: “Onde está a tua comida? Onde está a tua bebida? Onde é a tua casa?”

“Eu não tenho casa”, disse Paraparawa, “E o meu pão é a seiva mole que se encontra dentro da raiz Waruma”. Waraku disse que já tinha visto o suficiente e ambos retornaram para a água. Ela disse: “Espera um minuto, o meu pai está a chegar, e ele vai trazer comida, bananas, inhame – que tem por tipo o espargo comum – batatas-doces e yuca – yuca é a raiz principal de muitas sociedades ameríndias Tropicais, da qual se faz o pão e a bebida – Quando o pai de Waraku chegou, Paraparawa viu primeiro a planta da yuca. O seu pai foi-se aproximando, vindo da água, e eles viram as folhas da planta yuca vindo dentro da água, para fora. O pai de Waraku chegou como um crocodilo gigante. À medida que se aproximava, Paraparawa viu os seus olhos vermelhos e ficou tão assustado que fugiu. Mas a mulher manteve-se e ficou com as plantas alimentícias de seu pai. Depois deu tudo a Paraparawa. “Como poderei fixá-las?” perguntou Paraparawa. “Corta um lugar para elas. Alisa um campo para elas”, respondeu Waraku. “Certo”, disse ele, e então plantou-as. Plantou Yuca, bananas e todas as outras coisas no campo. Elas cresceram. Todas cresceram, até não poderem crescer mais. Waraku disse então a Paraparawa como fazer todos os utensílios necessários para fazer o pão, a partir da raiz yuca, porque ele era ignorante e não sabia nada destas coisas, de como cozinhar comida. Waraku fez pão para Paraparawa, mas quando ele experimentou um pouco, vomitou. Não estava acostumado, mesmo assim experimentou de tudo; teve que engolir todos os novos alimentos. Finalmente ele cresceu, acostumado a comer estes alimentos e deixou de comer o interior da haste da Waruma. Foi assim que aconteceu.

 

De uma maneira geral, os mitos das sociedades da selva Sul Americana, são uma complexa declaração sobre aquilo que existe no mundo: dizem que coisas existem no universo, como vieram a ser e qual a sua natureza. A sua principal preocupação, é definir o ideal ou as relações harmónicas que devem de permanecer entre os vários elementos para a sociedade poder existir. Para isso, elementos caracterizados como perigosos em relação a cada um, devem misturar-se – homem e mulher, humanos e animais, parentescos e famílias – e esta mistura deve seguir as regras próprias, usualmente atribuída a um herói cultural do tempo mítico. Um mito da origem da sociedade, encontrado com frequência entre os índigenas da América do Sul, fala de uma criação, normalmente a partir do peixe, de grupos separados de pessoas. Na sua separação, os grupos existiam numa forma associal, e num estado de infertilidade. A vida social, e por consequência a fertilidade, poderiam emergir apenas pela aproximação destes grupos. Eles tornaram-se um só povo, mesmo que de forma perigosa, através de inter. – casamentos. Entre os Shavante do Brasil o laço de parentesco e famílias é cortado novamente após a morte; porque nessa altura o defunto regressa ao seu próprio grupo de origem, que é livre de familiares. Assim, entidades perigosas estão mais uma vez separadas, umas das outras, no mundo do além, e nesta separação vem a não vida: uma declaração eloquente em si, da natureza da própria vida. Os mitos, então, estão ligados ao que quer dizer ser-se humano e vivo, dentro de uma sociedade humana, e são os perigos inerentes à sociedade que são consistentemente colocados à prova. A vida social tornou-se possível através da criação do cultivo, de cozinhar ao lume, de artefactos culturais, a caça, os poderes gerativos do homem e da mulher; mas no despertar destas criações, está não só o conhecimento e a lei, mas a morte, a doença, o canibalismo, a infortuna e o sofrimento. Todos estes elementos em conjunto, criam o mito. História e mito são um e o mesmo para os Ameríndios. Por vezes o mito introduz a um estado de estar pré – mítico, fala numa transformação e ao fazê-lo termina num tempo pós – mítico. Esta transformação de tempo pré – mítico, para pós – mítico, representa o tempo histórico para o Índio, enquanto que o estado de estar pós – mítico, descrito no mito, é percepcionado como a maneira própria e estado inevitável do quotidiano presente: o homem come carne cozinhada, não crua; o Jaguar come comida crua, e não cozinhada.

Um aspecto importante dos mitos é que qualquer dado mítico é sobre a multiplicidade de tópicos. Os mitos acerca da aquisição da agricultura são também sobre a origem da natureza das relações inter – familiares. Os temas estão interligados, sendo cada tema usado para explicitar o próximo. O contador de mitos, usa eventos míticos críticos criativa-mente e a construção de um mito é um processo altamente criativo, aquele da humanidade reflectindo sobre si própria.

 

De uma perspectiva de categorias Ocidentais, podíamos dizer que é nos mitos que podemos descobrir as filosofias de causalidade dos Ameríndios, a sua classificação dos elementos no universo, os seus conceitos de tempo e espaço, e a sua visão única do destino do homem. Se estes parâmetros ajudam a perceber a visão do mundo Ameríndio, no entanto é questionável. As teorias abstractas da nossa cultura acerca do ordenamento da sociedade e do universo, são tão alienígenas aos habitantes Índios do continente Americano, que podemos usá-las apenas como guia, desprendido, para entender a vida do mundo continental Americano, Pré – Colombiano.

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