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Posts Tagged ‘História’

Mapa de H. A. Shelley. Cambridge University Press, 1982.

As transformações na arquitectura dos templos, os novos campos de jogo de bola e as plataformas para exibir crânios indicam a existência de um culto religioso e bélico de clara influência centro-mexicana que removeu e substituiu as práticas religiosas anteriores. Os objectos de cerâmica do Pós-Clássico nas terras altas também demonstram essa transformação religiosa. Todas as cerâmicas do período Pós-Clássico das terras altas são, no entanto, de origem local ou regional. No período Pós-Clássico Inicial, com a cerâmica cor de chumbo chegou um novo produto que procedia da região costeira do sudoeste da actual Guatemala, habitada pelos pipil, um enclave de ascendência e língua nahua. As influências estilísticas do México central podem ser observadas em vasilhas isoladas, elaboradas com arzila fina de cor laranja, ou em cerâmicas de estilo mixteca-puebla.

O povo maia do período Pós-Clássico trabalhou o ouro e o cobre, mas também metais como a prata, o zinco e o estanho. Os maias elaboraram jóias com cobre e ouro, como colares, aros, orelheiras, diademas e varetas para adornar os lábios. Com o metal também se criaram figuras, machados, agulhas e arame. Outra novidade no âmbito dos objectos de culto foi umas campânulas feitas de bronze, que serviam de adorno aos dançantes e que provavelmente também se colocavam nos ídolos. O Pós-Clássico foi uma época marcada pelos conflitos bélicos. Numerosas representações de guerreiros e divindades da guerra, tanto na arte como nos crânios de inimigos sacrificados que eram expostos sobre estruturas de madeira, ilustram a grande relevância que tinham as confrontações violentas. Algumas novas armas de procedência centro-mexicana dão conta de eficientes técnicas militares, como o arco e a flecha ou os coletes revestidos de algodão, permitindo uma maior capacidade de protecção em combate.

Os irmãos gémeos do Popol Vuh. Ilustração de Luis Garay. Edição Artes de México, 1999.

No princípio do período Pós-Clássico Tardio o povo k’iche’ destacou-se entre os demais grupos maias das terras altas; mediante uma política expansionista agressiva, submetendo primeiro as populações vizinhas e posteriormente quase toda a totalidade das terras altas. No Popol Vuh, uma fonte escrita da época colonial que narra em língua k’iche’ a criação do mundo, o nascimento dos povos maias e a história dos k’iche’ explicam-se mitologicamente os inícios do domínio desse povo e a aparição na sua cultura de elementos próprios do México central. Como muitas outras elites soberanas da Mesoamérica, a nobreza k’iche’ legitima a sua soberania na origem dos seus antepassados em Tula. No entanto, não é claro se a origem dos antepassados dos k’iche’ tem a sua proveniencia no México central. O Popol Vuh relata novos costumes e crenças religiosas que traziam consigo estes antepassados emigrantes e que foram impostos mediante a guerra e a conquista da população assente nas terras altas. A obra continua, relatando que contraíram matrimónio com as mulheres da zona e assim se converteram nos pais fundadores das etnias k’iche’, kaqchikel, rabinal e tz’utujil

O sistema de organização sociopolítica e religiosa, durante o período Pós-Clássico, ajuda a compreender a evolução das guerras que levaram os k’iche’ à supremacia das terras altas e como a perderam. A unidade política menor era o chinamit, um território com habitantes que estavam subordinados à mesma casa real e que se definiam como comunidade. Mantinham relações fictícias de parentesco com a casa soberana, trazendo o seu nome. No chinamit – ou “lugar balizado” em língua nahua – a sociedade dividia-se em dois estratos: os ajaw ou nobres e príncipes e os al k’ajol ou guerreiros comuns e vassalos. A nobreza formava a dinastia autêntica, que se constituía por linha paterna. Os seus membros exerciam os cargos políticos e religiosos, actuando como chefes militares. Em Q’umarkaj, os membros das casas grandes dos nimak’iche’ possuíam os cargos políticos mais importantes. Os príncipes viviam num lugar fortificado – ou tinamit – recebendo os tributos dos seus vassalos. A principio, o estrato social guerreiro correspondia unicamente aos nobres; porém, com o decorrer dos anos e devido à necessidade também se outorgou esta condição aos vassalos. Além dos estratos sociais mencionados, as fontes documentais informam de outros grupos: escravos ou munib’, servos camponeses ou nima’q achi, comerciantes ou ajb’eyom e artesãos ou ajtoltekat.

O centro de Cahyup, Baixa Verapaz, Guatemala. Desenho de Tatiana Proskouriakoff, 1946.

Enquanto as camadas sociais dentro do chinamit não se podem identificar com segurança, os lugares fortificados explicam as relações entre as distintas casas reais. A sua designação como nimja ou casa grande deve-se aos grandes edifícios administrativos que se podem identificar como parte elementar dos típicos grupos de pátios k’iche’. Supõe-se que um destes complexos, composto por templo, palácio e nave principal, utilizado como edifício administrativo, era a sede de uma casa real. Segundo isto, as povoações como Ixmachi ou Q’umarkaj deviam ser sede de várias casas grandes que estavam vinculadas por alianças matrimoniais e formavam uma unidade política superior ao chinamit.

As casas reais aliadas em ligas chinamit não conformavam apenas uma zona de poder unitário, como se conluiavam num amaq’, termo que por vezes se traduz por “tribo” ou “povo”. Cada um dos grupos confederados formava um amaq’, chamando-se winaq k’iche’ ou gente k’iche’. Parece que no período Pós-Clássico as fronteiras étnicas e linguísticas não coincidiam com as unidades políticas. As pessoas identificavam-se sobretudo no plano do amaq’ e não na língua comum. Por isso, a paisagem política da época apresentava uma imagem bastante parcelada.

Jarra em forma de pássaro, Guatemala 900-1150 d.C. Cântaro de Mixco Viejo, Guatemala 1300-1500 d.C. Könemann, 2006.

O sistema social descrito explica tanto a criação como o desmoronamento da soberania k’iche’. Com o chinamit como unidade política menor, cuja casa real podia formar alianças políticas flexíveis com outras chinamit, no sentido de exercer o controlo militar e territorial. As terras altas do Pós-Clássico mostram uma organização social que facilitou aos nimak’iche’ estender continuamente o seu poder político por essa região. Os matrimónios entre as famílias dos príncipes k’iche’ e as casas amaq’ conquistadas ou aliadas, assim como a delegação de representantes das casas reais k’iche’ em territórios submetidos, criaram um sistema de soberania hegemónica que, apesar das revoltas e divisões nos finais do século XV, manteve-se integra na grande parte das terras altas durante o período colonial.

Entretanto, o avanço do soberano K’iq’ab até à fronteira de Soconusco colocou em contacto os k’iche’ com a área de domínio dos acolhua-mexica. No período Pós-Clássico os mexica governavam a localidade mencionada e utilizavam-na como centro de comércio com as regiões setentrionais da Mesoamérica. Deste modo, os elementos culturais do México central estenderam-se até ao Sul da Mesoamérica. As circunstâncias políticas instáveis e a débil posição dos k’iche’ conduziram a que no ano de 1510 Q’umarkaj também se vira exortada a satisfazer tributos para o México central. A superioridade de Tenochtitlan e a presença de comerciantes mexica, quem sabe também de diplomatas, em Q’umarkaj acabou com as guerras permanentes nas terras altas maias até à invasão espanhola, alguns anos depois.

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Mapa de Carlos Punta. Edições Corregidor, Argentina.

Parece não existir um consenso, por parte dos especialistas, sobre o carácter das primeiras sociedades agrárias nestas zonas continentais. Há quem opine que foram sociedades baseadas no parentesco e na identidade étnica, com propriedade comunal sobre os meios de produção. Outros pensam que foram sociedades desiguais agrupadas em federações ou aldeias. Porém, o que parece claro é que algumas delas evoluíram para formas de poder baseado nos caciques, que utilizaram simultaneamente os ecossistemas da montanha tropical e da costa. Terão estabelecido relações mais ou menos violentas de dominação sobre outros grupos próximos que se encontravam num estado simples de evolução, tendo estado permanentemente em guerra com outros territórios caciques similares. Porem, ao mesmo tempo, mantiveram fluidas relações de intercâmbio. Portanto, toda a zona continental costeira, desde a Nicarágua até ao Este da Venezuela, foi uma complexa franja de interacção material, ainda que não de uma maneira homogénea. Na costa nicaraguense, por exemplo, a agricultura de conucos teve bastante êxito. Na Costa Rica, os güetar, controlavam boa parte da montanha e da costa. No Panamá, Comagre, Veragua e Darién foram áreas de importante desenvolvimento. Zenús e Taironas, na actual costa colombiana, alcançaram ao que parece uma maior identidade cultural e produtividade agrícola – com uma portentosa rede de canais e camalhões de cultivo – que outros grupos da América Central instalados em zonas de menor potencial ecológico; onde boa parte da produção agrária se obtinha com bastões para cavar.

Cerâmica coclé, Panamá. Arte pré-colombiana. Scala Group, Itália.

Será durante o período Clássico mesoamericano, entre 400 e 900 d.C. que se dará a transformação cultural dos diversos grupos da América Central, com a assimilação de povos amazónicos. Exemplo disso, é que não utilizaram materiais permanentes nas construções, o estabelecimento das comunidades foram temporais e, periodicamente, desativavam as suas residências. Tão pouco aplicaram o conceito de centro cerimonial. Em seu lugar, desenvolveram uma religião personalizada e um culto aos seus chefes que incluía a tatuagem e as pinturas corporais com os símbolos do líder. Este costume foi adoptado pelas etnias que emigraram da Mesoamérica, para a América Central, durante o Pós-Clássico. Não existiram, neste período, territórios alargados marcados por influências regionais. Observam-se certas zonas de difusão em Coclé, que se estendeu culturalmente sobre a península de Azuero e Plata del Venado. Como elementos estrangeiros, apareceu na zona Coclé uma cerâmica importante e pilares construídos que sugerem uma penetração nortenha no oriente da América Central.

Os chorotega construíram vivendas e templos de barro e palha. As suas pirâmides foram pequenos montículos de terra, sem templos no seu topo, tendo apenas uma peça lítica, para o ritual de sacrifícios na sua plataforma. O seu governo era presidido por um conselho de anciãos ao qual estava subordinado o Chefe de Guerra. À diferença de outros grupos que apenas praticavam a antropofagia como ritual, os chorotega deram um valor económico à carne humana, para o qual dispunham de “gado” humano obtido em caças organizadas de forma periódica.

Pendente chiriquí, Panamá. Arte pré-colombiana. Scala Group, Itália.

Parece que os nicarao haviam chegado à América do Sul, pois encontraram-se alguns elementos associados a este grupo em território venezuelano. Mais a Sul, nas terras que se estendem desde o Norte da Costa Rica até ao Panamá, existiu um mosaico de pequenos reinados, sem unidade política, com uma multiplicidade de idiomas, sendo conhecidos genericamente como tribos chibchas.

Na região atlântica, o Pós-Clássico Tardio caracterizou-se por ser um período de marcado ritual religioso, onde alguns símbolos sugerem influências meridionais. Na Costa Rica, levantaram em redor das áreas cerimoniais e cemitérios, montículos de paredes e recintos semi-enterrados com muralhas de pedra. Também construíram aquedutos e caminhos empedrados. Estes grupos dispunham de plantações de milho, cacau e tapires domesticados. Levantaram plataformas piramidais que serviam de bases templárias. Por sua vez, estavam presentes outras características especificamente meridionais como alguns objectos de culto, a utilização de redes para descanso e tecidos feitos de casca de árvore que sugerem contactos com grupos arawak. Dedicaram-se a um comércio intensivo e estavam sempre num estado beligerante. O seu governo foi um sistema de chefias com uma classe nobre poderosa e um xamanismo institucionalizado que tendia a transformar-se num principado despótico para a época da invasão ocidental. Nas artes prestaram maior atenção à ourivesaria e à cerâmica.

«Metate» zoomórfica da Costa Rica. Fonte: Internet

As regiões dos povos chiriquí e diquís, assim como a de Veraguas no Panamá, apresentam estreitas afinidades. Os sítios arqueológicos situados no Sul da Costa Rica, ao longo do Pacífico, apresentam montículos revestidos com pedra talhada e agrupadas em redor de praças. As sepulturas eram construídas de forma rectangular e, sobre elas, colocaram grandes lápides. Tiveram o costume Sul-americano do culto às cabeças-troféu. Também fabricaram uma cerâmica sensível e uma joalharia intensa, onde o ouro com que trabalharam os ourives deve ter sido importado.

O intercâmbio comercial deste período foi tão intenso como no anterior e muito do artesanato chegou até à cidade maia de Chichén Itzá por via comercial; além disso mantiveram vínculos comerciais com a península de Nicoya de onde obtinham o jade. Na Costa Rica realizou-se uma das mais originais talhas líticas da América antiga. Juntamente com a escultura modelaram-se excelentes cerâmicas escultóricas e pictóricas, além de uma  ourivesaria proeminente, pelo seu desenho e qualidade de manufactura, assim como uma abundante lapidaria, da qual se destacam as peças denominadas como «metates».

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OS PURÉPECHA

1-purepecha

Área do estado Purépecha, no Ocidente do México, durante o século XVI. Fonte: Internet.

No Ocidente do México, Estado de Michoacán, região montanhosa onde se encontram grandes áreas de bosques e lagos muito extensos, estabeleceram-se por volta de 1400 d.C. vários grupos chichimecas.

De todas as áreas mesoamericanas, o ocidente foi a que apresentava uma maior diversidade cultural. Era uma região com alta densidade populacional, distribuída numa grande quantidade de pequenos senhorios, sendo politicamente muito instáveis.

Nesta região fundiram-se os elementos locais existentes de formas arcaicas, com outros estrangeiros mais evoluídos. Desta união cristalizou-se a cultura purépecha que os espanhóis denominaram de tarasca, pensando que a alcunha que os índios utilizaram para os invasores – tarascue ou “cunhados”, como alusão ao facto dos espanhóis terem roubado as suas filhas – era de facto o nome dos índios de Michoacán. Como estes se denominavam a si próprios não é conhecido com a devida certeza, algumas fontes históricas referem-se a eles como purepecha e huacanace. Os mexica referiam-se a estas populações como michoaque, termo que na língua nauhatl significa “aqueles da terra do peixe”. Ainda que também não se tenha a certeza da sua procedência, num passado não muito remoto foram nómadas caçadores, a julgar pela permanência das suas vestes e costumes; além da tradição mexica lhes consignar a sua própria pátria original, se bem que o idioma que falavam fosse um caso completamente isolado.

Historicamente este povo estava assente em mais de vinte aldeias, sobre as ribeiras e ilhas do lago Patzcuaro. O seu reino iniciou-se com a fundação da cidade de Patzcuaro pelo seu primeiro rei lendário Tariacuri, que uniu as tribos purépecha rivais, numa aliança tripartida conformada entre as cidades de Patzcuaro, Ihuatzio e Tzintzuntzan – esta última querendo dizer «O lugar dos Colibris». No entanto, foi já na segunda metade do século XV que o soberano Tzitzipandacuri conseguiu manter uma grande confederação, submetendo pela conquista ou coerção os seus vizinhos; tendo estendido os seus domínios até ao estado de Colima. Este soberano desenvolveu o que viria a ser, juntamente com o “império” mexica, uma cidade Estado organizada, que não só controlava com particular eficiência os seus territórios, como tinha conseguido opor-se com sucesso às ambições hegemónicas dos seus vizinhos mexica. Apesar da sua população ser consideravelmente menor, muitos espanhóis pensavam que o Estado Purépecha era igual em força ao da Tripla Aliança, cujas tentativas de conquista foram travadas em 1479. Em 1519 os papéis tinham-se invertido e eram os purépecha que avançavam seguramente em território mexica, notavelmente no Estado de Guerrero. No entanto, Michoacán manteve-se neutral durante a invasão espanhola do “império” mexica em 1519-1521, apesar dos pedidos de ajuda por ambas as partes.

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Imagem de um Lienzo com a capital purépecha junto do lago Patzcuaro. Fonte: Internet.

Os purépecha levantaram a sua capital em Tzintzuntzan por volta de 1450, nas margens do lago Patzcuaro, a qual consideravam “as portas do céu”. Daqui e governando o Estado Purépecha, estava o cazonci, representante do seu deus principal Curicaueri. É nesse período que a cidade controla a região e que o soberano Tzitzipandacuari expande os seus domínios mediante as conquistas militares. Nos tempos pré-hispânicos a cidade de Tzintzuntzan abarcava cerca de sete quilómetros quadrados. No entanto, no seu momento de maior esplendor, a sua influência cobria 75 mil km2, sendo que a próspera cidade era densamente povoada – calcula-se entre 25 e 35 mil o número de habitantes – estendendo-se das margens do lago Patzcuaro até às encostas das grandes montanhas vulcânicas.

A cidade contava com zonas residenciais bem definidas para a realeza e a alta nobreza, existindo outras para a realeza de menor hierarquia e a gente comum. Tudo indica que esta cidade tinha um traçado urbano bem planificado.

O elemento característico da arquitectura purepecha são as chamadas yacatas, plataformas que alcançam os 12 metros de altura, com uma planta rectangular ou mista e apresentam um anexo circular. O conjunto principal de Tzintzuntzan consta de cinco yacatas sobre uma grande plataforma encostada a um outeiro. Por vezes os purépecha conformavam em terraço a inclinação natural de um outeiro para formar plataformas. Procuravam um tamanho específico, de tal maneira que ao revestir-se de pedra talhada adquiriam um aspecto monumental.

As yacatas eram erigidas em honra de Curicaueri, o deus do sol. Na Relación de Michoacán observam-se sobre estas plataformas templos construídos em madeira. Com o tempo, as plataformas aumentaram de tamanho; por exemplo na yacata 5 observam-se até cinco sobreposições.

A maior parte das esculturas de pedra purepecha procedem da cidade de Ihuatzio, destacando-se entre elas os já referidos chacmool que indiciam influencias toltecas na sua cultura. Em geral, as peças realizadas em pedra vulcânica mostram pouco detalhe, conferindo realce às formas simples e estilizadas, num género híbrido e despojado. Outra figura que se destaca na arte lapidária purépecha são os tronos em forma de coiote, já que Ihuatzio significa “lugar do coiote”. Os espanhóis destruíram grande parte dessas esculturas, já que as associavam ao sacrifício humano.

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Reconstituição de plataforma cerimonial, ou yuacata. Fonte: Internet.

Se bem que os purépecha praticassem a agricultura, a pesca sempre foi a sua principal fonte alimentícia. Organizados como estado, o poder estava centralizado numa monarquia hereditária que oficiou como a suprema autoridade terrestre, militar e religiosa. O cazonci era assistido na administração do estado por um séquito de cortesãos, ajudantes e chefias alternadas. À sua morte, o corpo era incinerado e as suas cinzas eram enterradas por detrás da yuacata principal, acompanhadas pelas cinzas das suas esposas e criados. O ritual funerário dos purépecha implicava uma grande parafernália e, quando se tratava do seu governante envolvia não só o seu povo como, de várias regiões, chegavam emissários com obséquios preciosos que acompanhariam o defunto no seu caminho para o outro mundo. Encontraram-se poucos exemplos de pratos ou vasilhas de paredes rectas e fundos planos. Algumas peças repetem-se nos sepulcros, porém sendo miniaturas, pois existia a crença que apenas com esse tamanho o defunto podia fazer bom uso delas. Vários objectos recuperados em Tzintzuntzan e Ihuatzio formavam parte das oferendas funerárias de personagens da nobreza, enterrados nas imediações das yacatas. Outros objectos ligados às oferendas são cachimbos de cerâmica, cujo uso se relacionava com Curicaueri e o culto do fogo. Fumar cachimbo era um exclusivo das altas hierarquias, como se observa na Relación de Michoacán. O cachimbo purépecha tem um alto fornilho e dois pequenos suportes; sendo que o tubo por onde se aspira é bastante largo. Nos arredores da principal plataforma de Tzintzuntzan encontrou-se uma grande quantidade de fragmentos de cachimbos, o que parece indicar o seu uso extensivo nas cerimónias religiosas.

Possivelmente, devido a Michoacán ser uma região excessivamente vulcânica, o mito principal foi o culto ao fogo, sendo a sua divindade principal Curicaueri – ou “Grande Queimador” – que também simbolizava o sol. No entanto, os antigos purépecha rendiam culto a múltiplas divindades, de tal maneira que havia deuses criadores das montanhas, do mar e das lagoas; existindo inclusivamente divindades relacionadas com a mão direita e outras com a mão esquerda. Os deuses purépecha também intervinham em certos rituais de sacrifício humano, como a extracção do coração. Entre as práticas dos purépecha também se colocavam em varas os crânios dos sacrificados, sendo esfoladas algumas das vítimas. O culto e as cerimónias eram regidos por um calendário ritual dividido em 18 meses ou luas. Infelizmente, este povo não fez uso dos códices pictográficos, pelo que os seus mitos e lendas apenas se transmitiram oralmente.

Outra divindade relevante na religião purépecha era Cuerauperi, mãe dos deuses e dadora da vida. Outras divindades femininas eram Xaratanga, deusa da lua – venerada sobretudo em Tzintzuntzan – Taríaran, Peuame, deusa do parto e Auicanime, relacionada com a fome. As imagens dos deuses purépecha são escassas; de qualquer modo parece que elaboraram ídolos de madeira e massa, assim como em pedra. Aquelas realizadas neste ultimo material, além de raras são muito esquemáticas.

4-purepecha

Trabalho de metalurgia. Ilustração de Leonid Nepomniachi para Editorial México Desconocido.

Possivelmente vindo desde o Equador, na América do Sul, em 800 d.C. o ouro, a prata e o cobre entraram na região de Michoacán. A partir desse momento, a metalurgia foi tão importante que além de realizarem objectos sumptuários; construíram ferramentas, anzóis e projécteis de cobre. Na realidade, o Estado Purépecha adquiriu grande parte do seu poderio ao controlar a metalurgia; na sua época, o período Pós-Clássico Final, de 1200 a 1521 d.C., o domínio desta ciência tinha encontrado o seu espaço no ocidente do México. Este conhecimento, que a maioria dos estudiosos sobre o tema coincide em situar as suas origens no Centro e Sul da América, deve ter chegado a Michoacán por via marítima, através das costas do Oceano Pacífico.

O cazonci, supremo governante de Tzintzuntzan, estabeleceu uma cuidadosa organização encarregada de controlar as minas das quais se extraiam os metais valiosos. As áreas de extracção mais importantes situavam-se na região fronteiriça a sudeste do estado, nas redondezas de Pungarabato, Cutzamala, Coyuca e Ajuchitlan. Outra das regiões mineiras encontrava-se a ocidente de Michoacán, na zona próxima a Tuxpan e Zapotlan. Através do sistema tributário também se obtinham metais de Cualcoman, de Huacana, Turicato e Sinagua. Uma imagem idealizada destas minas indígenas é mostrada no Lienzo de Jucutacato.

A distinção mais notável da metalurgia purépecha consiste, no entanto, em que não produziram apenas peças ornamentais, pois utilizaram o cobre também para fabricar armas e ferramentas para a vida quotidiana. Uma das razões para que os exércitos de Michoacán tenham suplantado o poderio dos mexica, tornando-se praticamente invencíveis, pode residir na utilização do metal usado em machados de guerra e pontas de projéctil. Enquanto os camponeses, lenhadores e pescadores contavam com machados, enxadas e anzóis para facilitar o seu trabalho. Da mesma maneira, as oficinas purépecha já conheciam o uso do bronze, o qual superava a dureza do cobre e, só podemos especular, quando este se torna-se comum a que grau teria levado o Estado Purépecha no seu desenvolvimento e expansão se não tivesse sido prematuramente aniquilado pela invasão espanhola em 1530.

Tal como ocorreu com os tesouros dos mexica, os depósitos de metal precioso dos senhores de Michoacán, descritos nas crónicas como troféus, e as suas oferendas funerárias, foram saqueados e fundidos pelos espanhóis. Se contarmos com as entregas forçosas que o soberano Tzintzicha Tangaxoan fizera, tanto a Cristóbal Olid como ao selvático Nuño de Guzmán, o resultado foi que nos nossos dias apenas conservamos um testemunho mínimo, daquela arte dos metais que tanto distinguiu e qualificou os antigos michoacanos; perdendo-se de maneira irreversível o seu real valor artístico e cultural.

 

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Mayapan 1

A pirâmide de Mayapán. Yucatão, México, 1200-1500 d.C. Könemann, 2006.

Algumas das migrações citadas nas fontes escritas referem, provavelmente, povos de diversas regiões que alcançaram sucessivamente o norte do Yucatão. Dentro das probabilidades à que considerar que em épocas anteriores surgiram alianças multiétnicas com povos distantes e que se produziram migrações a grandes distâncias, de modo que este fenómeno não introduz nenhuma novidade no período Pós-Clássico.

Fossem quais fossem as raízes étnicas dos itzá, é um facto claro que a elite que levou Chichén Itzá à categoria de potência hegemónica, no período Pós-Clássico Inicial, era composta por um grupo cosmopolita revisionista, agressivo, rigidamente organizado e firmemente orientado para o exterior; tanto nos aspectos económicos como nos culturais. As investigações mostraram que os itzá não ignoraram – como não reprimiram – as instituições religiosas nucleares existentes nas terras baixas dos maias, como integraram habilmente alguns dos seus elementos essenciais; como o mito da criação, pondo-os ao serviço dos seus novos objectivos políticos. A fase de transição desde o período Clássico ao Pós-Clássico está marcada em muitas comunidades mesoamericanas por uma acentuada abertura das suas relações para o exterior. As amplas redes comerciais entre as populações das terras altas e as baixas aceleraram as relações e os inter-câmbios de mercadorias e de ideias, fomentando a expansão que os teóricos da cultura denominam por “estilo internacional”.

Como já referimos anteriormente, os itzá de Chichén mantiveram relações amistosas com as cidades de Uxmal e Mayapán, ou seja, com os xiues e cocomes, graças a uma aliança concertada pelas três cidades – a Liga de Mayapán – a qual durou até 1185 – 1204 da era cristã. Esta liga rompeu-se porque um senhor dos cocomes de Mayapán, chamado Hunac Ceel, aumentou o seu poder conquistando Chichén Itzá, conseguindo com isso a hegemonia de Mayapán que se apropriou do império económico criado por Chichén Itzá. As fontes históricas alimentam a suspeita que Mayapán chegou a converter-se no centro do poder graças a uma sequência de intrigas políticas, traições e alianças de grupos políticos contra Chichén Itzá. Os relatos bélicos aludem ao apoio militar que este “golpe” obteve por parte dos aliados maias da cidade portuária de Xicalango, na costa mexicana do golfo.

Mayapan 3

Os pórticos de colunas são um elemento típico da arquitectura senhorial de Mayapán, assim como de outros lugares do Yucatão. Könemann, 2006.

Os edifícios de Mayapán não são tão grandes nem estão tão bem conservados como os de Chichén Itzá. Este facto induz, numa primeira observação, a falar de uma sociedade maia do período Pós-Clássico Final como “decadente”, se não já degenerada. Porém, as investigações posteriores sobre este período trouxeram à luz uma sociedade extremamente “eficiente” nos aspectos políticos e económico. Neste sentido, a parcial redução da monumentalidade e da faustosidade arquitectónica considera-se agora como a expressão de uma reorientação da organização política e económica. Segundo esta interpretação, as energias sociais inverteram-se para a produção e o inter-cambio de mercadorias, com os sistemas de mercados bem desenvolvidos a promoverem uma mais justa participação de todos os membros da sociedade na prosperidade económica; com a possibilidade de obtenção de benefícios pelas prestações laborais. Este sistema económico aberto recompensa o espírito empresarial empreendedor e reduzia, finalmente, as desigualdades sociais entre a casta dominante e o resto da população, porque agora era maior o número de pessoas que podiam beneficiar da bonança económica geral. Neste clima social, uma arquitectura menos dispendiosa – que, além do mais, apenas afectava os edifícios públicos e as residências da classe superior – não deve ser julgada como um “retrocesso” em relação ao precedente período Clássico mas como um reflexo de novas pautas sociais e de novas prioridades económicas.

Mayapan 2

Casa moderna do Yucatão. A planta em forma de abside e o tipo de construção são similares às casas das povoações antigas dos maias.

A técnica com que se construíram as casas e os edifícios públicos de Mayapán, Cozumel e outros centros do período Pós-Clássico Final dão provas de uma notável eficácia. Quando as paredes destas construções eram de madeira, cobriam-se com gesso e estuque, sendo as coberturas realizadas com materiais vegetais. Com frequência, as paredes interiores dos edifícios públicos desta época estavam ricamente ornamentadas, assim como os muros exteriores de estuque. Exemplos disso são as povoações de Tulum e Santa Rita, ainda que só tenham chegado até nós restos fragmentários. Mayapán era uma cidade fortificada de mais de 3 km de longitude por quase 2 de largura. Os governadores dos estados que estavam incluídos na esfera de poder de Mayapán devem ter vivido dentro dos seus muros. As casas da cidade que se identificam arqueologicamente mostram zonas densamente povoadas, tanto dentro como fora das muralhas. As amplas divisões das habitações indicam que se havia assente aqui, de forma permanente, tanto a classe dominante como uma população provavelmente dedicada aos labores agrícolas. A arquitectura monumental de Mayapán concentra-se numa área de 2,5 hectares, em que domina ao centro, uma pirâmide quadrangular, chamada como em Chichén Itzá, El Castillo; situada imediatamente a Oeste de um cenote. A praça está rodeada de pórticos com colunas, habitações da aristocracia; templos, sepulcros, oratórios e edifícios circulares. Nesta zona onde se descobriu a maioria das criações escultóricas do assentamento, entre as quais existem figuras humanas, jaguares, serpentes, estandartes com inscrições e estelas. Para além desta praça central estendem-se em todas as direcções, até aos muros da cidade, muito juntas entre si, casas e pátios da nobreza e do povo comum. As pequenas esculturas, como tartarugas e as figuras de deuses que se assomam desde o céu, encontrados nestes bairros residenciais, indicam que também fora do centro cerimonial se levavam a cabo acções rituais.

Mayapan 4

Reconstituição de pintura mural do edifício 16, em Tulum. Esta pintura une elementos de Oaxaca com outros que recordam os códices maias do Período Pós-Clássico. Quintana Roo, México. Könemann, 2006.

As expedições arqueológicas e os percursos pela superfície da costa oriental da península do Yucatão, permitiram descobrir uma zona densamente povoada no período Pós-Clássico Final. Os centros políticos situavam-se nos lugares chave desta extensa zona costeira. Entre eles encontravam-se El Meco, as localidades de San Gervasio e Buena Vista na ilha de Cozumel; Tulum, Ichpaatún, Santa Rita e alguns mais. Cada uma destas comunidades criou as suas próprias combinações de templos, habitações e sepulcros. Da mesma forma que Mayapán, também Tulum e Ichpaatún estavam fortificados. Tulum e Santa Rita são conhecidas, além do mais, pelo bom estado de conservação das pinturas murais do Pós-Clássico Tardio. Todos estes lugares costeiros foram provavelmente importantes praças comerciais. Nelas inter-cambiava-se as manufacturas regionais pelas matérias-primas das províncias das terras baixas e mercadorias do comércio a grande distância. Ambas categorias de bens foram comercializadas com a ajuda de mercadores que se deslocavam por via marítima, ao longo da costa.

Mayapan 5

Embarcação maia. Fonte: Internet.

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01Yucatão

Mapa de H. A. Shelley. The State University of New Jersey, 1982.

O conceito de “Pós-Clássico” implica a ideia de que nesta época a cultura maia era apenas uma pálida imagem do seu passado grandioso. As recentes investigações arqueológicas põem em causa este conceito da sociedade maia Pós-Clássica. É certo que o inicio desta época se caracteriza por profundas convulsões e alterações sociais, porém a ordem destas convulsões na sociedade apresentam divergências notáveis nas várias regiões das terras baixas. Se considerar-mos as terras baixas maias meridionais e setentrionais como um todo, existem documentos para o Pós-Clássico que revelam seis séculos de evolução ininterrupta, desde o ano de 900 até 1500 d.C.; desenhando-se um quadro de crescimento económico a longo prazo, aumento da população nas regiões costeiras e uma lenta integração Norte-Sul. À chegada dos invasores espanhóis existia uma sociedade estável, altamente desenvolvida, próspera e culta, que mantinha uma rede internacional muito extensa, de múltiplas e variadas relações comerciais

O Yucatão setentrional esteve dominado durante todo o período Pós-Clássico por poderosos centros políticos. O colapso das formações estatais da época Clássica nas terras baixas, cujo rasto se pode seguir aproximadamente a partir de 750 d.C., coincidiu com o fortalecimento do poder da cidade de Chichén Itzá, que foi durante certo tempo o centro mais importante do Norte do Yucatão. Esta grande metrópole impôs o seu domínio sobre amplas zonas das terras baixas setentrionais e forjou um dos estados mais pujantes e extensos da história dos maias. A cidade de Chichén Itzá foi substituída por Mayapán, um centro rival do Norte, que se apoderou de uma grande parte do império económico de Chichén Itzá e marcou o destino político e económico de muitos pequenos estados das terras baixas até pouco antes da chegada dos espanhóis, no ano de 1517 d.C.

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Vista da pirâmide de «El Castillo» a partir do Templo dos Guerreiros. Könemann, 2006.

A maioria dos especialistas partem hoje em dia da hipótese de que Chichén Itzá foi fundada no período Clássico Final – século XI – e impôs o seu domínio como potência hegemónica sobre a região setentrional até muito dentro da primeira fase Pós-Clássica, entre 1000 e 1200 d.C. Pouco depois do ano 1200 foi substituída pela cidade de Mayapán, que controlou a maior parte do Norte do Yucatão, quase durante a totalidade do período Pós-Clássico posterior, entre 1200 e 1500 d.C. Segundo documentos da época colonial, Mayapán foi destruída no ano de 1441 d.C. A importância deste centro depois desta última fase é objecto de investigações, ainda em curso.

A identidade étnica da classe dominante de então é objecto, hoje em dia de vivas discussões, porque as informações históricas aludem, repetidas vezes, à supremacia de senhores “estrangeiros”. Os paralelos entre a arquitectura de Chichén Itzá e da cidade de Tula, sua contemporânea do México central, induzem alguns estudiosos a supor que deve-se ter produzido uma invasão guerreira por parte dos toltecas sobre os itzá. Porém, em todas as partes do mundo encontram-se histórias de novas linhagens dominantes que tendem a legitimar a sua ascensão ao poder aludindo à sua origem exótica ou estrangeira, sem que se possa demonstrar essa procedência pretendida. Deve, por conseguinte, submeter-se à comprovação se estas reclamações se baseiam em invasões ou conquistas efectivas ou se trata simplesmente de colocar em relevo alianças matrimoniais ou de outro tipo com uma potência estrangeira, através das quais uma elite local tenta destacar-se por sobre os seus competidores locais.

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Edifícios de estilo Puuc em Chichén Itzá. Revista de Arqueologia Mexicana.

Acerca desta cidade, o célebre explorador inglês Stephens diz-nos que o nome Chichén é composto de duas palavras da língua maia: Chi que significa boca e chen, poço; de maneira que as duas palavras traduzem-se como “na boca do poço”. Quanto à sua segunda denominação, a da etnia itzá, vemos que Itz significa bruxo e á àgua; de modo que Chichén Itzá significa “na boca do poço do bruxo da água”. Os itzaes foram um povo que chegaram relativamente tarde ao Yucatão, quando já existiam numerosos sítios ocupados pelos maias, como a cidade de Chichén, que nessa altura talvez se chamava Uuc-yab-nal, ou seja: os Sete Abnal. A arquitectura singular e eclética de Chichén Itzá proporciona argumentos para defender as hipóteses de hegemonias que referimos anteriormente. Na zona Sul da necrópole encontram-se exemplos da arquitectura Puuc convencional, do mesmo modo que em outras zonas do Yucatão setentrional, como já vimos em relação a Uxmal e outras cidades. No caso de Chichén Itzá, este estilo pode ser observado no caso dos belíssimos edifícios da “Igreja” ou da “Casa das Monjas”. Num estilo mais híbrido e apresentando uma elegante forma circular, pode-se observar, perto dos edifícios mencionados anteriormente, o destacado observatório astronómico que tem como nome “El Caracol”.

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Zona arqueológica de Chichén Itzá. Fonte: Internet.

No entanto, no sector Norte da cidade predomina um estilo arquitectónico que tem sido denominado de maia/tolteca mas que pode bem ser considerado de “estilo internacional”, como os “atlantes” do Templo dos Jaguares, os chamados “altares chacmol” que tivemos oportunidade de observar em Tula, que na cidade maia se encontram no Templo dos Guerreiros, cuja zona frontal e lateral é ocupada por uma imensidão de filas de colunas que teriam suportado uma vasta cobertura. A pirâmide quadrada principal, conhecida como “El Castillo” e considerada, desde 2007, como uma das 7 maravilhas do mundo antigo, encontra-se destacada ao centro de uma grande praça, nesta zona Norte da cidade. A noroeste deste edifício dedicado a Kulkucan, o equivalente maia do deus Quetzalcoatl, encontra-se o maior campo de jogo de bola de toda a Mesoamérica, cuja base das paredes laterais apresenta a representação da cerimónia sagrada deste jogo, em que se enfrentam duas equipas com os seus sete jogadores cada uma, incluindo um capitão. No centro da cena apresenta-se uma grande bola de pedra com uma caveira falante dentro. Ao lado desta cena central observa-se uma cena de sacrifício por decapitação, muito semelhante à que vimos na sessão dedicada à cidade de El Tajin.

Não podemos deixar de referir o impressionante cenote sagrado, que se encontra mais a Norte da pirâmide de Kulkucan e que foi objecto de muitos rituais onde múltiplas oferendas foram lançadas, mesmo quando a cidade já não era habitada.

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Reconstituição de parte de um baixo relevo no Templo dos Jaguares de Chichén Itzá com a representação de guerreiros. Revista Arqueologia Mexicana, Março-Abril 2007.

A maioria dos investigadores afirma que Chichén Itzá manteve o seu firme domínio até ao período Clássico Final. Todos os dados disponíveis corroboram que se produziu um ataque militar a cargo de um grupo que procedia do Yucatão setentrional, suplantando e absorvendo a classe dominante local. Esta erupção estrangeira teve lugar nos primeiros anos do século XI e marcou o início do período Pós-Clássico. Ao que parece, os grandes centros de poder que até então haviam dominado no Norte, como Ek Balam e Yaxuná, forma submetidos nesta época mediante a intervenção armada deste novo e poderoso estado em expansão. A destruição dos edifícios e das instalações defensivas destes lugares, ocorreu paralelamente à conquista militar levada a cabo pelos invasores procedentes do estado Itzá.

As opiniões dividem-se sobre a região de origem da nova classe dominante dos itzá. As diferentes hipóteses assinalam desde as terras altas mexicanas – toltecas de Tula – passando pelos maias putun “mexicanizados” das costas do Golfo do México, até aos grupos de população dos estados das terras baixas meridionais em decomposição; que se destroçavam mutuamente numa série de conflitos bélicos.

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cursoamerica

Destinatários: Estudantes, professores e outros profissionais que pretendam ampliar o leque de conhecimentos e da sua cultura visual sobre as sociedades que se desenvolveram na América do Sul no período pré-colombiano.

Candidaturas: de 22 de fevereiro a 22 de março de 2016

Duração: 9 de abril a 25 de junho de 2016. O curso será realizado aos sábados, entre as 10h00 e as 13h00, num total de 36 horas distribuídas ao longo de 12 aulas.

Local: Museu Nacional de Etnologia (Lisboa)

Preço: € 240,00

Avaliação: Tratando-se de um curso livre, que não proporciona qualquer crédito escolar, a sua frequência será atestada através de certificado de participação emitido pelo coordenador/formador. Informações | Inscrições: e-mail.

Objectivos e Metodologia: Tendo como objetivo geral conhecer a história e culturas visuais das sociedades indígenas da América do Sul no período précolombiano, após contextualização prévia sobre as grandes áreas culturais da América do Norte e Central, o Curso incidirá principalmente sobre as seguintes áreas culturais da América do Sul: os Andes, Setentrionais e Centrais, as Terras Baixas Tropicais e a Planície Platina, em que se incluem a região do Grande Chaco, as Pampas e os Andes Meridionais. A par do estudo das estruturas sociais, serão abordadas as concepções que fundamentam as diversas expressões estéticas da arte ameríndia que, independentemente da maior ou menor complexidade do tipo de sociedade que as originou, evidencia uma relação íntima com o respectivo contexto ecológico. Acompanhando permanentemente a exposição e enquadramento teóricos, será apresentada uma selecção de imagens ilustrativas da ampla diversidade das expressões estéticas que caracterizaram as culturas sul americanas ao longo dos 25.000 anos da sua história previamente ao seu contato com as sociedades europeias.

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Templo de Tlahuizcalpantecuhtli , Tula, Hidalgo. Discovering Art. Inglaterra, 1965.

Entre as causas determinantes para a queda do mundo Clássico, podem ser considerados os seguintes factores: o aumento demográfico, a proliferação de centros em competição, uma maior diferenciação social entre a nobreza e os homens comuns, o incremento da pressão tributária, problemas de alimentação e doenças conjuntamente com a falta de respostas tecnológicas adequadas aos novos tempos; estas geraram pressões internas e externas que provocaram o colapso do sistema. Como consequência imediata deu-se uma maior mobilidade social, novas formas de integração política e alterações substanciais nos padrões culturais, fundindo-se povos de etnias e culturas diversas.

O período Pós-Clássico caracterizou-se por um acentuado aumento do militarismo. As antigas estruturas teocráticas, sobretudo no México central, foram substituídas por reis guerreiros que, simultaneamente incorporaram o papel dos antigos sacerdotes. Paralelamente e por várias razões, sobressai a filosofia religiosa assente numa extrema fragilidade dos equilíbrios universais, requerendo o aumento da prática de sacrifícios humanos. Se bem que se conservaram várias das antigas bases culturais adquiridas, neste novo período substituíram-se os velhos padrões ideológicos, religiosos e técnicos.

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Baixo relevo de um guerreiro, representado num dos edifícios do Templo Maior de Tenochtitlan. Foto de S. Guilliem Arroyo para Jaca Book SpA. Milão, 1995.

Os grupos pertencentes à Tradição Cultural do Deserto, no Norte do México, conhecidos de uma forma geral pelos mexica como chichimecas eram, sobretudo, tribos nómadas habitantes de uma região árida e portanto de poucos recursos naturais. O seu nome designa uma forma de vida comum à qual pertenciam povos que falavam línguas distintas, na sua maioria nahuas. Tal denominação não deixa de ser ambígua porque, primitivamente, a mesma designava povos relacionados histórica, mítica, etnográfica e linguisticamente. Estas tribos irromperam no planalto mexicano em diversas vagas, dilatadas no tempo, transformando paulatinamente o seu padrão de vida de caçadores nómadas para a de agricultores sedentários. Assimilaram a alta cultura dos grupos locais subjugados; conservando porém o seu carácter extremamente belicoso. As contínuas invasões e adaptações culturais que se verificaram desde o final do período Clássico no planalto central do México, provocaram que a partir de 900 d.C. e em pouco tempo, os toltecas passaram a ser o grupo dominante no vale do México. Este grupo nahua protagonizou a primeira revolução militar de importância na Mesoamérica, fundando Tula em 860 d.C. como o seu centro de culto e que, posteriormente, foram considerados pelos mexica como os seus sábios antecessores e mestres em todas as artes. As fontes etno-históricas revelam que os primeiros habitantes de Tula tiveram a sua origem numa das muitas tribos nómadas vindas dos desertos nortenhos; os toltecas-chichimecas, que conviveram com outro povo vindo, aparentemente das costas do Golfo do México, os nonoalcas.

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Reconstituição da praça central de Tula Grande. Antonio Serrato-Combe. The University of Utah Press, 2001.

Os toltecas são o primeiro povo pré-colombiano do México central sobre o qual se conta com um corpo de dados históricos referentes a diversos aspectos da sua cultura: listas dinásticas, nomes de reis e governantes, relatos de migrações, a fundação da cidade, o seu desenvolvimento, as suas conquistas e posterior decadência. De facto, sobreviveram numerosas crónicas e fontes tanto pré-hispânicas como do século XVI, sobre a história de Tula e dos toltecas; estando entre as principais a «História Tolteca-Chichimeca», o «Códice Florentino» de Sahagún e seus informadores, os «Anais de Cuauhtitlán», a «História dos mexicanos pelas suas pinturas» e os textos de Ixtlilxóchitl, Motolinía, Muñoz Camargo e Torquemada.

A cidade de Tula situa-se no actual estado de Hidalgo, 65 km a noroeste da Cidade do México e foi um dos centros urbanos mais extensos da Mesoamérica. Teve uma superfície aproximada de 15 km2 albergando cerca de 50.000 habitantes durante o seu apogeu, entre 900 e 1150 d.C. e contou com três centros cerimoniais destacados: Tula Chico, Praça Charnay e a principal conhecida como a Acrópole. Esta última constituiu-se por uma grande praça central rodeada de templos, palácios e campos de jogo de bola. O edifício principal, a pirâmide templo de Tlahuizcalpantecuhtli – uma manifestação do deus Quetzalcoatl como Vénus – consta de quatro corpos sendo que no seu topo figuram as colunas conhecidas como «Os Atlantes»; hieráticas esculturas de guerreiros armados que supostamente suportavam o edifício que coroava a pirâmide.

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Plano geral de Tula Grande. Revista Arqueologia Mexicana. Editorial Raíces.

A praça principal estava rodeada por um complexo sistema de plataformas em terraço que se estendiam até ao rio e sobre os quais se levantavam numerosos conjuntos residenciais. Estas, pelas suas dimensões, características e proximidade da zona monumental permitem supor que se tratava de um dos núcleos residenciais mais importantes da cidade; habitados pela nobreza e funcionários de alto nível. Fora desta zona de elite, encontravam-se os bairros habitados pela maior parte da população.

Do mesmo modo que outros centros urbanos do México antigo, Tula contava, seguramente, com um amplo sistema de mercado e redistribuição interna, assim como uma extensa rede de intercâmbio, tributo e comércio a longa distancia. Uma grande quantidade de produtos de índole e procedência diversificada chegava a esta cidade, em alguns casos de regiões tão longínquas como a Costa Rica ou a Nicarágua.

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As salas de reunião do Palacio Quemado, um dos edifícios mais importantes de Tula. Jaca Book SpA. Milão, 1995.

A destruição que Tula sofreu no seu colapso como centro de poder é impressionante. Todos os edifícios da praça principal e de outros sectores da cidade foram incendiados e saqueados. É provável que estas destruições fossem cometidas pelos próprios toltecas, com a intenção de dessacralizar a cidade no momento do seu colapso. Exemplos idênticos são frequentes e de longa tradição por toda a Mesoamérica. Durante o final de Tula, grande parte da pirâmide de Tlahuizcalpantecuhtli foi desmontada, com os Atlantes e colunas que estavam no seu topo depositados numa enorme vala, escavada no lado Norte do edifício. Assim terminou o longo domínio e existência da cidade de Tula, que durou quase cinco séculos de vida; duração bastante longa para um estado de tempos pré-industriais.

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