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Mayapan 1

A pirâmide de Mayapán. Yucatão, México, 1200-1500 d.C. Könemann, 2006.

Algumas das migrações citadas nas fontes escritas referem, provavelmente, povos de diversas regiões que alcançaram sucessivamente o norte do Yucatão. Dentro das probabilidades à que considerar que em épocas anteriores surgiram alianças multiétnicas com povos distantes e que se produziram migrações a grandes distâncias, de modo que este fenómeno não introduz nenhuma novidade no período Pós-Clássico.

Fossem quais fossem as raízes étnicas dos itzá, é um facto claro que a elite que levou Chichén Itzá à categoria de potência hegemónica, no período Pós-Clássico Inicial, era composta por um grupo cosmopolita revisionista, agressivo, rigidamente organizado e firmemente orientado para o exterior; tanto nos aspectos económicos como nos culturais. As investigações mostraram que os itzá não ignoraram – como não reprimiram – as instituições religiosas nucleares existentes nas terras baixas dos maias, como integraram habilmente alguns dos seus elementos essenciais; como o mito da criação, pondo-os ao serviço dos seus novos objectivos políticos. A fase de transição desde o período Clássico ao Pós-Clássico está marcada em muitas comunidades mesoamericanas por uma acentuada abertura das suas relações para o exterior. As amplas redes comerciais entre as populações das terras altas e as baixas aceleraram as relações e os inter-câmbios de mercadorias e de ideias, fomentando a expansão que os teóricos da cultura denominam por “estilo internacional”.

Como já referimos anteriormente, os itzá de Chichén mantiveram relações amistosas com as cidades de Uxmal e Mayapán, ou seja, com os xiues e cocomes, graças a uma aliança concertada pelas três cidades – a Liga de Mayapán – a qual durou até 1185 – 1204 da era cristã. Esta liga rompeu-se porque um senhor dos cocomes de Mayapán, chamado Hunac Ceel, aumentou o seu poder conquistando Chichén Itzá, conseguindo com isso a hegemonia de Mayapán que se apropriou do império económico criado por Chichén Itzá. As fontes históricas alimentam a suspeita que Mayapán chegou a converter-se no centro do poder graças a uma sequência de intrigas políticas, traições e alianças de grupos políticos contra Chichén Itzá. Os relatos bélicos aludem ao apoio militar que este “golpe” obteve por parte dos aliados maias da cidade portuária de Xicalango, na costa mexicana do golfo.

Mayapan 3

Os pórticos de colunas são um elemento típico da arquitectura senhorial de Mayapán, assim como de outros lugares do Yucatão. Könemann, 2006.

Os edifícios de Mayapán não são tão grandes nem estão tão bem conservados como os de Chichén Itzá. Este facto induz, numa primeira observação, a falar de uma sociedade maia do período Pós-Clássico Final como “decadente”, se não já degenerada. Porém, as investigações posteriores sobre este período trouxeram à luz uma sociedade extremamente “eficiente” nos aspectos políticos e económico. Neste sentido, a parcial redução da monumentalidade e da faustosidade arquitectónica considera-se agora como a expressão de uma reorientação da organização política e económica. Segundo esta interpretação, as energias sociais inverteram-se para a produção e o inter-cambio de mercadorias, com os sistemas de mercados bem desenvolvidos a promoverem uma mais justa participação de todos os membros da sociedade na prosperidade económica; com a possibilidade de obtenção de benefícios pelas prestações laborais. Este sistema económico aberto recompensa o espírito empresarial empreendedor e reduzia, finalmente, as desigualdades sociais entre a casta dominante e o resto da população, porque agora era maior o número de pessoas que podiam beneficiar da bonança económica geral. Neste clima social, uma arquitectura menos dispendiosa – que, além do mais, apenas afectava os edifícios públicos e as residências da classe superior – não deve ser julgada como um “retrocesso” em relação ao precedente período Clássico mas como um reflexo de novas pautas sociais e de novas prioridades económicas.

Mayapan 2

Casa moderna do Yucatão. A planta em forma de abside e o tipo de construção são similares às casas das povoações antigas dos maias.

A técnica com que se construíram as casas e os edifícios públicos de Mayapán, Cozumel e outros centros do período Pós-Clássico Final dão provas de uma notável eficácia. Quando as paredes destas construções eram de madeira, cobriam-se com gesso e estuque, sendo as coberturas realizadas com materiais vegetais. Com frequência, as paredes interiores dos edifícios públicos desta época estavam ricamente ornamentadas, assim como os muros exteriores de estuque. Exemplos disso são as povoações de Tulum e Santa Rita, ainda que só tenham chegado até nós restos fragmentários. Mayapán era uma cidade fortificada de mais de 3 km de longitude por quase 2 de largura. Os governadores dos estados que estavam incluídos na esfera de poder de Mayapán devem ter vivido dentro dos seus muros. As casas da cidade que se identificam arqueologicamente mostram zonas densamente povoadas, tanto dentro como fora das muralhas. As amplas divisões das habitações indicam que se havia assente aqui, de forma permanente, tanto a classe dominante como uma população provavelmente dedicada aos labores agrícolas. A arquitectura monumental de Mayapán concentra-se numa área de 2,5 hectares, em que domina ao centro, uma pirâmide quadrangular, chamada como em Chichén Itzá, El Castillo; situada imediatamente a Oeste de um cenote. A praça está rodeada de pórticos com colunas, habitações da aristocracia; templos, sepulcros, oratórios e edifícios circulares. Nesta zona onde se descobriu a maioria das criações escultóricas do assentamento, entre as quais existem figuras humanas, jaguares, serpentes, estandartes com inscrições e estelas. Para além desta praça central estendem-se em todas as direcções, até aos muros da cidade, muito juntas entre si, casas e pátios da nobreza e do povo comum. As pequenas esculturas, como tartarugas e as figuras de deuses que se assomam desde o céu, encontrados nestes bairros residenciais, indicam que também fora do centro cerimonial se levavam a cabo acções rituais.

Mayapan 4

Reconstituição de pintura mural do edifício 16, em Tulum. Esta pintura une elementos de Oaxaca com outros que recordam os códices maias do Período Pós-Clássico. Quintana Roo, México. Könemann, 2006.

As expedições arqueológicas e os percursos pela superfície da costa oriental da península do Yucatão, permitiram descobrir uma zona densamente povoada no período Pós-Clássico Final. Os centros políticos situavam-se nos lugares chave desta extensa zona costeira. Entre eles encontravam-se El Meco, as localidades de San Gervasio e Buena Vista na ilha de Cozumel; Tulum, Ichpaatún, Santa Rita e alguns mais. Cada uma destas comunidades criou as suas próprias combinações de templos, habitações e sepulcros. Da mesma forma que Mayapán, também Tulum e Ichpaatún estavam fortificados. Tulum e Santa Rita são conhecidas, além do mais, pelo bom estado de conservação das pinturas murais do Pós-Clássico Tardio. Todos estes lugares costeiros foram provavelmente importantes praças comerciais. Nelas inter-cambiava-se as manufacturas regionais pelas matérias-primas das províncias das terras baixas e mercadorias do comércio a grande distância. Ambas categorias de bens foram comercializadas com a ajuda de mercadores que se deslocavam por via marítima, ao longo da costa.

Mayapan 5

Embarcação maia. Fonte: Internet.

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01Yucatão

Mapa de H. A. Shelley. The State University of New Jersey, 1982.

O conceito de “Pós-Clássico” implica a ideia de que nesta época a cultura maia era apenas uma pálida imagem do seu passado grandioso. As recentes investigações arqueológicas põem em causa este conceito da sociedade maia Pós-Clássica. É certo que o inicio desta época se caracteriza por profundas convulsões e alterações sociais, porém a ordem destas convulsões na sociedade apresentam divergências notáveis nas várias regiões das terras baixas. Se considerar-mos as terras baixas maias meridionais e setentrionais como um todo, existem documentos para o Pós-Clássico que revelam seis séculos de evolução ininterrupta, desde o ano de 900 até 1500 d.C.; desenhando-se um quadro de crescimento económico a longo prazo, aumento da população nas regiões costeiras e uma lenta integração Norte-Sul. À chegada dos invasores espanhóis existia uma sociedade estável, altamente desenvolvida, próspera e culta, que mantinha uma rede internacional muito extensa, de múltiplas e variadas relações comerciais

O Yucatão setentrional esteve dominado durante todo o período Pós-Clássico por poderosos centros políticos. O colapso das formações estatais da época Clássica nas terras baixas, cujo rasto se pode seguir aproximadamente a partir de 750 d.C., coincidiu com o fortalecimento do poder da cidade de Chichén Itzá, que foi durante certo tempo o centro mais importante do Norte do Yucatão. Esta grande metrópole impôs o seu domínio sobre amplas zonas das terras baixas setentrionais e forjou um dos estados mais pujantes e extensos da história dos maias. A cidade de Chichén Itzá foi substituída por Mayapán, um centro rival do Norte, que se apoderou de uma grande parte do império económico de Chichén Itzá e marcou o destino político e económico de muitos pequenos estados das terras baixas até pouco antes da chegada dos espanhóis, no ano de 1517 d.C.

02Yucatão

Vista da pirâmide de «El Castillo» a partir do Templo dos Guerreiros. Könemann, 2006.

A maioria dos especialistas partem hoje em dia da hipótese de que Chichén Itzá foi fundada no período Clássico Final – século XI – e impôs o seu domínio como potência hegemónica sobre a região setentrional até muito dentro da primeira fase Pós-Clássica, entre 1000 e 1200 d.C. Pouco depois do ano 1200 foi substituída pela cidade de Mayapán, que controlou a maior parte do Norte do Yucatão, quase durante a totalidade do período Pós-Clássico posterior, entre 1200 e 1500 d.C. Segundo documentos da época colonial, Mayapán foi destruída no ano de 1441 d.C. A importância deste centro depois desta última fase é objecto de investigações, ainda em curso.

A identidade étnica da classe dominante de então é objecto, hoje em dia de vivas discussões, porque as informações históricas aludem, repetidas vezes, à supremacia de senhores “estrangeiros”. Os paralelos entre a arquitectura de Chichén Itzá e da cidade de Tula, sua contemporânea do México central, induzem alguns estudiosos a supor que deve-se ter produzido uma invasão guerreira por parte dos toltecas sobre os itzá. Porém, em todas as partes do mundo encontram-se histórias de novas linhagens dominantes que tendem a legitimar a sua ascensão ao poder aludindo à sua origem exótica ou estrangeira, sem que se possa demonstrar essa procedência pretendida. Deve, por conseguinte, submeter-se à comprovação se estas reclamações se baseiam em invasões ou conquistas efectivas ou se trata simplesmente de colocar em relevo alianças matrimoniais ou de outro tipo com uma potência estrangeira, através das quais uma elite local tenta destacar-se por sobre os seus competidores locais.

06Yucatão

Edifícios de estilo Puuc em Chichén Itzá. Revista de Arqueologia Mexicana.

Acerca desta cidade, o célebre explorador inglês Stephens diz-nos que o nome Chichén é composto de duas palavras da língua maia: Chi que significa boca e chen, poço; de maneira que as duas palavras traduzem-se como “na boca do poço”. Quanto à sua segunda denominação, a da etnia itzá, vemos que Itz significa bruxo e á àgua; de modo que Chichén Itzá significa “na boca do poço do bruxo da água”. Os itzaes foram um povo que chegaram relativamente tarde ao Yucatão, quando já existiam numerosos sítios ocupados pelos maias, como a cidade de Chichén, que nessa altura talvez se chamava Uuc-yab-nal, ou seja: os Sete Abnal. A arquitectura singular e eclética de Chichén Itzá proporciona argumentos para defender as hipóteses de hegemonias que referimos anteriormente. Na zona Sul da necrópole encontram-se exemplos da arquitectura Puuc convencional, do mesmo modo que em outras zonas do Yucatão setentrional, como já vimos em relação a Uxmal e outras cidades. No caso de Chichén Itzá, este estilo pode ser observado no caso dos belíssimos edifícios da “Igreja” ou da “Casa das Monjas”. Num estilo mais híbrido e apresentando uma elegante forma circular, pode-se observar, perto dos edifícios mencionados anteriormente, o destacado observatório astronómico que tem como nome “El Caracol”.

04Yucatão

Zona arqueológica de Chichén Itzá. Fonte: Internet.

No entanto, no sector Norte da cidade predomina um estilo arquitectónico que tem sido denominado de maia/tolteca mas que pode bem ser considerado de “estilo internacional”, como os “atlantes” do Templo dos Jaguares, os chamados “altares chacmol” que tivemos oportunidade de observar em Tula, que na cidade maia se encontram no Templo dos Guerreiros, cuja zona frontal e lateral é ocupada por uma imensidão de filas de colunas que teriam suportado uma vasta cobertura. A pirâmide quadrada principal, conhecida como “El Castillo” e considerada, desde 2007, como uma das 7 maravilhas do mundo antigo, encontra-se destacada ao centro de uma grande praça, nesta zona Norte da cidade. A noroeste deste edifício dedicado a Kulkucan, o equivalente maia do deus Quetzalcoatl, encontra-se o maior campo de jogo de bola de toda a Mesoamérica, cuja base das paredes laterais apresenta a representação da cerimónia sagrada deste jogo, em que se enfrentam duas equipas com os seus sete jogadores cada uma, incluindo um capitão. No centro da cena apresenta-se uma grande bola de pedra com uma caveira falante dentro. Ao lado desta cena central observa-se uma cena de sacrifício por decapitação, muito semelhante à que vimos na sessão dedicada à cidade de El Tajin.

Não podemos deixar de referir o impressionante cenote sagrado, que se encontra mais a Norte da pirâmide de Kulkucan e que foi objecto de muitos rituais onde múltiplas oferendas foram lançadas, mesmo quando a cidade já não era habitada.

05Yucatão

Reconstituição de parte de um baixo relevo no Templo dos Jaguares de Chichén Itzá com a representação de guerreiros. Revista Arqueologia Mexicana, Março-Abril 2007.

A maioria dos investigadores afirma que Chichén Itzá manteve o seu firme domínio até ao período Clássico Final. Todos os dados disponíveis corroboram que se produziu um ataque militar a cargo de um grupo que procedia do Yucatão setentrional, suplantando e absorvendo a classe dominante local. Esta erupção estrangeira teve lugar nos primeiros anos do século XI e marcou o início do período Pós-Clássico. Ao que parece, os grandes centros de poder que até então haviam dominado no Norte, como Ek Balam e Yaxuná, forma submetidos nesta época mediante a intervenção armada deste novo e poderoso estado em expansão. A destruição dos edifícios e das instalações defensivas destes lugares, ocorreu paralelamente à conquista militar levada a cabo pelos invasores procedentes do estado Itzá.

As opiniões dividem-se sobre a região de origem da nova classe dominante dos itzá. As diferentes hipóteses assinalam desde as terras altas mexicanas – toltecas de Tula – passando pelos maias putun “mexicanizados” das costas do Golfo do México, até aos grupos de população dos estados das terras baixas meridionais em decomposição; que se destroçavam mutuamente numa série de conflitos bélicos.

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1-Maias

Dintel com inclusão de hieróglifos, Chiapas, México. Könemann, 2006.

O uso de uma escrita hieroglífica é a característica cultural mais importante que distingue o Período Clássico dos maias, vinda do período anterior. O nascimento da escrita hieroglífica nas planícies do Yucatão foi consequência de alterações sociais profundas que aconteceram com a ruína das grandes cidades Pré-Clássicas. O processo que finalmente conduziu ao ocaso das populações ainda não é claro. No entanto, está demonstrado que algumas cidades sobreviveram a essa violenta transformação, convertendo-se em pequenos núcleos que iriam originar a cultura Clássica Maia. Especialmente na zona central das terras baixas do Sul, em algumas localidades como Tikal, Uaxactún, Yaxhá e Xultún inclusivamente saíram reforçadas dessas revoluções.

Ao mesmo tempo que a escrita hieroglífica, durante a primeira Época Clássica desenvolveu-se uma nova instituição política: a monarquia hereditária. Enquanto a arte do Período Formativo era impessoal, expressando-se em forma de máscaras de deuses e símbolos cósmicos, ao iniciar-se o Período Clássico passou para um primeiro plano a representação de personagens históricos configurados individualmente. A tarefa dos escritos hieroglíficos e das obras de arte do Período Clássico consistiu em reafirmar as reivindicações do poder dos reis equiparáveis a deuses, na sua função como o centro do cosmos e de mediadores entre a humanidade e as divindades.

5-Maias

«Vaso dos coelhos». Pintura em vasilha que inclui hieróglifos; período Clássico-Tardio, 720-730 d.C. Könemann, 2006.

De facto, a escrita hieroglífica maia é o registo escrito, criado pelas civilizações da América pré-colombiana, mais próximo aquele que nós conhecemos. Contudo, não devemos assumir de forma conclusiva e precipitada que esta similitude de registo seja mais avançado do que o sistema pictográfico do centro do México ou os khipus andinos. De facto, estes dois últimos não dependem dos mesmos pressupostos constitutivos, baseando-se numa outra percepção de registo gramatical conseguindo, dessa forma aparentemente inferior, conter o mesmo grau de complexidade de informação que a escrita maia, tendo inclusive servido para registos de domínios políticos bastante mais abrangentes que o da própria civilização maia; nomeadamente o império Inca ou a extensa confederação acolhua-mexica. Na realidade, o que acontece com a escrita hieroglífica maia é que, para nós, ela possibilita uma série de informação que está ao alcance da nossa percepção, sendo interessante verificar que este sistema nunca extravasou as fronteiras culturais da civilização maia, mesmo para o México central, que teve sempre um ascendente político-cultural sobre os maias.

De qualquer das formas, o processo de descodificação dos hieróglifos maias passou por várias fases ao longo das investigações arqueológicas a que foi sendo sujeita. Em meados do século passado era inimaginável que algum dia se pudesse ler os textos maias, tendo sido qualificada com resignação como um “problema insolúvel”. Quando chegaram aos territórios maias, os invasores espanhóis encontraram esta escrita em pleno uso. Convencidos que esta era um obstáculo à sua conquista e evangelização, os espanhóis destruíram todos os testemunhos da cultura indígena. Esta apenas se manteve até ao ano de 1697 nas regiões remotas da selva, no Sul e centro da península do Yucatão. Apenas três manuscritos maias escaparam ao fogo, além dos registos encontrados na cerâmica ou nos edifícios e estátuas monumentais que fazem parte das ruínas desta majestosa civilização. As primeiras interpretações dos hieróglifos surgiram nas últimas décadas do século XIX a partir do estudo das tabelas de calendários representados no Códice de Dresde, que permitiu decifrar o sistema aritmético vigesimal e o calendário de longo curso, comprovando-se que os maias conheciam o conceito de zero e a sua importância. Mas, como tudo o que se conseguiu “ler” desta escrita eram datas de calendário e cálculos astronómicos, manteve-se a concepção dominante na segunda parte do século XX da sociedade maia como sendo constituída por agricultores pacíficos, governados por sacerdotes a observar o céu e a pensar no fenómeno do tempo.

3-Maias

Cerâmica decorada com a representação de um escriba trabalhando. Procedência desconhecida; Clássico-Tardio, 600-900 d. C. Könemann, 2006.

Os primeiros passos para descodificar outro tipo de registos foram alcançados pela historiadora de arte russo-americana Tatiana Proskouriakoff que localizou um hieróglifo de “nascimento” e outro de “entronização”, identificando como hieróglifo de “morte” o último signo de uma série de datas. Com o seu descobrimento demonstrou inequivocamente que as inscrições informavam da vida e da história de príncipes terrenos, facilitando uma visão da política e do poder das grandes cidades das terras baixas. Apesar desta revolucionária alteração de paradigma, que convertia uma sociedade “pré-histórica” num povo com uma história escrita, nem sempre se estava em condições de ler correctamente a escrita maia. A leitura de um texto significa definitivamente a sua recomposição linguística. Nesse sentido, conhecia-se a estrutura da escrita maia e articulavam-se os signos tal como faziam os maias do Período Clássico. Porém, seriam os hieróglifos maias uma escrita em que os signos correspondiam a sons linguísticos concretos? Os investigadores defendiam, até há poucas décadas, a tese que os caracteres remetiam a ideias de um modo pouco preciso. Será o arqueólogo e especialista em escrita, o russo Yurii Knozorov, apoiado mais tarde por investigadores norte americanos como David Kelley ou Michael D. Coe a demonstrar que a escrita maia era realmente um sistema formado por logo-gramas por um lado e por caracteres silábicos por outro, demonstrando que estes sempre se combinam entre si do mesmo modo para transcrever palavras maias. Desta forma a escrita maia é definida pelos especialistas como escrita logo-silábica ou “escritura mista”.

2-Maias

Variantes logo-gráficas e silábicas para a palavra ajaw – rei. Könemann, 2006.

O facto de que determinados signos possam ser lidos de diversos modos, complica mais a leitura dos textos hieroglíficos maias. Os escribas mais virtuosos acrescentavam a complexidade visual da escrita, para o qual não se limitavam a colocar os signos uns atrás dos outros, sendo que os sobrepunham ou inclusivamente encaixavam um dentro do outro, sem introduzir nenhuma alteração na leitura. Além de que havia muitos signos susceptíveis de se apresentar numa variante plena ou na sua forma abreviada. Quando um escriba caligraficamente ambicioso queria fazer do texto uma verdadeira obra de arte, conformava os signos como cabeças ou com figuras completas. A qualidade estética da escrita era muito importante para sublinhar o seu carácter sagrado. Ao contrário da maioria dos restantes sistemas de escrita, o sistema maia não foi produto da necessidade de assegurar as transacções comerciais, sendo desde o primeiro momento um meio utilizado para se dirigirem aos deuses ou para legitimar o poder dos reis, que se equiparavam a deuses. Os escribas que operavam a escrita hieroglífica, ocupavam uma posição social elevada e geralmente viviam e actuavam nas cortes reais. Segundo parece, da mesma forma que sucedia com outros povos mesoamericanos, entre os maias o domínio da escrita e, logicamente da leitura, ainda que fosse apenas passivo, formava parte da educação da aristocracia. Não se sabe de certeza se a escrita era dominada pela população rural; é muito pouco provável que assim fosse, pois não existem documentos escritos sobre a vida quotidiana das hierarquias sociais inferiores. Não obstante, possivelmente todas as pessoas podiam reconhecer o nome do soberano reinante na inscrição de uma pedra. O carácter gráfico de muitos hieróglifos facilitava seguramente o reconhecimento dos diversos signos.

4-Maias

Ilustração da escadaria de Cópan. Fonte: Internet.

Dos cerca de 800 signos da escrita maia, actualmente estão decifrados uns 300 e tem-se uma ideia mais ou menos precisa do significado de outros tantos. Sem dúvida que o idioma linguístico dos hieróglifos foi desenvolvido no Período Formativo por um grupo linguístico ch’ol, sendo esta a língua franca da aristocracia maia do Período Clássico e desfrutava de grande prestígio como língua escrita. Na realidade a escrita hieroglífica dispunha de muitas possibilidades estilísticas, não obstante, o carácter formalista e as incessantes repetições dos textos conservados produzem uma impressão de monotonia. São comunicados oficiais, propaganda real e crónicas. As formas expressivas narrativas e poéticas estavam ausentes, pelo menos nos monumentos públicos. No entanto, em peças de cerâmica pintada aparecem indícios de criações literárias perdidas e do amplo espectro de temas consignados por escrito em épocas anteriores. Estas peças eram concebidas para um âmbito privado, pelo que os artistas deveriam sofrer menos limitações. Nelas há pinturas em que aparecem homens conversando, de um modo muito similar às vinhetas da banda desenhada moderna, podendo-se observar umas linhas que ligam as falas hieroglíficas com as bocas dos falantes.

Não se deve esquecer que apenas se conserva uma pequena parte da riquíssima literatura maia. A humidade e o calor do clima tropical provocaram a perda de todos os suportes elaborados com material perecível, como as inscrições em madeira ou tecido. Actualmente contamos sobretudo com as inscrições em pedra, como as estelas comemorativas, altares, em painéis, em tronos ou em dintel. Os edifícios aparecem com inscrições e decoravam-se escadas inteiras, como a famosa estrutura de Copán, que tem mais de 2. 000 hieróglifos. Os textos eram realizados em estuque e colocados tanto no interior como no exterior dos edifícios; as paredes eram pintadas e as representações cénicas acompanhadas de anotações explicativas. Para além dos especialistas, os maias actuais da Guatemala e do México fazem sua a escrita hieroglífica para recuperar uma parte da sua identidade através dela, proclamando-se assim os herdeiros legítimos de uma cultura escrita milenária.

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A Yax Balam – Associação Cultural  sem fins lucrativos para a Divulgação da Cultura Maya
tem o prazer de convidar todos os interessados para assistir à Conferência  do
Prof Doutor  NIKOLAI GRUBE,UNIVERSIDADE DE BONA, ALEMANHA
OS MAYAS E A CIÊNCIA : SAÚDE E ASTRONOMIA
dia 24 de Novembro pelas 16:45horas

no Museu da Farmácia de Lisboa

Nikolai Grube é Doutorado (Ph.D.) em Estudos Precolombianos pela Universidade de Hamburgo, Alemanha. Leccionou como Professor Assistente em Bona, em Freiburg, e em Leiden (Holanda) e bem assim, foi o primeiro a leccionar a disciplina Epigrafia e Sistema de Escrita da Mesoamerica como Assistente de Linda e David Schele na Universidade do Texas em Austin.

É, desde o ano de 2004, Director do Departamento de Arqueologia e Antroplogia da Universidade de Bona, Alemanha. Especialista em Arqueologia e Escrita Hieroglífica Maya. Dirige o Projecto de Escavação Arqueológica de Uxul em Campeche, México, bem como o primeiro Projecto de Dicionário Interdisciplinar de Hieróglifos Mayas e autor de uma extensa obra editorial sobre a cultura Maya em centenas de artigos,  livros, revistas e edições especializadas.

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Mesoamérica 1

Zonas culturais da Mesoamérica. Mapa de Carlos Punta e Damian Sondereguer. Edições Corregidor, Argentina 2005.

As antigas culturas do México e a civilização maia abrangem a região bem individualizada conhecida pelos arqueólogos como Mesoamérica, designação proposta por Paul Kirchoff e que inclui, além do México, a Guatemala, Belize, São Salvador e as Honduras. Esta vasta área apresenta uma grande variedade ambiental, que vai desde pradarias baixas e selváticas até às regiões elevadas dos maciços montanhosos, com altitudes superiores a 5.000 metros. Isto gera uma multiplicidade ecológica de ambientes, apresentando uma grande variedade regional, tanto para os produtos naturais, como para os cultivados. Na sua geografia, destacam-se a Sierra Madre Ocidental e a Sierra Madre Oriental; duas cadeias montanhosas de origem vulcânica que seguem a direcção Este-Oeste, seguindo os litorais marítimos e gerando as bacias interiores. Além da diversidade ambiental, cada região apresenta uma longa sequência cultural em que se identificam as seguintes subáreas:

O Planalto mexicano, que é um extenso território demarcado pela Sierra Madre Ocidental e a Sierra Madre Oriental; primordialmente desértico, onde crescem distintos tipos de Cactáceos e a possibilidade de praticar a agricultora é quase nula, devido à baixa precipitação anual. A sua importância etno-histórica foi a de ser o território das tribos de caçadores chichimecas.

O Vale Central do México. A região mexicana mais importante, do ponto de vista cultural, foi o planalto do vale do México. Apresenta uma dilatada extensão e foi o centro do desenvolvimento das altas culturas hegemónicas mesoamericanas: Teotihuacan e a Mexica-Tenochca. É uma bacia demarcada pelas duas Sierras Madres e uma continuidade geográfica do planalto mexicano. A sua altitude está acima dos 2.800 metros e, nos cumes gelados mais altos, alcança os 6.000 metros. Desde tempos muito remotos, até 1.500 d.C., o vale esteve coberto por grandes lagos – sendo que o maior foi o lago Tetzcoco, situado no centro da bacia – rodeado por densos bosques de pinheiros e azinheiros que proporcionaram grandes oportunidades de caça e pesca.

Mesoamérica 11

O Vale de Oaxaca visto de Monte Albán. Fotografia de Tempo Ameríndio.

O Vale de Oaxaca. Este vale está situado a 200 km a Sul da Cidade do México. Com características fundamentalmente montanhosas e conformação de vales interiores é, na realidade, a confluência de três vales fluviais. Habitado desde tempos muito remotos foi, e ainda continua a ser, um dos territórios mais densamente povoados da Mesoamérica, tendo sido o assentamento de zapotecas e mixtecas.

A Costa do Golfo. Esta é uma região de terras baixas e pantanosas que bordeiam o litoral marítimo do Golfo do México. Dito território, hoje pertencente aos estados mexicanos de Veracruz e Tabasco, apresenta humidade e temperaturas elevadas. Zona muito rica em frutos silvestres, veados, pescado e tapires; também em resina de árvore-da-borracha, com a qual se fabricaram as bolas para o jogo ritual da Pelota; feito que teve importância económica para as sociedades ameríndias mesoamericanas. Nos tempos da invasão europeia, a Costa do Golfo era habitada ao norte pelos huaxtecas e no centro pelos totonacas.

O Ocidente mexicano. O território situado a Oeste do México, sobre a Sierra Madre Oriental, é uma região montanhosa e muito florestada que determina uma bacia com vários lagos de grande extensão. O mais importante, devido à sua riqueza em peixes favoreceu o assentamento humano, foi o lago Patzcuaro que está situado a 2.400 metros. Quando chegaram os espanhóis era a zona do povo tarasco ou purepecha.

Mesoamérica 2

A Região Maia. Mapa de H. A. Shelley. Cambridge University Press, 1982.

A zona maia. O território desta etnia corresponde a três sectores que apresentam dois ambientes distintos: o meridional, das terras altas. A central e setentrional, ambas de terras baixas. O território meridional, que inclui Chiapas, a costa do Pacífico, as terras altas da Guatemala e São Salvador, estão acima dos 300 metros e mostra uma cadeia montanhosa vulcânica que se estende do Sul de Chiapas até ao Sul da América Central. Nesta região iniciou-se a cultura maia; encontrando-se coberta por uma capa de terra fértil, amplos vales e estações definidas de chuvas.

A zona central, onde se desenvolveu a cultura Maia Clássica, estende-se de Tabasco e Sul de Campeche, no México, até ao departamento guatemalteco de El Péten, incluindo o Belize, Motagua e o ocidente das Honduras. Região de selvas com árvores majestosas que, para o Norte e o Oeste, a selva torna-se baixa e espinhosa.

A zona setentrional, onde finalizou a época Pós-Clássica, a cultura maia abarca os estados mexicanos do Yucatão, a Norte de Campeche e Quintana Ro. É um território característico de pedra caliça, de terreno plano, arvoredo baixo, poucos rios e de escassa chuva. A sua fonte de água mais importante foram os poços naturais ou perfurados – os cenotes – onde aflora a água subterrânea.

Tendo visto as diferentes áreas geográficas mesoamericanas, passemos agora às culturas pré-agrícolas e arcaicas desta vasta região.

Um dos restos humanos mais antigos encontrados na América, até este momento, é o de Tepexpan, perto da actual Cidade do México; data de 15.000 anos e pertenceu a um homem cuja fisionomia é concordante com a dos indígenas que actualmente vivem na região. Desde o Plistocénico até à colonização, existiu no vale do México, um grande lago concentrador das melhores e mais variadas reservas de caça para aqueles grupos residentes na cercania. O vale do México apresenta a característica de ser o ponto de encontro de duas tradições: a de Clovis, industria lítica de pontas acanaladas, difundida por toda a América do Norte, que alcançou regiões tão distantes como a Costa Rica e o Panamá. E a industria lítica de pontas lanceoladas, em forma de folha, que é originária da América do Sul. Por volta de 8.000 a.C. iniciou-se o período de grandes alterações climáticas, o desaparecimento da mega fauna e a extinção da forma de vida dos Grandes Caçadores.

Mesoamérica 3

Ilustração de Leonid Nepomniachi. Editorial México Desconocido, 2005.

A Etapa Arcaica que se seguiu, foi o período de adaptação dos grupos de caçadores-recolectores às novas condições ambientais e às distintas regiões ecológicas. No período compreendido entre a chegada dos primeiros grupos até 7.000 anos a.C., a base tecnológica e económica foi a de grupos caçadores, tendo certa importância a recolecção de frutos silvestres. Não se agrupavam em entidades maiores, pelo que o seu padrão social deveria ser o de pequenos grupos nómadas. Os alimentos vegetais aumentaram a sua importância à medida que a caça ia diminuindo. Encontraram-se restos de um milho silvestre que talvez tenha feito parte da sua dieta, juntamente com outras plantas colhidas que seriam cultivadas. Nestes grupos, observa-se que possuíam territorialidade e planificação na economia; pelo que se pode pensar que se juntavam em grupos maiores de acordo com as estações climáticas. Na fase seguinte, entre 5.000 e 3.400 anos a.C. mantiveram-se as mesmas características, no entanto com um incremento de plantas silvestres na sua dieta; recolecção de sementes, a horticultura de plantas variadas e uma escassa actividade de caça.

Por entre 3.400 e 2.300 a.C. surgiu a produção agrícola e o consumo de plantas silvestres. Aparecendo casas localizadas nas ribeiras dos rios e a maior quantidade de acampamentos faz pensar numa intensificação social dos grupos em grande parte do ano e uma fragmentação nas épocas de caça como complemento.

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A pirâmide circular de Cuicuilco. Ilustração de Sergio Corona. Editorial Trillas, México 2004.

Entretanto, o cultivo do milho, geneticamente manipulado ao longo de anos pelo homem, começa a ser plantado na região de Tamaulipas por volta de 2.200 anos a.C. Encontramo-nos pois no designado Período Formativo que termina em 1.400 a.C. e que demarca a transição entre a caça nómada e a agricultura sedentária. A este período seguiu-se o Pré-Clássico, sendo caracterizado por um incremento na especialização do trabalho, um rápido aparecimento de estruturas com carácter público e uma maior complexidade nos enterros. Apareceu a cerâmica e a metalurgia, assim como se aperfeiçoaram os elementos do trabalho e foram-se organizando os conceitos mítico-religiosos, conjuntamente com as estruturas cerimoniais e de habitação. No vale do México, estabeleceram-se grupos de agricultores sedentários que dispunham de cerâmica, tecido e um comércio estendido. A cultura do vale chegou à sua cúspide com o povo de Tlatilco, entre 1.000 e 400 a.C. As suas casas foram de paredes de barro e tectos de palha. Desenterraram-se mais de 200 tumbas com ricos adornos funerários. Para o final desta época, levantou-se a maior construção templária conhecida deste período, a pirâmide circular de Cuicuilco, de cerca de 20 metros de alto por 140 metros de diâmetro.

Entretanto, a origem da cultura no vale de Oaxaca pode ser localizada com base nos estudos arqueológicos realizados no vale que lhe dá nome. Estes apresentam uma larga sequência. Um primeiro período compreendido entre 8.000 a 1.500 anos a.C. mostra grupos de aldeões formando parte de uma cultura de recolectores incipientes e agricultores. Procediam de cavernas e refúgios, localizados em zonas rochosas perto de Mitla; região transitória entre o vale e a montanha. Aparentemente, tinham hábitos semi-nómadas, com deslocações de uma zona para outra, em distintos momentos do ano. Por volta de 1.000 a.C. a agricultura alcançou um pleno desenvolvimento no vale, ao Norte do actual estado de Oaxaca.

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Ilustração de Leonid Nepomniachi. Editorial México Desconocido, 2002.

As plataformas cerimoniais levantadas nessa época revelam influência olmeca; sem ser claro se a mesma foi difusão religiosa ou conquista militar. Estes primeiros assentamentos foram a base da posterior cultura zapoteca. Se bem que esta tradição denota, ao longo do tempo, uma morfologia própria, podem-se distinguir cinco fases; das quais a primeira e a segunda, denominadas Monte Albán I – que vai de 400 a 100 a.C. – e Monte Albán II – que vai de 100 a.C. a 200 d.C. – foram de clara influência olmeca.

Cerca de 400 a.C. a população havia crescido de forma considerável, dando lugar a rasgos de diferenciação social, centralização do poder político e intensa actividade cerimonial que os levou a edificar na elevação de Monte Albán o seu centro de culto. Na arquitectura prevaleceram as bases piramidais. Monte Albán I apresenta mais de 40 lugares rituais e Monte Albán II, que alcançou os 700 metros de comprimento por 200 metros de largura. A sua economia baseou-se na exploração de diversas zonas ambientais, juntamente com os cultivos temporais e a rega, provida por canais em pequena escala. Densamente povoado e com centros regionais de poder, parece que o vale nessa época estava fragmentado numa série de estados independentes, aliados por laços de matrimónio e comércio. Entre os sítios principais destacam-se: San José Mogote, que alcançou os 250 hectares, Dainzú e Ayoquesco. No final do período Pré-Clássico, erigiram estelas com datas que indicam um calendário ritual de 260 dias e um agrícola de 365 dias.

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Fonte: Internet.

O complexo e desenvolvido nível cultural alcançado na região maia durante o Período Clássico tem os seus antecedentes na última fase do Período Formativo, conhecido como Pré-Clássico ou Formativo Tardio. Na região da costa do Pacífico, teve relevância a cultura de izapan. Esta pode-se situar entre o Formativo Intermédio Olmeca e o Clássico Inicial Maia e a sua área de influência directa abrangeu da costa Sul mexicana do Pacífico até à Guatemala. Izapan é identificada por uma morfologia pessoal e complicada na representação das suas estelas, com uma difusão que abarcou o território compreendido entre Tres Zapotes até às planícies do Pacífico, Chiapas e Guatemala. Na etapa formativa erigiu-se o importante centro cerimonial de Izapa que contava com mais de oitenta montículos-templo, construídos com terra e pedras. Não se encontraram rastos de escrita nem datas de calendários, mas sim relevos talhados em pedra que mostram imagens históricas e mitológicas. A língua que falavam os seus habitantes não foi o maia mas sim um dialecto zoque.

Entre as suas divindades figurava um ser de lábios estendidos e nariz achatado, que mostra claras reminiscências do “homem-jaguar” dos olmecas. Izapa, com as suas estelas-altares assim como o deus que posteriormente se transformará em Chac, o deus maia da chuva, mostra já várias características típicas dos posteriores maias das terras baixas.

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Estela de Izapa de estilo olmecoide. Fonte: Internet.

Nos outros centros deste período, estendidos até ao oriente por terras guatemaltecas, encontraram-se inscrições de calendários. Uma delas é Abaj Takalik, região produtora de cacau e que apresenta vários montículos dispersos. Encontrou-se aí uma figura esculpida que mostra um “homem-jaguar” de tipo olmecoide e outras estelas similares às de Izapa.

No Monte Alto, situado sobre a costa do Pacífico, foram levantadas grandes esculturas, com rostos e mandíbulas inchadas, que se supõe terem procedido a cultura de izapa, estando conectadas com a cultura olmeca.

Situada na região que, a partir do Período Clássico se conhece como as Terras Altas dos maias, ergueu-se em Kaminaljuyú um importante centro cerimonial atribuído à cultura de Miraflores, que pelo seu tamanho e quantidade de montículos teve tanta relevância como Izapa. Aparentemente, os governantes desse período concentraram o poderio económico e político sobre grande parte dos territórios montanhosos, permitindo-lhes dispor da mão-de-obra dos camponeses para levantar uns 200 montículos-templo. O centro também contou com um lugar destinado ao jogo de bola.

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Zona arqueológica de Kaminaljuyú. Fonte: Internet.

Tiveram como costume enterrar as suas personalidades em sepulturas, cavadas desde a parte superior das pirâmides escalonadas, até alcançar o primeiro nível. As pirâmides foram construídas com barro e possuíam uma escadaria frontal, terminando numa cúspide aplanada onde se erguia o templo cujo tecto de palha repousava por sobre colunas. Os cadáveres eram envoltos em roupas finas, cobertos com cinábrio e sentados numa liteira de madeira; eram acompanhados por crianças e adultos sacrificados, além de ricas oferendas entre as quais se encontraram cerâmicas, máscaras, jade, entre outros.

Existem evidências de uma forte influência religiosa olmeca que deixou a sua marca sobre a população primitiva, sendo talvez a geradora do fervor construtivo para levantar mais de 2. 000 montículos.

 Talharam estelas e alguns dos glifos são nomes de deuses e pessoas. Existe um texto extenso, escrito num idioma desconhecido, que alguns estudiosos identificaram como o precursor do maia, pela similitude que apresenta.

A pátria originária da comunidade linguística maia, o ch’ol, encontrava-se também em Kaminaljuyú. A repentina emigração para Este de grupos linguísticos do vale de Kaminaljuyú que falavam esta língua, que se produziu no final da fase Santa Clara, entre 100 a 200 d.C., explica talvez o reforço de Copán e de outras cidades do mesmo âmbito linguístico. O feito de que os ch’ol abandonassem Kaminaljuyú esteve provavelmente relacionado com a expansão do grupo k’iche’, que deslocou do Norte e do Este das terras altas da Guatemala aqueles que falavam o ch’ol. Assim se pôde abrir o caminho da expansão por estas terras de novos grupos étnicos, como os poqom, os poqomchi’, q’eqchi e os mam. Estes grupos retomaram os anteriores habitantes que falavam o ch’ol, dividindo-se posteriormente em novos subgrupos.

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Fragmentos da estela de Miraflores, em Kaminaljuyú. Editorial Verbo, Lisboa 1968.

 As classes altas de Kaminaljuyú não só falavam o mesmo idioma do que os maias das terras baixas, como possuíam a mesma estrutura social, com um soberano divinizado no seu centro sociopolítico. O grande tamanho de sepulturas e a enorme quantidade de objectos funerários demonstram a aparição de estruturas hierárquicas na transição de uma sociedade primitiva e outra estatalmente organizada. Houve um sistema muito organizado de distribuição dos bens em forma de tributos que, em fases posteriores da evolução social se redistribuíram em grandes festas públicas.

Os indícios da existência de instituições administrativas oficiais de segunda ordem, fazem pensar que na cidade de Kaminaljuyú existia uma organização fortemente centralizada. Havia instituições de controlo e administração dos recursos hídricos e das instalações de rega, assim como centros secundários dedicados à organização do comércio com os vales próximos da costa.

 Em todos os assentamentos situados sobretudo nas antigas rotas comerciais olmecas – Abaj Takali, Chocolá, El Baúl, Chalchuapa, entre outras – encontraram-se monumentos com textos hieroglíficos que, apesar de ainda não terem sido decifrados, se parecem pela sua forma e pela sua sintaxe aos textos em língua ch’ol encontrados em Kaminaljuyú. Deste facto, depreende-se que nas terras altas da Guatemala houve, durante o Período Formativo Tardio, uma cultura florescente que não se distinguia nas suas manifestações, sobretudo linguísticas, com as culturas das terras baixas.

Kaminaljuyú começou a declinar por volta de 200 d.C. ficando em ruínas até à penetração de grupos mexicanos de Teotihuacan nos inícios do Período Clássico, momento em que o centro recuperou o seu antigo esplendor.

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Estela diante estrutura piramidal do início do Período Clássico. Fonte: Internet.

 A região das terras baixas compõe-se de extensas selvas que abarcam o território central e setentrional da Guatemala, onde houve um extraordinário florescimento cultural. A região do Petén foi ocupada por sociedades de economia agrícola que levantaram no meio da selva grandes centros cerimoniais. Estes povoadores, conhecidos como a cultura chicanel, tiveram relações com Altar dos Sacrifícios no Petén, Barton Ramie e Cerros no Belize; grande parte da península do Yucatão no México, assim como com Copán e Los Naranjos nas Honduras. Por sua vez, algumas das características culturais mostram diferenças com os seus parentes do Sul. A região, rica em pedra caliça, forneceu a matéria-prima para obter cal e uma superfície pouco dura para talhar relevos ou blocos para construir os edifícios. Com estes materiais disponíveis – pedra e cal – puderam levantar construções arquitectónicas que, por volta de 100 a.C. a 150 d.C. alcançaram uma grande complexidade. Uaxactún e Tikal, este último o mais extenso da zona maia, foram dois centros de grande importância onde se construíram grandes pirâmides-templos. Algumas das tumbas encontradas em Tikal, provam que a nobreza Chicanel também foi sepultada com grande luxo. Neste caso os enterros contêm apenas um indivíduo colocado em posição erecta, envolto em pano e acompanhado por uma grande quantidade de artigos com máscaras de jade e cerâmicas.

 No final do período Chicanel apareceu um novo culto, o das cabeças troféu, associadas com sacrifícios humanos e talvez vítimas de guerra; possivelmente trazido por mercadores ambulantes e guerreiros da região meridional centro americana.  No início do Período Clássico os templos-sepultura foram levantados em torno de praças, sem encontrar-se monumentos datados. A cerâmica mostra elementos intrusivos provenientes de El Salvador. Não se encontraram monumentos datados mas a escrita já se faz presente nas vésperas do Clássico, proveniente de Izapa e, por sua vez, derivada da cultura olmeca.

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Puuc 1

Edifício conhecido como a “Igreja”. Arquitectura de Chichén Itzá, Yucatão, México, Clássico Final.

É durante o Período Clássico inicial quando aparece o estilo Puuc, juntamente com outros como o Chenes, Petén, Palancano, Rio Bec e Mexicano. A região geográfica Puuc estende-se desde a zona Norte do estado de Campeche até ao estado do Yucatão. Segundo Alberto Ruiz, esta região é melhor conhecida como La Milpa; por se caracterizar pela sua aptidão para a agricultura, apesar do seu clima quente e seco. Aqui, existem sérios problemas de água, já que a ausência de rios é evidente; de qualquer forma pode-se encontrar em alguns sítios depósitos de água conhecidos como “cenotes”. A topografia desta região caracteriza-se por extensões planas de terra povoadas por vários tipos de arbustos e matagais.

Os conhecedores afirmam que a cultura maia se desenvolveu ao mesmo tempo nas zonas Norte e centro da península do Yucatão e que a diferença dos estilos se deve às diversas influências que tiveram, devido a incursões de outras culturas como a teotihuacana, zapoteca e tolteca entre outras. Mesmo assim, podemos dizer que o estilo arquitectónico do Puuc se caracteriza por ser único, tendo sabido adaptar de outras culturas certos perfis para transforma-los num estilo próprio de grande força e com uma criatividade muito própria, enraizada profundamente na tradição maia. Desta forma a arte Puuc ressalta nas suas edificações pela decoração escultórica que os adorna e pelo vigoroso conteúdo estético e religioso, ao conjugar harmoniosamente imagens simbólico-religiosas como as máscaras do deus Chaac, serpentes, jaguares e figuras humanas; com formas puramente decorativas, tais como gregas, colunas, choças e gelosias, numa acentuação da horizontalidade do volume arquitectónico por meio de frisos e molduras.

Puuc 2

Estes complexos arquitectónicos são resultado e, por sua vez, o símbolo da transformação registada na sociedade maia das terras do Puuc, no decurso das etapas tardia e final do período Clássico, entre 600 e 900 d.C. No mesmo momento em que estavam a ser abandonados a maior parte das cidades das terras baixas; muitos dos assentamentos Puuc e suas dinastias tiveram a capacidade de manter de pé as suas antigas tradições. Este período que os arqueólogos denominam de Clássico Terminal, caracteriza-se por um grandioso florescimento da arquitectura e da arte, paralelamente a uma enorme decadência, que provocou alterações políticas decisivas preparando terreno para a erupção do período Pós-Clássico.

Comparadas com as de outras regiões das terras baixas maias, os povoamentos das cidades Puuc concentravam-se em torno de um núcleo, de onde derivava uma densidade demográfica relativamente elevada. Apesar disso, também aqui cerca de 70% do perímetro urbano estava despovoado. De qualquer maneira, apenas se pode falar de terreno desocupado, porque o solo estava destinado a diversos usos, como por exemplo o cultivo agrícola, produção e armazenamento de víveres e actividades de olaria. As hortas domésticas de exploração intensiva e os campos circundantes eram um componente básico da paisagem urbana e serviam para o auto-abastecimento da população. Assim, torna-se perfeitamente lícito qualificar os centros urbanos da região Puuc de cidades-jardim, dado que grandes extensões do solo urbano estavam destinadas a hortas, cultivo de legumes e hortaliças de cuidados intensivos, plantas de adorno e inclusivamente campos de milho, feijões e abóboras.

Os grandes centros do Puuc competiam entre si pelos solos mais aptos para a agricultura. Ao longo do século IX d.C. várias cidades-estado rivais repartiram a parte norte-oriental da região. Os centros destas cidade-estado podiam ser relativamente pequenos, como Labná, um assentamento de 2 a 3 km2, como também cidades relativamente grandes como Yaxhom e Uxmal.

Puuc 3

A “Rainha de Uxmal”. Na realidade trata-se de um deus cuja cabeça emerge da boca de uma serpente mitológica. Fonte: Internet.

Em muitos dos principais centros do Puuc oriental foram descobertas estelas. Das imagens e textos destas, depreende-se que a estrutura política era orientada para a centralização do poder. Da linhagem aristocrática dominante de uma cidade, elegia-se um membro que governava a comunidade como senhor supremo. É possível que, como ocorria em outras cidades do Clássico Tardio, os dirigentes do Puuc compartissem – dentro de certos limites – o seu poder político e económico com os chefes das casas aristocráticas competidoras.

Como visão geral e resumida das cidades que conformam a zona Puuc, iremos apresentar uma descrição sumária de cada uma delas, começando por Uxmal. Fundada por volta de 500 d.C., a consolidação desta cidade ocorre durante a fase final do esplendor da cultura maia, entre os anos de 600 e 900 d.C. O seu nome, Uxmal, quer dizer “a que foi três vezes edificada” e segundo textos de fontes maias, consignados por escrito nos séculos XVI e XVII, estabelece-se uma conexão entre a fundação da cidade e a aparição da dinastia étnica Tutul Xiue. Nesse tempo, Uxmal era um assentamento relativamente pequeno. Ao longo do século IX Uxmal foi mais um dos numerosos centros que competiam pelo domínio da região. No início do século X d.C. a cidade impôs a sua hegemonia em todo o território do vale de Santa Elena e possivelmente mais além.

A secção principal do centro cerimonial de Uxmal ocupa uma extensão aproximada de um quilómetro de largura por 600 metros de comprimento, sendo que no traçado geral da cidade encontramos a Pirâmide do Adivinho que remonta a 1010 – 1090 d.C. A sua forma invulgar, já que arredondada, deve-se às várias sobreposições arquitectónicas que sofreu ao longo da sua existência.

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Panorâmica do quadrangulo das “Monjas”, a partir do sudoeste, mostrando à direita a pirâmide do “Adivinho”. Arte Prehispánico en Mesoamérica. Paul Gendrop, Editorial Trillas, 2004.

Em Uxmal e nas cidades “aliadas” de Nohpat e Kabah começaram-se a construir em finais do século X d.C. edifícios monumentais. Nesta época foram impulsionados na cidade ambiciosos projectos arquitectónicos nunca realizados até então. Tomou parte desta actividade construtora o Palácio do Governador, erguido sobre uma plataforma formada por uma das maiores pirâmides das terras baixas maias, cuja execução exigiu seguramente muita mão-de-obra. O palácio unia em si a função de residência real e de popol naah ou edifício para as assembleias da nobreza. Esta obra espectacular foi executada por ordem do príncipe Chan Chaak K’ak’nal Ajaw. A este soberano de Uxmal relaciona-se também com a construção do campo de jogo de bola 1, do chamado Convento ou Quadrângulo das Monjas e de outros edifícios, todos eles levados a cabo entre os anos de 890 e 915 d.C.

O Quadrângulo das Monjas é uma magnífica expressão do poder político desta cidade e do seu senhor. O complexo de edifícios configura, definitivamente, um cosmo grama do universo maia de proporções gigantescas. As alas do edifício elevam-se em três níveis diferentes. A mais baixa é a do Sul; está adornada com símbolos do mundo inferior, relacionando-se iconograficamente com o deus Itzamnaaj. A construção está unida arquitectonicamente com o campo de jogo de bola 1, entrada simbólica para o mundo inferior nos cosmos maia. A ala Norte ocupa um nível mais elevado que o resto do Quadrângulo das Monjas e foi decorada com símbolos celestes; a sua denominação iconográfica é chan-naah ou casa do céu. As alas Este e Oeste foram construídas num nível intermédio e correspondem ao mundo central do universo maia. A ornamentação do edifício oriental é dedicada à criação do mundo, enquanto o interesse principal da ala ocidental se situava nos temas da guerra, os sacrifícios, a morte e o renascimento. O centro deste edifício estava ocupado por uma gigantesca estátua em forma da coluna wakaj chan ou a árvore do mundo e por um trono-jaguar ou altar-jaguar, que representava a mítica pedra fundamental do lugar cósmico. Em conjunto, os elementos do Quadrângulo das Monjas resultam num diagrama gigantesco e complexo do cosmos maia, cujo ponto central é constituído pela árvore e a casa cósmica.

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“El Palomar”. Fonte: Internet.

O grupo conhecido como El Palomar identifica-se desta forma pelos ornamentos rendilhados na sua cobertura. Este edifício foi destinado ao ensino superior e à preparação de guerreiros. Aí se hospedavam tanto os estudantes internados como os arquitectos e os artistas mais destacados.

A transformação de Uxmal de cidade provinciana a estado regional implicou, sem dúvida, um processo marcado pela violência. Na arte e ornamentação arquitectónica de Uxmal, Kabah, Oxkintok e outros lugares nos decénios em torno de 900 d.C. predominam os temas bélicos. A estela 14 de Uxmal, onde se podem ver, debaixo do soberano Chaak, prisioneiros atados e despidos, é mais um exemplo típico. A cena dotada de maior força expressiva para descrever esta situação é, provavelmente, a que oferece as imagens murais de um pequeno lugar chamado Mulchic, perto de Nohpat. O fresco mostra guerreiros com trajes sumptuosos que atacam outros homens, fazendo-os prisioneiros, sendo finalmente sacrificados. Alguns dos representados nas criações artísticas desta época são assombrosamente parecidos com guerreiros itzá da arte contemporânea de Chichén Itzá. É possível que nas inscrições de Uxmal se mencionem algumas personalidades importantes da dita cidade, o que reforçaria a hipótese de que o soberano Chaak e outros senhores de Uxmal mantivessem uma espécie de aliança com Chichén Itzá, podendo alistar guerreiros itzá nas suas campanhas bélicas. Porém, em todo o caso, admitindo-se a existência desta aliança, é claro que se quebrou em pouco tempo, porque mais tarde, pelo ano de 950 d.C. Uxmal era já uma sombra de si própria. Aparecem, de facto, objectos cerâmicos da chamada “esfera Sotuta” arqueologicamente relacionados com Chichén Itzá, assim como pequenos edifícios em forma de “C” no estilo desta cidade dentro e em torno do Quadrângulo das Monjas, na plataforma do Palácio do Governador e em outros lugares importantes da capital. Também se vê claramente que existem personagens itzá tomando parte nos ritos de consagração de alguns edifícios de Uxmal e no templo Redondo. Não puderam concluir-se os trabalhos de várias obras monumentais iniciados em Uxmal. A posterior construção de uma muralha em torno da cidade insinua que os habitantes de Chichén Itzá teriam submetido pela força Uxmal e que os maias da região Puuc se defenderam vigorosamente contra os seus atacantes.

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Reconstrução de um extremo da fachada do “Codz-Poop”. Desenho de Juan Artigas Hernández.

Dentro da rota Puuc, temos também a cidade de Kabáh, conhecida paralelamente como o Palácio das Máscaras ou Codz-Poop. Esta construção apresenta na sua fachada principal o deus narigudo, mais conhecido como Chaac, o senhor da chuva e da agricultura. No sacbé – ou calçada cerimonial, denominação maia para os caminhos construídos que, neste caso ligava Kabáh com Uxmal – encontra-se um formoso arco construído à base de pedras.

Continuando o nosso périplo, encontramos o templo de Xlapak, que representa genuinamente o estilo Puuc. É uma edificação alargada de forma paralelepípedo, baixa, seguindo a linha horizontal, com as suas fachadas de muros lisos e frisos ricamente decorados; aqui também encontramos como elemento decorativo o uso de colunatas.

No decurso de escavações intensivas foi possível fotografar exaustivamente a cidade de Sayil, nas colinas de Bolonchén. O perímetro desta povoação urbana abarca cerca de 5 km2, tendo albergado entre 7.000 a 8.000 habitantes. Formam parte da urbanização alguns grupos de edifícios monumentais de pedra, unidos entre si por calçadas cerimoniais, também estas realizadas em pedra e estucadas posteriormente. Como já referimos, a mais impressionante das construções de Sayil é o Grande Palácio ou “Casa Grande”, cujas obras duraram seguramente de 100 a 200 anos. Com toda a probabilidade, este edifício era a residência oficial da família reinante ou da linhagem aristocrática mais poderosa do lugar, sendo portanto utilizado também como centro administrativo.

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O “Grande Palácio” de Sayil, visto do sudoeste. Los Mayas. Nikolai Grube, Könemann, 2006.

Sayil situa-se num grande vale de solo muito fértil, com declives irregulares. Admite-se a hipótese de que a cidade estendia o seu raio de influência sobre uma área de mais de 70 km2. Entravam na sua esfera de influência política vários pequenos povoados. Em alguns casos, a situação destes justifica a suspeita de que foram fundados expressamente para poder explorar uma maior superfície de terras férteis, situadas a longa distância de Sayil.

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O grande arco de Labná com a pirâmide do Mirador, ao fundo. Yucatão, México. Fonte: Internet.

Por último, nesta brevíssima súmula, encontramos a cidade de Labná e o seu impressionante e formoso arco. Este majestoso palácio foi construído buscando uma simetria quase perfeita, de tal maneira as colunatas, frisos, máscaras do deus Chaac e gregas são de tamanhos tão proporcionados. Nas suas esquinas sobressaem enormes goelas abertas de serpentes, de onde emergem rostos humanos. Destacando-se do resto do edifício, encontra-se a Pirâmide do Mirador; subindo a sua escadaria central, os homens encontravam-se mais perto dos deuses, contemplando o eterno mistério do mundo.

Aproximadamente na época em que a cidade estado de Uxmal foi destruída ou abandonada, registou-se uma crescente despovoação da região oriental do Puuc. Não se tratou, ao que parece, de uma migração precipitada e repentina. Assim, por exemplo, em Kabah, com uma população urbana reduzida, continuaram a construir-se edifícios monumentais, ainda que de dimensões mais modestas, até provavelmente ao ano de 1050 d.C. Em Xkipché vivia um pequeno grupo residual da povoação de amplas zonas afastadas do centro que derrubou edifícios antigos para reutilizar os materiais. A área do Puuc oriental ficou totalmente abandonada nos primeiros anos do século XI d.C. Tão dramática desolação indica claramente que este território esteve despovoado pelo menos durante algum tempo. Se tivermos em conta que os habitantes destas zonas dependiam totalmente da água da chuva, a explicação mais provável para o abandono daquelas terras foi uma seca pertinaz. De facto, cada vez mais dados paleoecológicos reforçam a hipótese de que vários períodos de secas regionais prolongadas, durante o período Clássico Final, converteram em deserto algumas partes das terras baixas dos maias.

Chama a atenção o facto de que inclusivamente durante o período Pós-Clássico, quando a região oriental ficou abandonada, subsistiram no Puuc ocidental alguns centros habitados e que algumas cidades importantes puderam sobreviver até ao século XI d.C. É evidente que em numerosos pontos do Oeste a evolução política caminhava por direcções claramente diferentes aos do Puuc oriental.

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Sacrifícios 0

Este é um tema muito sensível no entendimento ou reconhecimento de outras culturas, mesmo que estas se tenham diluído, ao longo do tempo,  continuam a levantar questões em que, não raras as vezes, o preconceito suscita a recusa. Baseado sobretudo num artigo da autoria de Michel Graulich, publicado na revista  Arqueología Mexicana, Vol. XI – Núm. 63, este post pretende apenas servir de introdução a uma das questões, provavelmente, mais polémicas das sociedades da América antiga. Aliás, no centro da justificação política de Hernán Cortés, para concretizar a invasão do México, estava precisamente o argumento de que era necessário terminar com os sacrifícios humanos. Naturalmente, nem o próprio “conquistador” ou mesmo o público mais generalista teria em consideração – mesmo que por motivos diferentes – as contingências da relatividade cultural ou mesmo dos processos da consciência apropriadora que não deixam espaço ao reconhecimento do casualismo, em função do outro. A indignação, aqui, é tão natural como hipócrita pois os casos da respeitabilidade em relação à vida são mais do foro dos cânones morais do que processuais. Talvez como melhor exemplo, no quadro de padrões de vivência cultural, poderíamos sublinhar a abordagem dos códigos de conduta e honra dos samurais japoneses, para termos um claro exemplo de um processo de auto-sacrifício letal, assumido de forma, se não voluntária, sociológicamente enquadrada. E este não é um exemplo longínquo na história da humanidade. O auto sacrifício, pelo fogo, tem sido recentemente a forma pela qual os tibetanos clamam a atenção para a sua situação insustentável, face à brutal ditadura chinesa. De sublinhar que esta atitude extrema, inclusivamente, afirma-se à revelia dos princípios do próprio budismo. Neste quadro, em que a dádiva da própria vida se apresenta como argumento e expressão última de uma identidade, muitos outros exemplos poderiam ser referidos que contrariam uma imagem idealizada, pelo ocidente, do valor da vida. Cortés, para acabar com os sacrifícios no México, foi o agente de um genocídio (iniciado por Cristóvão Colombo nas Antilhas) e na qual seria pertinente ver reflectida uma cultura que se baseia numa moral de massacre, aparentemente a título de justiça, mas que no fundo não consegue esconder o rosto da sua cobiça e inutilidade humanista.

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A luta do jaguar, um evento gladiador para propiciar a chuva, encenando-se com as datas associadas ao início do calendário agrícola. Os participantes estão conscientes de que os jaguares lutam para que a dor, o sofrimento físico e o eventual sangue derramado sejam oferendas para que a divindade lhes conceda a chuva e seus benefícios. México, Zitlala, 5 de Maio de 2008.

O sacrifício humano na Mesoamérica está documentado de forma muito desigual. Sabemos muito mais sobre o Pós-Clássico (900-1500 d.C.) do que sobre os períodos anteriores e conhecemos melhor o Pós-Clássico no planalto central mexicano do que em outras regiões. Para o Pré-Clássico (1000 a.C.-300 d.C.) e o Clássico (300 d.C.-900 d.C.) devemo-nos conformar com os dados proporcionados pela arqueologia e a iconografia, além do pouco que dizem a esse respeito as inscrições dos maias. Pelo contrário, para o Pós-Clássico temos uma grande quantidade de fontes escritas. O Popol Vuh, o livro sagrado dos maias-quiché, tem um interesse acrescido porque algumas variantes dos mitos que contem encontram-se, até aos nossos dias, em várias zonas da Mesoamérica. Também, porque segundo alguns especialistas, esses mitos aparecem em cerâmicas do período Clássico. Isto, conjuntamente com muitos outros elementos, mostra a grande continuidade das tradições religiosas mesoamericanas. Se queremos compreender o sacrifício humano devemos apoiar-nos nessas fontes, em particular nas do México Central, pois como afirmou o frade Bartolomé de las Casas: “… a religião de toda a Nova Espanha por mais de oitocentas léguas em torno é toda quase uma, dentro das quais se compreendem as províncias da Guatemala, Honduras e Nicarágua”; de facto, quase uma, já que existem muitas variantes e até concepções teológicas diferentes, inclusivamente entre os mexica.

Sacrifícios 2

Pormenor do painel do jogo da bola em Chichén Itzá que representa os jogadores durante o sacrifício. Do pescoço, da personagem decapitada à direita, brotam seis cabeças de serpentes e um motivo vegetal, símbolos de sangue que irão propiciar a renovação da vida e da vegetação.

Encontraram-se enterros de indivíduos com vítimas sacrificadas pertencentes, pelo menos, ao Pré-Clássico Médio. Num relevo de 700 a.C. localizado em Chalcatzingo, estado de Morelos, podem-se ver prováveis sacrificadores, assumindo-se como seres sobrenaturais, que se dirigem, envergando clavas, até um prisioneiro atado; o pénis quase erecto da vítima e uma rama de milho sugerem um sacrifício de fertilidade. Em Izapa, Chiapas, numa Estela dos princípios do Clássico associa-se o sacrifício por decapitação também com a fertilidade, como indicam as folhas com grãos que brotam do pescoço cortado. Na costa do Golfo e em Chichén Itzá, no Pós-Clássico Inicial e entre os nahuas, já no Pós-Clássico Tardio, o que derrama do pescoço como símbolo da fertilidade são serpentes. Em Teotihuacan, a grande metrópole do período Clássico, o sacrifício por extracção do coração foi uma prática importante, como se observa na sua pintura mural. Algumas Estelas maias dessa época oferecem testemunhos de sacrifícios de reis vencidos. A prática de expor os crânios de sacrificados em pequenas plataformas observa-se em Huamelulpan, Oaxaca, no princípio da nossa era e em sítios posteriores como Cópan, Honduras, e Uxmal, no Yucatão. Estes tzompantli alcançaram grandes proporções – inclusivamente maiores que as dos posteriores em México-Tenochtitlán – em Tula, Hidalgo e em Chichén Itzá durante o Pós-Clássico Inicial, o que sugere um auge sem precedentes no sacrifício de guerreiros.

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A pirâmide do sol em Teotihuacan. Na realidade esta estrutura era dedicada ao deus Tlalóc, senhor da água e das chuvas. Fonte: Internet.

No Pós-Clássico, o sacrifício humano era um ritual que se havia praticado durante milénios; porém, como se justificavam estas matanças, por vezes em grande escala? Os mitos e rituais no México Central e dos maias permitem-nos compreender a ideologia desta prática e revelar os seus múltiplos níveis de significação. Na base de tudo está a noção de dívida. Uma criatura deve a vida, assim como tudo o que torna possível viver, aos seus criadores. Deve reconhece-lo e pagar a sua dívida, tlaxtlaua em nahuatl, mediante a oferenda de incenso, tabaco, alimentos, inclusivamente o seu próprio sangue, o que representava uma obrigação maior, segundo um mito mixteca. Os primeiros sacrifícios – ou seja, aqueles em que se deu morte ao oferecido – foram dos próprios deuses. Os filhos do casal primogénito cometeram uma transgressão ao criar ou tirar a vida sem a permissão dos seus pais, igualando-se dessa forma com eles. Em algumas fontes nahuas ou maias-quiché mencionam-se várias transgressões, entre elas: expulsar um irmão pedernal recém nascido do paraíso celestial; destroçar o monstro telúrico; cortar a flor ou a fruta de uma árvore, ou seja, procriar; jogar o jogo da bola ou criar fogo com pauzinhos – o movimento associado a estas duas últimas actividades é, em si mesmo, criador. Os deuses transgressivos, expulsos do céu, são enviados à terra, à tenebrosidade; de ligeiros que eram tornam-se pesados e materiais. Criam homens para o seu serviço, porém não lhes agrada viver na terra com os homens. Para obter de novo a sua vida sem fim no paraíso perdido, dois deles lançam-se ao fogo, destruindo assim o seu pesado corpo. Como a vida pode renascer da morte, emergem como o Sol e a Lua e são acolhidos com satisfação. No entanto, esta reconquista do paraíso perdido é apenas parcial, porque cada vez que decorre uma era, idade ou Sol, tornam-se mais pesados e necessitam de ser vivificados. Simultaneamente tornam-se no “mais além” de felicidade para os beneméritos: os guerreiros vão para “a casa do Sol” e outros, os elegidos por Tlaloc para o paraíso das águas. Ou seja, a própria permuta existencial, por ser metafísica, envolve directamente deuses e homens na criação da regulação do universo; que poderia ser interpretado como um eterno retorno, ou equilíbrio de energias instáveis, entre o visível e o invisível. De acordo com algumas versões mexicas, os próprios deuses oferecem os seus corações e sangue para alimentar o Sol.

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O culto de Xipe Totec (o senhor esfolado) foi proeminente em várias culturas mesoamericanas do Pós-Clássico porque se relacionava com a terra e a renovação da vegetação e agricultura. Durante o festival de Tlacaxipehualiztli, realizado antes da estação das chuvas, prisioneiros ou escravos eram sacrificados pela extracção do coração. Os corpos eram então esfolados e sacerdotes usavam as peles por vinte dias.

No essencial, poderíamos dizer que o sacrifício humano era expiação e um meio de destruir o corpo-matéria para sobreviver depois da morte. Desta maneira o confirma as palavras das vítimas libertadas por Pedro de Alvarado antes do massacre por este perpetrado na festa de tóxcatl: diziam que queriam morrer para ir para a casa do Sol. Tratava-se de um meio, também, para alimentar os deuses e vitaliza-los, se bem que isso poderia ser feito com animais ou outras comidas, como incenso, ervas, flores, papel… Além do sacrifício de guerreiros, possivelmente uma característica mais acentuada dos estados militaristas do Pós-Clássico, havia também o das imagens ou representantes, ixiptlas, dos deuses, vulgarmente escravos que recebiam um banho ritual de purificação, crianças, para os deuses da chuva e das montanhas; raparigas da nobreza; condenados por diversos crimes; voluntários, etc. De facto, estas vítimas “eram” os deuses que morriam e que através delas renasciam mais fortes e rejuvenescidos. No entanto, deve sublinhar-se que muitos dos deuses eram, eles próprios, ixiptlas de outra coisa: a água, a terra, o fogo, o milho, os astros, talvez sendo todos estes elementos os que na realidade eram regenerados e vivificados.

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Tepetlacalli ou uma caixa de pedra destinada a conter objectos associados ao auto sacrifício. O ritual de derramar o seu próprio sangue permitia aos praticantes dialogar com os deuses. As pessoas aprendiam a derramar sangue, de zonas específicas do seu corpo, desde a sua infância.

Os deuses morriam através das vítimas humanas e o mesmo ocorria com os sacrificantes, aqueles que ofereciam a vítima. Sahagún confirma este ideal ao explicar que “… o senhor do prisioneiro não comia da carne porque fazia de conta que aquela era a sua própria carne, porque desde a hora em que o aprisionou o tinha como seu filho, e o cativo tinha o seu senhor como pai”, ou seja, o filho era a ixiptla do pai. Ao morrer simbolicamente através da sua vítima, o sacrificante aumentava o seu fogo interior, aliviava-se e obtinha uma existência feliz depois da morte. A maior parte das imolações de homens realizava-se ao longo dos ciclos festivos dos meses do calendário solar e do calendário ritual de 260 dias, muitos dos quais eram “aniversários” dos deuses. As festas do ano solar eram especialmente importantes porque nelas se recriavam diversos aspectos – consoante a cidade – da cosmogonia mesoamericana: a expulsão do paraíso, a criação da terra e o nascimento de Vénus e do milho, as migrações dos povos nas penumbras, o sacrifício do Sol e da Lua, a sua vitória no mundo subterrâneo. Depois recriavam-se  a saída do Sol e a primeira guerra para alimenta-lo, festa que era ao mesmo tempo a da colheita do milho para os homens e a colheita de guerreiros para o Sol e a Terra. Posteriormente vinham as recriações do paraíso perdido e da transgressão que coincidia com o por do Sol, o qual penetrava na terra e a fecundava – para os nahuas morrer significava “ter parte com a Senhora Terra”. Nessas celebrações morriam e nasciam de novo quase todos os deuses – com excepção do casal criador, que não recebia culto por parte dos homens, ocupando-se unicamente em criar chispas de vida. Uma mesma vítima podia morrer para expiar e sobreviver no além; para fazer morrer e renascer uma divindade e o que a encarnava, assim como ao seu próprio “senhor”, o seu sacrificante; para alimentar e “vivificar” uma divindade; para suster a abóbada celeste; para fecundar a terra; para aplacar os deuses, dar-lhes graças, reconhecer a sua superioridade e tornar manifesta a dependência  do homem no seio de um universo instável.

Sacrifícios 5

O representante de Tezcatlipoca passeia pelo mercado, seguido pelos seus quatro acompanhantes. Esta ixiptla gozava de um ano de vida muito privilegiado, antes de ser sacrificado. Na cabeça ostenta plumas brancas de águia, símbolo da sua condição e destino.

Poderíamos dizer que estes rituais faziam parte de uma performance pública e que entre os actores do sacrifício se encontravam os seus propiciadores, como os guerreiros; mercadores, ricos artesãos e outros particulares; representantes dos calpullis ou corporações, reis. O Estado, que tinha a seu cargo o custo das guerras, também oferecia em diversas ocasiões vítimas, as quais eram parte do tributo de outras cidades. No entanto, geralmente as vítimas eram capturadas durante as guerras de conquista ou eram compradas por indivíduos que recebiam apoio da sua família e do grupo ao qual pertenciam. Os sacrificantes faziam-se notar; por exemplo, o guerreiro fazia-o desde o campo de batalha, na sua entrada triunfal na cidade com os seus prisioneiros, na apresentação pública destes, ao velar com as suas vítimas na sua última noite, na marcha ao templo com o vencido, no banquete posterior, tudo congregando prestígio e honras. O mesmo ocorria quando se tratava de um escravo purificado. Devia anunciar-se a intenção de imolar, comprar e apresentar uma vítima, a qual ia vestida pela cidade, durante semanas, meses ou todo o ano, como uma divindade e, além do mais, devia desempenhar o papel dessa divindade e ser tratada como tal. Também havia danças com a vítima, velar a sua última noite, leva-la ao templo incluindo – o qual não era permitido aos guerreiros – subir a pirâmide até à pedra do sacrifício e ver o deus (no seu templo), cara a cara, ou seja, morrer simbolicamente. Os sacrificadores eram, no geral, sacerdotes especializados, muito estimados pelos mexicas e pouco pelos maias. Há que distinguir entre os grupos de ajudantes, como os chalmeca nahuas, por exemplo, que se encarregavam de manter a vítima da qual iriam extrair algo do corpo. Os graus de encenação eram variáveis, já que nem todos os sacrifícios eram públicos ou mesmo durante o dia. Seria de acrescentar que os sacrificadores, os sacrificantes, o público e, em menor grau, as vítimas, preparavam-se e associavam-se ao sacrifício mediante diversas penitencias, auto-sacrifícios, jejuns, abstinência e danças, sendo que bailar significava “merecer”.

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Na cerimónia do “Fogo Novo”, que marcava o século de 52 anos mesoamericano, os sacerdotes vestiam-se como deuses e um nobre era sacrificado. De seguida, sobre o seu peito, era acendido o fogo. Se esta acção falhasse e o fogo não fosse acendido, o mundo terminaria para sempre. Ilustração de Philip Hood.

A quantidade de vítimas variava muito de acordo com a importância da cidade ou do povoado. Em alguns casos fala-se de dois ou três por ano e de muitos mais em cidades poderosas. Em Tenochtitlán, Tlaxcala, Chichén Itzá, sacrificavam-se centenas ou até milhares de vítimas nas grandes festas, como a do renascimento do Sol. Os números avançados pelas fontes, em relação à inauguração do grande templo de Tenochtitlán, no reinado de Ahuítzotl, são certamente pouco prováveis; sobretudo pela impossibilidade da sua execução ao longo do período de tempo referido. O registo das diversas maneiras de sacrificar, durante o Pós-Clássico, é muito detalhado e por vezes podem-se reconhecer os modelos míticos: a mais comum é a extracção do coração e a decapitação; seguindo-se a execução por flechas, o sacrifício gladiatório, por fogo, entre várias outras. O uso de anestésicos era comum nos sacrifícios por fogo. Muitas das vítimas iam para a morte sem medo – havia inclusivamente voluntários – porém outras choravam e deviam ser arrastadas até à pedra dos sacrifícios.

Sacrifícios 8

Detalhe hipotético da esquina de um tzompantli, a partir de uma imagem de C. Aroztegui. Antonio Serrato-Combe.

Em algumas ocasiões os deuses do céu e outros conformavam-se com a “essência” do morto, ou seja, o fumo do coração queimado, o vapor do sangue, enquanto os homens comungavam da divindade ou semi-divindade morta. No entanto, em certos casos renunciava-se à vítima e destruía-se no fogo (o que era raro), enterrando-a numa gruta ou numa pirâmide, ou lançando-a a um remoinho no lago. Pode-se considerar que neste caso o destinatário, ou mais precisamente, aquele do qual o deus era a ixiptla ou representante: terra, água, fogo, etc., comia directamente as oferendas humanas. O banquete antropófago ritual era um evento religioso e social muito importante. Comia-se do morto divinizado, num acto de assimilação e união, tratando-se também de uma ocasião para convidar e honrar  familiares, para se relacionar com personagens importantes, para ganhar prestígio, e em tudo isto podia-se gastar o produto de anos de trabalho. O sacrificante conservava restos da sua vítima, como o cabelo do topo da cabeça – que continha parte do calor vital e da “honra” do sacrificado – os seus atavios; o guerreiro ficava com o fémur do morto, o qual colocava no pátio da sua casa para proclamar a sua valentia e gozar da protecção deste “deus prisioneiro” (maltéotl) quando ia para a guerra.

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A Grande Cidade de Tenochtitlán – Pormenor do mural de Diego Rivera, Palácio Nacional do México, 1945.

Vários autores se têm perguntado sobre as causas mais profundas dos sacrifícios em grande escala e do canibalismo ritual. No próprio século XVI havia a crença de que a falta de carne podia ser uma motivação, se bem que os colonos hispânicos, na América Central importaram porcos e vacas porque desconsideravam a comida indígena; verificando-se mais tarde que esta era inclusivamente mais rica do ponto de vista nutricional do que a consumida pelos europeus. Estas teorias também foram defendidas por antropólogos, tendo sido descartadas totalmente já nos anos cinquenta do século passado. Haverá que ter em conta que os sacrifícios maciços apenas se davam em algumas grandes cidades; nestas a gente comum tinha pouco acesso à carne humana e que se comiam apenas pequenos pedaços dos corpos. Neste contexto, talvez pudéssemos encontrar uma referência de conceitos associativos, extrapolados pelo antropólogo brasileiro Carlos Fausto, em relação aos indígenas do Brasil; sugerindo que as operações de “domesticação” no xamanismo e na guerra são da mesma natureza, e que ambas são parte de uma economia generalizada de produção de pessoas centrada na apropriação de capacidades no exterior do espaço social. Essas operações podem ser denominadas como “predação familiarizante”, conversão da predação em familiarização; processo pelo qual sujeitos ferozes e outros são consumidos e controlados para se produzirem novos sujeitos e acções criativas (como canções, hinos, poemas danças, etc) no interior do grupo. A pressão demográfica é outra explicação, pois parece que o aumento da quantidade de vítimas no México Central coincidiu com um grande crescimento da população, no entanto é algo que não se assistiu em outras partes do mundo mais populosas ainda, como no caso da China. Relembrávamos que em 1520 Tenochtitlán teria cerca de 200 a 250 mil habitantes, enquanto Londres teria uns 80 mil. Muito longe da capital chinesa que já contava com 1 milhão de habitantes. No entanto, também não é descabida a teoria, neste seguimento, de René Girard, segundo a qual por meio do sacrifício tentava-se neutralizar a violência interna do grupo. Neste caso, a importância dos sacrifícios humanos poderia ser explicada pela maior fragilidade das cidades-Estado do México Central, composta por grupos com línguas e origens por vezes muito diferentes. Seja como for, nada disto tem sido comprovável. Estudos como os apresentados por Inga Clendinnen ou Christian Duverger (este último em La Flor Letal – Economía del sacrificio Azteca,  Fondo de Cultura Económica, México 1983)  apresentam definições orgânicas e históricas para este processo particular de utilizar todos os sentidos possíveis da morte ritual para manter a vida e prolonga-la depois da morte. Desta forma pretendia-se expressar a impressão de que se controlava um universo que se percebia como excessivamente instável.

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