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OS PURÉPECHA

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Área do estado Purépecha, no Ocidente do México, durante o século XVI. Fonte: Internet.

No Ocidente do México, Estado de Michoacán, região montanhosa onde se encontram grandes áreas de bosques e lagos muito extensos, estabeleceram-se por volta de 1400 d.C. vários grupos chichimecas.

De todas as áreas mesoamericanas, o ocidente foi a que apresentava uma maior diversidade cultural. Era uma região com alta densidade populacional, distribuída numa grande quantidade de pequenos senhorios, sendo politicamente muito instáveis.

Nesta região fundiram-se os elementos locais existentes de formas arcaicas, com outros estrangeiros mais evoluídos. Desta união cristalizou-se a cultura purépecha que os espanhóis denominaram de tarasca, pensando que a alcunha que os índios utilizaram para os invasores – tarascue ou “cunhados”, como alusão ao facto dos espanhóis terem roubado as suas filhas – era de facto o nome dos índios de Michoacán. Como estes se denominavam a si próprios não é conhecido com a devida certeza, algumas fontes históricas referem-se a eles como purepecha e huacanace. Os mexica referiam-se a estas populações como michoaque, termo que na língua nauhatl significa “aqueles da terra do peixe”. Ainda que também não se tenha a certeza da sua procedência, num passado não muito remoto foram nómadas caçadores, a julgar pela permanência das suas vestes e costumes; além da tradição mexica lhes consignar a sua própria pátria original, se bem que o idioma que falavam fosse um caso completamente isolado.

Historicamente este povo estava assente em mais de vinte aldeias, sobre as ribeiras e ilhas do lago Patzcuaro. O seu reino iniciou-se com a fundação da cidade de Patzcuaro pelo seu primeiro rei lendário Tariacuri, que uniu as tribos purépecha rivais, numa aliança tripartida conformada entre as cidades de Patzcuaro, Ihuatzio e Tzintzuntzan – esta última querendo dizer «O lugar dos Colibris». No entanto, foi já na segunda metade do século XV que o soberano Tzitzipandacuri conseguiu manter uma grande confederação, submetendo pela conquista ou coerção os seus vizinhos; tendo estendido os seus domínios até ao estado de Colima. Este soberano desenvolveu o que viria a ser, juntamente com o “império” mexica, uma cidade Estado organizada, que não só controlava com particular eficiência os seus territórios, como tinha conseguido opor-se com sucesso às ambições hegemónicas dos seus vizinhos mexica. Apesar da sua população ser consideravelmente menor, muitos espanhóis pensavam que o Estado Purépecha era igual em força ao da Tripla Aliança, cujas tentativas de conquista foram travadas em 1479. Em 1519 os papéis tinham-se invertido e eram os purépecha que avançavam seguramente em território mexica, notavelmente no Estado de Guerrero. No entanto, Michoacán manteve-se neutral durante a invasão espanhola do “império” mexica em 1519-1521, apesar dos pedidos de ajuda por ambas as partes.

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Imagem de um Lienzo com a capital purépecha junto do lago Patzcuaro. Fonte: Internet.

Os purépecha levantaram a sua capital em Tzintzuntzan por volta de 1450, nas margens do lago Patzcuaro, a qual consideravam “as portas do céu”. Daqui e governando o Estado Purépecha, estava o cazonci, representante do seu deus principal Curicaueri. É nesse período que a cidade controla a região e que o soberano Tzitzipandacuari expande os seus domínios mediante as conquistas militares. Nos tempos pré-hispânicos a cidade de Tzintzuntzan abarcava cerca de sete quilómetros quadrados. No entanto, no seu momento de maior esplendor, a sua influência cobria 75 mil km2, sendo que a próspera cidade era densamente povoada – calcula-se entre 25 e 35 mil o número de habitantes – estendendo-se das margens do lago Patzcuaro até às encostas das grandes montanhas vulcânicas.

A cidade contava com zonas residenciais bem definidas para a realeza e a alta nobreza, existindo outras para a realeza de menor hierarquia e a gente comum. Tudo indica que esta cidade tinha um traçado urbano bem planificado.

O elemento característico da arquitectura purepecha são as chamadas yacatas, plataformas que alcançam os 12 metros de altura, com uma planta rectangular ou mista e apresentam um anexo circular. O conjunto principal de Tzintzuntzan consta de cinco yacatas sobre uma grande plataforma encostada a um outeiro. Por vezes os purépecha conformavam em terraço a inclinação natural de um outeiro para formar plataformas. Procuravam um tamanho específico, de tal maneira que ao revestir-se de pedra talhada adquiriam um aspecto monumental.

As yacatas eram erigidas em honra de Curicaueri, o deus do sol. Na Relación de Michoacán observam-se sobre estas plataformas templos construídos em madeira. Com o tempo, as plataformas aumentaram de tamanho; por exemplo na yacata 5 observam-se até cinco sobreposições.

A maior parte das esculturas de pedra purepecha procedem da cidade de Ihuatzio, destacando-se entre elas os já referidos chacmool que indiciam influencias toltecas na sua cultura. Em geral, as peças realizadas em pedra vulcânica mostram pouco detalhe, conferindo realce às formas simples e estilizadas, num género híbrido e despojado. Outra figura que se destaca na arte lapidária purépecha são os tronos em forma de coiote, já que Ihuatzio significa “lugar do coiote”. Os espanhóis destruíram grande parte dessas esculturas, já que as associavam ao sacrifício humano.

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Reconstituição de plataforma cerimonial, ou yuacata. Fonte: Internet.

Se bem que os purépecha praticassem a agricultura, a pesca sempre foi a sua principal fonte alimentícia. Organizados como estado, o poder estava centralizado numa monarquia hereditária que oficiou como a suprema autoridade terrestre, militar e religiosa. O cazonci era assistido na administração do estado por um séquito de cortesãos, ajudantes e chefias alternadas. À sua morte, o corpo era incinerado e as suas cinzas eram enterradas por detrás da yuacata principal, acompanhadas pelas cinzas das suas esposas e criados. O ritual funerário dos purépecha implicava uma grande parafernália e, quando se tratava do seu governante envolvia não só o seu povo como, de várias regiões, chegavam emissários com obséquios preciosos que acompanhariam o defunto no seu caminho para o outro mundo. Encontraram-se poucos exemplos de pratos ou vasilhas de paredes rectas e fundos planos. Algumas peças repetem-se nos sepulcros, porém sendo miniaturas, pois existia a crença que apenas com esse tamanho o defunto podia fazer bom uso delas. Vários objectos recuperados em Tzintzuntzan e Ihuatzio formavam parte das oferendas funerárias de personagens da nobreza, enterrados nas imediações das yacatas. Outros objectos ligados às oferendas são cachimbos de cerâmica, cujo uso se relacionava com Curicaueri e o culto do fogo. Fumar cachimbo era um exclusivo das altas hierarquias, como se observa na Relación de Michoacán. O cachimbo purépecha tem um alto fornilho e dois pequenos suportes; sendo que o tubo por onde se aspira é bastante largo. Nos arredores da principal plataforma de Tzintzuntzan encontrou-se uma grande quantidade de fragmentos de cachimbos, o que parece indicar o seu uso extensivo nas cerimónias religiosas.

Possivelmente, devido a Michoacán ser uma região excessivamente vulcânica, o mito principal foi o culto ao fogo, sendo a sua divindade principal Curicaueri – ou “Grande Queimador” – que também simbolizava o sol. No entanto, os antigos purépecha rendiam culto a múltiplas divindades, de tal maneira que havia deuses criadores das montanhas, do mar e das lagoas; existindo inclusivamente divindades relacionadas com a mão direita e outras com a mão esquerda. Os deuses purépecha também intervinham em certos rituais de sacrifício humano, como a extracção do coração. Entre as práticas dos purépecha também se colocavam em varas os crânios dos sacrificados, sendo esfoladas algumas das vítimas. O culto e as cerimónias eram regidos por um calendário ritual dividido em 18 meses ou luas. Infelizmente, este povo não fez uso dos códices pictográficos, pelo que os seus mitos e lendas apenas se transmitiram oralmente.

Outra divindade relevante na religião purépecha era Cuerauperi, mãe dos deuses e dadora da vida. Outras divindades femininas eram Xaratanga, deusa da lua – venerada sobretudo em Tzintzuntzan – Taríaran, Peuame, deusa do parto e Auicanime, relacionada com a fome. As imagens dos deuses purépecha são escassas; de qualquer modo parece que elaboraram ídolos de madeira e massa, assim como em pedra. Aquelas realizadas neste ultimo material, além de raras são muito esquemáticas.

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Trabalho de metalurgia. Ilustração de Leonid Nepomniachi para Editorial México Desconocido.

Possivelmente vindo desde o Equador, na América do Sul, em 800 d.C. o ouro, a prata e o cobre entraram na região de Michoacán. A partir desse momento, a metalurgia foi tão importante que além de realizarem objectos sumptuários; construíram ferramentas, anzóis e projécteis de cobre. Na realidade, o Estado Purépecha adquiriu grande parte do seu poderio ao controlar a metalurgia; na sua época, o período Pós-Clássico Final, de 1200 a 1521 d.C., o domínio desta ciência tinha encontrado o seu espaço no ocidente do México. Este conhecimento, que a maioria dos estudiosos sobre o tema coincide em situar as suas origens no Centro e Sul da América, deve ter chegado a Michoacán por via marítima, através das costas do Oceano Pacífico.

O cazonci, supremo governante de Tzintzuntzan, estabeleceu uma cuidadosa organização encarregada de controlar as minas das quais se extraiam os metais valiosos. As áreas de extracção mais importantes situavam-se na região fronteiriça a sudeste do estado, nas redondezas de Pungarabato, Cutzamala, Coyuca e Ajuchitlan. Outra das regiões mineiras encontrava-se a ocidente de Michoacán, na zona próxima a Tuxpan e Zapotlan. Através do sistema tributário também se obtinham metais de Cualcoman, de Huacana, Turicato e Sinagua. Uma imagem idealizada destas minas indígenas é mostrada no Lienzo de Jucutacato.

A distinção mais notável da metalurgia purépecha consiste, no entanto, em que não produziram apenas peças ornamentais, pois utilizaram o cobre também para fabricar armas e ferramentas para a vida quotidiana. Uma das razões para que os exércitos de Michoacán tenham suplantado o poderio dos mexica, tornando-se praticamente invencíveis, pode residir na utilização do metal usado em machados de guerra e pontas de projéctil. Enquanto os camponeses, lenhadores e pescadores contavam com machados, enxadas e anzóis para facilitar o seu trabalho. Da mesma maneira, as oficinas purépecha já conheciam o uso do bronze, o qual superava a dureza do cobre e, só podemos especular, quando este se torna-se comum a que grau teria levado o Estado Purépecha no seu desenvolvimento e expansão se não tivesse sido prematuramente aniquilado pela invasão espanhola em 1530.

Tal como ocorreu com os tesouros dos mexica, os depósitos de metal precioso dos senhores de Michoacán, descritos nas crónicas como troféus, e as suas oferendas funerárias, foram saqueados e fundidos pelos espanhóis. Se contarmos com as entregas forçosas que o soberano Tzintzicha Tangaxoan fizera, tanto a Cristóbal Olid como ao selvático Nuño de Guzmán, o resultado foi que nos nossos dias apenas conservamos um testemunho mínimo, daquela arte dos metais que tanto distinguiu e qualificou os antigos michoacanos; perdendo-se de maneira irreversível o seu real valor artístico e cultural.

 

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Templo de Tlahuizcalpantecuhtli , Tula, Hidalgo. Discovering Art. Inglaterra, 1965.

Entre as causas determinantes para a queda do mundo Clássico, podem ser considerados os seguintes factores: o aumento demográfico, a proliferação de centros em competição, uma maior diferenciação social entre a nobreza e os homens comuns, o incremento da pressão tributária, problemas de alimentação e doenças conjuntamente com a falta de respostas tecnológicas adequadas aos novos tempos; estas geraram pressões internas e externas que provocaram o colapso do sistema. Como consequência imediata deu-se uma maior mobilidade social, novas formas de integração política e alterações substanciais nos padrões culturais, fundindo-se povos de etnias e culturas diversas.

O período Pós-Clássico caracterizou-se por um acentuado aumento do militarismo. As antigas estruturas teocráticas, sobretudo no México central, foram substituídas por reis guerreiros que, simultaneamente incorporaram o papel dos antigos sacerdotes. Paralelamente e por várias razões, sobressai a filosofia religiosa assente numa extrema fragilidade dos equilíbrios universais, requerendo o aumento da prática de sacrifícios humanos. Se bem que se conservaram várias das antigas bases culturais adquiridas, neste novo período substituíram-se os velhos padrões ideológicos, religiosos e técnicos.

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Baixo relevo de um guerreiro, representado num dos edifícios do Templo Maior de Tenochtitlan. Foto de S. Guilliem Arroyo para Jaca Book SpA. Milão, 1995.

Os grupos pertencentes à Tradição Cultural do Deserto, no Norte do México, conhecidos de uma forma geral pelos mexica como chichimecas eram, sobretudo, tribos nómadas habitantes de uma região árida e portanto de poucos recursos naturais. O seu nome designa uma forma de vida comum à qual pertenciam povos que falavam línguas distintas, na sua maioria nahuas. Tal denominação não deixa de ser ambígua porque, primitivamente, a mesma designava povos relacionados histórica, mítica, etnográfica e linguisticamente. Estas tribos irromperam no planalto mexicano em diversas vagas, dilatadas no tempo, transformando paulatinamente o seu padrão de vida de caçadores nómadas para a de agricultores sedentários. Assimilaram a alta cultura dos grupos locais subjugados; conservando porém o seu carácter extremamente belicoso. As contínuas invasões e adaptações culturais que se verificaram desde o final do período Clássico no planalto central do México, provocaram que a partir de 900 d.C. e em pouco tempo, os toltecas passaram a ser o grupo dominante no vale do México. Este grupo nahua protagonizou a primeira revolução militar de importância na Mesoamérica, fundando Tula em 860 d.C. como o seu centro de culto e que, posteriormente, foram considerados pelos mexica como os seus sábios antecessores e mestres em todas as artes. As fontes etno-históricas revelam que os primeiros habitantes de Tula tiveram a sua origem numa das muitas tribos nómadas vindas dos desertos nortenhos; os toltecas-chichimecas, que conviveram com outro povo vindo, aparentemente das costas do Golfo do México, os nonoalcas.

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Reconstituição da praça central de Tula Grande. Antonio Serrato-Combe. The University of Utah Press, 2001.

Os toltecas são o primeiro povo pré-colombiano do México central sobre o qual se conta com um corpo de dados históricos referentes a diversos aspectos da sua cultura: listas dinásticas, nomes de reis e governantes, relatos de migrações, a fundação da cidade, o seu desenvolvimento, as suas conquistas e posterior decadência. De facto, sobreviveram numerosas crónicas e fontes tanto pré-hispânicas como do século XVI, sobre a história de Tula e dos toltecas; estando entre as principais a «História Tolteca-Chichimeca», o «Códice Florentino» de Sahagún e seus informadores, os «Anais de Cuauhtitlán», a «História dos mexicanos pelas suas pinturas» e os textos de Ixtlilxóchitl, Motolinía, Muñoz Camargo e Torquemada.

A cidade de Tula situa-se no actual estado de Hidalgo, 65 km a noroeste da Cidade do México e foi um dos centros urbanos mais extensos da Mesoamérica. Teve uma superfície aproximada de 15 km2 albergando cerca de 50.000 habitantes durante o seu apogeu, entre 900 e 1150 d.C. e contou com três centros cerimoniais destacados: Tula Chico, Praça Charnay e a principal conhecida como a Acrópole. Esta última constituiu-se por uma grande praça central rodeada de templos, palácios e campos de jogo de bola. O edifício principal, a pirâmide templo de Tlahuizcalpantecuhtli – uma manifestação do deus Quetzalcoatl como Vénus – consta de quatro corpos sendo que no seu topo figuram as colunas conhecidas como «Os Atlantes»; hieráticas esculturas de guerreiros armados que supostamente suportavam o edifício que coroava a pirâmide.

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Plano geral de Tula Grande. Revista Arqueologia Mexicana. Editorial Raíces.

A praça principal estava rodeada por um complexo sistema de plataformas em terraço que se estendiam até ao rio e sobre os quais se levantavam numerosos conjuntos residenciais. Estas, pelas suas dimensões, características e proximidade da zona monumental permitem supor que se tratava de um dos núcleos residenciais mais importantes da cidade; habitados pela nobreza e funcionários de alto nível. Fora desta zona de elite, encontravam-se os bairros habitados pela maior parte da população.

Do mesmo modo que outros centros urbanos do México antigo, Tula contava, seguramente, com um amplo sistema de mercado e redistribuição interna, assim como uma extensa rede de intercâmbio, tributo e comércio a longa distancia. Uma grande quantidade de produtos de índole e procedência diversificada chegava a esta cidade, em alguns casos de regiões tão longínquas como a Costa Rica ou a Nicarágua.

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As salas de reunião do Palacio Quemado, um dos edifícios mais importantes de Tula. Jaca Book SpA. Milão, 1995.

A destruição que Tula sofreu no seu colapso como centro de poder é impressionante. Todos os edifícios da praça principal e de outros sectores da cidade foram incendiados e saqueados. É provável que estas destruições fossem cometidas pelos próprios toltecas, com a intenção de dessacralizar a cidade no momento do seu colapso. Exemplos idênticos são frequentes e de longa tradição por toda a Mesoamérica. Durante o final de Tula, grande parte da pirâmide de Tlahuizcalpantecuhtli foi desmontada, com os Atlantes e colunas que estavam no seu topo depositados numa enorme vala, escavada no lado Norte do edifício. Assim terminou o longo domínio e existência da cidade de Tula, que durou quase cinco séculos de vida; duração bastante longa para um estado de tempos pré-industriais.

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Zona cultural de Veracruz no Período Clássico. Fonte: Internet.

Remojadas é um nome aplicado a uma cultura e a um sítio arqueológico, como também a um estilo artístico que floresceu na costa do Golfo do México, na região de Veracruz, de 100 a.C. até 800 d.C. A cultura de Remojadas é considerada parte da mais extensa Cultura Clássica de Veracruz que inclui Higueras, Zapotal, Cerro de las Mesas, Nopiloa e o centro que mais se destaca, a cidade de El Tajin.

Enquanto a Cultura Clássica de Veracruz apresenta influências de Teotihuacan e dos Maias, nenhuma destas culturas são os seus directos antecessores. Pelo contrário, as sementes deste grupo cultural parecem ter originado, pelo menos em parte, dos centros culturais Epi-Olmecas, tais como o Cerro de las Mesas e La Mojarra.

Por vezes, a Cultura Clássica de Veracruz é erroneamente associada com os totonacas, que ocupavam este território ao tempo da invasão espanhola do México. Contudo, existem poucas ou nenhumas evidências de que os totonacas tenham sido os originadores da cultura Clássica desta área.

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Arte de Veracruz Central. Figura feminina em cerâmica. Museu Nacional de Antropologia e História, Cidade do México.

Presentemente, é necessária muito mais investigação sobre a cultura de Remojadas. O sítio arqueológico tem-se mantido amplamente inexplorado, desde as investigações iniciais levadas a cabo por Alfonso Medellin Zenil em 1949 e 1950. Remojadas é particularmente conhecida pela sua cerâmica e as suas figuras ocas. Literalmente, centenas destas expressivas e diversas figuras têm sido desenterradas, encontradas através de uma ampla variedade de locais, incluindo sepulturas e pilhas de detritos. As figuras retratam divindades, governantes e homens comuns, assim como tipos de animais como cães e veados. De interesse particular são as curiosas peças das figuras e faces “sorridentes”. Muitas destas figuras deste período funcionam como flautas, apitos e ocarinas. Algumas figuras de animais, interpretados como brinquedos ou talvez como objectos rituais, estão providos de rodas, um dos poucos registos da aplicação da tecnologia da roda na América pré-colombiana.

Muitas figuras têm dentes limados, representando uma prática comum na cultura de Remojadas. As primeiras figuras foram executadas à mão, enquanto as mais tardias foram criadas usando moldes. Em estilo e presença, as figuras têm uma próxima relação com as figuras maias.

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Figura “sorridente”, cerâmica, 600-900 d. C. Galeria de Arte da Universidade de Yale, New Haven.

Os “sorridentes” são as figuras cerâmicas melhor conhecidas de Remojadas, tendo sorrisos abertos em rostos curiosamente delineados em forma quase triangular. Muitas vezes as cabeças estão soltas. Outras vezes estão conectadas a corpos mais pequenos com braços em posição votiva, mostrando a palma das mãos. A expressão do sorriso é formalizada, usualmente mostrando os dentes e, em certas ocasiões, com a língua saliente, entre os dentes e fora da boca.

As figuras “sorridentes” apresentam-se nuas ou usam saiotes. Tanto as figuras masculinas como femininas estão geralmente adornados com peitorais e ou colares, assim como com vários tipos de toucados. Estes e por vezes as roupas apresentam uma espécie de glifo emblema ou um animal estilizado.

As figuras sorrindo são raras na arte mesoamericana, sendo que o grande número de figuras “sorridentes” atesta sem dúvida o seu papel especial na sociedade de Remojadas, apesar do papel que possam ter tido seja alvo de muita especulação. Alguns investigadores vêm a característica do sorriso sendo produzida através da ingestão de alucinogénos; enquanto outros afirmam que eles estão sem dúvida relacionados com o culto dos mortos.

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OFRENDA DEDICADA A TLALTECUHTLI MANIFIESTA LA EXPANSIÓN MEXICA

Un estudio de la Ofrenda 126 que se halló asociada al monolito de la diosa Tlatecuhtli, en el Centro Histórico de la Ciudad de México, permitió identificar 83 nuevas especies para las ofrendas del Templo Mayor de Tenochtitlan, en su mayoría de moluscos marinos, seres que simbolizaron para los mexicas el mundo femenino, acuático y de fertilidad absoluta.
Debajo del espacio que ocupó la escultura por cinco siglos, en mayo de 2008 el equipo de investigadores del Proyecto Templo Mayor (PTM) descubrió dicha ofrenda, una de las de mayores dimensiones (195 x 90 x 80 cm) encontrada hasta el momento. El depósito contenía vestigios de una actividad ritual que debió realizarse, muy posiblemente, durante el gobierno de Ahuízotl.
La ofrenda estaba compuesta por casi 4 mil restos orgánicos, de los cuales tres cuartas partes (3,045) corresponden a moluscos marinos. Estos materiales han sido analizados en los últimos años por la bióloga Belem Zúñiga Arellano, investigadora del Instituto Nacional de Antropología e Historia (INAH).

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La especialista del PTM, quien recientemente recibió mención honorífica en la entrega de Premios INAH por su investigación sobre la ofrenda de moluscos dedicada a la diosa mexica de la tierra Tlaltecuhtli, señala que en total se identificaron 111 especies, 40 de ellas proceden del océano Atlántico, 66 de las costas del Pacífico, tres de ambos litorales y dos corresponden a especies de ríos.
Como dato significativo, destacó que derivado de la identificación de las especies se determinó que 40 de ellas proceden de la Provincia Malacológica Caribeña —que abarca el Golfo de México, Florida, Las Antillas, el Mar Caribe, Venezuela y Brasil—; y 66 de la Provincia Malacológica Panámica, que comprende de Baja California a Ecuador.
“Esta preponderancia de especies panámicas sugiere, por un lado, una expansión del imperio mexica durante el reinado de Ahuízotl (1486-1502), cuando se conquistaron poblaciones de las costas del Pacífico, en los actuales estados de Guerrero y Oaxaca. Por el otro, también alude a relaciones de comercio y/o intercambio con poblaciones establecidas hacia el sur y tierras caribeñas”, expresó.

Para el articulo completo: http://www.inah.gob.mx/boletin/17-arqueologia/7489-ofrenda-dedicada-a-tlaltecuhtli-manifiesta-la-expansion-mexica

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Quetzalcoatl, escultura mexica. Fonte: Internet.

As criações artísticas que melhor definem o mundo mexica são as esculturas, cujo estilo se estende por todas as Terras Altas Centrais. Os monólitos gigantescos esculpidos durante o período Pós-Clássico Final tomaram como sua inspiração as da cidade de Teotihuacan ou Tula, onde sobreviveram grandes figuras, como a da imagem da deusa da água ou os Atlantes toltecas.

A escala colossal das esculturas em Tenochtitlán reforça o poder dos deuses mexica e a força dos elementos naturais que se pensavam serem os criadores do universo. A devoção e o carácter messiânico do povo mexica levou-os a esculpir monumentos que representam o cosmos, colocando-se a si próprios no centro da criação. Concupiscente, entre estes monumentos, é a grande Coatlicue e Yolotlicue, que representam deusas terrestres, sustentadoras da humanidade e fonte de toda a vida; sendo também reguladoras do ultimo destino dos mortos. Ambas as esculturas mostram símbolos da vida e da morte interligados.

Os monumentos dedicados ao culto solar, mostrando as conquistas militares dos mexicas, paralelamente com a imagem do sol, são as grandes contribuições dadas pelos habitantes de Tenochtitlán para a arte mesoamericana. Estes monólitos dão forma física à ideologia religiosa deste povo, que seguira as instruções de Huitzilopochtli, impondo o seu poderio militar no universo conhecido. Cronistas indígenas contam da sagrada obrigação de cada tlatoani, desde o reinado Motecuhzoma I, em ordenar a escultura destes temalacatl-cuauhxicalli, que celebravam as suas vitórias militares e aquelas dos seus antecessores. As esculturas que sobreviveram incluem a ordenada por Motecuhzoma I e a do seu neto Tizoc, que foi conhecida por muito tempo como a Pedra Sacrificial. As esculturas monumentais e de escala mais pequena eram exibidas, durante as celebrações públicas em espaços abertos ou em altares dos templos e palácios. Aquelas com aparência humana – divindades, sacerdotes ou o próprio povo – representam os habitantes do universo sagrado, criado pelos deuses. As figuras de plantas e animais, tanto de forma naturalista como antropomórfica, ligavam o mundo da natureza com a ordem cósmica da criação.

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Coatlicue, escultura mexica. El Calendario Azteca y outros monumentos solares. Eduardo Matos Moctezuma e Felipe Solís. Ed. Conaculta – Instituto Nacional de Antropologia e História. México 2004.

Os mexica consideravam que as imagens eram mais do que apenas uma representação ou figuração das coisas existentes num outro lugar, num outro tempo. As imagens mexicanas eram designadas para apresentar certos aspectos do mundo divino fisicamente presente e palpável; ultrapassavam uma barreira que os sentidos europeus normalmente não conseguem atravessar. Neste sentido as técnicas praticadas pelos tlacuilos – ou escribas pintores – eram mais um caminho para o divino do que um meio de expressão. Os cânones pré-colombianos de selecção e arranjo eram desenhados para ajudar a compreender e extrair o Essencial. Uma imagem tornava “visível” a própria essência das coisas porque era uma extensão dessa essência.

CÓDICE BORBÓNICO

Página do Códice Borbónico. Fonte: Internet.

A participação em massa dos mexica durante os “excessivos rituais públicos” não reforçava apenas a coesão social e cultural, mas reafirmava também a existência de uma sociedade que constantemente se colocava em espectáculo. Os grandes rituais representavam completamente um meio extrovertido de reproduzir os ciclos cósmico e temporal na superfície da terra, debaixo das esferas celestes. A convicção de que efectivamente regulavam o universo galvanizava estes espectáculos urbanos como sendo gigantescos códices abertos através do grande recinto cerimonial de México-Tenochtitlán.

Enquanto o ritual mexicano pode ser considerado como uma técnica de apropriação ou uma tentativa de regularizar a “natureza”, o objectivo principal não era instrumental, mas antes estético, expressivo, interrogativo e criativo. Os homens poderiam ter um breve olhar para o mundo dos deuses pela observação próxima da “natureza” na sua multiplicidade de exemplos, mas poderiam fazê-lo de forma mais completa quando as coisas da arte e natureza eram dispostas e arranjadas de forma iconográfica e correcta: nos livros sagrados pintados, nas esculturas monumentais e nas grandes estruturas do Templo Maior, nas imagens complexas dos ixiptlas e nas relações das cores, movimentos e sequências de acção durante os grandes cerimoniais.

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Pormenor do cuauhxicalli de Motecuhzoma I. Foto de Marco Antonio Pacheco para Editorial Raíces.

Itzcoatl, que começou a governar os mexica em 1427 d.C., era um homem de grande valor e, o que é mais importante ainda, tinha como principal conselheiro uma figura que vai marcar definitivamente o destino de Tenochtitlán e dos mexica – Tlacaelel – o verdadeiro obreiro da ideia imperial.

No seu triunfo, a administração mexica voltou-se para problemas de política interna, especialmente durante a vida de Tlacaelel que se tornou uma espécie de primeiro-ministro do trono mexica durante três reinados e morreu em 1475 ou 1480. Tlacaelel concebeu e realizou uma série de reformas que alteraram completamente a vida mexicana. A reforma básica relacionava-se com a concepção mexica referente a si próprios e ao seu destino. Para isso tornou-se necessário reescrever a história, o que Tlacaelel fez queimando todos os livros dos povos conquistados que não mencionassem as glórias dos mexica. Sob a sua égide, os mexica adquiriram uma visão mística de si próprios como povo escolhido, como verdadeiros herdeiros da tradição tolteca que lutariam e fariam prisioneiros para que o sol se continuasse a mover no céu.

Tlacaelel, além de inventar a ideia da grandeza mexica e a glorificação do seu passado, realizou também reformas políticas, jurídicas e económicas. O novo sistema foi experimentado com sucesso durante dois anos de fome no reinado de Motecuhzoma I, do qual este povo saiu mais confiante do que antes na ideia da sua missão divina. A energia instável do cosmos, onde vivia o deus guerreiro Huitzilopochtli, precisava dos corações de guerreiros inimigos; durante o reinado de Motecuhzoma I – 1440, 1468 – Tlacaelel instituiu a chamada Guerra Florida ou Xochiyaoyotl.

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Ilustração de Peter Dennis. Astecas, Livraria Civilização Editora, 1999.

O ritual das guerras floridas, tal como se têm reconstruido geralmente, dava inicio a um tempo e lugar previamente acordado pelos confrontantes. A disputa era levada a cabo num espaço apropriado, sacralizado que os contendores desalojavam para esse efeito. Chamado de Cuauhtlalli, ou “território da águia”, o sinal para que começasse a batalha era dado pela queima de papel e incenso numa grande pira cerimonial. Ainda que nessas guerras alguns guerreiros ficassem feridos e outros morressem, o propósito fundamental era o de tomar prisioneiros de elevado estatuto social. Quando ambos os contingentes cumpriam o seu objectivo, regressavam aos seus lugares de origem e sacrificavam posteriormente os prisioneiros durante as celebrações públicas. As guerras floridas eram batalhas fortemente reguladas, cuja finalidade era conseguir vítimas de valor para oferecer aos deuses.

Desta forma, esta interpretação foi aplicada ao Teocalli da Guerra Sagrada, um dos mais importantes monumentos mexica que se encontra no excelente Museu Nacional de Antropologia da cidade do México. Nos quatro lados deste monumento aparece o glifo alusivo à guerra: Atltlachinolli, “água e terra queimada”; além do mais, a peça está coberta por representações de deuses, glifos do calendário e objectos que se associam a cenas de sacrifício. Esta imagem de água e fogo entrelaçada está directamente relacionada com o nome metafórico de Tenochtitlán. A invocação poética deste povo, mesmo enquanto instrumento divino do devir, leva-os a que grande parte da sua tradição lírica seja escrita por guerreiros, que fazem através da poesia a sua ode existencial; com uma qualidade ímpar ao lado dos géneros sacros e mundanos que caracterizam a literatura do México antigo.

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La Matrícula de Tributos. Edição especial da revista Arqueologia Mexicana. México 2003.

Os mexica conquistaram quase todas as cidades do planalto central mexicano, ainda que não pretendessem abarcar um território maior ou ter o controlo directo sobre os povos subjugados. O que realmente pretendiam era o tributo pelo que mantinham os governos e províncias intactos. Os governos destes povos tributários submetiam-se, pois sabiam que se deixassem de cumprir essas condições eram duramente castigados.

As confederações como dos povos chalcas ou dos reinos tlaxcaltecas, eram particularmente difíceis de submeter, pois abarcavam vastos territórios com vários centros e cada um deles deveria ser derrotado. Foi a estes poderosos oponentes a quem os mexica elegeram como os seus adversários das guerras floridas.

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Guerreiros mexica de estatuto elevado. The Essential Codex Mendoza. University of California Press, 1997.

Além do mais, nas guerras floridas procurava-se a submissão “voluntária” do oponente; apenas se convertiam em guerras de extermínio ou conquista quando falhavam as demonstrações rituais de superioridade militar. Com esta prática, que era de baixo custo, os mexica tinham a liberdade para conquistar as cidades circundantes. Cercavam o território inimigo, cortavam os laços com os seus aliados e debilitavam-nos até os vencerem completamente. Tudo isto podia ser conseguido sem utilizar um grande numero de guerreiros, sem por em perigo a sua imagem de poder, sem impedir a sua expansão noutras direcções e, sem expor o fluxo do inestimável tributo.

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Ilustração de Richard Hook. Growing up in Aztec Times. Marion Wood; Eagle Books, 1994.

O “império” mexica dependia tanto da habilidade como do tamanho do seu exército. Este tinha uma estrutura semi-profissional, baseada nos guerreiros dos clãs ou os macehualli. Desde a idade dos 15 anos que os macehualli entravam nas escolas para os homens comuns – o telpochcalli – onde, entre outras coisas, recebiam treino militar. De qualquer maneira estes guerreiros eram essencialmente camponeses, servindo por um dado período ou consoante as necessidades que se impunham. Para fomentar a participação activa dos soldados plebeus, estes obtinham como recompensa, em caso de tomarem prisioneiros, a possibilidade de ascensão à classe da nobreza. Ainda que não se tratasse de fazer um prisioneiro qualquer. Durante o reinado de Tizoc – 1481, 1486 – este decretou que apenas seriam promovidos aqueles guerreiros que apresentassem prisioneiros provenientes de Huexotzinco, nessa altura o principal opositor dos mexica nas guerras floridas. E, mesmo dentro da etnia inimiga, quanto maior a classe social e estatuto guerreiro do adversário, melhor qualificariam o capturador, como qualificava o capturado a ser uma oferenda sacrificial de maior valor. Os prisioneiros das guerras floridas eram sacrificados, não sendo os únicos com quem se praticava este ritual; a sua relevância devia-se sobretudo à sua significação social e impacto político.

Para este efeito, o armamento dos povos mesoamericanos implicava sobretudo um desenho e efeito que se enquadrasse numa condição à partida que, não excluindo o golpe fatal, funcionava primordialmente como incapacitante do adversário, preservando-lhe a vida. O macuahuitl era a arma soberana dos campos de batalha no período Pós-Clássico Final. Era uma espada de madeira, de base alongada e rectangular com secções de lâminas de obsidiana, incrustadas lateralmente. Esta arma podia produzir cortes profundos, sendo mais indicada para desgastar o adversário do que lhe infligir um corte fatal. Para se manobrar eficazmente o macuahuitl era necessário espaço entre cada guerreiro, caracterizando os combates por intensivos duelos individuais e não um combate de fileiras cerradas.

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Ilustração de Adam Hook. Aztec Warrior AD 1325-1521. Osprey Publishing, Oxford 2001.

Naturalmente, eram usadas protecções para evitar os golpes mais duros ou as armas de arremesso, sobretudo na forma de coletes de algodão – ou ichcahuipilli – cuja finalidade era a absorção do impacto da arma inimiga, usando o mesmo principio  que os modernos coletes à prova de bala e não como uma barreira estática sobre o impacto sofrido.

Os guerreiros veteranos – ou tequihuahqueh – e a nobreza,  também usavam fatos completos – ou tlahuiztli – feitos de peles de animais sobre estes coletes, além de capacetes feitos de madeira ou osso com o desenho das efígies mais associadas à guerra, como animais ou caveiras.

As ordens militares vinham  dos tempos da cidade clássica de Teotihuacan, sendo que o seu papel e preponderância em Tenochtitlán são bem representativos ao figurarem as suas casas de culto exclusivo – os guerreiros águia e os guerreiros jaguar – de ambos os lados da grande pirâmide do Templo Mayor. Apenas aqueles guerreiros que tivessem capturado quatro inimigos em batalha é que poderiam tornar-se membros destas ordens.

Os Quachicqueh e os Ototin eram provavelmente os mais bravos e receados dos guerreiros mexica. Os Quachicqueh eram tropas de choque normalmente utilizados para despoletar um ataque do inimigo, executar missões especiais ou assistir outras unidades em combate. Estes guerreiros não usavam capacetes e eram reconhecidos pelo seu fato de cor amarela, além do corte de cabelo distintivo do tipo mohawk. Tipicamente, estes guerreiros recusavam ser promovidos para se manterem na primeira linha do combate. Os Otontin, um grupo de elite do mesmo tipo, juravam não se render antes das batalhas, mesmo que em inferioridade numérica, o que trazia o problema de muitas baixas deste grupo no caso de uma derrota do exército mexica.

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Ilustração de Peter Dennis. Astecas, Livraria Civilização Editora, 1999.

Os procedimentos de combate passavam por formar uma linha de batalha, apupando ruidosamente o inimigo, ao que se seguia uma barragem de projécteis que antecedia uma carga. Em princípio, as ordens militares eram colocadas ao centro onde a vitória poderia ser conseguida se penetrassem a linha adversária; ou por envolver um ou dois flancos do exército inimigo. Falsas retiradas seguidas de contra ataques realizados por guerreiros emboscados era considerado como a epítome da arte da guerra. Todas estas acções requeriam planeamento e coordenação, sustentada por guerreiros experimentados e uma forte hierarquização da linha de comando. A comunicação durante as batalhas incluía o uso de símbolos de identificação das unidades, bandeiras, tambores e búzios.

A guerra não era somente o recurso vital do “império”, ela era parte intrínseca de uma dinâmica cultural, associada à filosofia e religião de um estado que tinha aglutinado em si a herança cultural de séculos de evolução civilizacional mesoamericana. Será com base nesta metáfora, em que todo o sentido ritual – existencial, literário e artístico se expressa, que os mexica vão protagonizar a maior força de “concentração” política da Mesoamérica, desde o tempo dos toltecas da cidade de Tula.

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Mexica 1

Chac Mool, mexica. Pós-Clássico Tardio. Fotografia de Rafael Doniz.

Uma questão que gostaria de clarificar, antes de iniciar o tema desta entrada, tem que ver com o termo Aztecas, vulgarmente atribuído para denominar, se não os habitantes de Tenochtitlan, pelo menos todas as diferentes etnias do planalto central mexicano, dominados pelos tenochcas. No entanto, o termo Azteca é um grave erro convertido em verdade, propagado por interpretações erróneas das fontes; além de se ter tornado um imperativo comercial que advêm da longa perpetuação do mesmo erro. Na realidade, nas Cartas de Relación de Hernan Cortés, este nunca chama Aztecas aos habitantes de Tenochtitlan, assim como acontece o mesmo na obra de Bernal Díaz del Castillo. O mesmo ocorre com as distintas relações dos conquistadores espanhóis. Tão pouco aparece esta denominação na obra de Sahagún, Dúran, Motolinia, Torquemada, Boturini, Serna, Mendieta. Da mesma forma que não aparece na Historia de los Mexicanos por sus Pinturas, nem nos anais de Cuahtitlan, Leyenda de los Soles, Códice Magliabechi, Vaticano, Telleriano, Borbónico, etc. O termo Aztecas foi provavelmente implantado por William Prescott (The Conquest of Mexico, E. U. A. 1843) e difundido pelo estudioso alemão Eduard Seler, na segunda metade do século XIX. Na antropologia mexicana, é uma herança cultural do tempo da ditadura de Porfírio Díaz.

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O início do mito das origens, segundo o Códice Boturini. Museu Nacional de Antropologia, Cidade do México. A migração inicia-se na data «1 faca». No centro, indicado pelo glifo «monte encurvado», o deus Huitzilopochtli fala do interior de uma gruta.

De facto, houve uma migração de povos do norte do México para o planalto central. Da última destas vagas, estes teriam vindo de Aztlan Chicomoztoc, governada pelos Aztecas (Cristobal del Castillo, 1597, historiador indígena). No entanto, quem efectuou esta migração foram os seus macehuales, que eram os mecitin, pescadores e camponeses dos senhores de Aztlan. O nome Mecitin tem a sua origem numa divindade lunar, e é referido na obra de Sahagún, livro X capítulo XXIX parágrafo XIV, destinado precisamente a contar a história dos mexicanos: «Um apenas chama-se mexicatl, muitos chamam-se mexicah. Este nome mexicatl deriva do nome mecitli. Me quer dizer metl (maguey), citli “lebre”. Deveria dizer-se mecicatl; por ter sido alterado diz-se mexicatl.» A lebre é um símbolo da lua e o cultivo do maguey, para produzir pulque, são práticas agrícolas que, até à actualidade, estão relacionadas com o ciclo lunar. Outras fontes assinalam os oito grupos migrantes como Culhuaques (Teo Culhuacan, ou Divino Culhuacan, para diferenciar do Culhuacan situado no planalto central), nestas fontes os glifos assinalam as tribos que se reconhecem de origem Teoculhuaque. Os Mecitin, macehuales dos Aztecas Chicomoztocas, aparecem ambos como povos teoculhuaques, diferenciados por quem é o seu deus num mundo onde religião é política e toda a política se expressa em termos religiosos. Citando uma vez mais Sahagún: «Conforme a tradição, o sacerdote que dirigiu os mexica até aqui tinha como nome Mecitli. Diz-se que ao nascer chamaram-no Citli (lebre) e encostaram-no a uma penca de maguey, ali e por causa disso foi chamado Mecitli. E este ao crescer fez-se sacerdote guardião do deus. Diz-se que conversava pessoalmente com o deus. Por isso honraram-no muito e todos obedeciam ao guia. E por isso os governados que guiou chamavam-se mexicas

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Vaso com a máscara de Tlaloc. Museu do Templo Mayor, Cidade do México.

Quando as tribos chichimecas entraram pela primeira vez no Vale do México, cada cidade já tinha o seu próprio culto religioso, centrado em divindades da natureza, anciãos divinizados e heróis lendários. Não havia portanto um conceito de “família dos deuses” como nas mais antigas civilizações mediterrânicas, mas um grupo de divindades, muitas vezes comuns, cada uma identificada com as várias esferas universais.

À medida que o “império” mexica se expandia, a principal divindade de uma comunidade conquistada era incorporada no panteão dos mexica. Em Tenochtitlan, um edifício particular, no recinto cerimonial – o coateocalli – era dedicado como a casa da parafernália e fetiches dos cultos capturados de outras comunidades. Estas divindades eram extraordinariamente diversas, no entanto as suas características fundamentais mostram fortes similitudes, pois elas estavam estreitamente ligadas à terra e ao céu.

Um estudo exaustivo do sistema religioso mexica ainda não foi inteiramente realizado, no entanto a investigação de Henry Nicholson trouxe um grande esclarecimento sobre a devoção das divindades mexicas. Nicholson constatou que muitos, se não todos, os cultos poderiam ser agrupados em ramos básicos, que podem ser nomeados pela divindade dominante desse complexo.

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Pormenor de urna com a representação de Tezcatlipoca. Museu do Templo Mayor, Cidade do México.

De forma breve e sucinta, vamos ver quais os deuses mais significativos deste imenso panteão, começando por uma das divindades mais antiga da Mesoamérica: Tezcatlipoca ou “O Espelho Fumegante”. Esta divindade é muitas vezes caracterizada como a mais poderosa do antigo panteão e está associada à noção de destino ou sorte. O seu emblema, um espelho de obsidiana, era um implemento associado à adivinhação, devendo reflectir origens xamanísticas. Existem poucas dúvidas de que o seu culto estava identificado particularmente com a realeza, estando o seu templo em destaque no recinto cerimonial de Tenochtitlan, imediatamente ao lado do Templo Maior. Naturalmente, este último era dedicado a Huitzilopochtli, o deus guerreiro e protector da tribo mexica, conjuntamente com Tlaloc que, como sabemos, é uma divindade ancestral que remete para os tempos da cidade clássica de Teotihuacan. Consequentemente, esta divindade ligada à água, tempestades, montanhas e nuvens era central para civilizações que dependiam completamente da agricultura e das forças telúricas.

Tonatiuh, o sol, era outra das forças supremas adoradas no México antigo. O sol era percebido como uma fonte primária de vida cujos principais devotos eram os guerreiros. Estes estavam encarregados da missão de providenciar o sol com vítimas sacrificiais, alimentando assim os ciclos instáveis da vida, conforme era a percepção do universo que mais adiante veremos no ciclo dos mundos anteriores.

No tempo dos mexica, Quetzalcoatl, ou a “Serpente Emplumada”, tinha uma grande variedade de associações. Era o nome de uma divindade da natureza – Ehecatl, o vento; era um título real; figura nos tempos dos toltecas como um título militar e emblemático; era o nome de um lendário líder sacerdote; era o título do supremo sacerdote de Tenochtitlan; e era ainda o culto padroeiro das escolas – o calmecac – para a nobreza e o sacerdócio. Este deus era a divindade central na cidade de Cholula que, como já vimos, lhe dedicou a maior pirâmide construída em toda a Mesoamérica.

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Pedra Tlaltecuhtli. Com 12 toneladas, esta representação da deusa da Terra é o maior monólito mexica. Descoberto em 2006 encontrava-se, ao centro, na base do Templo Mayor. Fonte: Internet.

Os cultos da terra eram tão prolíferos como os do céu. Na sua forma mais básica a Terra é referida como Tlaltecuhtli e a sua imanência é dual, feminina/masculina. A terra não era apenas um dador da vida, ela era também o recipiente final de tudo o que cresce e se move na sua superfície. Outras imagens aludindo aos poderes regenerativos da terra assumiam a forma de personificações rituais – ou ixiptlas – que tinham um papel central nas performances públicas dos rituais religiosos. Estas pessoas representando os deuses, no caso da terra mãe eram identificados com a procriação e a fertilidade agrícola. Os seus nomes, Teteoinnan, Tlazolteotl, Tonantzin, Izpapalotl, Cihuateteo, entre outros, descrevem os diversos poderes da terra representados nos seus cultos variados. Talvez que o deus que melhor caracteriza a ideia de ixiptla seja Xipe Totec, ou “Nosso Senhor o Esfolado”. O festival dedicado a este deus ocorria na primavera e muito do seu imaginário está ligado à regeneração da natureza. O personificador de Xipe Totec usava um fato de pele humana esfolada, numa metáfora literal de transfiguração metafísica.

O panteão mexica apresenta-se de uma grande complexidade, sendo impraticável dar aqui uma referencia completa das divindades adoradas e, sobretudo, de desenvolver com profundidade as inúmeras relações que despoletavam na sociedade e qual o seu sentido particular.

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A Estela do Sol. Levantamento a traço de Dr Emily Umberger.

Os mitos mexica da criação foram compilados pelos frades espanhóis. Estes mitos da cosmogonia descrevem o princípio do mundo e a sequência de eras cujas transformações levaram à terra do presente, com os seus habitantes humanos e animais. Na base desta noção está o mito das cinco épocas, onde à original criação da terra, seguiu-se a sua destruição e uma sucessão de quatro criações imperfeitas que levaram à quinta e presente era. A ideia de múltiplas criações imperfeitas era muito velha e amplamente espalhada por toda a Mesoamérica, como se pode ver nos mitos maias registados no livro dos k’iche’ o Popol Vuh. Nos textos mexica cada uma das cinco criações é chamada de “Sol”. A sequência das eras oficialmente aceite em Tenochtitlan está registada num famoso monumento escultórico conhecido como “A estela dos cinco sois”, conhecido também como o “Calendário Azteca”, e também no trono da coroação de Motecuhzoma II. No centro deste calendário encontra-se o signo correspondente à era actual, ou Movimento. Em seu redor encontram-se os signos que representam as eras anteriores: Jaguar, Vento, Chuva e Água. Estes signos estão circundados por um interminável anel representando os vinte dias do calendário ritual ou tonalpohualli, andando ao inverso dos ponteiros do relógio; todo o monumento fechado em si por duas Xiuhcoatl ou “Serpentes de Fogo”. O quinto “Sol” surge em Teotihuacan, com o sacrifício dos deuses, particularmente o humilde Nanahuatzin e o mais formal Tecuciztecatl. Nanahuatzin será o primeiro a imolar-se pelo fogo transformando-se no sol, enquanto Tecuciztecatl o precede, transformando-se na lua. Segundo os mexica, o nosso mundo está condenado a terminar com muitas fomes e tremores de terra.

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Arqueología Mexicana. Vol. VII – Núm. 41. Calendarios Prehispánicos, 2000.

Antes de falar da arte e da guerra, será importante ver, mesmo que de forma abreviada, o sistema de calendário dos mexica. A disposição do tempo governava todas as actividades importantes da vida individual assim como da programação e performance dos eventos organizados pelo estado. Como muitos outros povos da antiguidade na Europa e na América, os mexica não vivam o tempo como uma sucessão de movimentos uniformes, alongando-se monotonamente do passado indefinido para o futuro indefinido. Nem era o seu tempo de qualidade indiferente e uniforme. Será impossível vincar o facto que o tempo para os mexica era pleno de movimento e energia, o portador de mudança e sempre carregado de um sentido miraculoso de acontecimento. Os mitos cosmológicos revelam a preocupação com o processo da criação, destruição e recriação, e o sistema de calendário reflecte estas noções sobre o carácter do tempo.

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A cerimónia do Fogo Novo. Codex Borbonicus, secção da página 34. Manuscrito em acordeão, 39 x 39.5 cm. Cidade do México, pré-conquista ou início Colonial. Bibliothèque de l’Assemblée Nationale, Paris.

Existem dois aspectos da contagem do tempo, cada um com funções diferentes. O primeiro era o intenso tonalpohualli “a conta dos dias”, o ciclo já referenciado de 260 dias, usado com o propósito de adivinhação. Este ciclo repetitivo de dias formava o almanaque sagrado, largamente utilizado na Mesoamérica muito antes do tempo dos mexica. A segunda divisão do sistema de calendário era a conta solar dos 365 dias, conhecido como o xiuhpohualli, “conta dos anos”, que regulava o ciclo recorrente dos festivais sazonais ao longo do ano. Estes dois calendários estavam em operação simultânea. Como entre os maias, eles podem ser vistos como dois círculos engajados, em que o primeiro dia da roda de 365 dias alinhava com o primeiro dia do calendário de 260 dias, cada 52 anos. Este período de 52 anos constituía um “século” mesoamericano. A passagem de um período de 52 anos para um novo era sempre ocasião de importantes e dramáticos festivais religiosos, já que era uma altura em que todo o universo poderia vacilar para o seu final ou para a manutenção da vida mediante o estreito preceito das actividades religiosas.

O ciclo de 260 dias era composto por um grupo de 20 dias nomeados e numerados. Cada dia tinha um nome, como coelho, água, jaguar, etc, que é representado pelo pictograma do animal ou objecto particular. O ciclo de 20 dias interligava-se com um ciclo rotativo de números, de 1 a 13, cada número identificado por pontos. Assim, dentro do período de 260 dias cada dia era identificado pela combinação de um dos 20 nomes com um dos 13 números – 20 x 13 = 260.

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Página do Codex Borbonicus representando duas divindades. Em redor figuram os dias desta trecena, a 16ª série do calendário sagrado.

O ciclo sagrado de 260 dias era dividido em 20 “semanas” de 13 dias cada, chamado de trecenas pelos espanhóis. As contas do tonalpohualli eram guardadas em códices chamados tonalamatl, sendo que o mais famoso e genuíno é o Codex Borbonicus.

É claro a partir das crónicas espanholas que as influências registadas no tonalpohualli eram interpretadas por adivinhos profissionais. Estes especialistas eram chamados para realizarem prognósticos sobre os recém nascidos, para dar conselho sobre diferentes procedimentos de acordo com dias auspiciosos ou negativos; ou para determinar os melhores dias para a plantação agrícola.

Em relação ao calendário solar, de 365 dias, este determinava um ciclo de 18 festivais associados com as 18 vintenas, ou “meses”, terminando com 5 dias nefastos. Estes festivais eram basicamente de três tipos: aqueles direccionados às montanhas e à água, no sentido de assegurar chuva. Aqueles direccionados para a terra, o sol e o milho, assegurando a fertilidade e as colheitas abundantes. E, finalmente, aqueles direccionados a divindades especiais, particularmente aquelas identificadas como patronos de diferentes grupos comunitários ou a comunidade como um todo.

Assim como o tonalpohualli parece ter funcionado de forma similar em todas as áreas, assim também parece ter acontecido com a ordem dos festivais das vintenas, registados nos textos etno-históricos.

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Serpente em pedra. Museu Nacional de Antropologia e História, Cidade do México.

Apesar do mundo ocidental aceitar a existência da arte por si própria, seria útil relembrar que para a Mesoamérica mexica a escultura não podia ser desassociada dos conceitos ideológicos, fossem eles religiosos, económicos, políticos ou sociais que estivessem relacionados com o desenvolvimento da área, antes da chegada dos espanhóis. Para os cidadãos de Tenochtitlan e por extensão a todos os povos do México antigo, a arte era uma manifestação material da sua visão do universo. Os seus símbolos, a sua associação com a identidade real ou imaginária da natureza, implicava uma linguagem visual permitindo-lhes criarem uma realidade paralela, em que o humano e o divino expressavam as mensagens secretas associadas aos conceitos da cosmogonia que determinavam a sua percepção do mundo à sua volta. O acto de criar imagens do homem, animais, plantas e seres sobrenaturais, reforça a génesis mágica do universo, no qual o destino de cada um era estabelecido num pacto primordial com os deuses. A flora e a fauna simbolizavam o poder e a força das divindades, personificando as suas acções no cosmos. Os seres sobrenaturais apresentam a verdadeira função da escultura indígena, dando forma física aos medos, ansiedades, invocando forças do desconhecido através de símbolos que são repetidos como orações ou cânticos.

Existe pouca informação acerca do valor do trabalho artístico em tempos pré-hispânicos. O texto de Diego Durán declara que os meios de pagamento variavam dependendo do recipiente, sendo que objectos valiosos eram usados com frequência para este propósito.

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Pirâmide de Tenayuca. Discovering Art, 1965.

O estilo da arquitectura ritual mexica evoluiu principalmente em Tenayuca, onde os arqueólogos descobriram subestruturas de períodos iniciais debaixo de um monte de destroços. O sítio ilustra a génesis do tipo pirâmide dupla de Tenochtitlan e é o exemplo mais antigo encontrado na Mesoamérica para esta estrutura inovadora, que unia duas bases piramidais suportando um par de templos gémeos. Esta fórmula arquitectónica de sucesso foi adoptada pelos mexica e os seus vizinhos nos edifícios desenhados para a adoração das suas divindades supremas.

As origens do plano de pirâmide circular, tal como usado pelo templo mexica do deus do vento – Ehecatl – pode ser reconhecido em Calixtlahuaca no Vale de Toluca, apesar de os inícios desta forma serem muito mais antigas, remetendo para os distantes territórios maias na península do Yucatão. Vários estádios de construção foram detectados em Calixtlahuaca. Estas recorrem, com as mesmas variações estilísticas, que as habitações sagradas do deus do vento no mundo mexica; um edifício de base circular que combina uma fachada com um acesso para as escadarias, sendo a parede do templo arredondada e de tecto cónico.

Apesar do jogo da pelota – ou tlachtli – já não ser exclusivamente simbólico nos tempos de Tenochtitlan, tendo-se secularizado também como puro entretenimento ou simplesmente uma competição desportiva sujeita a apostas; o estilo arquitectónico dos seus campos teria tido a sua origem em Tula, Xochicalco ou Teotenango.

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Vista geral do recinto sagrado com o Templo Mayor a partir da interpretação do arquitecto mexicano Ignacio Marquina que, apesar de desactualizado, apresenta aqui uma ideia do ambiente arquitectónico de Tenochtitlan. Fonte: Internet.

As altas fachadas das plataformas e os enormes templos que dominavam a capital de Huitzilopochtli e outras cidades do mundo mexica, com edifícios de quartos divididos em andares, servindo como armazéns de bens, eram todos caracterizados pela verticalidade. Estudos da arquitectura pré-hispânica identificam a construção do período Pós-Clássico com o elemento que termina, como uma cornija, a parte superior das balaustradas, sendo usado como base para os braseiros cerimoniais. Paralelamente, a zona habitacional continuava a usar as variantes dos pátios de Teotihuacan, ou seja estruturas horizontais sem janelas e com pátios comuns para a circulação de luz e ar. O layot da cidade de Tenochtitlan, a cidade ilha que tanto impressionara os espanhóis, era um modelo da visão indígena do universo, uma visão do cosmos que data desde o tempo dos olmecas. Essencialmente era uma mancha dividida em quatro partes cujas diagonais se encontravam no próprio centro da criação dos deuses. Este desenho surge em manuscritos pictográficos como o Codex Tro-Cortesianus do período Pós-Clássico maia, e o Codex Fejérváry-Mayer, produzido por um artista de estilo mixteca-puebla. Em ambos, a ilustração mostra a mancha da página dividida em quatro, localizando os deuses padroeiros das quatro direcções e aquele que governa o centro do universo. Uma imagem inicial da capital mexica, apresentada no primeiro folio do Codex Mendoza, conta como a cidade de Huitzilopochtli foi fundada. Uma vez mais, esta ilustração mostra as quatro divisões cardinais correspondendo aos principais quarteirões onde as famílias indígenas viviam: Teopan, Moyotlan, Atzacualco e Cueopan. Na área central, onde o imponente Templo Mayor viria a ser construído mais tarde, aparece o sinal aguardado pelos mexica na sua migração sagrada desde Aztlan, uma águia sobre um cacto de nopal.

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1-Cacaxtla

Fonte: Internet.

Cacaxtla é um sítio arqueológico situado no município de Nativitas, no Sul do estado mexicano de Tlaxcala, localizado a 50 milhas a sudoeste da Cidade do México. Nesta zona tlaxcalteca-poblana, os olmeca-xicalanca fundaram e governaram a cidade de Cacaxtla entre 400 e 1000 d.C., estendendo o seu domínio à cidade de Cholula. Crê-se que Cacaxtla foi a capital do povo olmeca-xicalanca, possivelmente descendentes dos olmecas ou dos maias que chegaram à região central do México provenientes da Costa do Golfo ou da península do Yucatão, por volta de 400 d.C. A partir aproximadamente do ano 650 d.C., Cacaxtla torna-se progressivamente uma cidade fortificada, à semelhança de Xochicalco. Um levantamento arqueológico da região confirma que Cacaxtla era a capital mais poderosa na região de Tlaxcala, durante a primeira metade do que é conhecido como a fase cultural Texcalac, durando de 650 a 1100 d.C. Nesta altura a hegemonia de Teotihuacan tinha erodido dramaticamente, permitindo que pequenos estados sucessores, como Cacaxtla, monopolizassem um corredor de trocas vital, ligando o Vale do México à Costa do Golfo, até aos territórios maias do Vale do Usumacinta.

2-Cacaxtla

Ilustraçãp para a revista National Geographic de William H. Bond.

Cacaxtla foi construída como uma remota cidade, por uma extensa família de governantes. O centro da cidade é a Grande Plataforma, com 200 m de comprimento por 25 m de largura, na qual apenas o palácio foi escavado. Os principais edifícios religiosos e civis da cidade estavam situados sobre a plataforma, assim como as residências da classe sacerdotal. Muitas outras pirâmides mais pequenas e templos encontravam-se nas redondezas da Grande Plataforma. O grupo residencial consiste em quartos labirínticos, pórticos e passagens construídos em redor de duas praças principais, orientadas num eixo Norte-Sul. A arquitectura incorpora muito do estilo talud-tablero de Teotihuacan, conjuntamente com um plano de espaço similar aos palácios maias, como o de Palenque. Foram encontradas pinturas murais em todo o sítio. O melhor preservado foi recuperado dos quartos adjacentes à Praça Norte, um pátio de 600 m2 que era o centro da vida ritual de Cacaxtla.

3-Cacaxtla

Fonte: Internet.

Nestas extraordinárias pinturas vemos vários aspectos do culto a Vénus ou a Quetzalcoatl. Este culto venusiano estava relacionado com a aparição e desaparecimento de Vénus, quando este passava de Estrela da Tarde a Estrela da Manhã e vice-versa. No mural do Sacrifício de Vénus como Estrela da Tarde e sua transformação, o conjunto de pinturas é vulgarmente baptizado como “A Batalha”. Este nome advém da representação de vários personagens que combatem, sendo interpretados como dois grupos de guerreiros em combate: de um lado vêm-se os guerreiros jaguar, armados com lanças, facas de obsidiana e escudos redondos, que vencem claramente um exército invasor, possivelmente huaxteca, cujos guerreiros se vestem como aves; sendo que alguns destes estão nus e em várias etapas de desmembramento. No entanto, segundo o arqueólogo mexicano Román Piña Chán, o mural terá uma interpretação ligada ao ciclo de Vénus, representada por dois personagens, 3 Veado relacionado com Tlaloc, Senhor do Trovão e da Água e um outro que tem um elmo em forma de ave.

4-Cacaxtla

Pormenor da pintura mural “A Batalha”. Fonte: Internet.

A cena, para este arqueólogo, representa um ritual em forma metafórica de batalha em que 3 Veado, o sacrificador, confronta o segundo personagem, que representa Vénus. Ainda que ambos pareçam ser inimigos, estes são apenas actores na dramatização de um mito, o sacrifício de Vénus como estrela vespertina, que baixa ao mundo dos mortos onde combate por oito dias; após o que sai de novo triunfante, agora como Estrela da Manhã. Assim, estes dois personagens na pintura mural, poderão representar Tlaloc, por um lado e Quetzalcoatl como divindade dual. Particularmente interessante é o facto de estes murais parecerem combinar a simbologia dos senhores guerreiros do planalto mexicano com evidentes influências ou incorporações dos maias do Período Clássico Tardio, tornando Cacaxtla única neste aspecto.

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